Em primeiro lugar é de suma importância ressaltar que a pesquisa buscou atender a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre os procedimentos éticos em pesquisa envolvendo seres humanos. Nesse sentido, fora respeitada a vontade dos sujeitos em participarem ou não do estudo. Quando houve adesão, fora realizada primeiramente a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e após a assinatura do documento por ambos/as os/as envolvidos/as (pesquisadora e pesquisado/a), sendo entregue uma cópia para cada um deles/as.
No TCLE constava a autorização para a divulgação das entrevistas para fins da pesquisa (elaboração da tese, artigos e socialização dos resultados). Fora esclarecido junto aos/as pesquisados/as a preservação do anonimato, não contendo nenhuma forma identificatória dos sujeitos envolvidos no estudo durante a constituição da presente tese de doutorado. Assim, fez-se uso de códigos, tais como:
P1A, P2A, P3A, P1B, P2B, P3B, P1C, P2C, P3C, P1D, P2D, P3D, P1E, P2E E P3E; Família A e B), para a apresentação das falas dos entrevistados neste trabalho.
Além disso, no TCLE constava, de forma precisa e clara, os objetivos da pesquisa, a identificação dos responsáveis pela sua execução (doutoranda e orientadora) com seus respectivos contatos, bem como a identificação da universidade. De acordo com Silvermann (2009, p.289), são muitos os objetivos que se deseja alcançar com a garantia de procedimentos éticos nas pesquisas, nos quais se destaca:
Garantir que as pessoas participem voluntariamente; tornar comentários e o comportamento das pessoas confidenciais; proteger as pessoas de danos; garantir a confiança mútua entre o pesquisador e as pessoas pesquisadas. Serão consideradas duas maneiras de se alcançar esses objetivos éticos: diretrizes éticas, prática de pesquisa criteriosa e eticamente respeitável.
Também fora respeitada a desistência dos sujeitos que após assinarem o termo não desejassem mais participar da pesquisa, salienta-se que nenhum dos sujeitos participantes expressou interesse em desistir da pesquisa. Além disso, fora entregue a cada Secretaria Municipal de Assistência Social uma Carta de Conhecimento para a autorização da instituição para a coleta de dados, contendo no documento o título e os objetivos da pesquisa. Fora enviada também a cada Centro de Referência Especializado de Assistência Social uma Carta de Apresentação, em que constou de forma precisa e clara os objetivos da pesquisa, a identificação dos responsáveis pela sua execução (doutoranda e orientadora) com seus respectivos contatos, bem como a identificação da universidade.
O estudo também responsabilizou-se pela utilização dos dados coletados nos prontuários de cada CREAS, assinando o Termo de Compromisso para Utilização de Dados e comprometendo-se que os dados coletados serão utilizados exclusivamente com finalidade científica, preservando integralmente o anonimato dos usuários.
A devolução dos dados obtidos pela pesquisa aos sujeitos participantes, além de implicar um posicionamento ético por parte do/a pesquisador/a, favorece, segundo Bourguignon (2008), na centralidade do sujeito implicando uma maior visibilidade deste em relação a sua própria experiência e conhecimento da realidade. A devolução dos resultados obtidos pela pesquisa aos sujeitos participantes dar-se-á em três encontros que serão organizados por meio do critério de proximidade
geográfica entre os CREAS:
1º Encontro: CREAS de Miranorte e Palmas;
2º Encontro: CREAS de Paraíso do Tocantins e Gurupi; 3º Encontro: CREAS de Dianópolis.
A devolução dos dados acontecerá impreterivelmente após a defesa final da tese de doutorado, no qual participarão os sujeitos envolvidos na pesquisa: coordenadores/as, profissionais (assistentes sociais e psicólogos/as) e as famílias.
Para a realização deste estudo fez-se necessário primeiramente a sua aprovação na Comissão Científica da Faculdade de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e posteriormente o seu encaminhamento e aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa26 da respectiva Universidade, para que então pudessem ser realizadas a coleta, análise e interpretação dos dados.
O próximo capítulo desta tese busca reconstruir a categoria violência como concreto-pensando apreendendo-a como um complexo social gerido nas relações que expressam a atual sociabilidade capitalista. A investigação social sobre a violência, enquanto fenômeno que se produz e se reproduz no movimento contraditório do capital, implica não somente entende-la nas suas expressões mais imediatas, mas sim voltar-se para buscar a sua multiplicidade e as raízes sócio- históricas e ideopolíticas que estão por detrás de sua materialização.
