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Com o objetivo de investigar as diferenças entre as variáveis de comportamentos

preventivos (Uso do preservativo e Uso do preservativo na última relação) associadas às

diferenças no masculino e feminino, foram realizados testes estatísticos, cujas associações

podem ser observadas na Tabela 3.

Tabela 3 – Uso de Preservativo por sexo dos participantes VARIÁVEL Feminino Masculino N % N % N % Tipo de relacionamento Namoro Casamento Relacionamento Aberto 79 111 88 01 28 22 - 144 53 03 36 13 1 255 141 04 64 35 1 Tempo de relacionamento 01 ano a 03 anos 3 anos e 1 mês a 06 anos 6 anos e 1 mês a 09 anos Acima de 09 anos 65 69 34 31 16 17 8 8 106 54 32 08 27 14 7 2 171 123 66 39 43 31 16 10 Moradia Conjunta Separada 94 105 24 26 63 137 15 35 157 243 39 61 Tempo de moradia conjunta

Menos de 1 ano 1 ano e 1 mês a 03 anos 3 anos e 1 mês a 06 anos 6 anos e 1 mês a 09 anos Acima de 9 anos 16 26 26 11 09 11 18 18 7 7 11 21 19 04 02 8 14 13 3 1 27 47 45 15 11 19 32 31 10 8 VARIÁVEL Sexo TOTAL Feminino Masculino N % N % p N %

66 Na variável Uso do preservativo 12% dos participantes declararam nunca ter feito

uso do preservativo em seu relacionamento atual, sendo 60% masculinos. Em sequência,

29% alegaram terem usado apenas no início do relacionamento; enquanto a maioria (32%)

disse usar o preservativo apenas às vezes; e um total de 27% dos respondentes expuseram

sempre fazer uso do preservativo. O uso do preservativo associado ao sexo dos

participantes foi representado por um p=,07, logo, no limite da significância, revelando

uma tendência de proximidade de diferença estatisticamente significativa entre as duas

variáveis.

Referente a segunda variável, Uso do preservativo na última relação, 62%

(N=246) dos adultos jovens responderam não ter feito uso. Esta variável não apresentou

diferenças significativas entre os sexos, conforme se observa na Tabela 3. A relação entre

jovens e o uso do preservativo na última relação sexual foi estudada por Fonseca (2004)

que constatou um número considerável de jovens relatando o uso do preservativo apenas

na primeira relação sexual com suas/seus respectivas parceiras(os), dispensando-o depois,

pela confiança que passa a ter nela(e) e pela conquista da estabilidade emocional no

relacionamento.

As justificativas dos participantes referentes ao uso ou ausência do preservativo

nas relações sexuais (questão aberta 55 do instrumento) foram categorizadas por

similaridade e classificadas por freqüências de aparecimento. Na análise do Uso do

preservativo, obteve-se uma freqüência de 289 discursos, sendo 54% femininos, Uso de Preservativo Nunca Inicio relacionamento Às vezes Sempre 18 53 76 53 5 13 19 13 27 64 53 56 7 16 13 14 0,07 45 117 129 109 12 29 32 27 Preservativo Ultima relação sexual

Sim Não 74 125 18 32 77 121 20 30 0,72 151 246 38 62

67 constituindo sete categorias: Uso de anticoncepcional; Confiança no parceiro(a);

Prevenção; Método para evitar gravidez; Diminuição do prazer; Não premeditação do ato, e por último, Problemas com pílula anticoncepcional. (Tabela 4).

Tabela 4 – Categorias, frequências e porcentagens dos discursos dos adultos jovens no que se refere ao uso do preservativo no relacionamento, por sexo.

Na primeira categoria Uso de anticoncepcional, os participantes justificaram a

ausência do uso do preservativo no relacionamento pelo uso de outro método

contraceptivo, a pílula. Essa categoria foi a de maior freqüência de discursos, com um total

de f=77 (27%), sendo a maior parte feminina (16%). Para a mulher, a chegada da pílula

anticoncepcional separou o sexo da procriação, permitindo o descolamento das

experiências sexuais da gestação e até do casamento. Deste modo, este método tem

tamanha importância para algumas, devido à liberdade de escolha compensada a estas.

(Badinter, 1985). Todavia, o advento da pílula não reportou informações que culminam na

vulnerabilidade à AIDS, uma vez que este método contribui para a não procriação de USO DO PRESERVATIVO

CATEGORIAS Feminino Masculino Total f % f % f (%)

1ª) Uso de anticoncepcional 46 16 31 11 77 27

2ª) Confiança no parceiro(a) 25 9 29 10 54 19

3ª) Prevenção 31 11 23 8 54 19

4ª) Método para evitar gravidez 22 8 26 9 48 17

5ª) Diminuição do prazer 14 4 17 6 31 10

6ª) Não premeditação do ato 9 3 6 2 15 5

7ª) Problemas com pílula anticoncepcional 9 4 1 - 10 4

68 filhos, mas não impede a infecção por DST’s. A seguir, exemplos de discursos nesta categoria uma fala feminina e uma masculina, respectivamente:

