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3. BULGULAR VE TARTIŞMA

3.3 Amortisman Hesaplarına Ait Bulgular

É possível supor que de todas as características inerentes à profissão de OMM a que mais exige capacidade de resistência emocional aos constrangimentos do trabalho embarcado seja o aspecto de confinamento. O indivíduo submetido ao ambiente estruturado que lhe impõe a permanência contínua, durante longos períodos, intercalando trabalho e lazer no convívio das mesmas pessoas e distante de sua família, sua casa, seus amigos desenvolvem processos de ajustes como o relato a seguir corrobora.

[...] Então as pessoas já embarcam com a ideia de que daqui a 4 semanas estou desembarcando...é o que tem acontecido...o pessoal não vai para bordo com aquela vontade de trabalhar[...] (E07)

As táticas de adaptação que são as respostas que o indivíduo dá às regras da Instituição ocorrem através de ajustamentos primários, secundários e da combinação deste em diferentes

fases da vida Goffman (1992). O relato a seguir demonstra os mecanismos embutidos nesses processos:

[...] Outra coisa também... o cara fica lá... sei lá... dois meses...assim como quando eu estava para embarcar aquela uma semana eu ficava com aquela angústia...pô vou embarcar...vou passar seis meses...uma semana antes do desembarque o cara fica feliz, pô...vai chegar meu tempo...eu vou para casa ....já cobri minhas coisas...ai chega na hora não tem substituto...a empresa ó...não dá o camarada tá doente...ou então embarcou em outra embarcação que estava precisando ai chega o tempo e o cara não vai...e ai começa...o cara pô...o desânimo...então vai minando. São coisas vai minando...devagar...pontuais...né...vai chegando na clareza...pô vou ter que sair disso daqui...isso aqui não é vida pra gente não[...] (E11)

Segundo Da Matta (1984, p.31) o brasileiro vê o trabalho como um batente, isto é, um obstáculo a ser superado. Acrescente-se a essa percepção o entendimento de Salles e Costa (2013, p.231) a cerca do confinamento de que é “uma vivência total no local de trabalho”.

[...] O que faz ela sair é realmente aquela depressão aquela coisa de ficar embarcado em regime de escala muito grande que algumas empresas ainda adotam o regime do 3 por 1 ou 2 por 1 de ficar noventa dias embarcado, 45 dias, coisa que no offshore, no apoio marítimo, plataforma é 15 por 15, 1 por 1 que é 30 por 30....e ai vai[...] (E10)

Segundo Goffman (1992), quando uma instituição total é estruturada de modo a cercear as possibilidades de convivência com o ambiente social, pode-se reconhecê-la como instituição total, em que uma grande quantidade de indivíduos leva uma vida fechada e administrada formalmente, separados dos demais ambientes sociais por um determinado período de tempo, pois servem ao mesmo tempo de local de trabalho e residência. Pelos relatos a seguir podemos desvelar como o trabalho confinado influencia a percepção do OMM sobre a sua carreira:

[...] é uma profissão que não tem que ser tratado como qualquer uma outra profissão....tem que ser diferenciada....tem que existir uma legislação específica para o pessoal marítimo que não tem como ser igual a uma outra que o pessoal vai ...dá 5 horas dá 4 horas vai para casa ficar lá com a família... a gente não...dá lá meu horário eu vou para o meu camarote...eu vou...não é a mesma coisa do que estar perto da família...tem locais que a gente viaja que não pega telefone, internet, não pega nada, então cheguei a ficar dois meses sem contato familiar, ou por telefone, email....isso vai...eu creio que o marítimo ele vai se acabando aos poucos [...] (E11)

Para as mulheres, o desafio do trabalho confinado é ainda maior, tendo em vista que algumas profissões, ainda, são vistas como do universo masculino, exigindo um comportamento próprio dos homens para desempenhar as suas tarefas, como apontado no estudo de Macedo, Boava, Capelle e Oliveira (2012). No seu trabalho, os pesquisadores revelaram que as mulheres são aceitas pelos homens, se realizarem os trabalhos, mais leves, com seriedade e com estilo masculino. Os relatos a seguir demonstram a complexidade dessa relação entre os gêneros a bordo dos navios:

