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ALTINCI BÖLÜM

A cena que por ora queremos apresentar, como já frisamos anteriormente, mantém uma sincronia, uma espécie de “segundo ato” em relação a um prólogo, sendo que, o público desse “segundo ato” ao invés dos representantes da modernidade científica, aparece agora uma turba ansiosa por diversão espetaculosa.

Ao chegar à cidade mais próxima, encontrou Zaratustra grande quantidade de povo reunido na praça do mercado; pois lhes fora prometido que iriam ver um funâmbulo. E Zaratustra assim falou ao povo: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo? Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal, em vez de superar o homem? (...) Depois de proferir essas palavras, tornou Zaratustra a olhar para o povo e guardou silêncio. “Lá estão eles rindo”, disse ao seu coração; “não me compreendem, não sou boca para esses ouvidos”. (NIETZSCHE, 1981, p. 28-33

Indo ao vale e abandonando o topo ensolarado da montanha onde viveu dez anos, Zaratustra deseja esbanjar o seu excesso de luz. Cansou-lhe a condição de isolamento, afastado dos homens quer agora reencontrá-los e dar a eles um presente. Descendo a montanha encontra o homem santo que o previne do perigo desse encontro e diz: “Não vás para junto dos homens, e fica na floresta! Vai ter, antes, com os animais!” (NIETZSCHE, 1981, p. 29). Mesmo prevenido, ainda assim Zaratustra insiste em prosseguir seu percurso e sozinho fala de si para si: “Será possível? Esse velho santo em sua floresta, ainda não soube que Deus está morto!” Ao adentrar a praça, ocupar o espaço público da cena, Zaratustra já deixou atrás de si toda a idealidade transcendente. Após a morte de Deus, Zaratustra deseja invocar uma nova possibilidade, uma nova luz no mundo, não mais a glorificação do outro mundo, mas a suprema possibilidade do Além-do-homem. O velho Deus está morto, o sol de todas as certezas se apagou. Por isso incorremos no perigo de transformar a vida em uma contínua passagem pelo pântano, onde permaneceremos adoradores de espectros num eterno ritual de expiação. Não mais imolamos o animal, não há mais deuses a quem possamos oferecer sacrifícios, além do mais, esse ato nos parece por demais indigesto. No entanto, permanecemos compulsivamente lavando as mãos na tentativa de eliminar os sinais de nosso crime. Corremos o risco de transformar a banalidade em crença e o enfado como sentido da existência, sintomas de um toedium vitae.

E é de forma entusiástica que ele anuncia o Além-do-homem como a suprema possibilidade do homem se autossuperar e criar “algo acima de si mesmo”. Zaratustra tomado por um phátos febril, em uma linguagem profética numa tonalidade quase ditirâmbica anuncia que o homem deve ser superado, “Onde está o raio que vos lamba com sua língua? Onde a loucura com que deveríeis ser vacinados? Vede, eu vos ensino o super-homem: porque é ele esse raio e essa loucura!” (NIETZSCHE, 1981, p. 31).

Zaratustra abre a cena como o anunciador da morte dos antigos valores culturais em prol de uma nova tábua valorativa. A destruição dos ultramundos, e seus representantes modernos vem junto com novas exigências culturais. Agora é chegado o momento do homem

legislador, um fruto amadurecido pelo caminho. Estamos expostos a um grande risco, ou uma

experiência jamais vivida pelo homem em termos de grandiosidade criadora, ou o amesquinhamento de nossa espécie. A condição para uma transvaloração dos valores instituídos já se deu historicamente, a partir de então é preciso tomar pelas mãos as consequências desse ato.

A estética de composição da arquitetura cênica se configura através das máscaras conceituais do funâmbulo, o bufão, o próprio Zaratustra e os espectadores que estão à espera de assistir ao espetáculo. O campo do jogo cênico é a praça do mercado, onde uma corda estendida entre duas torres se acha suspensa acima do povo. Depois de trazer à luz seu ensinamento, num tom entusiasmado de quem cultivou o melhor fruto para partilhar, Zaratustra se ver ridicularizado pela multidão que se encontrava na praça. O povo grita chamando pelo funâmbulo, afinal a presença de todos ali está associada não ao pronunciamento inconveniente de Zaratustra, pois aqueles que ali estão não deixaram seus lares em busca das palavras ameaçadoras daquele “prenunciador do raio e uma pesada gota de nuvem”, o povo estava ali para assistir a um espetáculo, algo que abrandasse, ainda que momentaneamente, a fadiga e o tédio em que estavam mergulhadas suas vidas. A turba estalando a língua e fazendo algazarra clama a Zaratustra: “Transforma-nos nesses últimos homens! E nós te damos de presente o super-homem!” (NIETZSCHE, 1981, p.35). Podemos perceber imediatamente o fracasso que vive Zaratustra logo em seu primeiro contato com a civilização depois de deixar o alto de sua montanha, como ele mesmo diz: “Demasiado tempo, decerto, vivi na montanha, por demais escutei os córregos e as árvores: falo com eles, agora, como os pastores de cabras” (NIETZSCHE, l981, p. 35).

