A entrevista devolutiva foi realizada no dia de parada das instituições, quando o grupo se reúne para discutir seu trabalho. O líder comunitário convidou todos os educadores à participação, de forma inesperada, mas segundo ele, haviam desdobramentos da formação acontecendo e como era mais uma oportunidade para o diálogo, gostaria que todos estivessem presentes. Segundo ele:
Nós convidamos todos a participarem porque o grupo de multiplicadores ta aí, com essa idéia de multiplicador ela.... está bem implantada, então agora é pensarmos juntos na maneira que esse projeto tenha oportunidade tanto do ponto de vista das ações de agir como também de ser articulado com parceiros, com colaboradores pra que essa ação seja possível. Então a idéia é de
67 nós estarmos usando todos juntos também essa idéia de continuidade. (Pedro)
Na entrevista devolutiva, foram introduzidas aos educadores, as quatro constelações resultantes das entrevistas e apresentadas suas sínteses aos educadores. Quanto ao envolvimento com a formação, relatou-se que as experiências de vida, tais como o plantão comunitário ou trabalhar com direitos de famílias, foram convocando os multiplicadores a aprimorarem-se profissionalmente. Quando ao cuidado para com a comunidade, observou-se que as crianças despertavam grande afeto nos multiplicadores, porém que de um modo geral, sentiam um vínculo além do profissional com a população que atendem. Também se expôs a compreensão na qual a formação havia lhes servido como fonte de apropriação de conhecimento teórico, ampliando as possibilidades de lidar com as situações do dia a dia. Destacou-se a vivência das entrevistas reflexivas como eliciadora de uma nova postura do grupo, na qual havia prevalecido a horizontalidade e respeito perante o outro, livre para ser que ele era. Ser multiplicador, nas entrevistas havia sido apresentado como um voluntariado, oferta de apoio que se estendia na maioria dos casos ao bairro como um todo, buscando melhorias para a qualidade de vida da população. Apontou-se também a sobrecarga vivida, presente em todas as entrevistas.
Alguns membros do grupo fizeram comentários e confirmaram os resultados. O grupo reiterou sua compreensão de diálogo, demonstrando sua apropriação da prática:
falando-se fundamental mesmo é o entender mesmo, é o ouvir. A entrevista que estou falando da questão teórica foi uma maneira de se aprender, a maneira de montar, mas a ideologia a idéia que possamos ouvir mais, possamos entender mais. (Valéria)
(...) diálogo é entender o outro e livre de qualquer preconceito, pre-idéia elaborada, bem elaborada né? E como criar as funções pra que haja a horizontalidade entre o eu e o outro pra interagir. (Pedro)
Afirmaram que apesar do longo envolvimento com o ECOFAM, apenas a partir da formação o diálogo pode ser compreendido. Além disso, quanto a formação, salientou-se a importancia das leituras sugeridas e seus benefícios para a prática, tornando-se um hábito novo no grupo:
68 (...) questão das leituras se aperfeiçoar mais, que até antes não tinha essa questão de pegar um texto, a gente debruçar em cima dele e levar a prática, a teoria com a prática junta-se as duas coisas, e até então não tinha essa... tinha mas de uma maneira mais tranqüila. Mas não tipo todas as paradas (...). (Valéria) Um líder comunitário relatou que o próximo passo do grupo de educadores era envolver todos a estudar e tornarem-se também multiplicadores, porém para isso se tornar possível, compreenderam que deveriam recorrer ao poder público afim de melhorar as condições de trabalho dos educadores, em especial em relação às horas trabalhadas, reduzindo a sobrecarga que haviam relatado, de modo que estes possam ter mais tempo livre para estudar, pensar e conversar:
