Pelo exposto no primeiro capítulo, é possível afirmar que, embora a exploração dos aluviões auríferos da Capitania de São Vicente não tenha sido de grande proveito, a sua importância para o aprendizado e a preparação dos primeiros paulistas que exploraram as férteis jazidas do território mineiro de modo algum pode ser descartada. De acordo com Sérgio B. de Holanda, as lavras nos arredores de São Paulo, em Parnaíba, Curitiba, Iguape, Cananéia e, principalmente, de Paranaguá, constituíram-se em fase preparatória e necessária para a verdadeira “Idade do Ouro” no Brasil197. Descobertas e exploradas cerca de um século antes das Minas, foram capazes, ao longo do tempo e da experiência prática, de formar homens aptos ao reconhecimento de maiores riquezas.
De fato, a memória histórica dos descobrimentos parece valorizar esta experiência prévia, pois, como informa Antonil, o primeiro descobridor das minas gerais dos Cataguás “dizem que foi um mulato que tinha estado nas minas de Paranaguá e Curitiba”198. No mesmo sentido aponta o relato do sertanista Bento Fernandes Furtado, segundo o qual, por volta de 1693, o paulista Antonio Rodrigues Arzão teria sido o primeiro a encontrar o cobiçado metal nas terras mineiras. Este homem sertanejo, tendo organizado uma bandeira com os naturais de São Paulo e de outras vilas de “Serra Acima” para conquistar o gentio dos sertões da Casa da Casca, ao chegar nesta paragem,
vendo por aquelas veredas alguns ribeiros com disposição de ter ouro, pela experiência
que tinha das primeiras minas que se tinham descoberto em São Paulo, Curitiba e Paranaguá [...] fez algumas experiências nos tais ribeiros com uns pratos de pau ou de
197
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e Pedras Preciosas. In: História Geral da Civilização Brasileira. Rio de Janeiro/São Paulo: Difel, 1977. t.1, v.2, p. 259.
198
ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967. p. 258. Nas palavras de Sérgio B. de Holanda: “De passagem convém notar que a palavra ‘mulato’ se aplicava em São Paulo a mestiços de índios tanto como de negros, e àqueles naturalmente mais do que a estes por ser então diminuta ali a escravidão africana: mesmo durante a primeira metade do século XVIII, os registros de batizados de carijós falam em ‘molatos’ com tal acepção, e só raramente aludem a ‘mamelucos’”. HOLANDA. História Geral da
estanho, e foi ajuntando algumas faíscas que pôde apanhar com aqueles débeis instrumentos de minerar [...]199.
O bandeirante, com as amostras do metal então obtidas, seguiu pelo Rio Doce até o Espírito Santo, onde as apresentou ao capitão-mor da Capitania. No entanto, mesmo obtendo auxílio e privilégios das autoridades, não conseguiu organizar nova bandeira para voltar por aquele mesmo sertão e explorar os descobertos. Maltratado e doente pelas privações pelas quais passara, precisou voltar por mar até o Rio de Janeiro, e daí seguiu para Taubaté, onde, antes de morrer, comunicou os achados, roteiros e mais informações para seu cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira. Este, por sua vez, organizou a bandeira que partiu em 1694 rumo à Casa da Casca. Porém, antes de chegar ao local indicado por Arzão, pousaram na paragem chamada Itaverava onde, fazendo algumas experiências nos ribeiros, encontraram o metal precioso e acabaram por ficar no local a explorá-lo.
Esta parece ter sido uma das histórias mais famosas e que se perpetuou entre os contemporâneos dos descobrimentos, sendo o ano de 1693 a data geralmente aceita pela historiografia para as primeiras notícias efetivas sobre a exploração do ouro nas Minas. Contudo, embora essa data seja a mais difundida, vários relatos históricos não permitem descartar a possibilidade de que descobertas anteriores, mais diretamente vinculadas aos companheiros da bandeira de Fernão Dias Paes nestes sertões no ano de 1674, tenham de fato ocorrido. É o caso do seu genro, Manuel da Borba Gato, que então o acompanhava nas entradas em busca da afamada Sabarabuçu, e que ficou conhecido como o descobridor dos aluviões auríferos na região do Rio das Velhas.
