No território de Vila União, conforme consta em estudo da RMSF, os processos participativos na saúde são tecidos de maneira sistemática, mas contraditória, ora como manifestação para o coletivo, ora como reflexo de espaços institucionalizados nos quais o papel das pessoas que os compõem é o de materializar interesses por vezes próprios (SOUSA et al., 2009).
Vila União foi se constituindo a partir de um movimento de luta por moradia na década de 90 e as necessidades sociais iniciais que permearam a ocupação do território foram intensas e transformadas a partir da participação compromissada de seus moradores.
Conforme consta em Mendes (2007), a Vila União surgiu em 24 de agosto de 1991 como uma extensão do bairro vizinho, chamado Terrenos Novos, quando 50 famílias sem moradia ocuparam uma área improdutiva da antiga Fazenda Mucambinho. O próprio nome do território é permeado de sentidos para seus moradores e representa a história da organização e união que resultou na comunidade. Cabe destacar que o movimento não teve o apoio da prefeitura, que na época era administrada por José Parente Prado (OLIVEIRA, 2007).
No documentário “Sobral no Plural” (2010), Osvaldo Aguiar, ambientalista e liderança comunitária, um dos participantes do movimento de surgimento da Vila União destaca que vários bairros de Sobral foram construídos mediante ocupações irregulares e permeadas por trocas de favores para construção das casas. Particularmente sobre a Vila União, destaca que sua ocupação foi organizada por um grupo de pessoas do bairro Alto da Brasília com dificuldade de moradia. Oliveira (2007) em sua monografia intitulada “Revelando a Participação em Vila União,
bairro do município de Sobral” ressalta que as pessoas eram advindas principalmente do bairro da Expectativa. Destaca ainda que não havia na época um consenso de quem detinha a posse das terras.
Osvaldo Aguiar no documentário Sobral no Plural (2010) relembrou que durante o movimento no bairro foi criado o Cartório de Deus, local onde diariamente ocorriam reuniões para direcionar o trabalho do dia seguinte e sortear os lotes para moradia. A liderança aproveita a oportunidade para citar dentre outros problemas antigos e atuais enfrentados pelo território, a poluição do ar emitida por uma Fábrica de Cimento que fica instalada no bairro. Destaca que muitas famílias foram obrigadas a sair de lá por problemas respiratórios e que a comunidade luta pela instalação de um filtro para minimizar a emissão de poluentes.
Oliveira (2007) em pesquisa realizada com duas lideranças comunitárias - Maria Valdete Silva, conhecida como Maria dos Tijolos (tinha esse apelido, pois quando chegou em Vila União, durante o movimento de ocupação, tinha uma pequena olaria e vendia os tijolos para a construção das primeiras casas da comunidade) e Antônio Barbosa Oliveira, conhecido por Barbosa, evidenciou que o planejamento do bairro foi todo realizado de maneira participativa, tendo a planta inclusive sido planejada para que atendesse às necessidades dos moradores. Revela que na noite do dia 24 de agosto, aproximadamente duzentas pessoas ocuparam a área da Vila União e rezaram de mãos dadas em um grande círculo no local onde hoje se encontra em fase de conclusão, a Praça da Juventude13. O local era utilizado também por moradores do bairro Terrenos Novos e foi preservado, dado a sua utilidade. Após este episódio, os lotes foram sorteados e cada morador construiu suas casas com poucas condições financeiras. As primeiras eram de taipa, sem muita estrutura. Na época da ocupação, não se sabia ao certo quem detinha a posse dos terrenos, havia relatos que pertencia à União, à UVA, enquanto outros afirmavam que era um terreno da Secretaria de Agricultura.
Na perspectiva de reivindicar melhorias na infraestrutura da comunidade como direito, foi criada em 1994, a Associação dos Moradores de Vila União (ASMOVIU), tendo o
13 O projeto Praça da Juventude foi criado em 2007 com o objetivo de levar equipamento esportivo público e
qualificado para a população e tornar-se referência para a juventude. É uma área de convivência comunitária onde são realizadas também atividades culturais, de inclusão digital e de lazer para a população de todas as faixas etárias. Fonte: http://www.esporte.gov.br/index.php/institucional/secretaria-executiva/praca-da-juventude
líder José Ribamar Rodrigues como primeiro presidente. Algumas conquistas foram fruto das lutas a exemplo da água, da luz e o do Posto de Saúde (OLIVEIRA, 2007).
