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Habermas será mais um pensador a engordar a lista dos que retomam o projeto kantiano. Em 1995, na celebração do bicentenário da obra Paz Perpétua, ele procurou destacar a atualidade desse projeto, defendendo uma série de propostas no sentido de tornar juridicamente operante uma organização supranacional promovedora da paz, dos direitos humanos e da democracia165. Como vimos, na sua obra Paz Perpétua Kant acrescenta à teoria do direito público internacional uma terceira dimensão, o “direito cosmopolita”. Com o direito cosmopolita, propõe uma condição jurídica global onde os povos devem eliminar as guerras de modo definitivo, estabelecer a democracia em nível planetário e respeitar os direitos fundamentais dos indivíduos. Com o distanciamento histórico de 200 anos e não recorrendo mais aos conceitos do direito racional utilizados por Kant, Habermas reformula o ideal cosmopolita kantiano tendo em vista a situação mundial contemporânea (cf. HABERMAS, 1996c).

De acordo com Habermas (1996c), o objetivo da almejada “condição jurídica” entre os povos, proposta por Kant (1993) no encerramento da Doutrina do direito, é a eliminação da guerra: a guerra restrita, institucionalizada no sistema das potências internacionais, no âmbito do “direito das gentes”, como um instrumento legítimo para a solução de conflitos. Os tratados põem fim às guerras particulares definindo a situação efêmera de paz. Com a Paz Perpétua (1989), Kant pretende estabelecer uma aliança de paz que pretende “encerrar todas as guerras para todo o sempre”, suprimindo todos os males por ela ocasionados: desse modo, a paz é circunscrita da mesma maneira que a própria guerra (cf. HABERMAS, 1996c, p. 194). O direito “à guerra” (jus ad bellum) não é, segundo a interpretação habermasiana de Kant,

164 É, no entanto, o princípio da soberania que ainda é capaz de proporcionar uma certa proteção aos Estados mais pobres e frágeis. É decepcionante notar que mesmo um filósofo como Bobbio (que une normativismo e realismo nas suas análises) não quer ver o domínio exercercido pelas grandes potências dentro da própria organização mundial das nações, onde a Assembleia toma medidas e, posteriormente, são rejeitadas por aqueles que realmente mandam: as nações que compõem o Conselho de Segurança (ou seja, as nações que venceram a II Guerra). São essas nações que forjam os “consensos”.

165 A configuração atual da política e do direito internacional não permite tanto entusiasmo: o unilateralismo hegemônico da maior superpotência militar do planeta (os EUA), como vimos durante a administração do governo Bush, não garante a defesa e difusão mundial de argumentos jurídicos, tampouco éticos.

direito algum, já que é apenas a expressão do livre-arbítrio, concedido aos sujeitos do direito internacional de agirem na condição extralegal (condição natural)166.

Em Kant (cf. 1989), a paz perpétua é apenas um sintoma da condição cosmopolita, conceituada juridicamente. Ao fazer a distinção entre direito cosmopolita (ius cosmopoliticum) e direito internacional clássico (ius gentium), Kant enfatiza que enquanto o direito das gentes tem vigência apenas peremptória (devido a ser um direito em condição natural), o direito cosmopolita procura acabar definitivamente com a condição natural (como o direito sancionado na forma estatal). Habermas confirma a postura kantiana anterior à Paz perpétua (1989). Segundo Habermas (1996c), Kant ainda afirmava, em um tratado publicado apenas dois anos antes da Paz perpétua, que a condição cosmopolita só seria possível por meio de um direito internacional baseado em leis públicas dotadas de poder às quais cada Estado tivesse de se submeter – já que uma paz geral e duradoura, através de um equilíbrio das potências na Europa, é uma quimera. Mas, posteriormente, Kant passará a distinguir entre “Estado das nações” (ideia anterior) e “liga das nações” (ideia que passará a defender). A partir daí, Kant irá afirmar que a condição “cosmopolita” deve ser distinta da condição jurídica atinente ao interior de cada Estado: nela, os Estados devem manter sua independência em relação a um poder superior que possa coibir-lhes a agir juridicamente. Embora renunciando à guerra como instrumento legítimo para a solução dos conflitos internacionais, tais Estados devem, no entanto, manter intacta a sua soberania. No lugar de uma “república mundial” Kant passará a defender a ideia de uma “aliança” que refuta a guerra. Tal aliança surge dos atos soberanos de vontade expressos em contratos do direito internacional, eles não fundamentam quaisquer postulações legais a que os membros possam recorrer – apenas unem tais Estados em torno de uma aliança perdurável (“uma associação duradouramente „livre‟”), comparável a um “congresso estatal permanente” (cf. HABERMAS, 1996c, p.196).