A bandeira de Fernão Dias, grandiosamente organizada, assim como outras, que chegavam a levar até mais de cinqüenta pessoas, ao longo do seu percurso fez três pousos: em Ibituruna, perto da confluência do rio das Mortes com o Grande; na região do Paraobepa, e no Sumidouro do rio das Velhas. Nesse último pouso, a bandeira teria ficado alguns anos fazendo roças e pesquisando seus arredores, antes de prosseguir a jornada para Sabarabuçu. Borba Gato, no entanto, não seguiu com a bandeira, ficando responsável pelo pouso do Sumidouro (mais tarde denominado “arraial do Borba”), a fim de tomar as devidas providências para quando a jornada voltasse.
Em março de 1681, a bandeira chefiada pelo administrador-geral das minas, D. Rodrigo de Castelo Branco, partia de São Paulo percorrendo o mesmo caminho da bandeira anterior. Ao
199
FURTADO, Bento Fernandes. Notícias dos primeiros descobridores das primeiras minas do ouro pertencentes a estas Minas Gerais, pessoas mais assinaladas nestes empregos e dos mais memoráveis casos acontecidos desde os seus princípios. In: CCM. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, CEHC, 1999. Doc. 02, v. 1, p.169.
chegar ao sítio do Paraopeba, encontraram com Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias (que então havia morrido), que tratou logo de dar notícia dos achados, entregando a D. Rodrigo amostras das pedras verdes encontradas. A comitiva seguiu caminho até o pouso do Rio das Velhas que ficara sob a administração de Borba. Neste local, de uma discussão entre o bandeirante e o fidalgo acabou resultando o assassinato desse último em 1682. A comitiva, encarregada de examinar as recém descobertas de Sabarabuçu, morto seu chefe, voltou para São Paulo, enquanto Borba Gato refugiou-se nos sertões do rio Doce200.
Todavia, durante o tempo em que permaneceu no Rio das Velhas, o sertanista teria encontrado ouro, ao invés da prata e das esmeraldas que a princípio se procurava com aquela bandeira. Porém, temendo as represálias de que poderia sofrer por estar envolvido na morte de um comissário régio, ocultou o descoberto e só o manifestou por volta de 1700, quando usou deste trunfo para obter o perdão real por intermédio do governador do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Meneses201.
Na realidade, a prática de ocultar os achados minerais das autoridades régias foi usual entre os paulistas desde as explorações no planalto vicentino, que por este modo procuravam evitar que seus esforços fossem repartidos e/ou usurpados, garantindo assim maiores lucros na exploração. Com isso, é provável que as descobertas auríferas no território de Minas remontem a um momento anterior à própria bandeira de Fernão Dias.
Quanto à questão dos descobrimentos, merece aqui especial referência o estudo de Francisco Andrade sobre a Invenção das Minas Gerais202. De acordo com autor, embora uma
tradição de entradas descobridoras de riquezas minerais tenha sido criada desde o século XVI, os
200
João Pandiá Calógeras afirma que durante o tempo em que esteve refugiado, Borba Gato teria seguido do rio Doce para o norte de São Paulo, onde ficou cuidando das suas fazendas no alto Paraíba. Teria ainda participado de algumas entradas pelo sertão e trabalhado com o padre João de Faria Fialho nos descobertos do rio Grande, das Mortes e Sapucaí, em fins do século XVII. CALÓGERAS, J. P. As minas do Brasil e sua legislação. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1905. v. 1.
201
De acordo com as Noticias do paulista Bento Furtado: “Lançou-se com humilde rato o Gato aos pés do seu benfeitor, agradecendo a promessa de perdão, suposto sempre receoso por ser condicional, mas animado da certeza com que cumpriria a condição, manifestando o ouro que tinha descoberto no rio das Velhas no tempo em que esteve no lugar em que o achou dom Rodrigo, que sempre o teve oculto por alta providência do céu para lhe servir de livramento naquele tempo”. FURTADO. CCM, 1999. Doc. 02, v. 1, p.190.