Mas não basta criar uma universidade aberta onde os educadores todos nós teremos possibilidade de estudarmos gratuitamente em parcerias com universidades federais. Precisa ter condições pras pessoas estudarem. Esse é o próximo passo. Como é que nós vamos fazer com que as pessoas estudem, faça pós graduação e tal, sem tempo, sem dinheiro”. (Pedro)
Mesmo sendo de sábado, você está fazendo o seu curso, só que você já trabalha quarenta horas semanais, chega em casa por exemplo, a maioria aqui que é dona de casa, tem filhos, você chega em casa, vai cuidar, vai lavar, vai passar, tem n coisas então. (Mariana)
O que chama mais atenção é a questão do tempo mesmo né? (...) Tem-se a vontade, tem-se o desejo mas tudo vem sobrecarga mesmo. No dia a dia o tempo mesmo é o que chama mais atenção. Questão do tempo mesmo. (Aline)
Duas questões das entrevistas individuais ainda necessitavam de maior esclarecimento. A primeira era sobre ao que se referiam quando falavam sobre a melhoria da qualidade de vida da população como meta do trabalho do multiplicador e a este respeito, proferiram:
Se um asfalto tem um buraco no chão, a SABESP fez um trabalho mal feito, você liga na ouvidoria tenta arrumar, dá uma recapeada ali é uma melhoria de qualidade de vida (Laura)
Eu acredito que essa mudança na qualidade de vida ela ta também nesse período estão atreladas nas entrevistas. A partir do momento que o educador se colocou frente as famílias (...) pra ouvir, estar aberto a entender como é o funcionamento desta família e mudar o seu ambiente de trabalho (...) qualidade de vida tanto pra essa criança quanto pra família e o seu olhar muda também no seu ambiente de trabalho. Então eu acho que tudo passa por aí. (Daniele)
69 Se tiver como base o diálogo ela é... ela gera qualidade de vida. Gera qualidade de vida diretamente. Pra você ouvir uma família, uma pessoa com respeito, diálogo afetivo trás uma qualidade de vida, trás um acolhimento, uma sensação de humanidade na relação. (Pedro)
A compreensão de qualidade de vida dos multiplicadores era abrangente, entre satisfação de necessidades básicas, passando por melhorias estruturais do bairro, mas neste encontrou voltou-se ao ouvir o outro, humanizando as relações. Esta era a temática do segundo ponto a ser melhor compreendido: O ouvir. Havia a necessidade de esclarecer como os multiplicadores compreendiam seu modo de trabalho antes de realizarem a formação. Os educadores compreenderam que antes tinham uma postura assistencialista que acabava substituindo o outro, indo contra preocupações que eles já tinham, do outro passar a depender de suas ações:
(...) a preocupação nossa era fazer, fazer. Então se alguém tem problema no trânsito, aí falo na subprefeitura eu corro atrás, peraí, porquê não mobilizar a pessoa porque é uma causa comum certo, eu falo assim, ó a gente tem que ir certo, que cada um expõe a sua necessidade, cada um expõe o seu problema e você às vezes com a própria experiência você acho talvez encontre até um caminho melhor que você ir lá sozinho né? (Paulo)
Não fortalecer a dependência. Nós queríamos fugir da dependência. Não ser assistencialista, só em casos extremos, mas não havia essa clareza. O projeto foi decisivo nisso ter essa clareza do que é ser assistencialista ou o que é promover a autonomia dentro de uma relação de diálogo. Não é chegar pra pessoa: ahh isso aqui é problema seu, não é assim. Vamos sentar, se chegou ali, se acha que por ali dá, se a pessoa aceita desafio, se foi naquela e a pessoa voltar e procurando o caminhos pra servir de apoio pra autonomia”. (Pedro)
E as próprias pessoas também que procuravam a gente, elas já vinham em busca de solução e não em busca de: vamos buscar a solução. Era eu vou procurar fulano, vou procurar.... porque eles vão lá e fazem. Então espera aí. Então você tem uma relação melhor com a família, uma aproximação que ela te traz assim, ela também está te ouvindo, ela não ta só querendo que você faça por ela. (Paulo)
