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A experiência latino-americana de Bogotá, na Colômbia, da mesma forma que a Operação Cessar Fogo se constituiu em um programa bem sucedido a ser estudado e, com as devidas adaptações, replicado no intuito de controlar a violência interpessoal entre os jovens nos aglomerados denominados zonas quentes de criminalidade, em Belo Horizonte. Nesses termos, pontuar a experiência da Colômbia significa, primeiramente, afirmar que em meados da década de 90, a capital era considerada uma das cidades mais violentas do mundo, com

uma taxa de 80 homicídios por 100 mil habitantes, conforme mostra o gráfico 01 a seguir. Gráfico 01 - Taxa por 100.000 habitantes, Bogotá, Colômbia - 1985-2004

Na contemporaneidade, pesquisadores e estudiosos creditam a mudança no cenário colombiano a uma conjunção de fatores. Entre eles, dois se destacam: uma reforma profunda na polícia nacional, realizada a partir de 1994, e a institucionalização de uma política de segurança estruturada com base na convivência e segurança cidadã (CARVALHO; CASTANHEIRA, 2001).

Para se pensar a reforma realizada na polícia colombiana é preciso contextualizá-la em um processo mais amplo, que se inicia com a promulgação da Constituição Política de 1991 que marcou o início de um novo modelo de participação cidadã nas decisões econômicas, políticas e sociais da nação. Com o objetivo de garantir a existência de instituições públicas eficientes e democráticas, os prefeitos passaram a ser eleitos diretamente pelo povo, pois antes eram escolhidos pelo presidente da República. Além disso, formalmente, foi delegada responsabilidade sobre a gestão da segurança aos governadores e prefeitos (ACERO, 2006). O processo seguiu com a reestruturação interna da polícia, mediante a expedição da Lei 62 de 1993, e culminou com o movimento de institucionalização da gestão da segurança cidadã, tendo como premissa a definição progressiva de uma política pública sobre o assunto, com importantes programas de redução da criminalidade no âmbito local.

O governo nacional, no ano 1992, empreendeu um processo de reforma da polícia a qual foi orientada essencialmente pela modernização da sua estrutura interna, de acordo com o padrão de pleno respeito ao Estado Social de Direito, consagrado na Constituição Política de 1991 (ACERO, 2007). O efeito mais importante da reforma policial consistiu em estruturar a colaboração entre prefeitos e chefes da polícia, com a finalidade de reunir sinergia em torno da agenda da segurança pública nas cidades.

A polícia colombiana segue a divisão departamental do país: a Colômbia está dividida em 32 departamentos, sendo três deles, Medellín, Cali e Bogotá, departamentos metropolitanos. A polícia segue essa mesma estrutura e abaixo do comandante geral da polícia estão os 32 comandantes regionais. A partir de 1993, com a Lei 62, iniciou-se um processo de reforma em duas fases: a primeira buscava acentuar o caráter civil da polícia, mesmo ela ainda estando subordinada ao Ministério da Defesa; a segunda, em 1995, visava melhorar a imagem da polícia e recuperar sua legitimidade. Assim, dentro da própria instituição se iniciou um processo de renovação dos agentes que alcançava tanto os policiais da ponta quanto seus superiores. Para tanto, foram demitidos aproximadamente 15 mil homens.

Como parte do processo de transformação da imagem da força policial foram realizadas várias pesquisas na tentativa de captar as expectativas das pessoas em relação à polícia. Como exemplo é possível citar a pesquisa realizada em 1996, na cidade de Bogotá, a partir da qual foi detectado que um programa de polícia comunitária poderia ser uma resposta efetiva às demandas dos cidadãos. Nesses termos, em 1998, o comando do departamento de polícia da cidade adotou a estratégia de Polícia Comunitária como seu programa mais importante. No mesmo ano, vinte e um oficiais da polícia de Bogotá participaram de um curso de quatro semanas na Universidade de Barcelona, ministrado por especialistas em polícia de proximidade e por guardas urbanos. Em 1999, mais dez oficiais realizaram outro curso em Toledo, na Espanha, com o mesmo objetivo.

Os oficiais capacitados no âmbito internacional se constituíram no núcleo inicial do novo projeto. Assim, ainda em 1999, entrou em funcionamento uma nova modalidade de serviço policial: a polícia comunitária ou polícia de proximidade. Primeiramente, os oficiais delinearam um perfil para os policiais comunitários e organizaram na cidade um curso de treinamento na Universidade Javeriana. O curso treinava os policiais para gradualmente se infiltrarem e compreenderem a dinâmica das comunidades que representavam sérios problemas de segurança a bairros circunvizinhos. Em áreas da Colômbia nas quais o conflito armado e a crise econômica deslocaram grandes contingentes da população, os policiais comunitários também ajudavam a encaminhar pessoas para as instituições locais de assistência social (FRÜHLING, 2003).

O objetivo principal da estratégia era aproximar a polícia da comunidade e propiciar uma cultura de segurança cidadã no bairro ou setor designado, por meio da integração entre a administração local, a polícia e a comunidade, em busca da melhoria da qualidade de vida. A ideia era encontrar uma maneira de os policiais ficarem mais próximos da população para que pudessem ver e ouvir coisas que a maioria dos cidadãos de Bogotá não estava disposta a discutir com o tradicional carro-patrulha, cuja missão era muito mais reativa (FRÜHLING, 2003).