202
Neste trabalho, Francisco Andrade procurou redimensionar os descobrimentos minerais para além de uma análise estritamente econômica. Ao desconstruir as imagens e os discursos presentes nos documentos, o pesquisador demonstra como os descobrimentos estavam inseridos nos jogos simbólico, político e econômico que acabaram por construir as Minas Gerais. Nas palavras do autor: “os descobrimentos, comportando-se como um rito de instituição social da realidade das Minas, encontram seu sentido no entremeio de tradições culturais, normas político-jurídicas, e práticas ordinárias do fazer cotidiano dos colonos. Nisso reside a invenção ou fabricação das Minas Gerais do Ouro. Foi uma invenção tanto no sentido de uma instituição política e econômica do Estado, quanto no sentido de uma criação afeita às práticas, manipulações e habilidades dos descobridores e outros exploradores, bem como dos que se seguiram, os mineradores ou mineiros”. ANDRADE, Francisco Eduardo de. A Invenção das Minas Gerais:
empresas, descobrimentos e entradas nos sertões do ouro (1680-1822). São Paulo: USP. 2002. Tese (Doutorado em
“verdadeiros” descobrimentos só se concretizaram em fins do século XVII, quando se operou uma mudança no discurso da Coroa portuguesa em relação às práticas paulistas. Com esta mudança, o que se observou de fato foi a instituição do “feito descobridor”, que condensava em si tanto as pretensões políticas e econômicas do Estado português quanto as estratégias legítimas dos colonos que validavam as empresas descobridoras.
Na segunda metade do século XVII, com o recente fim da união das duas Coroas, Portugal sentia necessidade de intensificar as pesquisas minerais no interior de suas colônias tropicais do Brasil, Angola e Moçambique. Especificamente no Brasil, esta busca, intentada há séculos, só poderia obter sucesso se levada a cabo por homens experientes e conhecedores daquelas terras.
A reputação dos paulistas, vistos como desbravadores/sertanistas hábeis, prudentes e valorosos nas suas expedições ao sertão, conquistadores do gentio e contribuintes da expansão colonial, já era de longa data conhecida e foi, portanto, para estes vassalos que a Coroa direcionou sua atenção. Dessa forma, vislumbrados como os descobridores em potencial, a Coroa procurou estimular os paulistas, valorizando as iniciativas de descobrimento tanto por meio de estratégias discursivas – construção de uma imagem favorável, dotada de atributos políticos – quanto por negociações concretas através da concessão de mercês, honras e privilégios203.
Para tanto, de acordo com Andrade, a bandeira de Fernão Dias, com seu “estilo heróico”, foi instituída como o modelo ideal de uma empresa descobridora, cujos “ensinamentos” deveriam servir de referência para os outros feitos de descobrimentos. O discurso e a memória histórica entorno da bandeira de Fernão Dias criou uma “imagem com funções pedagógicas”204, na qual a imagem do sertanista foi transformada na do descobridor.
Mas uma questão ainda emperrava o real empenho dos paulistas em busca das minas: a escravização do gentio da terra. Isso porque a lei de 01 de abril de 1680 mandava entregar aos padres da Companhia de Jesus a administração espiritual dos índios e formar aldeias e missões no sertão205. Resistentes a essa determinação e diante do apelo régio para buscarem minas, os
203
Especialmente partir da década de 1660, com a campanha de Agostinho Barbalho e, posteriormente, com a de Fernão Dias, o Rei se dirigiu várias vezes aos vassalos paulistas pedindo que eles apoiassem em todo o possível essas empresas descobridoras em nome do serviço real. Os insucessos das mesmas não impediram medidas mais incisivas fossem tomadas e pela carta régia de 13 de janeiro de 1690 o rei autorizava ao governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá e Menezes, a prometer aos moradores de São Paulo que se empregassem nos descobrimentos o foro de Fidalgo e de Cavaleiro Fidalgo da Casa Real, além de hábitos das três ordens militares. Ao justificar esta medida, dizia o rei que a única maneira de se conseguir o descobrimento de minas era persuadir os moradores de São Paulo “das grandes conveniências que lhes resultarão crescendo as suas casas e pessoas nas honras e nas fardas”. apud MAFFEI; NOGUEIRA. Anais do Museu Paulista, 1966. t. XX; p. 100.
204
Ver especialmente capitulo 2: “Empresas de descobrimentos de Minas: o estilo heróico de Fernão Dias Pais”. ANDRADE. A Invenção das Minas Gerais [...], p. 58-65.