“Logo no início do namoro iniciei o uso de pílulas anticoncepcionais e aos poucos deixamos de usar a camisinha.” (Fe6)

“Eu e minha namorada concluímos que o anticoncepcional seria mais interessante e cômodo.” (Ma263)

A segunda categoria, Confiança no parceiro(a), foi representada pela segunda

maior parte dos discursos (19%). Aqui os participantes enfatizaram que deixaram de usar

o preservativo porque adquiriram confiança em seus respectivos parceiros (as) com o

decorrer do relacionamento, como fica evidenciado nos exemplos de discursos a seguir:

“A fidelidade se faz presente em nossas vidas” (Fe16) “Após algum tempo de relacionamento, a confiança veio e deixamos de usar” (Fe60)

“Devido nossa grande intimidade e confiança, não usamos preservativo” (Ma310)

É perceptível, portanto, que os participantes tomados pelo fascínio da plena

completude na relação amorosa, sintonizam suas demandas na crença romântica da

confiança consistente na pessoa ideal, o que resulta na não permissão dentro do

relacionamento ao uso do preservativo, e consequentemente, em situação de

69 (2011). Foi constatado que o conceito de fidelidade confere a sensação de sexo mais

seguro ao casal, o que pode resultar na decisão em não aderir ao preservativo, por haver

confiança na díade. Logo, a solicitação do seu uso pode demonstrar suspeitas de

infidelidade. Os homens que participaram do estudo de Madureira e Trentine (2008)

alegaram ser complexo negociar o preservativo no relacionamento conjugal, pela sua

representação simbólica de traição e de desconfiança. Para eles, propor o seu uso constitui

pôr sua própria fidelidade em discussão e ambiguidades aos olhos da esposa, o que expõe

a convivência ao risco. Cruz e Brito (2000) concluem esta idéia afirmando que no lugar do

preservativo, as mulheres usam a própria fidelidade, a confiança e o conhecimento do

parceiro como uma fantasiosa forma de prevenção.

A terceira categoria, Prevenção, traz os discursos concernentes aos jovens que

assinalaram o uso constante do preservativo em suas relações sexuais. Igualando-se à

categoria confiança no parceiro, apresentou o segundo maior número de discursos (19%),

sendo a maioria feminino (11%), conforme se observa na Tabela 4. Aqui eles expõem o

uso como indispensável tanto por respeito ao parceiro(a), como por prevenção à

DST/AIDS, como expresso abaixo:

“Uso sempre, temos um relacionamento aberto, não somos os únicos parceiros um do outro(Fe165)

“Usamos sempre, é prevenção e respeito”. (Ma200)

“Acho que me protejo e protejo meu parceiro desde uma gravidez indesejada à doença corriqueira.” (Fe396)

70 É interessante observar a partir desses resultados, que os jovens apresentam a

questão da prevenção atrelada ao seu real e correto significado, isto é, o da importância do

uso ininterrupto do preservativo nas relações sexuais estáveis. Tal significado pode ser

resultado da importância dada ao leque de informações recebidas sobre questões

preventivas e reprodutivas que chegam até eles; prontamente, do entendimento das

conseqüências que estão expostos sexualmente ao não se prevenirem. Tal evidência nos

discursos pode ainda ser indício das negociações bem sucedidas estabelecidas entre o

casal, considerado este um problema crítico na epidemia do HIV, pois o sexo seguro não é

algo fácil de ser dialogado ou alcançado pelo membro interessado, criando uma zona de

silêncio, onde o receio das consequências restringe os atos. (Costa, 2007; Ribeiro, 2010;

Moura, 2011).

Apesar de 23% (109) dos jovens terem respondido “sempre” quando indagados sobre o uso do preservativo e 19% (54) terem justificado coerentemente à questão, deve-se

ressaltar a possibilidade de vieses no estudo decorrentes de respostas socialmente

esperadas em virtude das inúmeras campanhas e orientações sobre a necessidade do uso de

preservativo.

Na 4ª categoria, Método para evitar gravidez, surgiu 17% dos discursos. Aqui os

participantes reportaram que fazem o uso do preservativo sempre, todavia, com o cuidado

focado para não engravidar, sem referir-se ao cuidado preventivo às DST’s. A seguir, três exemplos de discursos que se apresentaram nesta categoria:

“É necessário, temos que prevenir a gravidez, afinal somos jovens e temos um futuro a construir” (Fe154)

“Toda vez botamos a capa de chuva. Filhos? Não pode!” (Ma367)

71

“Usamos sim, mas a preocupação é mais com filhos do que

com DST’s.” (Ma379)

As mulheres representaram esta categoria com uma frequência de 22 discursos

(8%), o que é um dado preocupante, pois apesar das recomendações e divulgações

midiáticas através de dados epidemiológicos envolvendo a feminização do HIV, ainda

encontram-se indícios evidentes da vulnerabilidade feminina ao vírus. O Ministério da

Saúde indicou que até junho de 2010, cerca de 142.316 mulheres com o vírus da

Imunodeficiência Humana (HIV) foram infectadas pelos seus parceiros. Assim, dentre os

156.067 casos de AIDS em mulheres com 13 anos de idade ou mais, 91,2% ocorreram

pela transmissão heterossexual. Entre 1980 e 2010 foram identificados 320.666 casos de

AIDS no sexo masculino. A partir de 2002, a razão passou a ser de 15 homens para cada

10 mulheres (1,5:1). (Brasil, 2010).

