1. GİRİŞ
1.7. Araştırmanın Gereksinimi
O Brasil, após a estabilização econômica e a superação das dificuldades econômicas decorrentes resultado das crises internacionais ocorridas nas décadas de 1980 e 1990, pôde, nos
59 HAAG, 2013. Futebol e o Giro Neoliberal: Apontamentos e o Caso Brasileiro. PODIUM: Sport, Leisure and Tourism Review, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 57-80, jan./jun. 2013. Disponível em: <http://www.podiumreview.org.br/
anos 2000, desenvolver uma política nacional do esporte que articulou as práticas esportivas tanto no sentido da realização de programas sociais pelo governo, que tinham como objetivo ampliar o acesso ao esporte por parte das classes sociais historicamente excluídas da população brasileira; quanto na promoção de megaeventos esportivos internacionais em solo brasileiro, visando com isso o atingimento dos mais diversos objetivos políticos e econômicos. Além disso, o governo brasileiro passou a usar o esporte mais popular do país na chamada “diplomacia da bola”, de modo a afirmar culturalmente a sua posição de potência econômica e reforçar assim seu papel no cenário mundial.
O governo de Luís Inácio Lula da Silva buscou implementar políticas públicas na área esportiva que tivessem amplo alcance social, algo inserido na política do governo de executar grandes programas sociais no Brasil. No governo Lula foi criado o Ministério do Esporte (ME), que, buscando fortalecer as práticas esportivas e os benefícios sociais delas advindos, elaborou a “Política Nacional do Esporte”. Tal medida buscou utilizar o esporte como ferramenta de inclusão social, sendo usado de modo auxiliar à educação formal realizada nas salas de aula brasileiras.
Nesse contexto de uso do esporte de forma inserida nos programas sociais do governo, merece destaque uma importante medida criada pelo governo federal na área esportiva, o Programa Segundo Tempo (PST), programa criado com o objetivo de:
[...] democratizar o acesso à prática esportiva, por meio de atividades a serem realizadas no contra turno escolar, de caráter complementar, com a finalidade de colaborar para a inclusão social, bem-estar físico, promoção da saúde e desenvolvimento humano, e assegurar o exercício da cidadania” (BRASIL, 2005)
Assim, tendo por objetivo a complementação da educação formal, o Programa Segundo Tempo, importante iniciativa do governo brasileiro na área esportiva, propôs a realização de diversas atividades esportivas nas escolas brasileiras nos horários posteriores às aulas, atraindo crianças e jovens para os centros educacionais e, dessa forma, utilizando o esporte como aliado à educação.
No governo Lula, além dos programas sociais que por ele foram criados ou aperfeiçoados na área esportiva, também verificamos que o esporte mais popular do país foi intensamente utilizado pela diplomacia brasileira. Com a chamada “diplomacia da bola”, o Brasil procurou divulgar internacionalmente o seu esporte mais popular e, assim, promover sua imagem no
exterior, criando novas parcerias comerciais, celebrando acordos econômicos, e reforçando a posição geopolítica no cenário internacional.
Um dos exemplos práticos mais marcantes do uso diplomático do futebol brasileiro foi a organização, pelo governo federal juntamente com a CBF, do “Jogo da Paz”, ocorrido em 18 de agosto de 2004, em Porto Príncipe, capital do Haiti. Com o jogo, a maior potência econômica da América Latina, além dos objetivos humanitários do governo brasileiro, buscou afirmar sua influência política, econômica e militar para os demais países da região.
A partida, que envolveu seleções nacionais de futebol de Brasil e Haiti, foi realizada no contexto da organização, por parte do Brasil, de uma missão de paz60 internacional naquele país,
a MINUSTAH. Para o “Jogo da Paz”, os jogadores da seleção brasileira de futebol foram recebidos nas ruas de Porto Príncipe como verdadeiras celebridades internacionais, tendo sido bastante simbólicas as imagens em que, em tanques de guerra da ONU, os jogadores saudaram o povo haitiano.
A realização do jogo representou um esforço da diplomacia brasileira no sentido de reforçar a posição do país na América Latina e no Caribe, num contexto histórico em que, de regiões esquecidas pela política externa brasileira, passaram a ter maior relevância para o país. Assim, diversas ações da diplomacia nacional foram realizadas nessas regiões também como forma de alcançar o objetivo histórico do país de ocupar um assento permanente no conselho de segurança ONU.
Além do “Jogo da Paz”, a importância que o esporte, em especial o futebol, adquiriu para a diplomacia brasileira pôde ser verificada com a criação da Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva (CGCE), órgão do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) responsável pelo uso do esporte na política externa brasileira. Segundo o Itamaraty, entre os objetivos do referido órgão, estão:
1 – Negociação de cooperação esportiva com países parceiros:
- Negociar acordos de cooperação esportiva que permitam intercâmbios em alto- rendimento, a capacitação de profissionais e de atletas brasileiros por profissionais
60 Segundo a ONU, A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Mission des Nations Unies pour la
Stabilisation em Haiti – MINUSTAH), foi constituída em 2004, sendo uma missão de paz criada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 30 de abril de 2004, por meio da resolução 1542,1, que objetivou contribuir com a estabilização do Haiti após um período de instabilidade política e social que culminou com a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide naquele ano. ONU. MINUSTAH. Disponível em: <http://www.un.org/en/ peacekeeping/missions/minustah/>. Acesso em: 17 de novembro de 2013.
estrangeiros (e vice-versa) e a difusão internacional de programas sociais do Ministério do Esporte.
