• Sonuç bulunamadı

Por que o Governo não cuida?! Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... (João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, 2001, p.431).

No seu relatório de 1856, para o Jornal do Comércio, Theophilo Ottoni vangloria-se de que sua companhia seria “a primeira empresa nacional para melhoramentos materiais do país”52. Para Theophilo Ottoni não cabia que

essas modernas técnicas de transporte, proporcionadoras do desenvolvimento da produção, fossem implantadas para vincular pontos do litoral, tendo em vista que esses pontos já se encontravam integrados à grande produção agrícola. Ottoni objetivava, portanto, proporcionar a interiorização nos vapores: fossem os fluviais, fossem os terrestres. Acreditava que a implantação de modernas companhias de navegação ou de estradas de ferro não teria o menor sentido econômico se fossem feitas ligando cidades no litoral. Elas já eram modernas e integradas ao grande comércio.

Em virtude disso, ao analisar o caso baiano, Theophilo Ottoni vai deixar essa lógica muito clara: somente tem sentido aquele caminho que “penetra mais para o interior”, tendo em vista que “ninguém deixará de carregar em

52 Theophilo Benedicto OTTONI, Companhia do Mucuri

– História da Empresa. Importância dos seu Privilégios. Alcance dos seus Projetos. Rio de Janeiro, Typ. Imp. e Const. de J Villeneuve e Comp., Rua do Ouvidor, 65, Rio de Janeiro, 1856, p. 10, APM, Coleção Assuntos Mineiros, Coleção de Artigos de Fundo do Jornal do Comércio organizados por Theophilo OTTONI, APM, Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0043/XIX Filme 003 Flash – 02, Negativo F1, p. 46.

barcos que navegam a Baía de Todos os Santos para vir pagar um frete muito maior na estrada de ferro”53.

Depois do desenvolvimento dessa infra-estrutura, segundo Irineu Evangelista, cabe propiciar os braços necessários a essa produção de larga escala, pois é exatamente essa produção que produz riqueza. O acúmulo dessa riqueza é mais que necessário para reinvestimentos que possibilitem a geração de mais recursos. Por fim, alerta que o Estado deve proporcionar o desenvolvimento de uma instrução agrícola que permita a melhoria e ampliação da produção54.

Não podemos considerar uma civilização apenas como resultado da produção material e Machado de Assis já nos alertava sobre isso ao tratar dos postulados que definiriam aquilo que poderia ou não ser enquadrado como literatura brasileira. Ele observaria que não seria apenas “na vida indiana” que teríamos o elemento diferenciador da realidade, tendo em vista que a civilização brasileira, segundo o escritor, não recebeu dos índios “influxo algum”. Isso não implicaria, entretanto, que aquela vida não pudesse ser usada em literatura ou que, ao fazê-lo, os escritores não estavam tratando de literatura brasileira, ou mesmo, que esta se restringia a elementos ligados somente aos gentis. Assim, não apenas os elementos regionais e locais deveriam ser enquadrados no âmbito dessa literatura nacional:

Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura55.

Desenvolveremos esse argumento posteriormente. Necessitamos aqui compreender aquilo que realmente poderíamos tratar como nacional e o quanto

53 Theophilo Benedicto OTTONI, Discussão do Orçamento da Fazenda in: Perfis Parlamentares – Teófilo Ottoni, nº12, Sessão de 30 de agosto de 1861, p. 635-6.

54 Alberto de FARIA, Mauá

– autobiografia – documentos históricos, 1933, p.224.

55 Machado de ASSIS, Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade. In: Obras Completas de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994. Publicado

desses aspectos poderiam ser apartados do nosso passado colonial. Ou talvez, como novamente nos ensina Machado, inserirmos nessa análise os “costumes civilizados, ou já do tempo colonial, ou já do tempo de hoje, igualmente oferecem à imaginação boa e larga matéria de estudo”56.

