A aceitação constitui passo final para a formação do contrato. O oblato ou destinatário da proposta deve efetivar sua manifestação de vontade para a consecução do contrato, aceitando ou não. O contrato nasce e se forma quando o
oblato adere à proposta. O efeito principal da aceitação não é somente vincular o aceitante, mas também prender o policitante, que a partir de então se liga ao contrato. A aceitação é, portanto, a complementação da policitação.
Entre presentes, a proposta deve ser aceita de imediato ou no prazo estabelecido. Não ocorrendo a manifestação de vontade daquele que seria o aceitante, a proposta deixa de ser obrigatória.
Entre ausentes, a aceitação deve chegar ao proponente dentro do prazo marcado, e, chegando atrasada e não mais interessando ao proponente o negócio, deve este dar ciência negativa ao aceitante, sob pena de arcar com perdas e danos (artigo 430 do Código Civil 202) por agir maliciosamente. Assim é porque somente o proponente teria condição de certificar o atraso da aceitação e, por outro lado, evitaria que o aceitante, apesar da incerteza que pudesse ter quanto a esse fato, tomasse providências que, ao final, se mostrariam desnecessárias.
Pode ocorrer que o aceitante, ao receber a proposta, faça modificações, o que é tido como nova proposta ou contraproposta, e esta, então, para se impor sobre a proposta inicial, teria que cumprir novamente todo o trâmite
Há casos em que a aceitação, se recepcionada, constituiria manobra inaceitável visando à realização do negócio, violenta a vontade do oblato, como no caso do consumidor.
Outro exemplo, corrente na literatura e que desnatura a configuração de negócio jurídico, é a que se refere ao jornal que envia um exemplar à uma pessoa, informando que a não devolução desse constituíria-se em assinatura. Ora, é
202 Art. 430. Se a aceitação, por circunstância imprevista, chegar tarde ao conhecimento do proponente, este comunicá-lo-á imediatamente ao aceitante, sob pena de responder por perdas e danos.
indubitável que a pretensa vinculação não significa manifestação de vontade, não obrigando, portanto, a devolução do jornal não encomendado. A remessa do jornal é tida como gratuita e mera propaganda. O proponente não tem amparo legal para impor a falta de resposta como fato consubstanciador da aceitação de sua oferta.203
O tema conclusão de contratos, quanto ao instante em que as partes passam a ficar vinculadas e o contrato começa a produzir efeitos jurídicos, desperta grande interesse.
O contrato é concluído quando:
Entre presentes, o contrato reputa-se concluído no instante em que o solicitado, a quem foi dirigida a proposta, emite a sua aceitação; a doutrina é firme e não existem dúvidas a respeito.
Entre ausentes (por carta, telegrama, radiograma ou mensageiro), existe um lapso de tempo entre a manifestação da vontade do aceitante e o conhecimento dela pelo proponente. Nesse caso, em que momento se opera a conjugação das vontades, em que momento se aperfeiçoa o contrato?
Acerca dos contratos concluídos entre ausentes, levantam-se dúvidas e dificuldades, que não se
apresentam ao pensamento em outros casos de manifestação de vontade.204
São estas as teorias a respeito da questão:
A teoria da cognição ou da informação exige o concurso das vontades do policitante e do aceitante, formando-se o vínculo obrigacional no momento em que aquele se inteira da aceitação deste.
A teoria da agnição ou da declaração é aquela para a qual o contrato
se aperfeiçoa no momento em que o aceitante manifesta a sua anuência, porque nesse exato instante se efetiva a convergência de vontades.
Essa teoria se subdivide em três orientações:
a) a teoria da declaração propriamente dita, como primeira orientação, assenta que a relação obrigacional constitui-se no momento em que o aceitante formula a resposta, escrevendo a carta ou redigindo o telegrama;
b) a teoria da expedição ou da transmissão, como segunda orientação, é aquela para a qual não basta escrever a resposta, é preciso remetê-la ao proponente, postando-a ou transmitindo-a. Realizado esse ato, presume-se que o contratante fez tudo quanto estava ao seu alcance para externar a aceitação. O contrato considera-se, pois, formado, com a expedição da resposta favorável;
c) a teoria da recepção, como a terceira orientação, é aquela em que o contrato se forma quando a resposta chega materialmente às mãos do policitante.
204 idem, ibidem, p. 20.
Nosso Código Civil, pelo que dispõe o artigo 434205, filiou-se à teoria da agnição ou da declaração, em sua modalidade da expedição, pela qual não basta escrever a resposta favorável; é preciso remetê-la.
Há exceções à teoria da expedição como as estatuídas nos números II e III do artigo 434 do Código Civil. A primeira é criação da vontade das partes, que poderão convencionar aguarde o proponente a resposta do aceitante; o momento consumativo do contrato será então o da recepção, e não o da expedição.
A outra exceção é injustificável: se há prazo estipulado para a resposta, o contrato estará perfeito no momento da expedição; se o prazo é para a chegada da resposta, reger-se-á a hipótese pelo n. II, já examinado.