Para Habermas, a construção teórica kantiana da “liga das nações” é paradoxal, já que, por “congresso”, Kant entende apenas um “agrupamento arbitrário” de diversos Estados, dissolúvel a qualquer tempo, e não uma “união” que se funda sobre uma constituição estatal. Conforme a compreensão habermasiana, Kant não foi capaz de explicar como é possível a garantia de permanência dessa união, capaz de harmonizar os conflitos internacionais, sem a obrigação jurídica de uma constituição. E, embora Kant fale em uma federação de Estados que fomente uma paz duradoura, distinta de alianças passageiras, ele defende a necessidade de

166 Como mostra Habermas, a guerra não é ainda criminalizada por Kant, mas apenas os crimes cometidos na guerra. Kant, como enfatiza Habermas, não foi ainda capaz de perceber que a própria guerra, é ela em si mesma “um crime, merecedor de censura e reprovação” (cf. HABERMAS, 1996c, p. 195).

preservação da soberania dos Estados membros, fazendo com que a resolução dos conflitos internacionais sem o apelo à guerra dependa apenas de um sentimento comum em prol desse fim almejado, mas não expresso mediante um processo. Para Habermas, é preciso que os Estados sejam obrigados a agir em conjunto no plano internacional. Sem esse “momento da obrigação” o congresso de Estados não pode se tornar “permanente”, nem a associação voluntária pode se firmar como duradoura: ela irá permanecerá atrelada a constelações de interesses instáveis e acabará por decair (como aconteceu com a Liga das Nações). Para Habermas, o explícito erro de Kant está em não fixar-se em uma obrigação jurídica estabelecida entre os Estados: Kant não entende a liga das nações concebida como uma organização com unidades coordenadas, com qualidade estatal e autoridade coercitiva, e sim como uma união moral dos governos entre si (cf. HABERMAS, 1996c, p. 196-7).

Para Habermas (1996c), embora Kant perceba tal problema, ele o encobre utilizando- se de um apelo à razão; mas ele sabia que uma aliança permanente precisava ser firmada em termos jurídicos – e não em um evento moral – carecendo de qualidades de uma boa “constituição de Estado” que, inclusive, poderia estimular a formação moral daqueles que a ela se submetem. Mas, segundo Habermas, a reserva kantiana quanto ao projeto de uma comunidade constitucional dos povos é entendível, levando-se em conta o fato de que na sua época o Estado democrático de direito recém-nascido das Revoluções Americana e Francesa ainda era exceção, e não a regra167.

Diante do contexto vivenciado por Kant, a perspectiva de uma constituição cosmopolita que não respeite a soberania dos Estados surge como algo irreal. Do mesmo modo que o próprio Kant (1989) percebe a impossibilidade de uma “monarquia universal”, por considerar que tal condução teria por consequência o “mais terrível despotismo”, Habermas (1996c) também sustenta igualmente a dificuldade de se acreditar, na época de Kant, em uma motivação moral para a criação e manutenção de uma federação de Estados livres e comprometidos em uma política conjunta de poder. Kant, como mostra Habermas, irá procurar solucionar essa problemática esboçando uma filosofia da história com intenções cosmopolitas que torne plausível a “consonância entre política e moral”, a partir de uma “intenção da natureza” ainda oculta.

167 Como mostra Habermas, na época de Kant o sistema das potências funcionava sob o pressuposto de que apenas Estados soberanos podiam ser sujeitos do direito internacional. Soberano era o Estado capaz de afirmar sua independência na arena internacional (soberania externa) e de preservar a tranqüilidade e a ordem no próprio país (soberania interna). Nesse contexto, a razão de Estado é definida por princípios de uma política de poder prudente, que inclui guerras delimitadas, e na qual a política interna fica sob o primado da política externa (cf. HABERMAS, 1996c, p.198).