[...] A Marinha Mercante nunca foi de mulheres, começou alguns anos atrás, começaram a deixar na escola essas coisas assim...mas ainda acho que não é um perfil, ou poucas têm esse perfil

de permanecer aqui muito tempo.” (E07)

[...] Acho que não é uma coisa voltada para elas: confinamento e basicamente a maioria é homem então...a bordo é...uma outra rotina é um outro relacionamento, as vezes elas não se sentem bem. Tem que ter mais de 1 junto porque para elas se entenderem, porque ficar só uma mulher e vários homens, às vezes elas se sentem...e vão procurar alguma coisa para fazer, arrumar um

emprego em terra, alguma coisa assim “....e o ambiente de bordo,

também...se tiver um ambiente legal....segura mais ...e se tiver um ambiente ruim[...] (E07)

[...] eu não sou uma pessoa muito confiável para falar nisso....eu sou contra mulher a bordo...eu infelizmente trago esse ranço[...] (E08)

As empresas brasileiras de navegação, que gerenciam as suas frotas, adotam escalas de revezamento de suas tripulações, para fazer frente aos inúmeros desafios de suas operações que envolvem deslocamentos prolongados e a destinos distantes de suas bases. As escalas podem ser entendidas como o tempo de trabalho intercalado por tempo de descanso. As mais utilizadas nos navios da Marinha Mercante brasileira são: 14 por 21; 14 por 14; 28 por 28; 35 por 35 e 60 por 30. As primeiras, mais raras e brandas, do ponto de vista dos trabalhadores, foram adotadas por conquistas trabalhistas, obtidas por algumas classes de trabalhadores, que são empregados em instalações de produção de petróleo. As demais são variações encontradas nos navios empregados no apoio marítimo, na navegação de cabotagem e na de longo curso. O que se observa dos relatos abaixo é que as escalas que implicam em menor tempo de permanência com a família criam maior dificuldade de ajuste e permanência na carreira:

[...] Agora quem tem escala acima disso não consegue segurar o pessoal não....tem empresa ai com 60 por 30 ou mesmo 60

por 45, cabotagem, não segura não...o pessoal não fica...fica pra ganhar experiência e ai parte para opções melhores em relação a escala, mas 28 por 28 acho que esta adequada. (E04)

[...] Um outro caso, evasão por conta de escala. A pessoa aqui do Sudeste, o trânsito é menor de viagem, tem um gasto, eles acham que a escala de 5 semanas está impraticável. O outro agora com 4 semanas já está achando muito. Então já estão querendo partir para 2 semanas, eles estão em plataformas, duas semanas só[...]

[...] Tive um Oficial que saiu esse ano e disse que adorava o barco e a empresa, mas 5 semanas estava muito ele queria uma outra escala[...] (E07)

A escala, como pode ser percebida nos relatos abaixo, influencia e afeta a vida pessoal do OMM, levando-o a um estado de permanente conflito entre os papéis no trabalho e na família:

[...] Eu acredito que isso vai muito da questão pessoal, particular de cada um é...acredito também que seja por causa do regime de embarque muitas pessoas não aguentam ficar embarcadas. Não aguenta essa vida por muito tempo, então é...elas procuram outras formas de atuar na área, porém em terra. (E09)

[...] Eu vejo que a escala ela é o ponto x da questão. A empresa encontrar uma escala ideal que segure essa pessoa aqui.(E11)

Além dos aspectos já mencionados anteriormente, o clima de bordo, isto é, a maneira como as pessoas se relacionam, do ponto de vista profissional e pessoal influencia, no processo decisório dos OMM sobre a sua saída da carreira, pois pelos relatos a seguir pode ser comprovada a percepção compartilhada por alguns sobre a importância de um bom ambiente de trabalho e convívio, enquanto se encontram embarcados:

[...] o fato de ter um bom chefe, bom ambiente [...] A pessoa pensa duas vezes, agora quando o ambiente é ruim, não tem um chefe bom, não tem aquela situação de respeito, isso ai tem muita evasão sim, principalmente logo no início quando a gente vê o pessoal saindo da escola. (E06)