A decepção de Theophilo Ottoni em não encontrar uma civilização nas matas do Mucuri pode ilustrar esse sentimento expresso por Machado de Assis. Embora chamado pelos índios de Capitão Pogirum, não havia dúvidas para Ottoni do distanciamento existente entre os “portugueses” e as tribos locais. Além disso, em Notícias sobre os Selvagens do Mucuri aparece, de forma clara, que os primeiros habitantes da região eram um incômodo à nacionalidade: quando eles os julgam “fiéis às tradições de animosidade nacional dos seus antepassados se abstinham religiosamente de todo o contato com os dominadores”57. Isto significa que os exclui da nacionalidade

brasileira, tendo em vista que não estão incorporados na civilização e somente se o fossem poderiam ser entendidos como tal. Por outro lado, Barão Von Tschudi, citado por Theophilo, vai destacar que a colônia do Mucuri seria um terreno fértil para os “antrofagistas”. Segundo ele, nos espaços da Companhia, encontravam-se representadas “as quatro principais raças humanas”58 e elas

conviviam, inclusive, nas estalagens da Companhia, com grande número de comerciantes, botocudos, “chins”, além de trabalharem para a companhia tanto negros, como homens brancos. Verificamos que o elemento de inserção dessas diversas nacionalidades eram os galpões da companhia e a sua produção.

Não tão emocionante quanto a carta de Caminha, Notícias Sobre os

Selvagens do Mucuri traz, sob o olhar de um intérprete do século XIX, os

mesmos dramas destacados por Fernando Novais no seu clássico ensaio sobre a primeira carta da América Portuguesa: “desencontros de culturas, o

56 Machado de ASSIS, Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade. In: Obras Completas de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994. Publicado

Originalmente em O Novo Mundo, 24/03/1873.

57 Theophilo OTTONI, Notícias Sobre os Selvagens do Mucuri, 1858, p. 76.

58 Theophilo OTTONI, A Colonização do Mucuri In: Notícias Sobre os Selvagens do Mucuri, Regina Horta Duarte (Org.), 1859, p. 157.

impossível diálogo entre as normas de dádivas e a lógica da mercadoria”59.

Obviamente, essa segunda narrativa realizada mais de três séculos depois não era tão “pura” quanto aquela primeira, tendo em vista que tanto os nativos, quanto os dominadores já acumulavam um grande volume de experiências, embates e convívios.

Se no século XVI, ainda no lastro de Fernando Novais, esse primeiro contato demonstra as “raízes da edenização do Novo Mundo, contraponto da infernalização que corria paralela”60 No segundo momento, isso se inverte e a

Nova Filadélfia, criada por Theophilo, nada mais é que a transformação desse universo não “civilizado” nos moldes daquilo que se estabeleceu já no novo mundo e, especificamente, na conquista do oeste americano. Aqui está a razão para compreendermos a edenização do século XVI e sua negação no momento posterior. O desprezo de Ottoni pelos botocudos se estabelece exatamente por aquilo que Pero Vaz destacava como sendo o mais importante daqueles povos formados por homens que não eram mouros ou judeus, nem cristãos: pura e não civilizada. Essa pureza, para Theophilo, significava a vitória da estupidez sobre outras civilizações que conseguiam explorar a terra e a sua produção.

Enfim, com a saída do Estado Português, após a Crise do Antigo Sistema Colonial, surge como elemento imprescindível à montagem de uma nação brasileira que, em última esfera, seria resultado de forças oligárquicas. Entretanto, ao contrário daquilo que se estabeleceu com a Oligarquia Inglesa, no Brasil, e talvez por isso essa idéia de esvaziamento, a composição de poder do Estado era fruto histórico das benesses do próprio Estado. Isso se pegarmos apenas o extremos do processo. Enfim, aqui o Estado não é formado pelo amadurecimento histórico do sentimento nacional, mas por ele mesmo, tendo em vista termos que negar o nosso passado colonial.

Nesse aspecto, Ottoni é genial. Em seu célebre discurso de seis horas, no seu retorno ao parlamento depois de 12 anos, ele será de uma sensibilidade política e sociológica impressionante. Concordamos com o argumento de

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Fernando NOVAIS, A “certidão de nascimento ou de batismo” do Brasil In: Aproximações –

estudos de história e historiografia, 2005, p.237-44. 60

Fernando NOVAIS, A “certidão de nascimento ou de batismo” do Brasil In: Aproximações –

Theophilo de que a oligarquia brasileira não tinha origem na propriedade territorial, muito embora ela fosse importante, muito menos em uma fidalguia que, segundo ele, era efêmera. Aquela oligarquia não tinha outro suporte exceto na “influência oficial” e, por conta disso, “eram filhos do orçamento, eram filhos das leis que decretavam no sentido de perpetuar o seu domínio”61.