A natureza pacífica das repúblicas, a força geradora de comunidades própria do comércio internacional e a função de cunho político da opinião pública são, para Kant, tendências naturais que vêm ao encontro da razão, e por meio das quais se poderia explicar porque uma aliança entre os povos poderia corresponder ao interesse esclarecido dos Estados. Não é incorreto afirmar que os desenvolvimentos dos séculos XIX e XX falsificaram as premissas subjacentes à teoria kantiana. Mas, para Habermas (1996c), se por um lado tais desenvolvimentos falsificam as premissas subjacentes à teoria kantiana, por outro lado eles depõem a favor de uma concepção de direito cosmopolita, reformulada de acordo com os novos tempos. Habermas procurará comprovar isto.

Segundo Habermas, a argumentação kantiana de que as relações internacionais perdem seu caráter belicista à medida que se impõe nos Estados a forma de governo republicano – porque as populações desses Estados, constitucionais e democráticos, movidas por interesses próprios, compelem seus governos a desenvolver políticas de paz – é refutada pela ideia de nação, conceito que Kant não conhecia em sua ambivalência. O nacionalismo – apesar de ser um veículo da transformação de súditos em cidadãos ativos que se identificam com o Estado a que pertencem – não tornou o Estado nacional mais pacífico do que o seu antecessor, o Estado dinástico absolutista. A autoafirmação clássica do Estado soberano irá ganhar conotações de liberdade e independência nacional a partir da perspectiva dos movimentos nacionais: a consciência moral republicana dos cidadãos comprova-se na prontidão em lutar e morrer pelo povo e pela pátria. A exigência kantiana de que o Estado crie um Exército próprio e permanente, no lugar da utilização de mercenários, não foi capaz de prever que a mobilização das massas para o serviço militar obrigatório (inflamadas pelo nacionalismo) iniciaria uma era de devastadoras guerras de libertação, conduzidas ideologicamente (cf HABERMAS, 1996c, p. 200).

Habermas (1996c) afirma, no entanto, que não está errada a noção de que uma condição democrática no interior do Estado sugira um comportamento pacifista externo. Embora as exigências histórico-estatísticas demonstrem que Estados de constituição democrática não travem menos guerras do que regimes autoritários – demonstram, porém, que tais Estados se comportam, nas relações entre si, de forma menos belicistas168. Para ele, as guerras travadas pela coletividade republicana assumem um caráter diferente, quando as orientações valorativas universalistas de uma população, habituada a instituições liberais,

168 Já que é assim, a solução parece ser – para Habermas (1996c) – transformar todos os outros (os fanáticos intolerantes de tradição não cristã e não ocidental) em nós (descendentes da cultura judaico-cristã, do iluminismo e humanismo europeu).

impregnam a política externa. Desse modo, a política externa é alterada, já que o uso da força militar não é determinado exclusivamente por uma razão particularista de Estado, e sim pelo desejo de fomentar a expansão internacional de formas de Estado e de governo não- autoritárias. “Mas, se estas preferências valorativas se expandem para além da percepção de interesses nacionais e em favor da afirmação da democracia e dos direitos humanos, então se alteram também as condições sob as quais funciona o sistema de potências” (HABERMAS, 1996c, p. 201)169.

Uma outra tendência natural por meio da qual se pode explicar porque uma aliança entre os povos poderia corresponder ao interesse esclarecido dos Estados é, como mostra a interpretação habermasiana de Kant (cf. HABERMAS, 1996c, p. 201), a ideia de que há uma força geradora de comunidades própria do comércio internacional. Na sua Doutrina do Direito (1993, § 62), Kant viu na crescente interdependência das sociedades, favorecida pelo comércio internacional, uma tendência que favorece a união pacífica dos povos. A intensificação das relações comerciais em expansão no início da época moderna acaba por formar um mercado mundial que, segundo a opinião kantiana, deveria fundamentar através do proveito próprio mútuo um interesse pela garantia de relações pacíficas entre os Estados.

