Na consulta de número 1, Mônica (dois dias após a perda) relata a dolorosa experiência de vivenciar o velório de Clara. Em dado momento, introduz as seguintes manifestações sobre Deus que lhe parecem novas, diferentes do que costumava sentir:
De repente, tu sai de uma experiência como essa, acreditando que isso é uma das coisas que valem a pena na vida, um mundo de laços, de relações, de vínculos, ali sim eu senti a presença de um amor muito grande, um Deus vivo, verdadeiro. Isso nos sustentou pra enfrentar tudo aquilo. Um Deus que não se mostra com palavras, que não é falado, é experimentado, é uma experiência no coração das pessoas, no nosso, foi muito intenso, não tem como explicar.
A paciente traz uma noção de Deus sustentador associada à definição da presença de um amor no coração das pessoas, Deus como expressão e manifestação vincular, a constituir uma espécie de rede de suporte, sugerindo acolhimento e, de algum modo, um cuidado protetivo.
Deus aqui aparece como que manifestado pelas pessoas, através das pessoas; é um relato que também sugere o quanto para a paciente o ritual fúnebre tornou-se importante como experiência, um espaço que lhe trouxe a sensação amparadora de comunhão.
E, ainda, na intensa e desconfortável experiência impactante do funeral, revela uma manifestação relacionada a dados positivos, ou seja, é possível pensar que Mônica, ao trazer, nesse momento, sua experiência sobre a noção de Deus, amplie o aspecto funcional psíquico previsto objetivamente para um ritual, como ponte para organizar ou demarcar as mudanças entre o convívio no passado da
família com Clara e no presente que agora se impõe com a privação da presença da jovem.
Interessante é notar que a paciente não fala da presença/ausência de Clara ou do amor de Clara através das pessoas, mas de Deus e de um amor cuja presença ou experiência não sabe explicar.
Em meio a um evento que demarca uma repentina e traumatizante ausência, a morte da jovem nora, Mônica sente nas pessoas uma forte presença que nomina de “Deus vivo”. Pode-se pensar, então, que, de certo modo, no ritual fúnebre, a vida adentra a morte a partir dessa presença viva de amor que a paciente experimentou, e, a qual chamou de Deus. Esse parece ser o conceito de Deus com que a paciente adentra o processo de luto, uma vez que se passaram apenas dois dias da notícia da morte de Clara; um Deus vivo e dentro da vida.
Deus para Mônica é, então, percebido dentro do rito de despedida de Clara, fator que parece alargar, de algum modo enriquecer, as funções de auxílio e enfrentamento da perda, técnica e inicialmente previstas para um rito fúnebre.
Esses aspectos apontam para duas concepções: quem é Deus? (como Mônica sente sua manifestação em meio à despedida da jovem) que a leva próxima da concepção teológica; uma sensação de amparo e comunhão.
Compreender Deus através dos tempos esteve sempre no centro do desenvolvimento teológico. Pode-se pensar que a mais alta especulação sobre Deus atinge o mesmo objeto que a fé simples de um fiel.105 E o acesso à maneira como essa fé se dá, se esclarecido, pode enriquecer de compreensão teológica as diferentes proposições que se desenham, também no intuito de discriminar o que está em torno da verdade e o que não está.
No entanto, ao longo do tempo, essa busca implicou uma travessia de posições muitas vezes impróprias, uma crítica de elementos ingênuos, mágicos ou antropológicos. Sabe-se que a Teologia tem a tarefa de despreender o conceito de Deus das metáforas, de entrelaçamentos narrativos e contradições textuais.106 Nesse viés, aqui se pretende uma busca similar, embora a partir da expressão e das vivências da fé dos pacientes a serviço de uma compreensão teólogica sustentável e o mais idônea possível também no transcurso do luto.
105
LACOSTE, J. Y. Dicionário crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola, 2004. p. 533. 106 Idem.
Teólogos como Boércio, Dionísio e Anselmo107 lembram que distinguir imagens de Deus no que são somente rastros, vestígios mais ou menos apagados, discriminando nomes próprios e metafóricos, estranhos ou impróprios; discernindo as perfeições absolutas, melhores que suas negações, e que podem lhe ser atribuídas, das perfeições mistas que podem relacionar-se a certos seres, porém não a Deus, é fundamental.