Não estamos, com isso, realizando um desprendimento com a realidade material: já fizemos anteriormente a associação entre a grande produção exportadora e a sustentação do Estado, vinculando a primeira ao orçamento deste último, tendo em vista que ela, por longos anos, seria a sua principal fonte de receita. Tudo isso nos remete a um aspecto e, por conta disso, insistimos que é dele que devemos partir: a gênese da formação do Estado a partir da Crise do Antigo Sistema Colonial.

Esse vínculo entre desenvolvimento nacional e a presença do Estado é tão forte que mesmo Ottoni vai estabelecer, em diversos momentos de sua empreitada, o fortalecimento institucional como algo relevante para a continuidade e ampliação do seu projeto. Como ilustração preliminar, ao mesmo tempo em que atribuía a idéia ao Marquez de Paraná, em seu relatório apresentado no último ano áureo da Companhia de Comércio (1857), Theophilo Ottoni apresenta um projeto para a criação da Nova Estrela, uma nova Província. Segundo o diretor da companhia, a empresa estabelecia as condições materiais para a criação desta nova circunscrição administrativa. Isso porque criou um eixo dinâmico para a instituição dessa nova estrutura administrativa, resultado da criação de estradas, do comércio regional, do nacional e das perspectivas futuras em se assumir o mercado internacional. Tudo isso porque permitiu que os 120 mil habitantes do interior pudessem se comunicar com os 30 mil do litoral, além de se criar uma alfândega independente da carioca para que o comércio mineiro pudesse diretamente atingir o mercado exportador. Em resumo, o centro de Minas e o Norte estariam ligados ao resto do mundo por dois portos: o de Vitória e o de Caravelas e a navegação de cabotagem poderia ser feita graças à Companhia

61 Theophilo Benedicto OTTONI, Discussão da Resposta à Fala do Trono in: Perfis Parlamentares – Teófilo Ottoni, nº12, Sessão de 27 de junho de 1861, ano, p. 536-7.

de Comércio e Navegação do Mucuri62, desde que existissem condições proporcionadas pelo Estado Nacional para isso.

Theophilo relatou, em 1856, que algumas cidades, como Caravelas e Minas Novas, já disputavam para saber qual seria a Sede do Governo dessa nova Província. Esta primeira, pelas suas vantagens comerciais; a segunda, em virtude da posição geográfica que possuía por conta da ligação mantida entre a Região do São Francisco e o litoral, através da Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri. Theophilo inclusive já projetava o nome de Filadélfia para a nova capital, mandando reservar, inclusive, um espaço de 700 braças para a criação de uma praça, conhecida como Praça do Governo. Além desse espaço, proibiu construções no entorno para que, no futuro, pudesse abrigar o Palácio, a Assembléia Provincial e a Assembléia Municipal63.

Assim, enquanto no nordeste açucareiro existia uma ligação direta e imprescindível com o centro comercial inglês, ao interiorizarmos, nas fronteiras da expansão produtiva, esse vínculo, precisava ser estabelecido tomando por base uma cidade litorânea e levando ao interior uma infra-estrutura que presume certo desenvolvimento técnico. A empreitada assume, para aqueles espaços, força de um projeto nacional em virtude de sua magnitude e do envolvimento de diversas províncias, raças, religiões em torno de um futuro comum: o crescimento econômico.

No caso dos transportes, os vapores terrestres e fluviais que fariam essa interiorização permitiam que os agentes criassem soluções nacionalistas, não pela consciência da nacionalidade, mas pelos interesses comerciais e de domínio territorial. Como ilustração, ao analisar a sugestão do Ministro Inglês, James Hudson, sobre a criação de uma colônia inglesa no Mucuri, com o

62 Theophilo Benedicto OTTONI. Relatório Apresentado aos Acionistas da Companhia do Mucury em 15 de Outubro de 1857. Rua do Ouvidor, 65, Rio de Janeiro, Tipografia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve e Companhia, 1857. Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0043/XIX Filme 003 Flash – 02, Negativo F1, p. 16.