Mendes (2007) destaca que Padre Sadoc de Araújo teve significativa participação na educação do bairro. Foi responsável pela construção do prédio da escola ABC da Vila União e a luta pela construção da Igreja da Bíblia, iniciada em 2004. Em 2008 foi implantado na estrutura física do Polo ABC o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), porta de entrada para atenção à Política de Assistência Social do Território (SOBRAL, 2012).
De acordo com Oliveira (2007), parte das necessidades de infraestrutura da comunidade e fortalecimento da administração pública foi respondida em 2000 com o Projeto de Urbanização, o PROURB. O Projeto tinha como interlocutores, o Banco Mundial, o Governo do Estado, a Prefeitura Municipal e a população beneficiada. Foi desenvolvido na comunidade entre 2000 e 2003, tendo beneficiado 1.200 famílias com reconstrução de casas de taipa, urbanização, esgotamento sanitário, drenagem, pavimentação, sistema de água e energia além de prever a construção do Posto de Saúde e de uma igreja. Para que o financiamento do PROURB fosse efetivado, Oliveira (2007) destaca que havia a necessidade de vinculação a uma Associação Comunitária. Daí surgiu a Associação Nova Jerusalém em 2000, tendo como presidenta “Maria dos Tijolos”. A construção das casas ocorreu pela própria comunidade, sendo o material disponibilizado pelo projeto. O PROURB ofereceu cursos de carpintaria, construção civil, almoxarifado e instalações prediais e teve término em 2003.
Tendo como objetivo produzir elementos para compreender a história local e como vive a comunidade da Vila União, em 2008, a Turma da RMSF da qual fiz parte, realizou durante o processo de Territorialização uma pesquisa junto a moradores antigos do bairro. Os resultados do estudo foram organizados em cinco eixos: formação da comunidade, percepção sobre o bairro, principais atividades culturais e de lazer, saúde do bairro e cuidados com a saúde.
A investigação evidenciou que a participação emerge como estratégia para o desenvolvimento de uma consciência autocrítica e para a realização da cidadania, mas também para uma cultura de controle, reprodução de interesses muitas vezes apenas individuais e desmobilização social. Apontou ainda, o surgimento de novos arranjos participativos na saúde não institucionalizados, a exemplo dos grupos juvenis. No que se refere à formação da Comunidade da Vila União, os informantes afirmaram que a maior parte dos terrenos da
comunidade foram adquiridos por meio de doações, ocupações e compra por baixos preços. Os nomes de vários lideres comunitários como “Maneco” Manoel Vieira Linhares foram lembrados pelos moradores como figuras de destaque nesse processo. A pesquisa constatou que alguns moradores também migraram de outras localidades como a Serra da Meruoca e Massapê para morar na comunidade (SOBRAL, 2008).
Na pesquisa acima citada, moradores antigos afirmaram que havia fragilidade na estrutura de Vila União, sendo as primeiras moradias de taipa, papelão e lona. A água era obtida em um chafariz, localizado em um território próximo chamado Junco, e os terrenos eram cobertos por vegetação e alagadiços. As mudanças só começaram a ocorrer após a criação da Associação Comunitária. A chegada do Posto de Saúde foi fruto de reivindicações de moradores que tinham que se deslocar até os Terrenos Novos para cuidar de sua saúde. De acordo com os depoimentos, agentes comunitários (as) de saúde e enfermeiros (as) do PSF dos Terrenos Novos, que residiam na Vila União, fizeram um levantamento das necessidades da população e enviaram relatório para a secretária de saúde de Sobral reivindicando uma unidade de saúde no bairro (SOBRAL, 2008).
Assim, o primeiro Posto de Saúde foi inaugurado na comunidade em 1999, próximo à Fábrica de Cimento, porém era de difícil acesso. O secretário de saúde de Sobral na época, Odorico Monteiro, conheceu a unidade e observou a necessidade de transferi-la para outra localidade. Assim, no ano seguinte, foi transferida e em 2008 foi iniciada a construção de uma nova estrutura física para o CSF (SOBRAL, 2008). O novo CSF, Dr. Antônio de Pádua Neves, foi inaugurado em 2009 e surgiu através dessa real necessidade da comunidade por uma atenção à saúde qualificada (SOBRAL, 2012).
Com relação à institucionalização da Participação Social nos serviços de Saúde da Vila União, em 23 de março de 2005, foi criado o conselho local de saúde, a partir de uma integração entre a equipe de saúde e a população, objetivando uma melhor discussão das questões de saúde do bairro (SOBRAL, 2008).
