2. SENTETİK AÇIKLIKLI RADAR İLE HEDEF GÖRÜNTÜLEME
2.1. Amaç
tendência”; e neste ponto Rodrigo Lefèvre assume a posição de arquiteto como “produtor”, conforme concepção de W.Benjamim, que, por sua vez, discute dois fatores: tendência e qualidade na obra e qual seria o papel do autor assumidamente de tendência de esquerda, como produtor de obras que além de suas qualidades - literárias, musicais ou teatrais implícitas - deveriam alterar o sistema de produção em que estão inseridas859, em suas palavras:
“[...] Gostaria de mostrar que a tendência de uma obra, pode ser politicamente justa,
se for literariamente justa” [...]
“O autor que tiver refletido maduramente sobre as condições da produção atual, não pensará absolutamente em esperar, ou somente desejar tais obras. Seu trabalho não se limitará nunca a elaboração de produtos, mas será sempre, ao mesmo tempo, a elaboração dos meios de produção. Em outras palavras: seus produtos devem possuir além e antes de seu caráter de obra, uma função e organização. E suas possibilidades de utilização no plano da
propaganda. Só a tendência não é suficiente”. 860
Para W. Benjamin, um modelo bem sucedido dessa proposição é o teatro épico de B. Brecht: “Um autor que não ensina nada aos escritores, não ensina nada a ninguém. O que é determinante é, pois, o caráter de modelo da produção”861 .
Rodrigo Lefèvre classifica a Casa Juarez como uma experiência de projeto e de obra e seus objetivos são coerentes às proposições de W. Benjamim, em suas palavras:
“Assim, a busca fundamental é a elaboração de um modelo de produção, que seja apto, por um lado, a guiar outros construtores em direção a ele, e por outro, a colocar à sua disposição um aparelho aperfeiçoado, que será tanto melhor quanto mais usuários adorarem- no como modelo.” No entanto, admite ter encontrado dificuldades na sua realização as quais foram causadas pela “interferência muito grande de alguns aspectos da cultura erudita” e que
talvez “o nível de atuação ‘científica’ não tenha sido suficientemente alto”. 862
Por fim, o arquiteto conclui seu artigo destacando a importância de uma equipe para a
implantação dessa proposição “dentro do possível” e cita H. Lefebvre, o que denota outra discussão,
sobre visão de mundo e utopia, na concepção daquele filósofo:
“[...] Pela palavra ‘utopia’, assim redefinida e plenamente e reabilitada, está claro que entendamos ‘outra coisa’ do que uma ideologia ou do que um simples horizonte desmedido. Entendemos a inerência aos lugares, aos atos, às situações de um ‘alhures’. Por meio de seus níveis sucessivos de fala e escritura, de percursos e ideologias, o ‘mundo dos objetos’ e o ‘mundo dos sujeitos, se reúnem no possível-impossível ao qual é impossível não recorrer para
expor o possível.” 863
859 BENJAMIN, WALTER. O autor como produtor. Revista OU..., GFAU, São Paulo, n° 2, set., 1970. 860 Ibidem.
861 Ibidem.
862 LEFEVRÈ, Rodrigo B. Casa do Juarez. Revista OU... , GFAU, São Paulo, n° 4, jun., 1971. 863 Ibidem.
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As dificuldades apontadas por Rodrigo Lefèvre na realização da Casa do Juarez [Fig.60] revelam “antinomias insolúveis”864 da experiência, ou seja, um modelo de produção para a casa popular
realizando, “dentro do possível”865 uma casa burguesa-e-anti-burguesa simultaneamente; mesmo sendo
destinada a proprietários engajados com a proposta, não seria possível concretizar plenamente o modelo suficientemente agressivo pretendido pelos arquitetos. Uma justificativa encontrada em W. Benjamim, que fala sobre a “A solidariedade do especialista (no caso o sociólogo) com o proletariado só pode ser indireta [...] mesmo a proletarização do intelectual quase nunca o transforma em proletário. Por que? Porque a classe burguesa lhe deu a forma da cultura”866. Outra justificativa pode ser encontrada na definição de arquitetura de H.Eco: “ [...] o arquiteto (a menos que formule no papel um modelo utópico) não pode ser arquiteto senão inserindo-se num circuito tecnológico e econômico e procurando assimilar-lhe as razões ainda quando quer contestá-las”. 867
60 - Fachada posterior Foto: Edite Galote Carranza Consumo da Arquitetura Nova: na opinião do sociólogo
Juarez L.Brandão, em artigo publicado no mesmo número da Revista Ou..., analisa sua casa tanto do ponto de vista do usuário quanto do profissional sociólogo, num raro exemplo de análise arquitetônica.