2.6. EFEITOS DOS CONTRATOS
2.6.1. Noções Gerais
O contrato tem como efeito inicial criar obrigações para as suas partes integrantes e por isso, ao mesmo tempo, acaba vinculando-as juridicamente. O contrato, assim como as declarações unilaterais de vontade, os ilícitos e a lei, constituem fonte de obrigações e, de conseqüência, seus efeitos são também de natureza obrigacional.
205 Art. 434. Os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação é expedida,
exceto:
I - no caso do artigo antecedente;
II - se o proponente se houver comprometido a esperar resposta; III - se ela não chegar no prazo convencionado.
Esses efeitos, derivados do vínculo jurídico, surgem com força obrigatória e com relatividade, podendo, neste último caso, atingir terceiros alheios ao contrato.
Os efeitos jurídicos decorrentes da obrigatoriedade do contrato vêm do vínculo convencionado pelas partes. O contrato torna imperativa, como se lei fosse, a estrita observância do avençado. Firmado o contrato, as partes são obrigadas a observá-lo e cumpri-lo, sob pena de execução ou responsabilidade por perdas e danos.
Tem-se o contrato, também, como irretratável e inalterável, e isso significa que a parte não poderá, por si só e ao seu arbítrio, desvincular-se do pacto. O rompimento do liame só poderia ocorrer sob consentimento das partes envolvidas no contrato. Pode ocorrer, também, com certeza raramente, que o contrato contenha cláusula que possibilite ao contratante alterar ou desvencilhar-se do convencionado pela sua única e exclusiva vontade e, ainda, arrepender-se e retirar-se se houver previsão contratual expressa acobertando a pretensão. Outra hipótese, assaz referida na literatura, é a do fiador sem limitação de tempo (Código Civil, artigo 835 206), que pode se livrar da garantia, mesmo silente o pacto sobre o referido aspecto,
já que o efeito resulta do comando do próprio texto legal207. O contrato também poderá ser desfeito, materializando o arrependimento autorizado por lei, no campo das relações de consumo, quando o consumidor dele desistir, dentro de sete dias,
206 Art. 835. O fiador poderá exonerar-se da fiança que tiver assinado sem limitação de tempo, sempre que lhe convier, ficando obrigado por todos os efeitos da fiança, durante sessenta dias após a notificação do credor.
contados de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço (artigo 49 da Lei 8.078/90 208).
O contrato faz lei entre as partes, como comumente se diz, e como essa assertiva constitui decorrência de efeito da obrigatoriedade, infere-se que a sua interpretação se faz como se se estivesse interpretando um texto de lei propriamente dito. É uma imposição absoluta emanada da obrigatoriedade do contrato, cedendo apenas nos casos de imprevisão, pela cláusula rebus sic stantibus, ou na ocorrência de força maior ou caso fortuito.
Pelos efeitos do contrato quanto à sua relatividade, busca-se estabelecer os limites das conseqüências do avençado pelo prisma das partes ali envolvidas. Normalmente, o contrato faz lei entre os integrantes, sujeitando apenas as suas partes constituidoras e não alcançando terceiros que ficam fora de sua órbita, sem proveitos e sem prejuízos.
Todavia, há pessoas que poderão, eventualmente, mesmo não integrando o quadro contratual, sofrer a repercussão de seus efeitos. Faz-se referência aqui à obrigação contratual que é passível de transmissão ativa e passiva aos sucessores a título universal e particular das partes. A esse respeito, são substanciosos e pertinentes a lição e os exemplos vindos a lume pela pena da insigne mestra Maria Helena Diniz:
208 Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
O contrato – exceto se “intuitu personae”, se o direito for vitalício, ou, ainda, se os contraentes estabeleceram que a morte será causa de sua extinção – poderá atingir pessoas que não o estipularam, como, p. ex., os sucessores a título universal, tanto em relação ao crédito como em relação ao débito. O débito e o crédito transmitem-se “causa mortis” ao sucessor universal, que se investirá em todos os direitos creditórios e em todas as obrigações decorrentes do ato negocial, seja ele herdeiro testamentário ou “ab intestato”. Todavia, quanto ao passivo, será de bom alvitre ressaltar que a herança responderá pelo pagamento das dívidas do “de cujus”, mas, feita a partilha, cada herdeiro só se responsabilizará proporcionalmente à parte que lhe couber na herança (CC, art. 1.997). Portanto, o herdeiro não responderá por encargos superiores às forças da herança; incumbe-lhe, porém, a prova do excesso, salvo se existir inventário, que a escuse, demonstrando o valor dos bens herdados (CC, art. 1.792).
Os sucessores a título universal não são terceiros; logo, o fato de assumirem, na relação jurídica, a posição do falecido não constitui, propriamente, exceção ao princípio da relatividade dos efeitos do contrato, mas, como eles não estipularam, na verdade estão submetidos
a conseqüências jurídicas que não provocaram pessoalmente.
Os sucessores a título singular, como aquele que do cedente adquiriu um ou vários direitos determinados, ou como o legatário, a não ser em situações excepcionais, previstas em lei, são alheios ao contrato.209
Estende-se a autora citando outros exemplos e hipóteses, igualmente ilustrativos e esclarecedores.