63 Theophilo Benedicto OTTONI, Companhia do Mucuri – História da Empresa. Importância dos seu Privilégios. Alcance dos seus Projetos. Rio de Janeiro, Typ. Imp. e Const. de J Villeneuve e Comp., Rua do Ouvidor, 65, Rio de Janeiro, 1856, p. 10, APM, Coleção Assuntos Mineiros, Coleção de Artigos de Fundo do Jornal do Comércio organizados por Theophilo OTTONI, APM, Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0043/XIX Filme 003 Flash – 02, Negativo F1, p. 27.

controle por parte do capital inglês da Companhia, Theophilo evoca o seu próprio “brasileirismo”, que o levou a recusar tal oferta. Ele amplia o argumento dizendo que preferia perder o Mucuri, do que vê-lo transformado em feitoria inglesa64.

Em seus estudos sobre interferência inglesa na modernização do Brasil, Richard Grahan tenta amenizar esse conflito entre as partes, desqualificando o argumento de que esse conflito em nada coloca em dúvida a presença inglesa nessa modernização: “The Idea that the struggle for Brazilian industrialization was simply a conflict between Brazilians and foreigners is so patently erroneus that it would requires no comment were is not so widespread”65.

No caso da “colonização”, sob o controle de nacionais, reproduzindo o texto do Barão Von Tchudi, Theophilo Ottoni novamente vai evocar que pouco importa a raça, religião, nacionalidade, desde que existam leis claras que possam reger essas ocupações e que todos sejam obrigados a cumpri-las, como aquilo que defendia William Penn, na Filadélfia. Assim, defende que o Estado não crie, na Europa, expectativas enganosas para esses novos “colonos”, a fim de que possam atrair pessoas afinadas com esse objetivo comum: o trabalho para o desenvolvimento material66.

Nesses espaços novos, vazios, como o Sertão, a intensidade da ausência do Estado, associada à densa e abrupta ocupação, demonstra a carência de um projeto claro e objetivo. O que agregaria essas pessoas só poderia ser o próprio ato de ocupar. Isso criaria, entre eles, uma associação com o comércio, a princípio imposta pela Companhia, mas que deveria se encontrar sobre a égide de um controle mais geral. No primeiro momento, o vazio dessa região permitia que a produção de diamantes e ouro fosse controlada em virtude de criar certo isolamento natural para as Minas, permitindo um controle rígido da produção, como na Diamantina do século

64 Theophilo Benedicto OTTONI. Breve resposta que ao relatório de liquidação da Companhia do Mucuri por parte do Governo. Rua da Quitanda, 55, Rio de Janeiro, Tipografia de M. Barreto, Mendes Campos e Companhia, 1862, Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0048/XIX Filme 006 Flash – 03, Negativo F1.

65 Richard GRAHAN, Britain and Onset of Modernization in Brazil 1850-1914, 1972, p.125. 66

Theophilo Benedicto OTTONI, “A Colonização do Mucuri” In: Notícias Sobre os Selvagens do

XVIII. Assim, atendendo a uma lógica colonial, específica da produção de metais e pedras preciosas, o governo procurava desvincular a região da estrutura já montada para a grande plantação açucareira, na perspectiva de isolar o Sertão dos contrabandos. Essa reforma ilustrada parece clara no decreto de desmembramento de Minas Novas da Bahia, em virtude da mineração do diamante no Serro e na Vila do Príncipe: “O Decreto de 10 de maio de 1757 desmembrou a Vila de Minas Novas do Fanado, com seu distrito, da capitania da Bahia, a que antes pertencia, e uniu-se à comarca do Serro Frio, para ficar debaixo da jurisdição administrativa do Intendente dos Diamantes do Tijuco”67. Em um segundo momento, esse do século XIX, o

Governo Imperial teria que desfazer aqui o quê os ilustrados portugueses fizeram no século anterior, para reinserir a economia do Norte de Minas nessa nova perspectiva nacional.