Quando Zaratustra encontra o velho santo na floresta logo após ter deixado sua caverna se pergunta: “Será possível? Esse velho santo, em sua floresta, ainda não soube que

Deus está morto!”. (NIETZSCHE, 1981, p. 29) O reino do velho santo tem um portal na

entrada e nele está escrito uma pergunta: “Que é...?”, essa é a pergunta colocada por todo aquele que deseja determinar a essência. É uma pergunta própria da filosofia platônica, pois está aí implícito o desejo de sempre conhecer “que é o Belo?”, “que é a Justiça?”, há nessas perguntas um pressuposto de distinção entre o que é belo apenas por acidente e que por isso mesmo está em devir, e o que é Belo necessariamente, lançando dessa forma uma dicotomia hierárquica entre ser e devir. Deleuze esclarece essa questão que começa pelo que é?;

A questão que é? Prejulga o resultado da pesquisa, supõe que a resposta é dada na simplicidade de uma essência, mesmo que seja próprio dessa essência simples desdobrar-se contradizer-se etc. (...) Por exemplo, quando Nietzsche pergunta quem, ou de qual ponto de vista, em vez de “o quê”, ele não pretende completar a questão

que é?, mas denunciar a forma dessa questão e todas as respostas possíveis a essa

questão. Quando pergunto o que é?, suponho haver uma essência atrás das aparências, ou pelo menos, algo último atrás das máscaras. O outro tipo de questão, ao contrário, descobre sempre outras máscaras atrás de uma máscara. (DELEUZE, 2006, p.152)

Portanto, temos aqui um personagem que tomaria para si a máscara do niilismo negativo. O velho santo que louva e canta para Deus. Para ele o mundo e os homens representam um perigo, “coisa demais imperfeita”, por isso, a solidão do santo da floresta tem uma qualidade diferente daquela vivida por Zaratustra, para o primeiro a solidão é um isolamento, é um evadir-se da história, do contato e do atrito com o mundo, já Zaratustra, abandona a segurança de sua caverna por pressentir o perigo do niilismo reativo como fruto nefasto do advento da Morte de Deus. Sua solidão é partilha, tanto quanto sua descida até ao mundo do mercado. A tarefa de Zaratustra é apresentar o fim da crença nas oposições de valores como um processo finalizado, sendo que é preciso imediatamente dar continuidade a esse processo, radicalizá-lo. Por isso Zaratustra não interroga sobre o homem, não interessa para ele à pergunta sobre “quem é o Homem”, a pergunta fundamental para ele é quem pode superar o homem, como o homem poderá ser superado, a exigência de novas perspectivas e não de substitutos valorativos.

O Além-do-homem situa-se nessa ultrapassagem que no dizer de Deleuze, instaura uma nova maneira de sentir, de pensar e principalmente de avaliar. Transvaloração pressupõe uma destruição de todos os valores até então conhecidos, esse é o traço incontornável do criador, por isso Zaratustra quer quebrar as tábuas dos valores vigentes e convida discípulos

que também queiram. É preciso querer perecer, querer ser superado que é uma forma de destruição ativa, não é possível dizer “sim” sem que antes se tenha experimentado a potência do “não”; “Honro as línguas e os estômagos recalcitrantes e difíceis que aprenderam a dizer: “eu” e “sim” e “não”. Mas mastigar tudo e tudo digerir é bom para os porcos!”. (NIETZSCHE, 1981, p. 200) Essa atitude de sempre dizer “sim” é a atitude do asno32, é o sim que assume todo o peso, o sim da convicção que não sabe dizer “não”:

O Asno não sabe dizer não; mas em primeiro lugar ele não sabe dizer não ao próprio niilismo. Recolhe todos os seus produtos, carrega-os no deserto e lá os batiza: o real tal qual é. Por isso Nietzsche pode denunciar o sim do asno: o asno não se opõe de modo algum ao macaco de Zaratustra, não desenvolve outro poder a não ser o de negar, responde fielmente a esse poder. Não sabe dizer não, responde sempre sim, mas responde sim todas as vezes que o niilismo enceta a conversação (DELEUZE, 1976, p. 152).

A afirmação dionisíaca precisa ser precedida por uma negação, essa negação tem a qualidade de uma autonomia, não é o poder de negar expresso pelo ressentimento, mas o poder de negar expresso pela máscara leonina, o “não” mais curvar-se, o “não” mais seguir outra lei que não seja a minha própria vontade, esse é o “não” que proclama autonomia. Com a metamorfose do camelo em leão, o “não” se tornou sagrado, e é na afirmação desse negar que acontece a última metamorfose.

A exuberância e a afirmação leonina transmuta-se em inocência, plena afirmação dionisíaca que é devir-criança. O devir não comporta uma história, pois a criança-devir é a sua atmosfera de inocência que não assegura nenhuma finalidade ou correspondência do antes com o depois, nenhuma causalidade vinculada. A finalidade é uma invenção como uma pedra de um jogo que se marca para delimitar uma regra da brincadeira. A pedra rola e se atinge uma meta qualquer, então podemos contar como alcançada, ou então a pedra se perde e outra alcança primeiro a meta que também é inventada. Mas tudo fora delimitado por quem brinca. Não há nada antes ou depois que tenha determinado o rolar da pedrinha pintada, seu atingir ou extraviar-se. Apenas um jogo de esconde e amostra. Toda inocência está em lance nesse jogo, toda inventividade de criança. Ninguém é responsável, nenhuma causa primeira pode ser

32

O papel do asno na quarta parte de Zaratustra representa o animal de orelhas compridas, estúpido, o que diz “sim” como forma de assumir o peso dos valores cristãos. O animal que assume como convicção o que parece ser mais óbvio. É comum por parte dos intérpretes de Nietzsche associar o asno ao “povo”. No entanto, Salaquarda, em seu artigo “Zaratustra e o Asno” reserva uma interpretação bastante original para a figura do asno. Segundo ele “o asno é apenas em aparência objeto passivo de caricatura e ridicularização. Na verdade, ele é altamente ativo, na medida em que atua “a partir de dentro”. O asno não precisa atuar de fora, porque há muito já atua naqueles que o caricaturam do exterior”.

acusada, nenhuma meta última pode ser deduzida a partir dela, nenhuma responsabilidade acusada.

Benzer Belgeler