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Os meios criados pela Igreja da Nova Espanha para controlar a ortodoxia da doutrina cristã e as práticas religiosas, de certo modo, causaram uma ruptura com as práticas religiosas antigas. Não houve uma negociação entre as culturas que se chocaram, as imposições do Concílio não permitiram isso.

3.3.1 – Ruptura com o nascimento indígena

A assembléia conciliar estabeleceu que nenhum batismo fosse realizado nas casas, somente na Igreja da paróquia, dialogando com o primeiro capítulo lembramos que no nascimento indígena descrito por Sahagún (2000), a cerimônia era realizada na casa dos pais da criança. Com as instituições do Concílio esta prática fica proibida. Outra prática religiosa antiga referente ao nascimento indígena que se rompeu foi a consulta aos adivinhos, que no capítulo quinto também é proibida pelas constituições:

Que ninguno vaya a los sortilegos, o encantadores o adevinos (…) Estabelecemos y mandamos que de aqui adelante, todas las personas que usaren de los dichos sortilégios, encantaciones, y advinanças, o de otros malefícios, o con los tales sortilegos, o adevinos se aconsejaren, o fueren a ellos, o participaren en su delicto, en qualquier manera: de mas de todas las

otras penas en derecho en tal caso estatuídas, los unos y los otros incurran en sentencia de excomunion y pena de cincuenta pesos de minas. (MONTÚFAR, 2007,capítulo 5, p. 4)

Consultar adivinhos, prática que era fundamental para os índios fica por definitivo proibido pela normatização conciliar. Além de proibir a consulta de adivinhos, as constituições do Concílio também colocavam como protagonista do sacramento do batismo o sacerdote e não mais a parteira, portanto, a assembléia conciliar rejeitou aspectos cruciais das práticas antigas, impôs novas práticas e puniu quem não as cumpriu.

3.3.2 – Ruptura com a confissão indígena

Já na administração da confissão cristã, o protagonista deixou de ser o penitente e passou a ser o sacerdote confessor, ou seja, o penitente estava em segundo plano e o sacerdote reafirmava a autoridade da Igreja sobre o fiel. Dele foi exigido todo um preparo, exames de teologia e da língua dos índios, dentre outras coisas. A confissão tornou-se um sacramento de extrema importância porque era um indicador do fracasso ou do sucesso do processo evangelizador, sendo um mecanismo de controle acima de tudo. As regulamentações do Concílio rompem com mais uma prática religiosa antiga.

3.3.3 – Ruptura com o casamento indígena

. Este caráter de ruptura também se encontrava na administração do matrimônio. No casamento indígena era muito importante a iniciativa dos pais em negociar uma boa boda ao filho (a) e, para tanto, consultava-se o professor da escola dos índios populares para se obter a autorização da saída da instituição, consultava-se o principale para obter a permissão da boda e aconselhava-se com o adivinho para escolher o melhor dia para a cerimônia. Com o Concílio ficou estabelecido no capítulo setenta e dois: “(...) que ningun yndio, principal o qlquier estado y calidad q sea no de su autoridad muger a nadie, ni ponga impedimento a ningun macegual, para que se pueda libremente casar com la muger, que quisiere...” (MONTÚFAR, capítulo 72, p. 35). Para que ocorresse o matrimônio, o jovem popular não dependeria mais da opinião dos principales, pois ele passou a ser um

sacramento livre, que só dependia da licença da autoridade do clero. Vemos uma ruptura com a comunidade indígena que havia perdido o controle dos ritos cruciais da vida do índio para o clero. A justificativa da assembléia conciliar era a liberdade que o sacramento do matrimônio deveria ter, no entanto, não havia liberdade alguma se o índio precisava pedir licença para se casar à Igreja paroquial.

Constatamos que o Concílio Provincial criou um primeiro ordenamento eclesiástico, definindo direitos e obrigações, tratando dos ministros eclesiásticos e estabelecendo penas para as transgressões. O Concílio não se limitou a revisar disposições, mas criou um corpo legal que buscava resolver todas as questões e todas as dificuldades da Igreja na Nova Espanha. O desejo dos religiosos, dos clérigos e dos bispos que participaram do Concílio parecia ser, através dos poderes públicos alcançados, o de guiar o domínio espanhol dentro da justiça cristã. O Concílio causou, através de suas constituições, uma ruptura com as antigas práticas religiosas dos índios, porque afirmava sua autoridade, diminuindo a mediação da comunidade nos momentos mais importantes da vida do índio.

A normatização conciliar propôs-se a romper com as práticas religiosas antigas dos índios, mas reavaliou a primeira evangelização, dando continuidade ao trabalho que as juntas eclesiásticas iniciaram. Tentou utilizar modelos europeus, vistos através da análise do Concílio de Sevilha de 1512, que influenciou muito a reforma do clero. Mas quanto a esse movimento conciliarista ocorrido na América, e não nos referimos somente ao Concílio do México, mas também ao Concílio de Lima realizado anos antes, que se deu sob influência do que Dussel denomina como “... tradição hispánica pré-tridentina (que configurará por una parte a la Iglesia anti- luterana, y por outra a la cristandad hispanoamericana que dará espaldas al mundo protestante) y el Concílio Tridentino” (1979, p.197), que apareceu nos capítulos do Concílio através da reforma do clero. Mas, na história da Igreja universal existia algo novo: a existência do homem americano - o índio. Portanto, os modelos de conversão europeus não eram apropriados a uma sociedade indígena ritualizada, nem mesmo pode-se afirmar que a prática sacramental apresentou-se adequada à cristianização do México naquele momento. Contudo, não houve negociação entre as culturas, sendo que o choque foi brutal. Possivelmente existiram permanências causadas pelo processo de aculturação, mas que ocorreu sem o consentimento da cultura colonizadora, por isso sem negociação.

O Concílio de fato respondeu às práticas religiosas antigas referentes ao nascimento, à confissão e ao casamento através das regulamentações das práticas sacramentais. Esta resposta causou uma ruptura com a continuidade cultural indígena, ruptura que já havia iniciado com a conquista, mas que se intensificou com as legislações impostas pela nova ordem. Para a assembléia conciliar todas as práticas indígenas eram passíveis de suspeita, porque o episcopado temia esta continuidade cultural que muitos cronistas religiosos afirmaram estar enraizada nos povos destas terras. Era objetivo do Primeiro Concílio Provincial Mexicano através de suas regulamentações padronizar todas as práticas religiosas e se fosse necessário até mesmo os cantares, as danças seriam padronizados, como vimos no capítulo sessenta e seis, para que se evitasse qualquer recaída dos índios às antigas práticas denominadas pelos colonizadores como idólatras O objetivo era apagar da memória indígena qualquer referência às suas antigas divindades.