26 O referido projeto de pesquisa possui o Certificado de Apresentação e Apreciação Ética emito pelo
3 A CATEGORIA VIOLÊNCIA: Uma análise crítico-conceitual
“Em toda a ciência o difícil é o começo.” Karl Marx
A busca por uma apreensão da violência que contemple a totalidade de suas expressões e manifestações na cena contemporânea emerge como um desafio proeminente aos (as) pesquisadores (as), em especial, nas últimas décadas, em que se evidencia uma maior produção científica de pesquisas e estudos para o desvendamento desse fenômeno em âmbito internacional. Assim, a violência encontra-se, atualmente, entre os assuntos de maior relevância social, acendendo na academia as discussões e, principalmente, às reflexões capazes de apreendê-la na multiplicidade de suas aparências e manifestações nas relações sociais.
Peremptoriamente, o estudo da violência consubstanciou-se, a partir do século XIX, no âmago das Ciências Sociais e das Ciências Humanas (antropologia, história, geografia, psicologia, etc.). Não obstante, desde a década de 1980 a Saúde Pública tem intensiva e expressivamente contribuído para a análise da violência, uma vez que um grande número de pesquisadores (as) dessa área de conhecimento vem dedicando-se ao compromisso de compreender as raízes da violência e a sua prevenção (DAHLBERG; KRUG, 2006).
As principais contribuições da Saúde Pública27 para a análise da violência
encontram-se na sua abordagem interdisciplinar para a apreensão do fenômeno, baseando a produção de conhecimentos científicos em diversas áreas, tais como: medicina, psicologia, epidemiologia, sociologia, criminologia, educação e economia.
Na presente tese de doutorado, a violência é apreendida como um fenômeno multideterminado e multifacetado, requerendo, logo, uma abordagem conceitual a partir da sua totalidade (expressões, manifestações, contexto, etc.). Tal perspectiva consiste em apreender o fenômeno, considerando as múltiplas e complexas mediações que o engendram na realidade concreta. Destarte, no presente capítulo, a violência será abordada em um processo crítico-analítico, analisando-se as
27Para Merhey (2002, p.03-
04) a saúde pública consiste em “uma prática social de saúde, que visa intervir nos problemas de saúde considerados como legítimos por uma certa sociedade e época, e efetivada através da presença do estado nacional, sob a forma de uma prática técnica comprometida com uma certa forma de produzir o cuidado em saúde, tendo como objeto a dimensão coletiva do processo saúde e doença, enquanto uma questão social”.
múltiplas possibilidades de definição do fenômeno, a partir da perspectiva marxiana, buscando-se, assim, construir uma abordagem de totalidade e abandonando concepções fechadas e fragmentárias na apreensão e explicação desse fenômeno.
Chesnais (1981, p.11) em sua obra sobre o percurso histórico da violência nas sociedades europeias nos últimos duzentos anos, adverte que:
O leitor deste livro terá a impressão de entrar num universo fragmentado, disparatado e sem grande unidade. Mas, a própria violência é que se apresenta como um fenômeno pulverizado, atingindo a vida privada e a vida pública em todos os seus aspectos, os mais visíveis e os mais secretos.
A complexificação da violência diante da atual crise do capital e as investidas neoconservadoras reveste a realidade sob o manto da fragmentação e da pulverização dos fenômenos sociais, concebidos a partir de uma ótica em que tudo é caótico, desorganizado, efêmero e desconexo. As expressões ideoculturais da crise capitalista refletem intensamente na produção do conhecimento das ciências sociais, conforme Tonet (2009, p.118):
[...] a cientificidade atual (no âmbito social) tem assumido um caráter cada vez mais manipulatório. Vale dizer, ela tem se manifestado cada vez mais incapaz de compreender a realidade como uma totalidade articulada em processo e de ir até as raízes dos fenômenos sociais. Tendo nascido sob o signo da fragmentação e da empiricidade, viu essas características se tornarem cada vez mais intensificadas.
A efemeridade e a superficialidade, na compreensão da realidade social, contribuem para que o fenômeno da violência seja apreendido a partir de uma perspectiva singular, sem as mediações necessárias para capturá-lo como produto das relações capitalistas e não como um fenômeno imediato, individual, desvinculado dos processos sociais e com fórmulas mágicas para sua “solução” na sociedade contemporânea.
A violência não é um conceito determinado pela lógica racional do ser humano, mas uma categoria ontológica intrinsecamente conexa à produção e reprodução das relações sociais e interpessoais. A violência, segundo as reflexões de Silva & Carmo (2013, p.87), “não se apresenta evidentemente como categoria central, primeira, fundante desse ser de sua sociabilidade, mas imbricada, vinculada a categorias centrais para sua sociabilidade”.
Portanto, a violência em suas múltiplas expressões sob a ordem do capital, irá incidir diametralmente na vida dos seres sociais, condicionando suas condições e modos de vida, num processo de desumanização.