Desde seu lançamento, os policiais que desenvolvem o policiamento comunitário têm como missão principal ajudar na implantação de dois planos desenvolvidos pela polícia metropolitana de Bogotá: as Frentes Locais de Segurança, ou Comitês Comunitários de Monitoração do Crime e a Escola de Segurança Cidadã. As Frentes Locais administram sistemas de alarme e compartilham informações com a polícia, ou seja, constituem redes de apoio ao trabalho policial organizadas por quadras, setores, bairros, conjuntos, edifícios. Por

sua vez, nas Escolas de Segurança Cidadã, buscava-se capacitar a comunidade, através de seminários teóricos e práticos, em temas como prevenção de fatos passíveis de serem punidos, civismo, código distrital de polícia, prevenção de desastres, entre outros.

Os policiais comunitários passam muitas horas patrulhando as ruas de bicicleta, o que os distingue de outros policiais. Eles visitam moradores, participam de reuniões, param para conversar nas esquinas e atendem chamados que recebem em seus celulares e rádios. Conhecem o bairro e ficam atentos a pontos de risco, como casas e lotes abandonados, que podem ser usados para o tráfico de drogas, áreas sem iluminação pública, cruzamentos inseguros e tudo que apresente um risco para a saúde das pessoas. Levam essas informações de volta para a delegacia para compartilhá-las com seus superiores e autoridades locais, para que se planejem e executem as medidas necessárias (FRÜHLING, 2003).

Em relação à institucionalização de uma política de segurança com base na convivência e segurança cidadã, a partir de 1995, a administração distrital, primeiramente encabeçada pelo prefeito Antanas Mokus, elaborou e implantou um plano integral de segurança e convivência. As ações estavam referenciadas teoricamente em duas fontes: Basil Bernstein (1924-2000) e Jürgen Habermas (1929). Não obstante as diferenças entre os autores, Mokus, enquanto idealizador da diretriz obteve como conclusão dessas leituras a perspectiva de que os códigos culturais determinam muito da conduta dos indivíduos. Ou seja, partia do pressuposto de que o exercício sistemático da violência ( fora das regras que definem o monopólio estatal do uso legítimo da força) e a corrupção cresciam e se consolidavam porque eram comportamentos culturalmente aceitos em certos contextos. Nesse sentido, trabalhar para se ter um comportamento oposto, ou seja, perpetuar a ideia de construção da cidadania com ênfase na auto-regulação dos indivíduos e no relacionamento interpessoal não seria algo imponderável (MOKUS, 2007).

Para Mokus, considerar as cidades enquanto interações intensificadas de pessoas muito diferentes, com alta densidade e diversidade humana significa, entre outros fatores, observar a existência permanente de riscos nesse contato entre cidadãos que não se conhecem. No entanto, o importante é que tais riscos não constituíssem uma ameaça para a vida das pessoas. A perspectiva básica de Mokus era de que seria possível reduzir a violência física se existissem maiores recursos de expressão simbólica, se uma parte da violência pudesse ser substituída por formas mais elaboradas de reflexão e ação. Esses conceitos sustentaram o desenho de programas de cultura cidadã cujo objetivo principal era a autorregulação interpessoal, expressa no âmbito privado, mas, especialmente, no âmbito público. Os

programas de cultura cidadã, assim entendidos, tinham como objetivo aumentar o cumprimento das normas de convivência, aumentando a quantidade de cidadãos que, ordeiramente, levariam outros cidadãos a obedecer às normas, aumentando a solução de conflitos por meios pacíficos e, finalmente, incentivando a comunicação entre a população. Havia uma série desses projetos e programas orientados à prevenção e à melhoria da convivência cidadã. A título de exemplo, no intuito de perceber a diversidade das ações, cabe destacar apenas alguns deles: Justiça próxima do cidadão; Atenção a jovens envolvidos em assuntos de violência e consumo de drogas; Recuperação do espaço público; Hora da cenoura; Desarmamento; Atenção à população deslocada de suas residências pela violência; Fortalecimento da investigação criminal; Criação de infraestrutura administrativa e destinação de recursos humanos, técnicos e financeiros; Fortalecimento da Polícia Metropolitana; Comunicações e mobilidade; Infra-estrutura; Fortalecimento do talento humano; Polícia Comunitária; Menor número de policiais para a administração e maior para a vigilância; Zonas Seguras; Prestação de contas, avaliação e acompanhamento e Avaliação externa. Ressaltar tais programas significa demonstrar a importância de diferentes frentes, em um trabalho conjunto, para enfrentar a questão da criminalidade violenta. Enfim, cabe destacar que a experiência latino-americana de Bogotá também serviu de inspiração para a criação do modelo do Programa de Controle de Homicídios – Fica Vivo! em Belo Horizonte e, por consequência, sendo o GEPAR parte do programa, para seu próprio desenvolvimento (BEATO, 2005).

Benzer Belgeler