Na experiência de Mônica, o conceito de Deus chama a atenção à associação com a palavra amor, compondo uma espécie de definição daquilo que a paciente sente por Deus no início do enlutamento. Não é uma comunicação de Deus com ela diretamente, mas um através de, através das pessoas, logo, pelo que experimenta.
Na Teologia bíblica, de acordo com estudos sobre o Antigo Testamento, é possível compreender que Deus manifestou-se de muitas maneiras, por isso existem muitas ambivalências, misto de obscuridade e clareza, as quais a análise dos narradores não deixa ocultar.108 É possível pensar que tais ambivalências são também o efeito de que Deus acompanha as crises e mudanças da humanidade: “Deus assume estranhamente as trevas do homem, como se não pudesse curar senão acompanhando-o.” 109
Nesse sentido, existe uma semelhança com a definição de Mônica quando relata Deus como sustentador. Sentiu-o próximo de si, naquele momento, de algum modo dentro daquilo que experimenta, não um Deus acima ou fora do que vive. Isso, de certo modo, pareceu-lhe novo e a auxiliou a enfrentar o ritual fúnebre. Do ponto de vista terapêutico, torna-se um fator facilitador.
Em rigor, pode-se pensar uma correspondência na perspectiva de Deus-
amor expresso por Mônica, como o único a tocar, a alcançar todos. Outro aspecto
equivalente está em Paternidade divina, cujas definições envolvem: “Deus é vivente. Deus é santo. Deus ama.” 110
E, por último, ainda no que corresponde ao Antigo Testamento sobre as definições de Deus, está o atributo Deus do excesso, aquele que oferece amparo, não um simples acompanhamento, denotando sua natureza a oferecer 107 Idem. 108 LACOSTE, J. Y. Dicionário crítico de Teologia, p. 526. 109 Idem. 110 Idem.
discernimento, fidelidade, compaixão, misericórdia e não cólera como o homem, menos ainda aos sofredores.111 Atributos esses que se aproximam das palavras de Mônica.
No Novo Testamento, Deus é conhecido em vivência, também na manifestação daqueles que propagam a Boa-Nova (o Evangelho), quando Deus se dá todo ao seu Filho Jesus.112 É Jesus na unidade e unicidade divinas que revela Deus e suas características: amor, fidelidade, perdão e entrega.
Pode-se pensar que para Mônica, nesse primeiro momento, inusitadamente, Deus surge dentro do rito fúnebre como uma experiência, não como um conceito teórico, pois se nota nela um esforço na tentativa de definir com a ajuda de palavras algo que sente e que também, de algum modo, transforma um momento doloroso, de pesar, obscuridade e densidade, em abertura, na percepção de que dentro do impacto, da morbidade e da violência da morte, uma luz adentra manifestada em vida e amor no coração e nas atitudes que observou nas pessoas que com ela ali se encontravam.
Parece que Mônica enfrenta as trevas experimentadas na despedida fúnebre de Clara atravessando-as, ou seja, mergulha, entrega-se, vive e sente a densidade dos momentos dolorosos e nisso sua perspectiva de enfrentamento se transforma, assim como o momento. O rito para Mônica torna-se uma espécie de travessia iluminada pela certeza de uma presença amorosa, a qual define, em vista das pessoas e dentro do momento vivido, de Deus.
Sabe-se, também, a partir de estudos preciosamente desenvolvidos pela Patrística, a exemplo de Irineu e Gregório de Nissa, que Deus (como Pai) não pode ser definido sem que sejam também definidos seu Filho e seu Espírito. O Filho não pode ser nomeado sem que o mundo e os homens estejam inclusos, porque Deus é amor (I Jo 4,8-16) e amar o homem constitui sua marca distintiva.113 Essa parece ser a sensação de comunhão que Mônica relata ter sentido. Portanto Deus, como a paciente esforça-se por definir em sua experiência, de fato mostra-se pessoal, próximo, e isso condiz com a ideia de Emanuel, Deus dentro da história, Deus
conosco, Deus que irradia seu amor pelos homens e promove comunhão.114
111 Ibidem, p. 527. 112 LACOSTE, J. Y. Dicionário crítico de Teologia, p. 527. 113 Ibidem, p. 529. 114 Idem.
Do ponto de vista psíquico, conhecer muda o que era antes conhecido, conhecer Deus desse modo, nesse contexto, muda para Mônica o esperado no ritual fúnebre e a faz refletir profundamente. Assim, também, se pensa que o conhecimento de Deus muda o ser humano como conhecido em seu meio, como se conhecia, e ao mundo.