Minayo (2005) considera que encerrar a noção de violência numa definição fixa e simples é expor-se a reduzi-la, a não apreender o percurso construído por esse fenômeno no âmago das sociedades. A perquirição da violência nesta tese não consiste em especular sobre uma tipologia da violência ou mesmo de generalizações de conceituações, mas sim reconstruir o fenômeno histórica e criticamente, o capturando como elemento que constitui as relações sociais e, inscrito na realidade concreta. Como salienta Silva (2006, p.34),
O problema não está em reconhecer a existência de diversas formas de objetivação e particularização da violência (aliás, reais e em nada desprezíveis), mas na incapacidade de lidar com esta categoria em sua totalidade, ou, seja como fenômeno universal que se particulariza sob dadas condições e se expressa inteiramente nas singularidades (ainda que não se revele, jamais, na sua complexidade, imediatamente).
Ao apreender a violência como um fenômeno multideterminado, sua incidência não se dá ao acaso e sua reprodução não concede apenas por um fator e, portanto, desvendar os meandros impingidos neste fenômeno requer apreender a sua totalidade e não a fragmentação ou mesmo a generalização das suas faces (VIEIRA, 2013).
A abordagem da violência, a partir da dialética marxiana, considera que a realidade dos fenômenos encontra-se em constante transformação que é resultante dos movimentos que modificam suas bases, pois a realidade não é uma petrificação de movimentos, pelo contrário, como aponta Marx (1996, p.50) é “a síntese de múltiplas determinações”, estando, portanto, em movimento e expansão. Assim, não somente a realidade está em constante transformação, os conceitos, muitas vezes considerados como verdades absolutas, como determinavam os positivistas também sofrem significativas modificações.
A violência manifesta-se numa dinâmica complexa, diversificada, concreta e material, possui uma lógica que segundo Silva (2012) não é criada abstratamente pela razão humana, ainda que possa e deva ser compreendida, descrita e analisada com o apoio do pensamento humano. Exige, portanto, uma postura investigativa que transcenda e abandone abordagens focais ou demasiadamente generalistas, é
preciso “reconhecer que a violência - como qualquer complexo social – se manifesta imediatamente nos indivíduos (seja naqueles que violentam seja, nos que são violentados), individualidades estas que sentem concretamente inúmeras carências e necessidades humanas” (SILVA, 2006, p.36).
Por isso, a violência é uma ação que atinge sujeitos inseridos em processos sociais reconstruídos sob dadas condições históricas que irão ou não potencializar ações de violência.
O mote da presente tese é a violência sexual contra crianças e adolescentes em suas múltiplas expressões, contudo, torna-se imprescindível, para sua captura, reconstruir primeiramente a categoria violência como concreto-pensado, antes de percorrer o caminho para apreensão crítica de suas manifestações contra o segmento infanto-juvenil.
Assim, a reconstrução da violência como uma categoria histórica produzida e reproduzida em suas múltiplas formas e inscrita nas relações sociais contemporâneas é essencial, possibilitando apresar as condições objetivas e subjetivas nas quais esse fenômeno se apresenta no contexto atual da sociedade de classes.
Buscando reconstruir a violência como concreto-pensado, considera-se que:
[...] o concreto é concreto, porque é a concentração de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o concreto aparece no pensamento como o processo de concentração, como resultado, não como ponto de partida e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação. No primeiro caminha a representação volatiza-se na determinação abstrata; no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento [...]. (MARX, 1996, p.410).
O objeto concreto na teoria marxiana é distinto do objeto empírico (do positivismo), uma vez que o concreto é produto de uma construção teórica, não é a coisa dada imediatamente aos sentidos. Kosik (1976, p.40) refere que “o conhecimento consiste do reflexo subjetivo da realidade objetiva”, desse modo, versa em refletir subjetivamente a realidade objetiva (construção teórica, pelo processo de abstração).
Por isso, o concreto-pensado não é o imediato, não é o aparente, mas sim a apreensão da realidade concreta em seus nexos e mediações, enquanto parte de uma totalidade de dinâmicas relações.
O presente capítulo realiza uma discussão, buscando analisar o fenômeno da violência em suas múltiplas faces, não excluindo as dinâmicas dimensões dos diferentes contextos, tempos e espaços nos quais ela se manifesta. A sua busca delimita-se em desnaturalizar e conhecer o que atualmente denomina-se violência, percorrendo, assim, conceituações clássicas e contemporâneas.
Todavia, como ressalta Marx (1996, p.129) “em toda a ciência o difícil é o começo” e quando se discute sobre violência caminha-se por um terreno árido, em que não há consensualidade ou incontroversas, mas sim uma categoria que assume na contemporaneidade múltiplos significados.
Este capítulo está estruturado da seguinte forma: primeiramente o percurso reflexivo acontece com as discussões sobre o significado etimológico da violência. Em um segundo momento, realiza-se uma breve reflexão acerca do fenômeno da violência na sociedade capitalista brasileira trazendo à luz aspectos sócio-históricos e econômicos que conformam o caldo cultural brasileiro sob a influência do dito “espírito da cordialidade do brasileiro”, que contribuiu historicamente para ocultar a opressão não permitindo que a violência se revelasse no tecido social.