- Acompanhar, dirigir e orientar a posição oficial brasileira relativa à cooperação internacional na área do esporte;
- Propor diretrizes e coordenar ações relacionadas à execução de projetos de intercâmbio e de cooperação internacional na área do esporte;
2 – Megaeventos esportivos:
- Propor diretrizes e coordenar ações relacionadas à execução de projetos de intercâmbio e de cooperação internacionais para a realização de megaeventos esportivos no país e
no exterior;
- Negociar acordos de cooperação com outros países-sede de megaeventos esportivos; - Implementar esses acordos, mediante o intercâmbio de informações nas mais diversas áreas envolvidas na preparação de megaeventos esportivos e articular missões brasileiras ao exterior e estrangeiras ao Brasil, com propósitos técnicos, políticos ou comerciais; - Articular com os atores brasileiros envolvidos na preparação dos megaeventos, para coleta de informações, e para colaborar na formação e na difusão, nacional e internacional, da posição oficial brasileira sobre esses eventos;
- Elaborar programa de diplomacia pública em função dos megaeventos esportivos; - Subsidiar os postos do Brasil no exterior com informações e material de qualidade sobre os megaeventos esportivos a serem sediados no Brasil;
- Obs: a CGCE coordenou a campanha olímpica brasileira, no âmbito do MRE. 3- Organismos Internacionais
- Acompanhar, instruir e supervisionar a posição oficial brasileira em reuniões, conferências, organismos, negociações e foros globais, regionais e bilaterais na área de sua competência;
- Acompanhar, coordenar e orientar a política de candidaturas do Brasil aos diversos órgãos e organismos internacionais da área do esporte (ITAMARATY, 2013) 61 (Grifos nossos).
Como podemos perceber, a importância adquirida pelo uso político do esporte se refletiu no seu uso como instrumento da diplomacia brasileira como forma de atingir seus mais diversos objetivos no cenário internacional. A realização de intercâmbios de atletas, a promoção de cursos de capacitação e as doações de material esportivo para diversos países foram utilizadas como forma de mostrar mundialmente no âmbito cultural um Brasil que havia emergido à condição de potência econômica.
Conforme o que destacamos entre os diversos objetivos do uso político do esporte pela diplomacia brasileira, percebemos que a realização de megaeventos esportivos também está inserida entre esses alvos traçados pelo Itamaraty, num contexto em que se candidatar a sede dos mais diversos eventos esportivos internacionais se tornou uma meta a ser atingida pelo governo brasileiro.
61 Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva.
Disponível em: < http://www.itamaraty.gov.br/o-ministerio/conheca-o-ministerio/ organograma/coordenacao-geral- de-intercambio-e-cooperacao-esportiva-cgce/>. Acesso em: 17 de novembro de 2013.
Nesse sentido, sucessivas candidaturas foram feitas no sentido de realizar no Brasil os mais diversos eventos, nas mais variadas modalidades esportivas, entre elas o futebol. Destacamos que a atuação do governo brasileiro, através de articulações feitas com entidades organizadoras do futebol como a CBF e a FIFA foi fundamental para a trazer para o solo brasileiro diversos eventos internacionais do futebol e de algumas de suas variações, como o futsal e o futebol de areia.
Assim, destacamos a ocorrência no país de sucessivos torneios internacionais de futebol, como os Jogos Sul-Americanos de 2002, o Grand Prix de Futsal dos anos 2005, 2006, 2009, 2010 e 2011, a Copa do Mundo de Futsal de 2008, a Copa do Mundo FIFA de Futebol de Areia de 2005, 2006 e 2007 e o Mundialito de Clubes de Futebol de Areia de 201162.
Nesse contexto, adquirindo experiência com a organização de eventos de futebol de grande relevância internacional, além de iniciativas de âmbito olímpico como a realização dos Jogos Pan-americanos e Parapan-americanos de 2007 no Rio de Janeiro, o Brasil buscou sediar os maiores eventos do calendário esportivo mundial. Conforme citamos anteriormente, a força da candidatura do país para os Jogos Olímpicos de Verão de 2016 significou uma real possibilidade de o evento ocorrer, pela primeira vez na história, na América do Sul. A posterior confirmação da candidatura significaria uma verdadeira vitória para o governo brasileiro e para os dirigentes das principais entidades esportivas nacionais.
No presente trabalho, pretendemos concentrar nossas atenções no estudo do megaevento esportivo Copa do Mundo FIFA, dados os seus reflexos na sociedade brasileira e do modo como esse espetáculo quebra a rotina no país quando ocorre, com uma ampla mobilização popular que supera até mesmo a repercussão de eventos que lhe são maiores, como os Jogos Olímpicos de Verão.
Realizar novamente a Copa do Mundo FIFA e seu evento-teste, a Copa das Confederações FIFA, significou muito mais do que um simbólico retorno do evento sediado em 1950 ao “país do futebol”, como também uma oportunidade de atingir os mais diversos objetivos políticos e econômicos do governo brasileiro, tais como a atração de investimentos internacionais, o aumento do volume de negócios realizados no país e os benefícios decorrentes da exibição mundial desse novo Brasil-potência.
62 Conforme informações obtidas nos sítios virtuais da Federação Internacional de Futebol Associado (Fédération
No presente trabalho, abordamos o significado da realização de tais eventos para o país quando o inserimos no entre os países BRICS, que, assim como, o Brasil, buscaram ao ser sedes de eventos de tamanho apelo midiático, projetar sua imagem como novos atores de relevância na geopolítica mundial. Realizar o maior evento do futebol mundial significou a possibilidade de mostrar ao mundo a emergência de um novo Brasil, e o governo brasileiro, nos discursos oficiais em que defendia a sua ocorrência, procurou justificar os elevados investimentos com a obtenção do “legado” que seria deixado no país após a sua ocorrência. No entanto, percebemos que esse legado viria juntamente com profundos impactos na soberania nacional e nos âmbitos político, jurídico, econômico e social do Brasil.