Seu texto, em três tópicos, inicia-se destacando as alterações nas atitudes comportamentais, “todas não drásticas”, da família. Tece considerações sobre rotinas de “limpeza da casa”, em função do
possível “desgaste com o uso da alvenaria, cimentos ou pintura” que certamente causou
estranhamento. O sociólogo analisa que a “preocupação acentuada” com a limpeza e a “ordem” das
casas é como uma “atitude e comportamento” associados a um “passado escravocrata” na maioria das
864 BENJAMIN, op. cit.
865 Ibidem. .
866 BENJAMIM, Walter. O autor como produtor . Revista OU... do Grêmio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, no. 4, jun.1971, s/p. (grifo nosso) 867 ECO, Umberto. A estrutura ausente: introdução a pesquisa semiológica. São Paulo: Perspectiva, 1991, p. 225.
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“famílias de classe média”. Contudo, J. Brandão conclui que em sua família - inserida no meio universitário - estas questões que no passado eram reduzidas, na nova casa “preocupam menos” 868.
O segundo tópico, intimamente relacionado ao primeiro, analisa o agenciamento de espaços da casa em relação ao setor de serviços. J. Brandão observa que tradicionalmente, nas famílias de classe média, há o “ ‘ambiente’ destinado às empregadas”, a saber: cozinha, quintal e edícula onde “se situa o seu quarto, o tanque etc”.869 Segundo ele, na Casa Juarez “quase não existe o ‘ambiente’ das
empregadas”, pois este “circunscreveu-se quase a duas pequenas áreas: o quarto, onde o tempo de permanência, durante domingos e feriados aumentou e a pequena ‘copa’ de uso múltiplo (café da manhã, almoço das empregadas, local de assistir T.V. (mais delas, menos de meu filho), lugar da empregada mais jovem fazer suas lições escolares)”870 . No entanto, a descrição do sociólogo ratifica a
permanência do “ambiente” no programa, embora integrado ao corpo da casa. O sociólogo destaca
esta antinomia e a justifica como sendo necessária num período de transição para um futuro onde as relações de trabalho seriam estritamente profissionais e a funcionária não precisaria morar no emprego.
No último tópico, J. Brandão discorre sobre alterações positivas nas relações familiares e sociais em função da “estranheza” gerada pelo espaço: “[...] O espaço, quase totalmente sem barreiras, leva a uma dissolução duradoura, dos modos pré-existentes de conduta e dos meus elementos valorativos. A ‘vida social’ nele flui mais livre e agradavelmente” 871.
O quartinho de empregada e a tradição872
Retomando a questão do “ambiente de empregada”, seriam oportunas algumas considerações
sobre a tradição do morar paulista, que no decorrer do tempo resultaram em soluções arquitetônicas consagradas, como edículas no fundo do terreno, quartinhos de empregada com acesso pela lavanderia e, no caso dos edifícios residenciais, resultaram no duplo acesso: social e serviços. Na tradição do morar, a segregação dos espaços e acessos de criados esteve presente, desde a casa imperial à moderna, como um resquício da sociedade escravocrata brasileira como disse o sociólogo e como veremos.
868 LOPES, Juarez B. O consumo da Arquitetura Nova. Revista OU..., GFAU, São Paulo, n°. 4, jun.1971. 869 Ibidem.
870 Ibidem.
871 LOPES, Juarez B. O consumo da Arquitetura Nova. Revista OU..., GFAU, São Paulo, n°. 4, jun.1971.
872 O quartinho de empregada e a tradição foi tema de trabalho final da disciplina “Programa da Casa Brasileira”, quando a autora cursava como aluna especial, em 1996. Posteriormente, foi retomado na forma de artigo publicado na revista eletrônica Revista 5% arquitetura + arte em 2006. Neste trecho há excertos reelaborados daqueles trabalhos.