205
paulistas procuraram resguardar seus interesses bem como aproveitar-se do jogo político que se instalou em torno dos descobrimentos. No discurso paulista, o foco da questão indígena foi estrategicamente deslocado: os descobrimentos foram trazidos para o primeiro plano, porém submetidos à necessária sujeição e utilização dos índios. Finalmente, a necessidade de convergir os diferentes interesses e as conveniências fez com que, em 1696, a Coroa concedesse aos paulistas o privilégio em administrar as aldeias indígenas, em troca do compromisso de renunciarem às entradas ao sertão para apresamento206.
Em contrapartida, os paulistas assumiram a posição de protagonistas dos descobrimentos, adequando-se às pretensões régias de expansão colonizadora, povoamento do sertão e do aumento das rendas do Estado através de riquezas minerais, ao mesmo tempo em que garantiram seus próprios interesses em cativar índios, descobrir minas e merecer os favores régios, que se traduziam em oportunidades econômicas e proeminência social e política.
Ainda segundo o referido pesquisador, fruto dessa convergência de interesses, as empresas descobridoras só poderiam ser efetivamente realizadas pelos poderosos paulistas, tidos como homens de boa reputação, qualidade e créditos necessários para concretizar o “feito descobridor”207 e que estavam ligados à tradição dos descobrimentos; eram geralmente os “homens e sertanistas mais práticos e fidedignos”208; enfim, eram os descobridores paulistas, “homens ricaços de elevados pundonores [...] porque a grandeza dos novos descobrimentos havia convidado aos homens com maiores conveniências”209.
Com efeito, eram estes homens que, na perspectiva da Coroa portuguesa, reuniam as condições que legitimavam um verdadeiro descobridor: estar a serviço do Rei e do bem comum, ter habilidade e experiência no sertão, arcar com as grandes despesas de deslocamento, estabelecer roças, fundar arraiais, fazer grandes serviços minerais, comprar escravos e, portanto, ser merecedor das benesses régias. Com base nesses pressupostos, é possível afirmar que ser reconhecido como descobridor era, enfim, uma mercê régia. Por conseqüência, era também uma
206
ANDRADE. A Invenção das Minas Gerais [...].
Para John Monteiro, “os descobrimentos foram fruto da convergência de fatores locais e internacionais, pois atrelado à busca de riquezas minerais, idealizada pela Coroa, estava o apresamento da mão-de-obra indígena indispensável à economia paulista”. MONTEIRO. Negros da Terra [...], p. 96-97.
207
De acordo com Francisco Andrade, sobretudo após a empresa de Fernão Dias, há um investimento por parte dos paulistas poderosos na construção de uma auto-imagem dotada com as qualidades exigidas para ser considerado alguém de ‘qualidade’/mérito, com fama e créditos públicos, uma vez que somente estes podiam ter a credibilidade de verdadeiros descobridores do feito já concretizado ou em potencial. ANDRADE. A Invenção das Minas Gerais [...], p. 80 e ss.
208
NOTÍCIA – 3ª PRÁTICA Que dá ao R. P. Diogo Soares o Mestre de Campo José Rebello Perdigão, sobre os primeiros descobrimentos das Minas Gerais do Ouro [jan, 1733]. In: TAUNAY. Relatos Sertanistas, p. 171-175.
209
forma de cooptar o poder local, visto que os “verdadeiros” descobridores pertenceriam ao pequeno círculo de poderosos da elite paulista.
A fama criada e difundida em torno dos homens de São Paulo acabou por configurar uma identidade coletiva/regional comum: paulista, sertanista e descobridor de ouro tornaram-se praticamente sinônimos no contexto dos descobrimentos, “base de conduta social e moral alegada, por forasteiros ou pelos próprios paulistas, para a gente do Planalto de Piratininga”210.
Todavia, é preciso considerar, evidentemente, que a dinâmica dos descobrimentos comportou outros agentes descobridores menos favorecidos (como os próprios índios que acompanhavam os paulistas, homens pobres, forros e escravos africanos), embora nem sempre reconhecidos enquanto tais ou até mesmo usurpados nos seus direitos por aqueles poderosos. Estas versões encontram-se muitas vezes intencionalmente ocultas ou sub-registradas nos documentos históricos, no entanto, é inegável que tenham acontecido, haja vista que, com a confirmação dos achados auríferos nas Minas, a notícia de que eram “gerais”, isto é, acessíveis a todos que se disponibilizassem a explorá-las, fez com que um grande número de pessoas das mais variadas condições e tipos sociais debandasse para aqueles descobertos.
