2. Kültürümüzde Doğu-Batı Etkisi
2.2. Batı ve Kültürümüzde Batıcılık Tutumları
2.2.2. Amerika
Pensamos ser apropriado, aqui, fazer uma digressão historiográfica.
Início da madrugada de vinte de janeiro de 1971. O médico militar do Pelotão de In- vestigações Criminais, PIC, do Batalhão da Polícia do Exército, do Rio de Janeiro, foi condu- zido às pressas por um oficial do DOI-CODI do I Exército, a uma cela, frequentemente usada como sala de tortura. Ao entrar deparou-se com um homem, nu, coberto de equimoses e he- matomas, deitado numa cama e rodeado por outros oficiais. Aproximou-se para examiná-lo e, ao tocá-lo, o homem murmurou fracamente seu nome: Rubens Paiva.
Terminado o exame, ainda que superficial, o médico suspeitou de hemorragia interna em algum órgão vital, como baço ou fígado, e recomendou a imediata remoção do preso a um hospital, sob risco de morte iminente. Ato contínuo, o médico foi dispensado e reconduzido à sua residência.
Na manhã seguinte, ao retornar ao quartel, onde prestava o serviço militar obrigatório, soube da morte do prisioneiro na própria cela onde o atendera horas antes. Os oficiais respon- sáveis pelo interrogatório tentaram extrair mais informações, e o preso não resistiu aos feri- mentos.
Esse relato, por si só chocante, em nada difere da rotina diária das prisões políticas da ditadura, nem mesmo pela presença de um profissional da saúde, fato relativamente corriquei-
5 Uma análise mais pormenorizada da DSN pode ser encontrada em FIGUEIREDO FILHO, Celso Ramos. A
Escola Superior de Guerra e o jornal O Estado de S. Paulo: afinidades e discordâncias (1963-1965). São Paulo: Dissertação de Mestrado, FFLCH-USP, 2001.
ro, conforme pesquisa BNM. O que nos chamou a atenção, foi a decisão tomada pelo médico após presenciar a agonia do deputado Rubens Paiva.Vejamos o que ele nos diz:
Após este episódio tão chocante e brutal que assisti como médico, uma revo- lução se desencadeou na minha cabeça, com força enorme e inusitada. Já que teria que permanecer mais um ano como médico da polícia do exército, a- tendendo inúmeros presos, maltratados, torturados e, até mesmo, mortos, não me envolveria emocionalmente, nem com os oficiais, nem tampouco com os presos. Buscaria me fazer frio, distante, imune a qualquer sentimento. Foi uma decisão muito amarga e me consumiu, tenho certeza, anos de vida (LOBO, p. 29).
O médico em questão ganhou notoriedade após ter sido identificado, em fevereiro de 1981, por uma das suas “pacientes”, a ex-presa política Inês Etienne Romeu, barbaramente torturada por oficiais do CIE, na clandestina “Casa de Petrópolis”, em 1971. Trata-se do ex- psiquiatra (“ex” porque seu CRM foi posteriormente cassado devido exatamente a essas acu- sações) Amílcar Lobo que, nota curiosa, na ocasião do seu alistamento militar, era psicanalis- ta em formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise, sediada no Rio de Janeiro, tendo Leon Cabernite como analista didata.7 Suas memórias visavam a uma autodefesa, mas acabaram se tornando muito mais um libelo acusatório.
Seu engajamento militar se deu em janeiro de 1970 e durou quatro anos. Serviu como 2 º. tenente-médico no quartel acima mencionado, situado à Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. Esse endereço ganharia triste notoriedade: abrigou nas mesmas instalações do PIC o famigerado DOI-CODI do I Exército, responsável pela morte de dezenas de presos políticos e de onde o Projeto BNM contabilizou mais de 700 denúncias de torturas.
Dr. Lobo, como era chamado pelos colegas oficiais, pode não ter agido como tortura- dor, mas certamente não facilitava a vida dos presos por ele atendidos nas celas do DOI- CODI. Nas suas memórias, tentou demonstrar sinceridade nos relatos e compaixão pelos pre- sos. Visava, com isso, provavelmente, a angariar simpatia do leitor a quem, em tom de confis- são, afirmou:
Surgiu-me [...] a idéia de desertar e me evadir para outro país, idéia que logo abandonei, pois isto desarticularia totalmente meu esquema de vida, familiar e profissional, por um tempo que não poderia prever. Era casado, tinha qua- tro filhos, estava em formação psicanalítica [...]. Não haveria condições de contrariar, sob qualquer pretexto, essa decisão (LOBO, p. 23).
