Vimos acima que Freud nomeou a psicanálise como ciência empírica. Citaremos agora, outras definições que ele nos dá de sua criação: investigação científica que inclui uma “medida terapêutica” (FREUD, 1909/1980, p. 112); ciência fenomenológica93; ciência que coleciona informações psicológicas obtidas a partir da investigação de processos mentais e do tratamento de distúrbios neuróticos (FREUD, 1923[1922]/1980, p. 287) ou de perturbações nervosas (FREUD, 1926[1925]/1980, p. 302); psicologia profunda – expressão que surge, ao menos, dez vezes desde o texto “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (FREUD, 1919/2010, p. 286), até à Conferência XXXV (FREUD, 1933[1932]/1980, p. 194) –; e, ainda, ciência
93“O que pretendemos alcançar realmente, o que visa nosso trabalho? Queremos aquilo que toda ciência almeja, ou seja, compreender os fenômenos, estabelecer um nexo entre eles e, em última instância, se possível, expandir nosso poder sobre tais fenômenos” (FREUD, 1916/2014b, p. 108).
mental (FREUD, 1924[1923]/1980, p. 249); e ciência anímica da psicologia (FREUD, 1940[1938]/2014a, p. 210). Finalmente, ele a nomeia também como “ciência dos processos mentais inconscientes” (FREUD, 1926[1925]/1980, p. 302).
Vale ponderar que, ao usar a expressão “ciência mental”, Freud estava se alinhando, ou ao menos dialogando, como já vimos, com a Psicologia acadêmica iniciada por Wilhelm Wundt em 1888 – ciência para a qual o mentalismo era uma influência importante. Wundt fora além de estudar o pensamento consciente por meio da introspecção. Ao final de sua vasta obra, ele pesquisou grupos e sociedades. Freud era seu leitor, como vemos demonstrado, por exemplo, no prefácio à primeira edição de “Totem e tabu” (1912). Ali, ele informa que os ensaios apresentados são sua resposta ao estímulo dado pelas obras da escola de psicanálise de Zurique, por um lado, e às pesquisas de Wundt, por outro, ainda que em contraste metodológico ao dele (FREUD, 1913[1912]/1980, p. 17).
Mencionemos, ainda, uma passagem da obra de Freud (1917/2014a) em que o termo “científico” aparece junto a “real”, sem que com isto queiramos dizer que, para ele, a psicanálise seja uma “ciência do real”. Queremos apenas apontar que o gênio intuitivo de Freud estabelecia relações (a princípio, de proximidade dos conceitos), que iam muito “além das letras” de seu tempo. A passagem em questão surge numa frase da Conferência “A fixação no trauma – o inconsciente”, de 1917.Ali, Freud dá continuidade à discussão sobre o sentido dos sintomas, iniciada numa conferência anterior (Conferência XVII). Depois de apresentar fragmentos da análise de uma paciente sua que sofria de graves manifestações obsessivas, ele se depara com o enigma de não sabermos o que atua quando, apesar de conhecermos a razão ou o sentido de um ato sintomático, este parece ser sem sentido para o paciente, no instante mesmo em que o ato ocorre. Então, depois de refletir longamente sobre o caso e referindo-se à hipótese ou suposição dos processos mentais inconscientes, Freud escreve: “vamos nos ater a essa suposição, tendo de rechaçar como incompreensível, e com um resignado sacudir de ombros, se alguém objetar que aqui, o inconsciente nada significaria de real em termos científicos, que seria um expediente, une façon de parler” (FREUD, 1917/2014a, p. 301). A questão que queremos mencionar e que diz respeito a uma abordagem do real é: a qual “real” de “o inconsciente nada significaria de real”, ele estaria se referindo no texto citado? Estaria ali, a semente da distinção entre real e realidade, apenas esboçada três anos depois em “Das
unheimliche”94? Vejamos tal esboço:
94“Das unheimliche” foi traduzido como “o estranho” na versão brasileira vertida da língua inglesa, e como “o inquietante” na tradução vertida diretamente do alemão.
o efeito inquietante (unheimliche) é fácil e frequentemente atingido quando a fronteira entre fantasia e realidade é apagada, quando nos vem ao encontro algo real que até então víamos como fantástico, quando um símbolo toma a função e o significado plenos do simbolizado, e assim por diante (FREUD, 1919/2010a, p. 271).