Quanto a esse argumento, Habermas afirma que a história agiu de maneira igualmente dialética; há, portanto, erros e acertos nesta postulação. Na compreensão habermasiana, Kant ainda não havia aprendido, como aconteceu com Hegel após a leitura dos economistas ingleses, que o desenvolvimento capitalista iria descambar em um conflito entre classes sociais que ameaça a presumível disposição para a paz demonstrada pelas sociedades políticas liberais. Kant, como afirma Habermas, também não pôde prever que as tensões sociais, fortalecidas no decorrer de uma industrialização capitalista acelerada, iriam onerar a política interna com a luta de classe e direcionar a política externa a um imperialismo belicoso. Os governos europeus utilizaram-se, durante todo o século XIX e início do século XX, dessa força proporcionada pelo nacionalismo com o intuito de desviar os conflitos sociais para fora do Estado e de neutralizá-los através dos êxitos proporcionados pela política externa (cf. HABERMAS, 1996c, p.201).

Para Habermas (1996c), essa situação muda após a Segunda Guerra Mundial quando se esgotam as fontes de energia do nacionalismo integral, e dá-se uma pacificação bem sucedida do antagonismo de classes, promovida pelo Estado social, modificando assim a

169 “Wenn sich aber die Wertpräferenzen, über die Wahrehmung nationale Interessen hinaus, zugunsten der Durchsetzung von Demokratie und Menschnrechten erweitern, verändern sich die Bedingungen, unter denen das System der Mächte funktioniert.”

situação interna das sociedades desenvolvidas, a ponto de o entrelaçamento econômico mútuo entre as economias nacionais – pelo menos no universo da OCDE170 – poder levar a uma espécie de “economização da política internacional”, diante da qual se passa a alimentar uma forte expectativa quanto à pacificação das relações intenacionais. Hoje, afirma Habermas, os meios de comunicação, as redes e sistemas ramificados em geral compelem a um adensamento das relações sociais e simbólicas em nível global, que têm por conseqüência efeitos recíprocos desencadeados por acontecimentos tanto locais quanto muito distantes. Tais processos de globalização deixam as sociedades complexas cada vez mais vulneráveis. No entanto, os conflitos militares entre as grandes potências nucleares são cada vez mais improváveis (devido aos imensos riscos que isso implicaria), mas não os conflitos locais (que crescem assustadoramente).

A globalização, afirma Habermas (1996c), irá questionar os pressupostos essenciais do direito público internacional em sua forma clássica (a soberania dos Estados e a separação entre política interna e externa), já que agentes não estatais (como empresas transnacionais e bancos privados com influência internacional) esvaziam a soberania dos Estados nacionais. Os governos nacionais irão, segundo ele, perceber o abismo que se estabelece entre seu espaço de ação nacionalmente delimitado e os imperativos das condições de produção integradas em uma rede global, e perceber que só poderão ter ganhos com suas próprias economias enquanto puderem exercer influência por meios políticos: com a “desnacionalização da economia”, a política nacional perde o domínio sobre as condições gerais de produção e o leme que mantinha em curso o nível social. A imagem da política clássica de poder altera-se tanto mediante pontos de vista normativos complementares à política de democratização e direitos humanos, como também devido a uma difusão peculiar do poder, onde o “soft power” (a influência que se exerce sobre as condições circundantes sob as quais outros agentes tomam suas próprias decisões) recalca o “hard power”( a imposição direta dos próprios objetivos, o exercício de poder executivo ou a ameaça por meio da violência), e priva os sujeitos estatais da base de sua independência.

A situação é parecida, afirma Habermas (1996c), no tocante à questão da função da opinião pública defendida por Kant: há também erros e acertos quanto a esse postulado. Kant estava certo ao afirmar que é preciso, em uma coletividade republicana, a avaliação pública da política – de modo que ela não se baseie apenas em “torneios de prudência”171. Para

170 Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

171 Desse modo, a opinião pública civil e de cunho político tem a função de controlar ou impedir, através da crítica aberta, a realização de intenções que são avessas às máximas publicamente defensáveis. Como enfatiza

Habermas, porém, é mister ser complacente com a confiabilidade depositada por Kant quanto à força por ele depositada na filosofia, mesmo por que, embora o ceticismo histórico em face da razão surja no século XIX, é apenas no século XX que os intelectuais cometeram “a grande traição” para com ela. Mas o que importa, segundo ele, é que Kant ainda contava com a transparência de uma opinião pública visível em seu todo, marcada pela literatura, acessível a argumentos e sustentada por membros de uma camada de cidadãos cultos, relativamente pequena. Kant não pôde prever o domínio ou manipulação exercida pelos meios de comunicação de massa, tal como se dá na nossa época (cf. HABERMAS, 1996c, p.204).