Durante esta fase de ocupação desordenada, deslocaram-se para as Minas moradores das vilas e dos sertões não só de São Paulo, mas também do Rio de Janeiro, do Espírito Santo, da Bahia, de Pernambuco, além do grande número de portugueses e estrangeiros211. A busca por melhores condições de vida que um enriquecimento rápido e fácil prometia explica, pelo menos em parte, a enorme afluência de pessoas que em diversas partes entraram a catar e a mandar catar o ouro nos depósitos aluvionares dos rios e ribeiros. O fluxo dirigiu-se sobretudo para as opulentas lavras das regiões de Ouro Preto, do ribeirão do Carmo e do Rio das Velhas.
Nessas regiões, as minas mais promissoras e rendosas logo foram sendo exploradas pelos primeiros desbravadores que para elas se dirigiram. E, “como os que tinham mais armas e mais
210
ANDRADE. A Invenção das Minas Gerais [...], p. 95 e ss, 140. A partir da Guerra dos Emboabas percebe-se uma cisão nesse discurso e começa-se a construir entre os portugueses a idéia de detratação e demonização dos paulistas. Cf. FURTADO, Júnia F. As índias do conhecimento ou a geografia imaginária da conquista do ouro. In:
Anais de História do Além-mar, Lisboa, 2003. v. IV, p.155-212; Ver também NASCIMENTO, Evelin L. Malaquias. Sem Notícias de “El Rei”: Alteridade e Autoridade entre os “naturais” e os “de fora” nas Minas Gerais. A Revolta dos Emboabas – século XVIII. Belo Horizonte: Fafich/UFMG, 2005. Monografia (graduação em Ciências Sociais).
211
Tal era a presença destes últimos nas Minas que a administração colonial tentou regular as migrações com o principal intuito de evitar os “descaminhos” e a cobiça de inimigos (chegando a mandar suspender em 1703 o descobrimento de minas que pudessem existir nas vizinhanças dos portos do mar), que acabariam ganhando informações sobre as disposições de defesa do território, a capacidade dos portos assim como das entradas para as minas. Sobre este último aspecto, é ilustrativo o exemplo da obra de André João Antonil (pseudônimo do padre italiano Andreoni), Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas que, considerada perigosa pelas informações que continha – dentre outras, os caminhos para as Minas – foi confiscada e a edição quase toda destruída em cumprimento ao veto e seqüestro régio, logo após a sua publicação em 1711. CANABRAVA. In: ANTONIL. Cultura e Opulência do Brasil, p. 29.
séqüitos eram sempre nesses descobrimentos os mais bem aquinhoados”212, aos pobres e menos afortunados restava a alternativa de submeter-se ao partido daquele que controlava o descoberto, ou de partir em busca de novas minas, ainda não manifestadas, em áreas mais afastadas e despovoadas. Procurar o “apadrinhamento” de um descobridor poderoso parece ter sido uma prática comum, pois logo que um novo descoberto tornava-se público, para ele concorria
[...]inumerável povo de várias partes do Brasil e em maior quantidade filhos de Portugal, caminhando uns para este, outros para aquele lugar, digo, e diferentes lugares de minas, os mais deles, pobres, só com suas pessoas com o seu limitado trem às costas, animados mais do interesse que pretendiam que das suas posses, e muito mais confiados na caridade, amor e zelo com que os paulistas, naturalmente mais inclinados a fazer benefícios do que recebê-los, os recebiam amorosamente, dando cama e mesa a uns, a outros mantimentos, e a todos lavras nas suas próprias [...], granjeando por este modo, no agradecimento de alguns mais gratos, os nomes de pais e patronos benfeitores [...]213.
De fato, para os entrantes pobres (livres ou forros), participar das bandeiras chefiadas pelos paulistas poderosos significava, por um lado, a possibilidade de acomodar-se nos incipientes arraiais, prestando algum tipo de serviço nas atividades agropastoris, artesanais, ou de pequeno comércio. Por outro, significava a oportunidade de partilhar algum lucro, conseguindo lavras nos descobertos, aprendendo as técnicas de exploração aurífera e os sinais próprios da natureza onde o ouro podia ser encontrado, com o que poderiam, inclusive, partir em busca das