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Em 1822, com a proclamação da Independência, a São Paulo de Piratininga se transformou na Imperial Cidade de São Paulo, apesar do título, mantinha seu aspecto provinciano. Neste período, relatos de viajantes estrangeiros ou não, sistematizados em fichas no antigo arquivo do professor E. S. Bruno873, descrevem hábitos e costumes domésticos e o convívio entre escravos e seus donos:
"O abastecimento de água era deficientetíssimo, tanto na quantidade quanto na qualidade. No centro da parte principal da cidade havia somente o chafariz do largo da misericórdia com quatro bicas que nem sempre corriam abundantemente dia e noite estava ele, pois, rodeado de gente, na maior parte escravos, cuja vozeria se ouvia já de longe, quando por
ali se passava" 874
"Na realidade, a sua educação se restringe a conhecimentos superficiais, ocupam-se muito pouco com assuntos domésticos, confiando tudo quanto se refere às dependências inferiores da direção da casa, ao negro ou à negra cozinheira, e deixando todos os outros assuntos a cargo dos servos, (...) ocupam-se (as donas-de-casa), principalmente, em casa, em
cozer, bordar e fazer renda." 875
A casa imperial escravocrata tinha total dependência da mão-de-obra negra, tanto em relação aos azeres domésticos comuns, quanto à infraestrutura como transportar água e esgoto, conforme explica o arquiteto L. Costa:
“A máquina brasileira de morar do tempo da Colônia e do Império dependia dessa mistura de coisa, de bicho e gente que era o escravo [...] O negro era esgoto, era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de luz e botão de campainha; negro tapava goteira e
subia vidraça pesada; era lavador automático, abanava que nem ventilador.” 876
Naquele período não havia preocupação com os aposentos dos escravos, pois quando não dormiam nas senzalas poderiam dormir num lugar improvisado qualquer - junto aos fogões, forros e porões877 como analisa L.Costa, que escravo era sinônimo de “bicho”. Dentro do processo de transição para o regime republicano, a Abolição da Escravatura gera alterações aparentemente progressistas na passagem para o trabalho remunerado. A solução adotada para a mão-de-obra remunerada nas lavouras foi basicamente a introdução da figura do colono imigrante. Já no trabalho doméstico, por muitos anos, ainda restou a figura de uma ex-excrava ou suas descendentes, como parte integrante da família, como fora retratada pela literatura878.
873 Documentos disponíveis ao público no Museu da Casa Brasileira, hoje também publicados em livro.
874 Depoimento de Francisco de Assis V. Bueno, sobre a falta de infraestrutura da cidade. Texto extraído de Memória da Cidade de São Paulo: segundo
depoimentos dos moradores e visitantes, de Ernani da Silva Bruno p. 51
875 Depoimento de John Mawe, sobre as atividades da dona-de-casa. Texto extraído de Memória da Cidade de São Paulo: segundo depoimentos dos
moradores e visitantes, de Ernani da Silva Bruno p. 72
876COSTA, Lúcio. Lúcio Costa: sobre arquitetura. org. Alberto Xavier, 2ª ed. Porto Alegre: UniRitter Ed., 2007. 877 Ibidem.
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Segundo M. Homem, a casa republicana passa por um “processo civilizador” quando surgem
as casas burguesas luxuosas decorrentes do sucesso da cultura cafeeira:
"A casa e seus moradores, os seus costumes, o seu equipamento e sua criadagem constituem manifestação do processo civilizador, numa relação de vencidos para vencedores, tratando-se de paulistas e de europeus, e de vencedores para vencidos, se nos reportarmos à
liderança econômica e política que os cafeicultores exerceram a nível nacional". 879
Com os novos programas, surge também, o denominado agenciamento de espaços à francesa, descrito pelo professor C. Lemos880: “A perfeita interdependência das zonas da habitação era
conseguida através da introdução, na planta, do vestíbulo distribuidor dos passos. Esse novo cômodo da moradia era uma área‘neutra’ ”881. Trata-se, portanto, de uma forma de distribuição que disciplinava as circulações a partir do vestíbulo ou do hall de entrada, a fim de tornar independentes os três setores de uso: estar, repouso e serviço, e separar as circulações de patrões e criados. É neste período que surgem os quartos de criada no interior das residências, geralmente junto às cozinhas, com acesso pelo quintal. Já os aposentos destinados às governantes estrangeiras localizavam-se, geralmente, próximos ao setor de repouso da casa.
Enquanto na arquitetura dos “palacetes paulistanos” havia a subdivisão dos ambientes de acordo com sua função, na arquitetura moderna, em contrapartida, a opção era a integração dos ambientes com maior fluidez, com a valorização dos espaços e a desejável integração entre o interior e o exterior882. Estas alterações, em grande parte, foram decorrentes de novos sistemas construtivos e estruturais, especialmente o uso do concreto armado, que permitiu que a estrutura se desvinculasse das paredes e estas assumissem apenas de vedação além do conceito de “planta livre”. Arquitetos modernos paulistas, interpretando esse novo repertório, criaram soluções para “o morar” e contribuíram para alteração do agenciamento de espaços interno, como: R .Levi, J.Artigas, O. Bratke e C.Milan para citar apenas alguns.