[...] exatamente, um ambiente ...uma boa tripulação, um ambiente bom a bordo, todo mundo se entendendo, boas pessoas, é....o tempo passa melhor, passa mais rápido, você sente menos. (E07) [...] Agora quando você entra numa embarcação, que você não se sente bem, o clima não está bom, ai a tendência dessa pessoa se não conseguir sair da embarcação é sair da empresa e procurar outra coisa...ou vai trabalhar em terra. (E07)

A existência de um bom ambiente à bordo é ainda mais importante para os recém- embarcados, como pode ser constatado nos relatos a seguir:

[...] Aquilo ali é como se fosse uma experiência única para ele então se for ruim ele vai achar que é ruim em todo o lugar. Ele pensa a...não vou mais voltar, isso não dá certo, isso não é para mim, ou pega alguém que não se dá bem, não trabalha legal e com certeza isso fica na pessoa e ela desiste mesmo. Muda de função, muda de [...] (E06)

[...] Acaba de sair da escola como praticante já tem aquele impacto, logo na primeira experiência, ele acha que aquilo ali é normal. Né...pega um chefe que não é compreensivo, que pessoa querendo ou não quando eles saem da escola a gente sai com que....poxa aquilo ali é um mundo novo. Então ai você já chega num mundo novo, já recebe aquela pancada ai o cara desiste. A pessoa desiste ai poxa...acabei de chegar de um mundo totalmente diferente chegou aqui a situação muda, tem muito praticante que desiste, logo no início [...] (E06)

[...] Com certeza o ambiente, o ambiente de bordo, tanto na parte de ambiente de trabalho ou de relacionamento pessoal, entre as pessoas e conforto, que as empresas proporcionam né...embarcações modernas...estrutura de rancho...de conforto no geral faz com que a pessoa... Eu conheço amigos até que preferem ganhar menos, mas estar em embarcações confortáveis.(E10)

[...] Ajuda bastante...tanto o clima familiar o clima que teoricamente gera tendo um clima familiar dentro da embarcação quanto o rancho também....um bom rancho...isso ai contribui bastante...as vezes pô...eu tava numa embarcação que o rancho era sempre aquela mesma coisa...muito salgado isso ai vai ...pô...quero estar em casa....lá tem minha comidinha boa...então...rancho e o clima de bordo ajuda bastante...a passar o tempo...ás vezes você está ali num bom clima que tem um futebol tem embarcações que o cara consegue jogar um futebol. Joga futebol, faz um divertimento, isso ajuda bastante a nos tentarmos levarmos um pouco mais adiante essa profissão[...] (E11)

A existência de tripulantes de diferentes nacionalidades inclina a ocorrência de choques culturais provocados por dificuldades de comunicações e contrastes oriundos dos traços característicos de cada nacionalidade. O reforço dessas ocorrências causa desconforto nos OMM e afeta o clima interno ao navio, como pode ser percebido nos relatos a seguir:

[...] eu acho que pela cultura eles sempre acham que são os melhores, Comandante americano .... geralmente é porque eles quando eles vêm para cá assumem essas funções. Então é

Comandante ou Chefe, um ou outro vem como Marinheiro e tal mas, em navio sim que tem bastante tripulação mista, mas aqui como é obrigatório quando a bandeira é estrangeira tem que ter o Comandante ...eles acham sim que são os melhores em determinadas situações. (E06)

[...] muita coisa, atrapalha até, porque você não tem o tratamento legal os Oficiais hoje eles estão se qualificando para falar o inglês fluente, mas porque quando a gente sai da escola, a gente sai com inglês técnico, né, não o inglês de vida, né no caso, de um inglês normal, a gente tem o inglês técnico, mas vai saber algumas coisas técnicas, mas se o cara tiver falando a gente acaba que não entende. (E06)

[...] Ele conversa e ri da nossa cara e tu fica naquela pô....será que eu fico rindo.... ou o cara está me xingando....tem esse problema...ai tem essa impaciência....e eles vêm o brasileiro com uma certa discriminação[...] (E06)

