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A Pré-história, ao ser abordada pelos livros didáticos, em geral é tratada como a ante-sala da História, sua introdução, e não como parte dela. Isso se deve a seu próprio conceito e a como ele é interpretado normalmente, pois a Pré-história é definida como o campo de estudos do passado mais remoto da humanidade, desde seu surgimento até o aparecimento da escrita.

(SILVA; SILVA, 2005: 342)

A epígrafe usada acima chama a atenção para dois aspectos: a forma linear do ensino de História e que a ausência da escrita em sociedades não significa que não façam História. Por conseguinte, a PréHistória é tão somente uma segmentação formal sendo necessário enfatizar conteúdo culturais, sociais e políticos de sociedades ágrafas remotas e contemporâneas.

Só para citar em um exemplo simples e conhecido por todos, a descoberta do fogo é um fato e marco histórico e foi efetuada por seres humanos sem escrita, então, como podemos conceituar as práticas dessas pessoas sem escrita?

Baseado em seus estudos de campo no Havaí e nas Ilhas Fiji, Sahlins (2006:24) diz que “não há cultura sem história. E vice-versa”. Portanto onde existe ser humano há cultura e história porque ambas são características elementares do ser humano. Nesse sentido, somente pode haver pré-história em lugares desabitados por seres humanos.

Atualmente, pela perspectiva histórica (e não só pela etnológica), a oralidade tem sido uma das fontes históricas, portanto, a modalidade da escrita deixa de ser tratada como único instrumento documental de história, tal como observam Silva e Silva (2005: 343):

A idéia de que as sociedades ágrafas, ou seja, sociedades sem escrita não teriam história nasceu com a vertente positivista da historiografia ocidental no século XIX, que enfatizava sobretudo a importância do documento escrito na produção de conhecimento. Mas desde o momento que as ciências humanas, no século XX, começaram a reconhecer que a história é

algo inerente a toda a humanidade, a idéia de que as sociedades sem escrita estão fora da história passou a ser intensamente criticada por historiadores e antropólogos.

Além dessa constatação a respeito da presença de ações históricas em sociedades sem escrita, vale dizer que nas sociedades letradas também se faz história oral a exemplo das pessoas analfabetas que não lêem e nem escrevem, mas agem socialmente porque integram instituições e trabalham, constituem famílias, pagam impostos, votam e podem ser votadas, etc, por conseguinte, são pessoas que agem na cultura porque fazem parte da sociedade dinamizando as heranças e mudanças culturais agindo e, portanto, fazendo história.

É óbvio que nas sociedades moderno-contemporâneas ditas letradas onde se praticam culturas e civilizações ocidentais, o instrumento da escrita é necessário, porém, o que enfoco é que para se fazer história não há necessidade de ser alfabetizado e nem se faz história somente por meio de documentos escritos, pois estes são tipos de registros de fatos históricos, portanto, a história não está unicamente nos livros, pois ela se encontra nos fatos praticados coletivamente pelas pessoas no passado e no presente.

O que pode ser dito é que há diferentes histórias porque são diversas as leituras de mundo que cada sociedade dispõe segundo seus modelos de organização social, o seja, cada sociedade se estrutura em perspectivas diferentes resultando, assim, diferenças de perceberem e interpretarem a existência.

Fazer história é agir socialmente no trabalho, na escola, em casa, no bairro, na rua, no condomínio, na igreja, etc; portanto, história é ação e não se restringe a fatos do passado, mas sobretudo, são fatos atuais correlacionados com aqueles porque os sistemas culturais moldam nossos comportamentos e nossas ações e são dinamizados segundo as realidades contemporâneas mudando o conteúdo dos fatos e mantendo a forma da cultura.

Individualmente temos idéias, comportamentos e desejos, mas somos inseridos a hábitos – costumes - herdados, mantidos e transformados sempre dentro de

limites de nossa cultura a exemplo do sistema de parentesco no qual não podemos casar com irmãs e nem com irmãos, ou seja, não podemos namorar parentes próximos, não podemos matar seres humanos nem roubar; dentre outras ações pré- estabelecidas por códigos jurídicos e por normas religiosas porque pecado e crime se complementam para normatizar nossos comportamentos na convivência social gerando forma e conteúdo de nossa época e de nossos espaços tanto na sociedade como na geografia.

Portanto, cada pessoa faz a sua parte na coletividade da história valendo dizer que os eventos destacados são os que têm substância significativa para a sociedade em geral, pois vale ressaltar que cada um de nós faz história, entretanto, a significação de nossos atos individuais devem estar inseridos e em conformidade com os demais atos individuais que, por sua vez, compõem o ato coletivo: histórico.

O conteúdo dos fatos pode ser analisando por meio da frase do filosofo pré- socrático Heráclito (540-470 a.C): “não se banha duas vezes no mesmo rio”, ou seja, as águas dos rios mudam constantemente, mas os seus cursos, suas margens continuam relativamente as mesmas. Esse filósofo quer dizer que nós seres humanos estamos sempre mudando, mas mantemos nossas características elementares, ou seja, por maiores que sejam as mudanças no conteúdo sempre haverá permanências de aspectos que nos caracterizarão em forma.

Numa sociedade letrada, formalista e burocrática como a brasileira, a escrita é essencial chegando, em algumas situações, a ser objeto bizarro, de incompreensão, a exemplo da exigência de apresentar a certidão de nascimento como se o papel, o documento, dissesse mais do que a própria presença da pessoa comprovando que ela, de fato, nasceu e existe, tanto é que ela se faz presente.

Benzer Belgeler