Destaquemos que o termo “real” é usado na frase, em um lugar e em um sentido diferentes do termo “realidade”. Freud aponta que o real nos vem quando a fronteira entre a realidade e a fantasia se apaga.
A insistência permanente de Freud em dizer que a psicanálise é uma ciência incita à pergunta sobre se algum “ideal de ciência” o movia, e, por outro lado, se ele queria que a psicanálise instaurasse um novo ideal de cientificidade.
Para respondermos à primeira pergunta, lembremos as já citadas influências dos modelos empírico-positivista e naturalista sobre Freud (correntes de pensamento e práticas científicas que traziam lemas assertivos e produção de resultados objetivamente mensuráveis). Certamente tais modelos o instigaram e funcionaram para ele como norte de um ideal científico a ser seguido. Dizer que funcionaram como norte, significa que agiram apenas como uma direção para um ideal. Mas o ideal mesmo, o de Freud, era algo peculiar a ele, não era o ideal de seus mestres, pelo que se lê em sua biografia (GAY, 1989).
O método científico, e não necessariamente a ciência positiva e empírica que parecia cumprir os ideais daqueles tempos, era, para Freud, a melhor forma possível de acesso ao conhecimento e às verdades. Seu entusiasmo era tanto que não passou despercebido ao biógrafo Peter Gay (1989), quando este comenta o texto O futuro de uma ilusão: “Se a religião se mostrara um fracasso, conforme acreditava Freud, talvez a ciência pudesse ser um êxito... Ao refletir sobre a forma científica de pensamento, Freud se permitiu escorregar para um otimismo bastante raro nele” (GAY, 1989, p. 293). Muito antes, e ainda às portas de entrar na Universidade, Freud escreveu numa carta de 1º de maio de 1873, dirigida ao amigo Emil Flüss: “Então aí vai: decidi me tornar cientista natural” (citado por GAY, 1989, p. 39). Ele sustentou tal decisão e afirmou que a psicanálise era uma ciência por toda a sua vida.
Que do ideal de uma ciência naturalista, ao modo como ele a aprendeu com seus mestres, Freud tenha erigido seu próprio ideal, é o que inferimos quando se lê o que ele escreve em 12 de dezembro de 1896 a W. Fliess: “Mucho más allá de estas consideraciones (sobre psicopatologia) late escondida, mi creación más problemática y más ideal: la metapsicologia”95 (FREUD citado por JONES, 1981, p. 291).
95 Tradução nossa: “Muito além destas considerações (sobre psicopatologia) existe escondida minha criação mais problemática e mais ideal: a metapsicologia”.
Quanto a querer instaurar um ideal de ciência, cujo modelo fosse a psicanálise, acreditamos que esta não era sua intenção. No texto “A questão da análise leiga” (1926), ao escrever sobre a “unilateralidade” das ciências, que aqui entendemos como “propriedades” ou “especificidades” de cada uma delas, Freud (1926/1980) observa que uma ciência não substitui outra não só em sua aplicação ou métodos, mas também quanto ao que elege como assunto e quanto aos pontos de vista que adota. E encerra com a afirmação de especificidade de sua própria criação: “Em si toda ciência é unilateral. Tem de ser assim, visto que ela se restringe a assuntos, pontos de vista e métodos específicos... A psicanálise é, por certo, bem particularmente unilateral, por ser a ciência do inconsciente mental” (FREUD, 1926/1980, p. 262).