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Uma vez que os estereótipos, carregados de uma carga preconceituosa como vimos demonstrando, são considerados reprováveis, sobretudo no que tange grupos étnicos, há uma tentativa de excluir tais usos, sobretudo em documentos que circulam oficialmente (seja em ambiente público ou privado) e na mídia. Trata-se da questão denominada do que é ser “politicamente correto” e que busca evitar que unidades lexicais sensíveis, como os etnofaulismos e outras injúrias, ou qualquer referência que denote discriminação, gerem problemas para aqueles que as utilizaram (seja o próprio autor, seja o veículo que inclui a unidade lexical em sua publicação).

Observe-se, por exemplo, no Novo Manual de Redação da Folha de S. Paulo (apud DIAS, 1996), o quadro intitulado “As palavras certas — O que a Folha considera ‘politicamente correto’” (reproduzido no Quadro 1), no qual instruções explícitas quanto ao que se deve usar ou não. Guias de redação e estilo dessa natureza são adotados pelo próprio jornal, mas também por outros tipos de profissionais da linguagem, entendendo-se que tais materiais configuram-se como norteadores da boa redação. 63

“un ensemble de traits censés caractériser ou typifier un groupe, dans son aspect physique et mental et dans

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son comportement. L’utilisateur du stéréotype pense souvent procéder à une simple description, en fait il plaque un moule sur une réalité que celui-ci ne peut contenir”

“Os italianos são grandes gesticuladores”

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“Os povos selvagens são cruéis”

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Chamamos a atenção para a inclusão de “alemão” entre o conjunto “preto”, “crioulo”, “escurinho”,

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“moreno”, “de cor” a ser evitado. A menos que o autor do manual estivesse se referindo a uma forma irônica de se referir a um negro, ou mesmo a algum lapso de sua parte, fica evidente que, em momento algum, se menciona que “alemão” deve ser evitado para se referir a uma pessoa cuja pele é de cor branca. Veja-se ainda que os ocidentais figuram no quadro (“amarelo”, “japa”, “china”, “polaco”), mas referências pejorativas a pessoas brancas não se fazem presentes na listagem, o que, segundo nosso entender, revela preconceito da parte do autor.

ANTES DE ESCREVER… … VEJA SE VOCÊ NÃO QUER SIMPLESMENTE DIZER…

…MAS TAMBÉM NÃO EXAGERE, ESCREVENDO…

bicha, veado, fresco, boneca, traveco, sapatão, ela calça 42

homossexual, travesti, lésbica gay (significa feliz), alterado, safista

preto, crioulo, escurinho, alemão, moreno, de cor

negro afro-brasileiro, cidadão do tipo negróide

aleijado, aleijão, defeituoso, deformado, retardado, mongolóide, débil mental

deficiente físico ou mental (e procure informar com precisão o tipo de deficiência)

portador de deficiência física ou mental, indivíduo diferentemente qualificado, irregular na

conformação

amarelo, japa, china, polaco coreano, japonês, chinês, polonês cidadão da República Popular da China

pé-rapado, pobretão, salário- mínimo, roto

pobre, pessoa com baixa renda (mas o melhor é informar com precisão a renda)

desapercebido, desvalido, miserável, paupérrimo, oprimido pelas necessidades, descamisado milionário, milhardário, magnata,

bacana, tubarão, ricaço

rico, empresário, pessoa de alta renda (mas o melhor é informar com precisão a renda)

bem-assistido, ter meios para viver folgadamente, nababo, plutocrata, abastardo, de posses, argentifero comuna, vermelho, subversivo comunista, socialista, social-

democrata, de esquerda (conforme o caso)

pessoa que está com as forças progressistas

reaça, reacionário, retrógrado tradicionalista, conservador, liberal (conforme o caso)

defensor intransigente da economia de mercado, amigo da paz e da ordem

(de) menor, pirralho, moleque, fedelho, baixinho, diabrete

criança, adolescente criancinha, fofurinhas, anjinho, gracinha, criaturinha,

pequerrucho, efebo velho, decrépito, senil, gagá,

velhote, mais pra lá do que pra cá, esclerosado, Matusalém

idoso (mas o melhor é informar a idade exata da pessoa)