Na quinta categoria, Diminuição do prazer, surgiram 31 discursos (10%), em que

os participantes demonstraram que não fazem uso do preservativo devido ao incômodo ou

redução do prazer sexual que ele provoca. Vale salientar que aqui os homens apresentaram

mais discursos (6%) nesse enfoque, e as mulheres, majoritariamente em suas falas,

enfatizaram a diminuição do prazer relatada por seus parceiros, como visto nos exemplos a

seguir:

“Meu parceiro não sente prazer com camisinha.” (Fe28)

“Não usamos pelo fato dele não gostar muito.” (Fe120) “O uso da camisinha incomoda muito, é em relação à perda do estímulo, que tira um pouco do prazer no ato.” (Ma196)

72 Esses dados sugerem uma inferência acerca da forma de negociação do uso do

preservativo entre os pares, baseada na interpretação de que essas mulheres não estão

realmente abrindo mão do preservativo por elas próprias, mas sim, porque incomoda aos

seus parceiros. Em vista disso, há aqui a presença de uma escolha apoiada no princípio

romântico de passividade feminina frente à escolha do parceiro, firmada nas diferenças de

poder e gênero, construídas socialmente.

O estudo de Costa (2007) explanou resultados dentro dessa temática, em uma

amostra de 29 mulheres com faixa etária compreendida entre 15 a 24 anos, as quais

afirmaram ser contra o uso do preservativo em suas relações sexuais, cujos motivos

elencados foram: queixas relacionadas aos inconvenientes de quebrar o clima por ter de

parar para colocar o preservativo, diminuição do prazer e da sensibilidade; o incômodo

físico do ardor, alteração na ereção do parceiro; não confiar no método por poder rasgar, e

não ter preservativo à disposição em todos os momentos.

Em pesquisa com adolescentes paraibanos, Ribeiro (2010) constatou que relatos

desse tipo se tornam uma crença negativa aos jovens inexperientes sexualmente, que ao

ouvir do seu grupo de pertença a informação acerca do preservativo como inibidor do

prazer, acabam criando tabus e estereótipos, o que pode acarretar de forma significativa na

insegurança em utilizar corretamente os meios de prevenção, ocasionando uma vida sexual

ativa vinculada à DST’s.

Na sexta categoria, Não premeditação do ato, 5% dos adultos jovens se

enquadraram, afirmando que não usavam o preservativo nas relações porque na maioria

das vezes que o ato acontecia eles estavam desprevenidos, logo, não portavam o

73 vulnerabilidade social nessas atitudes, pois à medida que esses participantes estão

envolvidos em relacionamentos estáveis e com vida sexual ativa, eles têm a consciência de

que o ato sexual pode ocorrer a qualquer momento, basta estar com seus/suas

parceiros(as). Portanto, se não carregam o preservativo consigo, infere-se que é por

questões de negligência e irresponsabilidade consigo mesmo e com o parceiro(a). Os

exemplos que se seguem ilustram as colocações antecedentes:

“Usamos às vezes, por falta de preservativo no momento da relação sexual”(Fe193)

“Nem sempre posso prever quando irá ser necessário, pois existem situações inesperadas, mas sempre que possível, quando estou portando-os, faço uso dos mesmos” (Ma250)

A sétima e última categoria desta classe temática foi nomeada Problemas com

pílula anticoncepcional. Aqui 4% dos participantes, sendo a maioria mulheres,

enfatizaram que só fazem uso do preservativo por não se dar bem, fisiologicamente

falando, com o uso da pílula anticoncepcional. Os exemplos a seguir ilustram a categoria

em questão:

“Deixei de tomar anticoncepcional por questões de saúde e tivemos que adotar o preservativo” (Fe22)

“Ultimamente temos usado sempre, pois não me faz bem o uso da pílula anticoncepcional” (Fe26)

Diante do explicitado na variável Uso do preservativo, atenta-se para duas questões

de relevância considerável nesse contexto. A primeira se refere ao dado estatístico que

74 maneira errônea, isto é, sem permanência ou responsabilidade no uso, sendo representada

por um total de 73%, distribuídos desde os que nunca fizeram uso no relacionamento, os

que fizeram apenas no início do relacionamento e os que fazem uso ocasionalmente, como

já descrito anteriormente. A segunda questão relevante circunda nas justificativas

elucidadas pelos participantes acerca dessa deficiência no uso.

Compreende-se, deste modo, que a dialética conexão entre essas duas questões em

foco, transparece uma vulnerabilidade social envolta na interação de fatores culturais,

sociais e econômicos, imbricados, pois, na realidade de cada indivíduo. Assim, há um

alerta à necessidade do aumento de ações preventivas em HIV/AIDS, aludidas para um

conjunto de fatores, de níveis e intensidades diversas, como sugere Ayres et al., (2003) e

Palma et al., (2007).

Benzer Belgeler