Sobre o CLDSS de Vila União, conforme consta no Relatório de atividades (2009- 2011), a primeira constituição do Conselho ao longo dos anos sofreu gradativo enfraquecimento. Contudo, em 2009, iniciou-se um movimento de revitalização. Com este objetivo, foram realizados diversos momentos formativos e de educação em saúde facilitados por lideranças locais, profissionais do CSF, da RMSF e do NASF. A partir de sua reativação, até os dias atuais,
o Conselho Local tem tido atuação ativa por meio da promoção de encontros com o propósito de fortalecer vínculos, abordar temáticas plurais e propor intervenções voltadas à promoção da Saúde no território (SOBRAL, 2011).
Em 17 de Outubro de 2009, tomou posse à última composição do colegiado do CLDSS de Vila União, instância que apesar de suas limitações tem buscado contribuir com a esperança, a cidadania e a participação social no SUS e se apresenta como experiência potencializadora de transformação social e de saúde (SOBRAL, 2011).
Segundo Sousa et al. (2009), no atual cenário do bairro Vila União, são corriqueiras as mobilizações realizadas junto à comunidade com o propósito de gerar participação nas atividades promovidas pelo setor público, setor privado, pela sociedade civil e pelos movimentos sociais. Percebe-se que o exercício da participação tem sido desenhado por vários grupos com perfis organizativos próprios e com uma singular inserção na tessitura social. Entre esses grupos vem se destacando o envolvimento da juventude, percebida como geradora de mudanças (SOUSA et al., 2009).
Em outra pesquisa realizada pela RMSF, que buscou investigar e analisar os processos de participação comunitária para lideranças comunitárias de Vila União (SOUSA et al., 2009), foi evidenciado que participação é concebida como a prática da fala, direito à vez e à voz, como exercício de cidadania e estratégia para o desenvolvimento comunitário e entendida como uma forma de manifestar-se para o coletivo.
Por meio dos discursos e das observações do estudo acima relatado, foi possível perceber que muitos jovens da comunidade apresentam uma consciência coletiva e manifestam desejo de participar e realizar algo com e para a comunidade, conforme consta a seguir:
Estes veem se organizando de forma autônoma ou mediada por políticas públicas em diversos grupos como os de dança (Grupo Swing Mix, Axé Music, Evolução Mix e de dança contemporânea do Centro de Referência de Assistência Social - CRAS), os Grupos de Capoeira do CRAS e da Associação Comunitária Nova Jerusalém, os grupos de Oração como o Kairós, o PROJOVEM, Projeto Vida que te Quero Viva, dentre outros. Vale ressaltar que esses jovens estão presentes de forma ativa em diversos espaços de participação e controle social como no Pacto Intersetorial e no CLDSS (SOUSA et al., 2009, p.24).
Dentre os grupos apontados, a pesquisa da RMSF identificou que dois deles têm uma maior visibilidade e legitimidade dentro da comunidade devido à sua atuação política e cultural no território. São eles: o Grupo Mentes Brilhantes e o Uz Brother´s (SOUSA et al., 2009).
O Grupo Mentes Brilhantes é constituído por adolescentes que têm como principais objetivos: desenvolver as potencialidades de adolescentes; fortalecer vínculos com profissionais de saúde, família e comunidade; trabalhar temas específicos de educação em saúde; desenvolver o protagonismo juvenil e melhorar a qualidade de vida de adolescentes. Já Uz Brother´s é um grupo de jovens formado por aproximadamente 28 amigos do bairro (crianças e adolescentes). Possuem um time de futebol e reúnem-se na rua e na casa de um dos líderes comunitários do bairro. Realizam festas na comunidade e participam dos encontros do CLDSS de Vila União (SOUSA et al., 2009).
Em 2009, o Projeto Ações Intersetoriais em Promoção da Saúde – AIPS, Integrante do Programa de Intercâmbio de conhecimento e Promoção da Equidade entre Brasil e Canadá identificou e potencializou experiências de Promoção da Saúde nos dois países, sendo Sobral um dos municípios escolhidos. Dentre as práticas de Promoção da Saúde evidenciadas pelo Projeto, estão os grupos de adolescentes já citados, o CLDSS e o Pacto Intersetorial entre os Territórios Vila União, Terrenos Novos e Junco (SOUSA et al., 2009). O Pacto nasceu em 2005, com a pretensão de promover um diálogo conjunto entre diversos atores sociais para promover ações integradas de interesse da comunidade. O intuito era de constituir uma rede intersetorial a partir da articulação de instituições, movimentos sociais e comunidade (DIAS et al., 2010).
A partir do debate suscitado, observamos que a trajetória histórica e social de Vila União tem sido construída dentro de um contexto importante de lutas, avanços, conquistas, mas também de desafios. Nesse cenário, diferentes sujeitos têm construído os processos participativos dentro do território.