ancião, terceira idade, idade de ouro, idade da razão, homem de dias

papa-hóstia, carola, beato, igrejeiro padre, religioso crente, adstrito a profunda espiritualidade, dado às coisas da igreja

gata, gatinha, boneca, tesão, broto, biju, tentação

mulher bonita, atraente deusa, uma Helena, princesa

nortista, paraíba, piauizeiro, retirante, cabeça-chata, pau-de- arara

nordestino, paraibano, piauiense
 oriundo da região Nordeste da nação

caipira, capiau, mocorongo, provinciano, jeca, matuto

interiorano, morador do interior
 proveniente da região do interior do Estado

judiar, denegrir maltratar, desacreditar
 escarnecer, macular

chato, pentelho, carrapato, grude, mala

aborrecido, desagradável, inconveniente, intrometido

fastidioso, impertinente, indivíduo sobremaneira irritante, pessoa desprovida de senso de conveniência

A diferença de uma obra como o dicionário e um jornal ou um documento oficial é óbvia, mas é importante salientar que a exclusão de tais termos no primeiro não é uma possibilidade dado o próprio caráter da obra lexicográfica que é o de descrever o léxico de uma língua. Por outro lado, jornais e documentos oficiais podem prescindir de tais termos já que seu discurso tem outros fins.

Hughes afirma que muito “do politicamente correto está relacionado com mudança de atitudes enraizadas e linguagem baseada em estereótipos ofensivos que derivam de preconceitos coletivos, folclore e ignorância.” (HUGHES, 2010, p. 40). 64

O mesmo autor ainda aponta que é

[…] irreal esperar que a linguagem politicamente correta substitua as ásperas palavras estabelecidas da língua natural e a fala cotidiana. […] Mas o seu uso público é tabu, o que é certamente um avanço. O politicamente correto age, assim, como um censor, lembrando as pessoas das sensibilidades humanas e coletivas, que deveriam ser respeitadas. “Respeito” é de longe a palavra-chave. Mas uma das ironias da história é que o politicamente correto tenha emergido em um tempo em que respeito é percebido, de forma contundente, como algo em declínio. (HUGHES, 2010, p. 293) 65

Dessa forma, é igualmente ilusório pensar que os dicionários podem deixar de descrever os etnofaulismos. Isso se dá, não por uma ausência de respeito para com a sociedade

nanico, pigmeu, pintor de rodapé, gabiru, anão de jardim, salva-vidas de aquário

baixo (mas o melhor é informar a estatura exata)

indivíduo de estatura inframediana, pessoa prejudicada verticalmente

balofo, baleia, gordão, bolão, armário, elefante

gordo (mas o melhor é informar o peso exato)

pessoa avantajada, indivíduo de vastas reservas energéticas selvagem, pele-vermelha, bruto indio povos da floresta, silvícola,

aborigene fujão, maricas, amarelão, poltrão,

mundão, cagarolas

medroso, covarde timorato, ignavo, pusilánime, indivíduo extremamente acautelado

pivete, trombadinha criança ou adolescente infrator jovens amigos do alheio

ANTES DE ESCREVER… … VEJA SE VOCÊ NÃO QUER

SIMPLESMENTE DIZER…

…MAS TAMBÉM NÃO EXAGERE, ESCREVENDO…

“A great deal of political correctness is concerned with changing ingrained attitudes and language based on

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offensive stereotypes deriving from collective prejudices, folklore, and ignorance.”

“It is unrealistic to expect politically correct language to replace entirely the coarser established words of

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natural language and everyday speech. […] But their public use is taboo, which is certainly an improvement. Political correctness thus acts as a censor, reminding people of human and communal sensitivities which should be respected. “Respect” is very much the key term. But it is one of the ironies of history that political correct- ness should have emerged at a time when respect is very much perceived as being on the decline.”

ou os grupos étnicos envolvidos, mas por respeitar a língua e suas múltiplas faces, as quais nem sempre são as mais agradáveis.

Benzer Belgeler