Ainda segundo o professor C. Lemos, a tônica do agenciamento espacial da casa moderna é a continuidade espacial, que em alguns casos propiciou uma espécie de “proletarização” e uma
consequentemente “promiscuidade” de alguns programas, através das superposições de funções. Ao
descrever algumas soluções adotadas, C. Lemos faz uma crítica aos excessos cometidos, talvez, pela Escola Paulista Brutalista, em suas palavras:
“Há dessas casas modernas em que até os dormitórios possuem paredes baixas.
879 HOMEM, Maria Cecília N. Palacete Paulistano: processo civilizador e a morada urbana 1867-1914-18. São Paulo: Martins fontes, 1996, p.4 880 LEMOS, Carlos A.C. Casa paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café . São Paulo: EDUSP, 1999 p.125. 881 Ibidem, p. 252.
882 Segundo Carlos Lemos: “Agora é o tempo da dita arquitetura moderna, mas essa modernidade não tem uma definição uniformemente aceita por todos[...]
Trata-se, evidentemente, de modernismo digamos erudito aprendido nas faculdades de arquitetura a partir das lições básicas de mestres como Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas etc”. LEMOS, Carlos de A. C. História da casa brasileira. São Paulo: Editora Contexto, 1989, p. 73.
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Com essa pretendida continuidade espacial, as paredes divisórias deixam de ser efetivamente isoladoras de atividades para tornarem-se simplesmente selecionadores de ambientes, havendo uma intencional promiscuidade. Pelo visto, muitos dos arquitetos modernos, além de se ocuparam das mais recentes técnicas construtivas também tratam de “atualizar” seus projetos oferecendo oportunidades de superposições que exigem das famílias um convívio nem
sempre adaptado ao processo cultural definidor da burguesia formadora de sua clientela”. 883
A casa moderna paulista é uma síntese das conquistas do movimento moderno associados à tradição do morar paulista. Algumas soluções de projeto tornaram-se consagradas, como a edícula no fundo do lote junto à lavanderia; ou o quarto de empregada com acesso independente, quer seja por corredores laterais ou escadas helicoidais exclusivas, como nos projetos de C.Milan; algumas variantes como o quartinho semi-enterrado da Casa Bitencourt de J.Artigas; ou ainda a solução consagrada dos inúmeros edifícios residenciais: o duplo acesso: social e de serviço, este último com acesso ao quartinho se dá pela cozinha ou área de serviço, em geral com banheiro exclusivo. Nas soluções da especulação imobiliária, em muitos casos, foi abolida a necessidade de ventilação e iluminação naturais para um ambiente de permanência prolongada como é o quarto de empregada. J.Holson analisa o ambiente da empregada:
"Tanto no projeto como no uso, essa área de serviço faz apelo ao mais atávico dos valores da classe média: a cozinha do apartamento continua a ser a cozinha da casa-grande, um lugar afastado do espaço de vida dopatrão: é o lugar dos empregados, raramente o da dona da casa: a empregada continua a ser uma escrava cuja presença é malvista nas áreas da família; e seu pequeno quarto com a porta abrindo para o tanque de lavar roupa no corredor de
serviço ainda é a senzala." 884
Casa Juarez: tradição x inovação
Retomando o caso específico da Casa Juarez, o quartinho de empregada localiza-se na porção frontal direita, com acesso direto à rua por um corredor lateral. Defronte ao quartinho, um banheiro de serviço para empregada ou garagem e jardim. O acesso à lavanderia e cozinha é pelo corredor lateral externo. Suas dimensões são mínimas e suficientes para um pequeno armário embutido e duas camas fixas e justapostas, executadas em alvenaria, as quais foram separadas por uma alvenaria baixa de cerca de 1.40m. Este quarto semicilíndrico em sua forma foi executado em alvenaria de tijolos de barro comuns e seu teto é parcialmente chanfrado na porção frontal de ligação com a viga de borda da casa. Há uma janela para atender ventilação e iluminação naturais. Sua pintura na cor vermelha destaca o volume. Em termos funcionais, atende ao programa e seu acesso lateral externo propicia privacidade à empregada. No entanto, a alvenaria baixa que separa as camas não foi uma boa solução para o pequeno ambiente, pois reduz a percepção visual do espaço tornando-o ainda menor, e a posição da
883 LEMOS, Carlos A C. História da Casa Brasileira. 1º Ed. São Paulo: Contexto, 1996, p. 75.
883 HOLSTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p 188.
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