2.4. Güzel Sanatlar Lisesi
2.4.3. Alan Dışı Dersler ve Amaçları
processo de formação do sujeito Surdo
A escola escolhida para a observação é uma escola municipal especial, localizada na zona sul de São Paulo. A escolha dessa escola foi feita por indicação de uma professora da habilitação de EDAC, por ser uma escola onde o projeto de bilingüismo vem sendo desenvolvido com sucesso. A observação e o acompanhamento das atividades foram feitos de setembro a novembro de 2007, na turma de Educação Infantil.
Antigamente a escola era uma EMEDA – Escola Municipal de Educação de Deficientes Auditivos, depois se transformou em uma Escola Especial. Atualmente recebe não somente crianças Surdas, mas crianças com múltiplas deficiências ligadas à surdez.
A escola funciona em três períodos. Durante a manhã as turmas atendidas são as do ensino fundamental I e II; à tarde atende a educação infantil, ensino fundamental I e II, e no período noturno funcionam classes de EJA.
A escola caminha em direção ao Bilingüismo, ou seja, a abordagem educacional considera a Língua Brasileira de Sinais como primeira língua e a Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua. O treinamento auditivo ou da fala não são trabalhos no âmbito escolar.
Em conversa com a coordenadora, pude notar uma grande preocupação da mesma e dos educadores em propiciar diferentes vivências para as crianças. Por exemplo, na educação infantil estavam trabalhando um projeto com o tema “fundo do mar”, as crianças foram visitar uma loja de peixes, onde fizeram uma série de perguntas ao dono da loja e ao voltarem para a sala de aula fizeram o registro da visita, mas ainda havia restado uma dúvida: “Quantos olhos o peixe tem?”, havia um menino que insistia que o peixe tem apenas um olho, pois é como ele havia visto no aquário que tem na escola, no filme “Procurando Nemo” e em todas as gravuras que ele via. Assim, a professora decidiu levar a turma para um estudo de meio na feira que tem perto da escola, para que eles pudessem ver um peixe na realidade (mesmo que morto) e assim o menino pôde comprovar que o peixe tinha dois olhos.
A maior parte dos professores é formada em EDAC pela PUC, outros ou pela FMU, ou pela UNESP de Marília. Há duas professoras surdas e as demais são ouvintes. Todos os professores e funcionários dominam a Língua de Sinais.
Há Curso de Libras para os pais e familiares das crianças uma vez por semana.
No aspecto físico, a escola possui uma quadra; sala de leitura; biblioteca que conta com: tevê, DVD, vídeo-cassete e data-show; sala de informática; parque; pátio; nove salas de aula; banheiros para as crianças e banheiro para os professores; sala da direção; sala de professores; sala da coordenação; sala de reuniões; secretaria; refeitório; e cozinha.
A escola é rica em estímulos visuais: cartazes com configurações de mão, alfabeto manual, trabalhos dos alunos, notícias sobre a comunidade Surda, fotos, etc.. Está pronta para receber a todos: os móveis são adaptados, há rampas, as portas são largas para a passagem de cadeiras de rodas e andadores e a escola disponibiliza algumas cadeiras e andadores para os alunos usarem dentro da escola.
A professora da sala de educação infantil é formada em Pedagogia com habilitação em EDAC pela PUC-SP, é surda oralizada e ministra aulas de Língua de Sinais no Centro Universitário Nove de Julho (Uninove). Utiliza a Língua de Sinais para se comunicar com as crianças e a fala com os demais professores. Ela relata que sofreu muito durante seu período escolar, quando estudava em escola regular, tanto pela dificuldade por estar aprendendo em uma língua que não era natural a ela, quanto pelo preconceito que sofria com os colegas. Ela diz que a oportunidade de trabalhar numa escola de Surdos e constatar como as crianças são mais felizes em se comunicar pela Língua de Sinais e conseqüentemente como a aprendizagem se torna mais fácil, rica e prazerosa, é o que a torna uma educadora tão compromissada. Ela tem uma relação muito boa com as crianças, é extremamente carinhosa com elas.
A sala possui sete crianças, com idade média entre 6 e 7 anos, com perda auditiva de severa a profunda. Há duas crianças com paralisia cerebral. Esse é o primeiro contato que elas têm com a escola, e estão no processo de aquisição da Língua Brasileira de Sinais, dentro de uma proposta bilíngüe, que inclui o uso de sinais pela professora e atividades de letramento da língua escrita, tais como contato com cartazes, placas de nomes, livros, DVDs com histórias contadas em Libras, aula
de contação de história com uma professora surda, contato com os colegas, entre outras atividades.
Em parceria com a professora da 1ª. Série, a professora da Educação Infantil desenvolveu dois projetos. Como muitas das crianças nunca haviam freqüentado uma escola e algumas não tinham nenhuma língua constituída ao chegar à escola, mas somente gestos indicativos e/ou linguagem caseira, o primeiro projeto foi um livro da vida, construindo a identidade dessas crianças e o reconhecimento da escola, proporcionando-lhes criar um vínculo com a escola.
O segundo projeto refere-se à contação de histórias, que tem como objetivo a ampliação do vocabulário bem como o uso da língua de sinais e ocorre da seguinte forma: a professora conta ou passa um DVD com a história em Libras e as crianças devem recontar ou responder as perguntas feitas pela(s) professora(s).
A observação foi realizada entre os meses de setembro e outubro, momento no qual a maior parte da classe já havia adquirido a Língua de Sinais. Apenas o aluno R. ainda não se comunicava por essa língua, utilizando-se apenas de gestos indicativos e o sinal de “comer”; tudo o que pegava fazia o sinal de comer e colocava na boca. A professora relatou que ele estava sendo encaminhado a vários médicos com suspeita de hiperativismo e alguma síndrome, pois ele era muito agitado, não tem todos os dentes na boca, e apresenta um comprometimento de atenção.