Como vimos em Da Matta (1986), o brasileiro não é muito receptivo a coisas vindas de outros países, principalmente costumes e ideias. Os relatos a seguir confirmam essa percepção:

[...] nós temos aqui um programa intercultural, começamos, já fizemos um piloto, vamos ter outro agora em outubro, para tentar minimizar as diferenças...as diferenças são muito grandes...a gente sempre costuma dizer...eu senti muito isso a bordo...é...o brasileiro é muito emotivo e o ... é muito direto....então o ... vai dar uma ordem vai dizer faça isso!....o brasileiro vai dar essa ordem dizendo, você pode fazer isso assim?...e as pessoas sentem isso...acham que ele está sendo rude, está sendo grosseiro, mas é o jeito... de falar. (E07)

[...] Eu acredito também na minha opinião particular que trabalhar com pessoas da mesma nacionalidade ajuda também a ter uma ambientação assim...mais confortável...assim, quando junta gringos, né...pessoas de outros países com brasileiros assim...tem aquela...é natural né...tem aquela divisão...fica um pessoal num canto, um pessoal no outro, não tem aquela interação muito grande[...] (E10)

Para Barros e Prates (1996) a sociedade brasileira caracteriza-se por ser baseada em relações pessoais, a busca de proximidade e afeto nas relações e ao paternalismo que é o domínio moral e econômico. Os relatos a seguir corroboram esse traço:

[...] Então para que as empresas não tenham problemas eles acabam batendo na tecla ali com eles, olha...isso aqui tem que fazer assim...porque a gente observa que realmente é uma diferença muito grande cultural a bordo. Muito grande mesmo. A gente segue o que é

para seguir e ele já vem de uma outra cultura que o negócio é mais solto, coisa simples, mas que pode trazer um problema né...é o cara que vai para a área sem bota...., chinelo, é o cara que tá lá e fuma...ai ele diz isso é besteira...é coisa do Brasil....nunca acontece, não vai acontecer e a gente tem que estar em cima. As vezes é difícil, na situação de Comando fica difícil chamar a atenção ou do Chefe....né ai dependendo da situação pode até reverter. (E06)

[...] Tem choque cultural, tem choque, ai conforme vai passando o tempo tem aquele stress, desgaste do coisa...acaba acontecendo aquela ...preconceito né...do gringo com brasileiro por ai...e eles trabalhando no nosso ...na nossa área[...] (E10)

Para Griffeth e Maertz (2004) as forças constituintes atuam de modo a valorizar o ambiente do trabalho, o companheirismo, o relacionamento com o chefe. Portanto, quando há problemas com essa dimensão a propensão para o abandono da carreira se torna maior.

[...] Eu acho que atrapalha sim, porque eles têm a cultura deles e a gente tem a nossa...então...tem sempre conflito...né...tem sempre conflito...e às vezes até por serem eles lá...Comandante inglês, Chefe, às vezes eles dão mais tem Oficial inglês e um brasileiro, tem um tratamento diferenciado...já sofri uma espécie de discriminação é...eu acho que isso ajuda...tipo...eu cheguei a falar uma vez: para aquela embarcação eu não vou! Cheguei a falar para o meu chefe da empresa. O cara falou: olha ... tu vai embarcar...eu falei...ó...para onde que eu vou? Embarcação tal?....ó...não vou não!....ou me coloca nessas embarcações aqui ou pra cá eu não vou....eu gosto de ser tratado igual a todos[....] (E11)

Dos relatos acima apresentados podemos verificar que os OMM utilizam técnicas de adaptação para suportar os períodos de embarque e trabalho em ambiente confinado. A inexistência de trocas entre o ambiente laboral e o convívio social impõe sacrifícios emocionais que exigem ajustes para serem suportados. Os desafios são maiores quando há choques culturais e problemas de relacionamento à bordo. Com relação às mulheres a adaptação parece ser ainda mais difícil pelos preconceitos velados e aos desafios de conviver em um universo repleto de estereótipos masculinos. Portanto, as escalas de embarque mais facilitadoras, sob o ponto de vista dos OMM, e o bom clima à bordo, parecem contribuir para o ajuste ao embarque.

Benzer Belgeler