Parte da maneira como Mônica define Deus na despedida de Clara refere-se a uma experiência de Deus dentro da crise, do rito, da dor que vivenciava; Deus está no seu discurso como alguém que emerge com eles. Pode-se pensar que é um conceito aqui menos antropocêntrico, moral ou afetivo do que prático. Talvez essa seja também sua surpresa. Nessa perspectiva e na da Teologia moderna, há uma importante aproximação com as contribuições de Moltmann.
Em Moltmann, na obra O Deus crucificado, o abandono das realidades do mundo sustentam grande parte do que inicialmente Mônica expressa, pois, ao compreender a despedida de Clara na presença de Deus, a paciente encontra sentido para o evento e o integra à vida. Moltmann escreveu:
Essa ferida continua aberta, mesmo na melhor das sociedades concebíveis. Ela só pode ser curada pela presença do sentido em todos os eventos e relacionamentos da vida. [...] A presença e morada de sentido é chamada de a presença e morada de Deus [...]. Se Deus é tudo em todos, o homem e a natureza têm parte na plenitude de sentido e na potencialidade de Deus. [...] Em uma situação de desamparo por Deus e de insensibilidade, o conhecimento da presença oculta de Deus no Cristo desamparado na cruz, já nos dá coragem de ser, apesar do vazio e de todas as experiências aniquiladoras. [...] Assim sendo a coragem de ser se torna a chave para ser. A fé se torna a esperança para uma plenitude significativa. 115
Para o autor o medo, a frieza, a apatia e a fuga fazem parte do ser humano, e a esperança é resposta e presença divinas; não uma esperança exclusivamente futurística, mas uma expectativa resistente, que, diante da dor não a nega; padecente, porém perseverante numa situação em que nada mais se pode fazer para evitar a desgraça. Uma força, uma atitude combativa para o cinismo e a indiferença, uma expectativa prática diante de uma entrega que, no abatimento, torna-se esperança autêntica uma vez que promove viver de cabeça erguida e uma abertura a um novo começo.116
Embora a paciente não traga Cristo na escuta, quando relata o que sentiu utiliza palavras e expressões fortes, tais como: Deus vivo e verdadeiro;
115
MOLTMANN, J. O Deus crucificado: a Cruz de Cristo como base e crítica da Teologia cristã, p. 414‐415. 116 MOLTMANN, J. A vinda de Deus: escatologia cristã, p. 251.
experimentado; isto nos sustentou e foi muito intenso, parece estar se referindo a uma força, agudeza e vigor que Moltmann também chama de fé e esperança.
Em Moltmann a comunhão corresponde também e do ponto de vista antropológico, a um conceito terapêutico, comunitário, visto que as pessoas colocam-se em respeito, compreensão e amor umas ao lado das outras, silenciam, choram e juntas experimentam amparo e conforto para viver o momento difícil.117 É também o que aponta o teórico sistêmico Bowlby, uma vez que a comunhão pode então ser compreendida como o sinal de uma saudável vinculação afetiva, promovendo segurança diante do enfrentamento de dificuldades. É o que sugere claramente o relato de Mônica.
No entanto ao trazer Deus, como percebido naquele momento, faz a paciente referir-se à comunhão cujo conceito amplia o sentido antropológico, um fator que promoveu a passagem pelo ritual fúnebre não apenas de modo mais confortável e seguro, mas alargando sua consciência na direção de pensar as relações, a vida, o mundo e o amor, um amor diferente, chamado Deus e que parece nutrir – carregar de significado – o que antes lhe parecia esvaziado e obscuro.
Por isso, talvez, traga a expressão: “não tem como explicar”, pois Mônica refere-se a uma profunda e transcendente vinculação que para ela parece ultrapassar o que conhecia, sente ser de outra ordem. É uma aproximação, uma presença, naquele grupo e em todos, que lhe pareceu existir como sendo de alguém mais, alguém maior.
4.2.2 Análises do conteúdo teológico do Caso A – segundo recorte contido na