Escutar o outro atentamente ganhou grande importância entre o grupo, primeiro na relação com as famílias e depois internamente, entre os educadores:
(...) algumas educadoras chamaram a minha atenção pra isso. Eu não ouvia. Eu não tenho papel de ouvir quando elas brigam. Era assim, pode falar e aí eu to atendendo ela, to escutando e to
70 registrando. O meu ouvir hoje é sentar e olhar. Fazer assim, olhar dela, os trejeitos, a fala, o jeito que o educador se posiciona eu vou lembrar muito mais quando tiver que fazer uma devolutiva pra ela. Então assim, elas cobraram isso de mim. Então hoje (...) eu paro, sento, eu não retruco, que antes elas falavam cinco eu falava dez. então eu to me policiando pra ouvir e depois eu falo. Eu não era com qualidade. Então hoje estou aprendendo a ouvir com qualidade. (Daniele)
Ser multiplicador também obteve um sentido mais claro aos educadores, assim como se mostrou neste encontro. Transcendeu-se a visão de servir o outro em suas necessidades, mas passou-se a buscar a construção da autonomia com as famílias e o compartilhamento da atitude dialógica entre os educadores e famílias, passou a ser vislumbrado como a possibilidade de acontecer com as famílias entre si:
De repente um vizinho, um colega, um parente, um conhecido ela vai transmitir, olha talvez você siga esse caminho que eu aprendi, ou até mesmo procurar, pesquisar, conhecer. Acho que o curso proporciona essa abertura né? dá gente poder entender. Pelo menos eu entendo dessa forma. (Paulo)
Estar interessado no outro, em compreende-lo, ouvi-lo passou a ser entendido, não só como facilitador do trabalho do educador, mas também como o meio pelo qual a autonomia do outro pode ser co-construída, através da compreensão do outro e em seguida, de poder elucidar seu problema à ele.
(...) ouvir o outro tem duas questões que estão ligadas, o ouvir e o fazer. Um olhar atento, você está ouvindo entendendo a necessidade de cada um e o que essa pessoa poderia fazer por ela mesma. (Paulo)
Ao invés de indicar um caminho você vai até (...) procurar os meios que ela possa buscar solução pra ela. Então a partir do momento que você está ouvindo, você vê que você as informando, ou encaminhando a pessoa, está fazendo com que ela se mexa, com que ela se mobilize também pra sua própria causa. (Paulo)
O outro também pode ser permitido cuidar de si, com os multiplicadores se colocando como “apenas” como suporte:
Essa clareza de não fazer pelo outro, a não ser que a pessoa seja incapaz, mas em geral tem muita essa dificuldade entender isso. Entender quando a pessoa incapaz e mesmo a pessoa seja incapaz, o núcleo familiar dela tem alguém que é capaz. Então como você vai articular com o grupo, com as pessoas ali, e você servir de apoio, ajudar a articular mas com essa clareza que
71 entendi a questão mas sempre encontrar a solução ou o grupo encontrar a solução e conversar com mais alguém, mais alguém e formar um grupo que seja bom, ao tom, com autonomia, com independência. (Pedro)
Mas essa clareza veio com mais força agora. Isso é muito importante. Eu atendi um caso nesse final de semana que ... fico olhando, eu também não checo alternativa. A pessoa está no ciclo de violência mas eu tenho clareza que fiz o meu papel. Mostrei os caminhos do ponto de vista institucional, vai procurar (...) dela enfrentar aquela situação, aquela armadilha que ela está ou não. Sei que o problema é dela, quero ajudar mas é o meu limite. Então ela... a vida foi encurralando ela numa situação que ou ela corre o risco ou ela aceita aquilo lá e vai se desdobrando né? Antes eu ficava meio que sofrendo, eu não sofro. O papel está claro isso aqui. Agora a decisão a vida foi levando a pessoa a chegar nesse ponto. E é ela que vai ter que decidir se vale a pena correr o risco pra enfrentar essa armadilha que ela está. É uma presa ou não. Não sou eu que vou ter que ir lá e: olha eu sou o senhor... ninguém vai por a mão nela. Não existe isso. (Pedro)