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A efetiva afirmação dos direitos humanos nos contextos pós-conflito somente ocorrerá a partir das mudanças efetivas na forma de vida dos cidadãos locais e na relação destes com os poderes estatais. Assim, grande parte dos esforços internacionais dedica-se ao monitoramento do respeito aos direitos humanos formalmente consagrados em suas cartas políticas, conforme práticas consagradas nas relações internacionais.

Este monitoramente é refletido nos diversos relatórios publicados pelas organizações internacionais em operação no local e, nos mais das vezes, de acesso facilitado pelas ferramentas da internet. Além disso, a proteção dos direitos humanos está intimamente ligada ao fortalecimento dos sistemas de justiça capaz de processar os abusos de poder, desvios de conduta e violações dos direitos fundamentais. É desta forma que os sistemas de justiça são considerados vitais para as operações de paz em curso, sobretudo pela capacidade que lhe é inerente de garantir a proteção dos direitos humanos.

Nos termos da publicação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos - ACNUDH intitulado Rule of Law Tools for Post-Conflict States –

Monitoring the Legal Systems afirma-se que:

a efetiva transformação de um sistema de justiça disfuncional em um que corresponda aos padrões internacionais fundamentais é um processo extremamente longo e difícil. Reformas efetivas necessitam de uma avaliação detalhada e progressiva do funcionamento do sistema e uma fotografia clara dos seus problemas. Um monitoramento consistente do sistema legal para o cumprimento das leis domésticas e dos padrões internacionais de justiça confere aos tomadores de decisão informações específicas e precisas que eles necessitam para mirarem estrategicamente os recursos para as reformas baseadas mais no que realmente necessitam do que nos desafios imaginados (UNHCHR, 2006a, p. 1).

Para as missões das Nações Unidas, deverão ser observados os princípios e padrões internacionalmente aceitos como as bases normativas para as atividades da justiça e da afirmação de um estado de direito. Em relatório do Secretário Geral, afirma-se que essa fundação normativa faz parte da integração aos quatro pilares do sistema jurídico internacional moderno, além da Carta, quais sejam, os direitos humanos internacionais, o direito criminal internacional, o direito internacional humanitário e o direito internacional dos refugiados (UNSG, 2004, p. 5). A publicação do ACNUDH (UNHCHR, 2006a) ressalta os princípios da não-discriminação e tratamento igualitário, como o acesso à justiça e o tratamento justo das vítimas, acesso aos remédios legais previsto nas leis locais, procedimentos procedimentais e materiais justos, ausência de impunidade para crimes do direito internacional e uma administração da justiça independente e imparcial.

Assim, as equipes destacadas para o monitoramento dos direitos humanos deverão ter claras as bases legais vigentes naquele sistema, diante de possíveis conflitos de lei, sistemas jurídicos sobrepostos, tratados e acordos internacionais firmados antes e depois da instalação de um novo regime, assim como resoluções do Conselho de Segurança. Destaca- se a existência de três substratos legais que deverão ser conhecidos para se realizar o monitoramento: o sistema civil, constitucional ou estatutário, o sistema religioso e o sistema tradicional e suas práticas costumeiras.

O sistema tradicional deve, assim, ser integrado à análise dos sistemas de justiça, sobretudo em sua contribuição com os sistemas alternativos de resolução de conflitos. Suas normas reconhecidamente tendem à manutenção da coesão comunitária embora, por outro lado, haja a tendência de desfavorecer grupos desempoderados, como as mulheres. O monitoramento deverá relatar e fazer recomendações sobre a possibilidade de essas práticas serem legalizadas, se ainda não oficializadas, ou adequadas para estarem em conformidade com a proteção legal aos princípios internacionais e domésticos de justiça (UNHCHR, 2006a).

Outro aspecto crucial no monitoramento do sistema de justiça, além de fornecer ferramentas estratégicas para a aplicação dos recursos e treinamento, é a garantia da credibilidade da população nas políticas do governo que permita o progresso social e identifique, como um sinal de alarme, o ressurgimento de possíveis situações de um contexto de conflito.

O monitoramento é realizado por unidades específicas das missões nos países, com mandatos idealmente definidos pelo Conselho de Segurança, no âmbito das operações de paz, mas também como base de trabalho de ONGs. No Timor Leste está presente o

Judicial System Monitoring Programme, uma ONG nacional e internacional, que elabora

relatórios freqüentes e temáticos sobre o funcionamento das cortes nacionais, bem como dos sistemas tradicionais, e de justiça de transição e Comissão de Verdade, Reconciliação e Justiça. O monitoramento também é realizado pela Seção de Direitos Humanos e Justiça de Transição (anteriormente, Unidade de Direitos Humanos, mas também pelo Escritório de Assuntos Legais da missão, que acompanhava o desenvolvimento do sistema jurídico).

No caso do Afeganistão, a Unidade de Direitos Humanos recebeu o mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas para assessorar as instituições afegãs na proteção e promoção dos padrões internacionais de direitos humanos, assim como auxiliar a própria missão das Nações Unidas a integrar aspectos de direitos humanos em seu trabalho, garantindo que a própria missão obedeça os seus preceitos. A Unidade de Direitos Humanos enfatiza cinco assuntos principais: proteção de civis, violência contra mulher, justiça de transição, liberdade de expressão, pobreza e direitos humanos e auxilio e apoio à Comissão Independente Afegã de Direitos Humanos (AIHCR)

Embora os tratados internacionais disponham sobre os princípios de proteção dos direitos humanos a serem seguidos, inclusive com relação à administração da justiça, algumas situações práticas não previstas devem igualmente ser avaliadas para que se dê respaldo aos interesses da população. Assim, o monitoramento deverá analisar questões

orçamentárias e alocações financeiras, mecanismos previstos de investigações disciplinares e sindicâncias, o processo de indicação de juízes e promotores, disseminação legal e publicidade, independência e capacitação de advogados, proteção às vítimas, e em geral, “tudo que afete a capacidade do sistema de justiça formal de garantir à população a resolução justa, eficiente e correta dos casos” (UNHCHR, 2006a, p. 6).

3.2 Reconstrução dos Sistemas de Justiça

Benzer Belgeler