Quem acaba fazendo isso é uma Companhia privada e sujeita não a interesses gerais, mas dos ganhos específicos da própria Companhia. Theophilo Ottoni daria outro sentido à companhia, tornando-a quase uma empresa estatal sobre o controle privado, solução que ele defende, inclusive, para a Companhia União Indústria. Podemos vislumbrar que o interesse geral da Companhia era vincular, através de um porto a ser estabelecido em Caravelas, o comércio do Norte de Minas com o estrangeiro. Para isso, e baseados no relatório de 1862, faz-se necessário desenvolver “a produção do Valle do Mucury, e o comércio do Norte de Minas” para que comporte essas relações com o grande comércio68. Aliás, essa foi uma das perguntas apresentadas pelo Ministro britânico, citado anteriormente: “Se a nova região, tinham proporções (sic!) para fazer comércio direto com o estrangeiro”69.

67Joaquim Felício dos SANTOS, Memórias do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio (Província de Minas Gerais), 1868, p.144.

68 Theophilo Benedicto OTTONI. Relatório Apresentado aos Acionistas da Companhia do Mucury em 15 de Outubro de 1857. Rua do Ouvidor, 65, Rio de Janeiro, Tipografia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve e Companhia, 1857. Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0043/XIX Filme 003 Flash – 02, Negativo F1, p. 7.

69 Theophilo Benedicto OTTONI. Relatório Apresentado aos Acionistas da Companhia do Mucury em 15 de Outubro de 1857. Rua do Ouvidor, 65, Rio de Janeiro, Tipografia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve e Companhia, 1857. Coleção Assuntos Mineiros. Divisão de Conservação, Setor de Microfilmagem, Vol.006, Classif. OR-0043/XIX Filme 003 Flash – 02, Negativo F1, p. 11.

Existe um imenso hiato temporal entre a implantação dessa infra- estrutura para a implantação do comércio e o desenvolvimento deste. As companhias de navegação precisavam desenvolver todo esse processo do nada, criando ou ligando os mercados onde se realizariam os seus negócios. Assim, além do tempo para construção das estradas, diques, armazéns, derrubada da mata, custos dos vapores (aquisição e manutenção), carecia ainda aguardar o crescimento das populações, num momento em que o tráfico de escravos havia sido proibido. Assim, uma produção com excedente que pudesse suportar os custos gerados por esse investimento poderia demorar anos para ser atingida. Quando a economia é primária e exportadora, no mar isso é tudo mais simples, tendo em vista já existir uma saída natural para os produtos e também, naquelas esferas, uma série de civilizações montada em torno dessa produção.

Enfim, o risco desse negócio era de grande vulto e cabia apenas a investidores de mesmo tamanho, como o Barão de Mauá, sob a proteção do Estado. Ou, ainda, que esses investimentos fossem feitos pelo próprio Estado. As duas modalidades foram utilizadas nesse período histórico, tanto as companhias de desenvolvimento, quanto as vinculadas ao Estado. No caso da Companhia aqui contemplada, cremos que essa classificação é muito mais complicada, pois se tratava de um misto de investimento e interesses particulares, imperiais e provinciais. Diga-se de passagem, nisso Theophilo tinha razão: envolvia interesses das Províncias da Bahia e do Rio de Janeiro, que escoavam essa produção; de Minas e do Espírito Santo, que possuíam uma ligação através da Companhia para a sua produção.

Enfim, era preciso criar unidade e integrar áreas que se encontravam isoladas: isso significava colonizar, povoar, produzir e permitir o escoamento dessa produção. Em áreas distantes, isso teria que se estabelecer de forma invertida, prejudicando o sucesso do negócio: primeiro se fazia necessário criar os mecanismo de escoamento da produção antes mesmo de esta existir ou o povoamento que permitiria criar a base de comércio que sustentasse essas companhias.

Ao explanar sobre a navegação a vapor do Rio Amazonas, o Barão de Mauá apresenta, primeiro, a dificuldade que teria o Império de encontrar pessoas interessadas e com possibilidades de desenvolver essa empreitada; segundo, que a empreitada envolvesse certos privilégios para tornar os negócios atraentes, como forma de compensar os riscos destes investimentos. Por fim, assevera que se faz necessário um auxílio financeiro para compensar os dispêndios desse período inicial: “o vapor – não pode ser utilizado como

Benzer Belgeler