6 O BNM, após relatar alguns casos a título de exemplo, concluiu pela “certeza da conivência e mesmo partici-
pação direta de médicos e enfermeiros na prática de torturas. Algumas vezes, estas práticas chegaram ao limite da resistência dos atingidos, ocorrendo a morte”. Além disso, houve a sabida colaboração dos médicos legistas na confecção de laudos necroscópicos e na assinatura de atestados de óbitos falsos. (2000, pp. 230-235)
7 Cabernite, por sua vez, foi analisado pelo alemão Werner Kemper, colaborador do líder nazista Heinrich Go-
ring. O “caso” Lobo ganhou repercussões internacionais, chegando inclusive a motivar colóquios e publicações em vários idiomas.
Tanto pelo teor das suas palavras, quanto pela sua vida pregressa, não podemos con- cluir se tratar de um sujeito de estrutura psíquica perversa. Pelo contrário, tudo nos aponta para um neurótico “padrão”. Zeloso com a família, compromissos profissionais e status soci- al, exigia até mesmo que o seu comandante no quartel o chamasse de “doutor”. Afirmou, nas suas memórias, que não sentia prazer ou satisfação em colaborar com seus colegas de trabalho nas alcovas da ditadura. Por diversas vezes manifestou aos seus superiores sua intenção de sair da corporação, vontade essa que não se fez ato.
Por que, então permaneceu em seu posto, remoendo-se de dúvidas?
A leitura das memórias do ex-médico e quase psicanalista, Amílcar Lobo, nos remeteu imediatamente à questão do laço social. Mais especificamente, para a abordagem que Contar- do Calligaris fez dela a partir do caso de alguns líderes nazistas que também redigiram as suas respectivas memórias.8 Guardadas as mais do que devidas proporções entre os dois eventos históricos — o holocausto e a ditadura militar brasileira — as similaridades das posições sub- jetivas assumidas por esses indivíduos neuróticos em montagens perversas é mais do que evi- dente. Aliás, está é uma das teses que ora procuramos defender, qual seja, a de que a perpetra- ção da violência contra presos políticos no Brasil da ditadura militar foi muito mais o resulta- do da inércia totalitária sobre os neuróticos numa montagem social perversa, do que o sadis- mo de sujeitos de estrutura psíquica perversa.
Vejamos, então, o que Calligaris nos trouxe.
Albert Speer era um talentoso arquiteto que, durante o regime nazista, ganhou a predi- leção de Hitler, de quem acabou tornando-se, inclusive, amigo pessoal e confidente. Durante a guerra (1942) foi nomeado Ministro dos Armamentos e, ante a iminente derrota do Reich, nos fins de 1944, recebeu a ordem do Fuher para implementar a prática da “terra arrasada” nos territórios que estavam sendo desocupados pelas tropas germânicas. Speer não acatou está ordem.
O ex-sargento de artilharia do exército alemão na Primeira Guerra Mundial, Rudolf Hoess, desde 1922, era filiado ao Partido Nacional-Socialista e chegou à patente general das famigeradas SS. Comandou Auschwitz entre 1940 e 1943 e foi um dos responsáveis pela im- plantação da “Solução Final” na Polônia.
Ambos foram julgados pelo Tribunal de Nuremberg em 1946. Speer foi condenado a vinte anos de prisão, Hoess foi enforcado. Para o primeiro, a “guerra foi possível porque havia condições técnicas para fazê-la” (CALLIGARIS, 1991, p.109). Hoess, por sua vez, surpreen-
deu a todos no tribunal, ao concentrar sua defesa na tese de que era um funcionário exemplar e, como tal, executara a missão da qual fora incumbido com a maior destreza possível (CAL- LIGARIS, 1991, p.114).
Calligaris nos trouxe esses exemplos “do fundo do horror”, como ele mesmo admite, pois são paradigmáticos, segundo o autor, de uma espécie muito particular de “alienação do sujeito”, alienação esta que é efeito
[...] do interesse e da paixão humana em sair do sofrimento neurótico banal, alienando a própria subjetividade, ou melhor, reduzindo a própria subjetivi- dade a uma instrumentalidade. [...] a paixão de “ser instrumento” (CALLI- GARIS, 1991, p. 110).
