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Na exclusão por indignidade

454

, o seu direito de suceder é retirado em

razão da prática de atos descritos nos incisos I ao III do artigo 1.814 do Código

Civil

455

. Tratando-se de pena civil imposta ao herdeiro ou legatário pelos atos

cometidos contra a vida, a liberdade ou a honra do autor da herança ou de seus

familiares.

As motivações que autorizam a exclusão são taxativas (numerus clausus),

pois referem-se a normas restritivas de direito e não admitem interpretação

extensiva ou análoga; a sua força geradora está na lei, para afastar herdeiro

legítimo (necessário ou facultativo), testamentário ou legatário, por atos praticados

antes ou após a morte do autor da herança

456

, independe de qualquer

manifestação exarada pelo falecido em vida. O fundamento da indignidade reside

no repúdio social contra a moral e a ordem pública, para que o herdeiro não venha

indevidamente extrair vantagens, como melhor define WASHINGTON DE

BARROS MONTEIRO

457

:

“Inspira-se o instituto da indignidade num princípio de ordem pública,

porque a consciência social repugna, sem dúvida, que uma pessoa

suceda a outra, depois de haver cometido contra esta atos lesivos de certa

gravidade”.

O artigo permissivo da exclusão por indignidade, sem dúvida inclui o

cônjuge supérstite, este pode ser privado de sua herança quando:

454 ARTUR VASCO ITABAIANA DE OLIVEIRA, assim descreve: “Indignidade do direito hereditário imposta pela lei a quem

cometeu certos atos ofensivos à pessoa, à honra, e aos interesses do hereditando.”(Tratado do direito das sucessões, p.72).

455 “Art. 1.814. São excluídos da sucessão os herdeiros ou legatários: I – que houverem sido autores, co-autores ou

partícipes de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro, ascendente ou descendente; II – que houverem acusado caluniosamente em juízo o autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua honra, ou de seu cônjuge ou companheiro; III – que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou obstarem o autor da herança de dispor livremente de seus bens por ato de última vontade.”

456 SILVIO RODRIGUES. (Direito Civil, Direito das sucessões, p. 254). 457 Curso de Direito Civil – Direito das Sucessões, 35.ed. Vol. 6. p.63.

i)

houver sido autor, co-autor ou partícipe de homicídio doloso, ou

tentativa deste, contra o seu cônjuge falecido, seu ascendente ou

descendente;

ii)

houver acusado caluniosamente em juízo o cônjuge falecido ou

incorrer em crime contra a sua honra;

iii)

por violência ou meios fraudulentos, inibir ou obstar o cônjuge

falecido de dispor livremente de seus bens por ato de última vontade.

Entretanto, para afastar o herdeiro legítimo, testamentário ou legatário não

basta a prática dos atos enumerados no artigo 1.814 do Código Civil. Para que o

herdeiro seja afastado é indispensável o devido processo legal

458

, assegurando o

contraditório e a ampla defesa, garantias fundamentais do Estado Democrático de

Direito (art. 5º, inciso LIV da Constituição Federal), conforme observa, MARIA

HELENA DINIZ

459

:

“Como a exclusão do indigno não opera ipso iure, com a abertura da

sucessão transmite-se-lhe o domínio e a posse da herança, ainda que

tenha cometido qualquer um dos atos arrolados no art. 1.814 do Código

Civil. Isto é assim porque antes do trânsito em julgado da sentença que o

exclua da sucessão é ele plenamente capaz, e exerce em toda sua

plenitude, o direito hereditário que lhe compete. Se falecer antes da

declaração de indignidade, seu direito hereditário passará aos seus

sucessores”.

A legitimidade para demandar contra o herdeiro indigno, cabe a quem tem

o legítimo interesse na exclusão, o interesse a que a lei se refere é o econômico,

então, cabe ao herdeiro interessado em recolher a parte da herança. Também

estão legitimados a demandar os credores do herdeiro com real possibilidade do

benefício. Na ausência de expressa estipulação legal, discute a doutrina a

458 Tratando-se de questão de alta indagação, reclama o processo de conhecimento (art. 984 do CPC). 459 Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 53 e54.

legitimidade do Ministério Público e diante da controvérsia o Superior Tribunal de

Justiça, através do Centro de Estudos Jurídicos do Conselho da Justiça Federal,

sob a coordenação do Ministro Ruy Rosado, aprovou o enunciado 116 com o

seguinte teor:

“O Ministério Público, por força do art. 1.815 do novo Código Civil, desde

que presente o interesse público, tem legitimidade para promover ação

visando à declaração da indignidade de herdeiro ou legatário”.

A ação de exclusão por indignidade dever ser ajuizada no prazo

decadencial de quatro anos, contados da abertura da sucessão.

Declarada a indignidade por sentença transitada em julgado, desconstitui-

se a condição de herdeiro, este é reputado como se nunca houvesse sido

herdeiro, pois os efeitos retroagirão à data da abertura da sucessão.

460

No entanto, ao retroagir os efeitos à data da abertura da sucessão, não

poderá prejudicar os direitos aquisitivos de terceiros de boa-fé em alienações

onerosas, desde que efetuados antes do trânsito em julgado da sentença. É que

aos olhos da sociedade o alienante se apresenta como herdeiro aparente. Sendo

válidas tais alienações, caberá ao herdeiro prejudicado demandar perdas e danos

contra o alienante

461

indigno.

Conforme leciona SILVIO RODRIGUES

462

:

“Em rigor a sentença de exclusão retroage para todos os demais efeitos,

exceto para invalidar os atos de disposição praticadas pelo indigno. E, se

460 O indigno é considerado como se fosse pré-morto ao autor da herança, assim, os herdeiros do excluído são chamados

pelo direito de representação. (art. 1.816, caput e parágrafo único do CC.).

461 “Art. 1.817. São válidas as alienações onerosas de bens hereditários a terceiros de boa-fé, e os atos de administração

legalmente praticados pelo herdeiro, antes de sentença de exclusão; mas aos herdeiros subsiste, quando prejudicados, o direito de demandar-lhe perdas e danos”.

Parágrafo único. O excluído da sucessão é obrigado a restituir os frutos e rendimentos que dos bens da herança houver percebido, mas tem direito a ser indenizado das despesas com a conservação deles”.

a retroação do julgado não alcançar estes últimos atos, isso não se dá por

entender o legislador que o indigno, no ato de vender, é legítimo

proprietário, mas sim em respeito à boa-fé dos adquirentes que, fiados na

aparência, não podiam antever a futura exclusão do ingrato e, portanto,

ludibriados por um erro comum e invencível, acreditaram estar adquirindo

os bens hereditários do verdadeiro dono”.

Benzer Belgeler