Esse “véu de insciência” leva, porém, Kant a antecipar a ideia de uma opinião pública mundial, que só se configura após o evento da comunicação global. Desse modo, a comunicação dos povos da Terra torna-se tão efetiva que qualquer violação do direito ocorrida em um local do planeta faz-se sentir em todos os demais locais, fazendo com que a ideia de direito cosmopolita se torne um complemento necessário ao direito público e internacional em favor dos direitos humanos e da paz perpétua. A aproximação contínua dessa “paz perpétua” só é possível, assegura Habermas, sob a condição de haja uma opinião pública mundial em funcionamento (cf. HABERMAS, 1996c, p. 205).

As guerras do Vietnã e do Golfo foram os primeiros acontecimentos que, segundo Habermas (1996c), chamaram a atenção de uma opinião pública mundial, e que polarizaram as opiniões em proporções globais. Para ele, as “cúpulas mundiais” ou conferências organizadas pela ONU envolvendo questões de abrangência planetária [ecologia (Rio de Janeiro), crescimento populacional (Cairo), pobreza (Copenhague), clima (Berlim)] podem ser vistas como tentativas de exercer pressão política sobre os governos através do apelo direto à opinião internacional. Essa atenção é canalizada por meio de estruturas das opiniões públicas nacionais que procuram partilhar certo entrosamento. É mister, portanto, uma estrutura de sustentação que intercambie contribuições de relevância sobre os mesmos temas para que se estabeleça a comunicação permanente entre parceiros distantes no espaço. Nesse sentido, não há uma opinião pública nem de alcance europeu nem em nível global, tão urgentemente necessária. Mas o papel que organizações não governamentais como a Anistia Internacional e o Green Peace desempenham pode ser visto como forças que fazem frente aos Estados, surgidas como algo semelhante a uma sociedade civil internacional, integrada em rede e mobilizadora de uma opinião pública supranacional.

Habermas, em Kant a opinião pública ganha uma função programática à medida que os filósofos, na função de professores públicos do direito ou intelectuais, são convidados a falarem publicamente sobre as máximas da condução da guerra e promoção da paz, e à medida que sejam capazes de convencer o público de cidadãos da correção de seus princípios (cf. HABERMAS, 1996c, p. 204).

O papel da divulgação na imprensa e da opinião pública, destacado por Kant (1989), leva Habermas a pensar a coesão existente entre constituição jurídica e entre cultura política de uma coletividade, pois, para Habermas, é apenas por meio de uma cultura política liberal que as instituições da liberdade podem lançar raízes, já que é só através dela é que se concretizam avanços no processo de civilização política de uma população (cf. HABERMAS, 1996c, p. 206). Para Kant, o crescimento da cultura poderia levar a um maior ajuste em torno de princípios, da mesma forma que o uso público das liberdades comunicativas pode se transformar em processos de esclarecimento que, por meio da socialização política, afetariam o posicionamento e a forma de pensar da população. Como mostra Habermas, Kant fala da “participação afetiva no Bem, da qual nenhum cidadão esclarecido que o concebe por completo pode se eximir de ter” (HABERMAS, 1996c, p. 206). A formação conceitual dicotômica da filosofia transcendental separa, porém, a moralidade da legalidade. É devido a essa separação entre moralidade da legalidade, conclui Habermas, que Kant ignora a coesão, criada por uma cultura política liberal, entre a contemplação moral e o costume, entre a tradição e a crítica; ele não foi capaz de perceber que as práticas culturais são capazed de intermediar a moral, o direito e a política, e configurar o contexto adequado a uma opinião pública que exige processos políticos de aprendizado (cf. HABERMAS, 1996c, p. 206-7).

Habermas acredita poder reformular a ideia kantiana da condição cosmopolita para

Benzer Belgeler