Isso ocorre porque o neurótico, para se proteger das demandas do Outro, demandas es- sas que, na maioria das vezes, lhe são insuportáveis, outorga ao pai um saber de tal monta “que valide e justifique” a função paterna da interdição, conseguindo assim, “redobrar o im- possível com uma interdição” (CALLIGARIS, 1991, p.111). E, no caso de esse suposto saber paterno ser socialmente dividido, então, nos diz Calligaris, “isso nos pareceria abrir a porta de uma relação possível com nossos semelhantes, pois de repente poderíamos praticar juntos um mesmo fantasma” (CALLIGARIS, 1991, p.112). Eis, enfim, o que Calligaris chama de saída perversa da neurose: aliena-se a própria singularidade em face de um “semblante” de saber paterno coletivamente compartilhado (CALLIGARIS, 1991, p.112).
Na opinião do autor, o laço social assim estabelecido, fundamentado no desejo do neu- rótico pela instrumentalidade, é perverso. E, mais do que isso, esse seria o laço usual mantido entre os sujeitos neuróticos, ou, nas palavras do próprio Calligaris, “é o ordinário da vida so- cial, sua inércia natural” (1991, p.115).
Em seguida, o autor nos alertou para o fato de que os riscos totalitários desse tipo de montagem social são bastante grandes. Isso porque, para ocultar sua realidade de semblante, “o horizonte extremo” dessa saída, observou Calligaris, “é sempre mortífero, pois só a morte — eventualmente coletiva — parece demonstrar em última instância, que o semblante não era brincadeira” (1991, p.115).
Sem discordar em termos teóricos das premissas de Calligaris, Conrado Ramos (2004) trouxe importantes acréscimos à sua argumentação. Primeiramente, deve-se tomar muita cau- tela ao considerar a perversão uma “patologia social” (CALLIGARIS, 1991, p. 07), pois isso nos permite pensar haver sociedades “doentes” e, em contrapartida, sociedades “sãs”. Quais os critérios de “sanidade”? Não estaríamos correndo o risco da “naturalizar” a sociedade? (RAMOS, 2004, p. 220)
Em segundo lugar, Ramos considerou que apontar para essa saída totalitária da neuro- se, como foi o nazismo, e que se manifesta em todas as montagens perversas, sem esclarecer “as condições objetivas capazes de produzir uma tal subjetividade”, incorre no erro de reduzir o “totalitarismo a um mecanismo coletivo de defesa da neurose” (1991, p. 220-221). Para Ramos, nos termos da argumentação de Calligaris, fica-se com a impressão de que os neuróti- cos produziram o totalitarismo, e não o inverso, ou seja, o quão úteis são os neuróticos numa montagem perversa (RAMOS, 2004, p. 220-221).
Segundo Ramos, baseando-se em teses da “Dialética do Esclarecimento”, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, o adequado entendimento da “dominação social do gozo”, que leva os sujeitos a estabelecerem laços como os acima descritos, só é possível quando se apre- ende a “história da civilização”, enquanto a “história da introversão do sacrifício” (RAMOS, 2004, p.38). Isso quer dizer que as condições históricas, objetivas da dominação foram inter- nalizadas pelos sujeitos como uma “segunda natureza” (RAMOS, 2004, p.39).
O autoritarismo secularmente presente na sociedade brasileira, o militarismo atrevido e a serviço das elites opressoras, a inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho co- mo fornecedor de matéria-prima e de mão de obra barata constituíam o pano de fundo histó- rico da ditadura militar. Certamente, todo esse processo objetivava a dominação da classe trabalhadora. Fazendo nossa, uma indagação de Ramos (2008):
Se o corpo é o substrato material do particular sobre o qual incide direta e imediatamente a dominação, quanto será que a história da dominação do corpo poderá dizer sobre o sujeito do nosso tempo? Depois de gerações e ge- rações de chibatadas, não teria o sujeito “aprendido” a “ser feliz”, isto é, a gozar com a condição de dominado?
O próprio Ramos responde-nos:
O indivíduo deve, para sobreviver, renunciar a si próprio, sacrificar-se e, por que não, internalizar e transformar este sacrifício e está renúncia numa forma absurda — mas a única possível nas condições atuais — de satisfação (2004, p. 41).
Concluindo, os policiais engajados na repressão obtinham pequenos ganhos libidinais em troca do seu assujeitamento a essa montagem perversa.