Todavia, R. ao entrar em contato com as outras crianças, com a professora e com os demais funcionários, imerso na língua em um ambiente riquíssimo em Libras, tanto com objetos gráficos como pessoas que se utilizam dessa língua, os sinais para ele começaram a ter um significado. Pude acompanhar o caminhar da aquisição dessa Língua, ele começou imitando os sinais que faziam para ele, e agora já começa a se comunicar, por exemplo: pede para ir ao banheiro, beber água, quando quer alguma coisa faz sinal de quietinho, como que merecedor de ganhar o que quer, e até avisa quando vai fazer bagunça.
Ao final da observação do cotidiano dessa escola, o foco da minha observação foi a conduta da professora, bem como dos demais profissionais da escola, e aquisição da Língua de Sinais pelas crianças. Nesse período pude evidenciar a coerência da fala dos professores com a busca por uma proposta educacional que fosse realmente bilíngüe, isto é uma prática que privilegia não somente a aquisição de uma Língua, mas o respeito à identidade Surda e atividades que propiciam à participação e o conhecimento da Comunidade Surda.
Considerações finais
Diante do exposto e acreditando que o período crítico de aquisição de linguagem é entre 0 e 3 anos de idade, acreditando ainda que para a criança Surda é a Língua de Sinais que irá possibilitar a aquisição completa de uma língua e entendendo que em sua grande maioria as crianças surdas nascem em famílias ouvintes que não dominam a Língua de Sinais, a escola de educação infantil para Surdos dentro de uma proposta bilíngüe é que irá garantir além da aquisição de sua primeira língua, um contato com seus iguais, o que irá promover a construção de uma identidade Surda.
Nesse sentido, a adoção de uma proposta bilíngüe para a Educação Infantil na escola para Surdos será a possibilidade de fato, de incluirmos a criança Surda no mundo da comunicação, da linguagem e do conhecimento.
É a Língua de Sinais que irá anular sua deficiência e permitir que ela se desenvolva como qualquer criança ouvinte. Assim, acredito que antes de qualquer premissa ou política de inclusão, deve-se respeitar o Surdo como um ser humano normal, não o classificando de acordo com seu grau de perda auditiva, pois assim se quebraria o paradigma da cura da surdez. Ao invés de oferecermos tratamento a esse indivíduo, enfocando sua perda, ofereceríamos subsídios para que esse desenvolva suas habilidades.
O início da quebra deste paradigma deve iniciar-se logo na sala do médico e/ou fonoaudiólogo que diagnostica a surdez, com uma orientação aos pais quanto à diferença dos filhos e ao fato de estes pertencerem a um grupo minoritário com língua própria. Em seguida, pais e familiares ouvintes e seus filhos Surdos seriam colocados em contato com a Comunidade Surda, espaço no qual teriam a oportunidade de entrar em contato com Surdos adultos, aprender a Língua de Sinais e mediante modelos positivos de adultos Surdos, poderem acreditar que seu filho Surdo é um sujeito capaz.
Após esse primeiro contato, as crianças seriam encaminhadas a uma escola de Surdos, onde todos os profissionais usam a Língua de Sinais e onde existiria pelo menos um professor Surdo (que funcionaria como um modelo e estabeleceria contato com a criança Surda, transmitindo toda a base lingüística necessária para a aquisição de outras “línguas”). Este contato precoce Surdo adulto x criança Surda,
propicia o acesso à Língua de Sinais que o transformará em um sujeito da linguagem, e, desta forma, estará assegurada a construção de uma identidade e cultura Surda, que serão transmitidas naturalmente à criança surda. Além de entrar em contato com a Língua de Sinais, enriquecendo seu conhecimento de mundo, sua comunicação e linguagem, aos poucos se iniciará seu processo de alfabetização, baseado na leitura de histórias em Língua de Sinais, vídeos/DVDs em sinais com o mesmo conto e comentários sobre a Língua. A criança, nesse processo, faz a análise da língua escrita comparando-a com a estrutura da Língua de Sinais.
A Escola deve ser vista como um espaço pedagógico e não clínico, pois a verdadeira inclusão do Surdo não está na sua normalização e sim na garantia de uma educação de qualidade potencializando suas habilidades. Dessa forma, a escola utilizaria o modelo simultâneo, considerando a Língua de Sinais como primeira língua (L1) e a Língua Portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (L2).
A fala será considerada uma possibilidade e não como uma necessidade e as crianças podem ou não usar o Aparelho de Amplificação Sonora Individual ou qualquer outro tipo de aparelho. O treinamento da fala ou o aproveitamento dos resíduos de audição devem ser trabalhados fora do ambiente escolar, por profissionais especializados.
Ao propor um modelo de educação, no qual a Língua de Sinais é considerada como primeira língua, significa que os conteúdos escolares devem ser trabalhados por meio dela e a que a língua portuguesa será trabalhada com base em técnicas de ensino de segunda língua.
A elaboração de um projeto bilíngüe de Surdos inclui a Língua de Sinais Brasileira, anula a deficiência lingüística e permite que os Surdos se constituam como uma comunidade lingüística minoritária e diferente, não como um desvio da normalidade. Esta visão sócio-antropológica da surdez, em oposição à visão clínico- patológica pressupõe uma atitude diferente frente ao “déficit”. Implica em acreditar que o Surdo faz parte de uma comunidade lingüística minoritária que compartilha uma língua, a de sinais, valores culturais, hábitos e modos de socialização próprios.
É necessário que as escolas não encarem a educação bilíngüe como apenas o domínio, em algum nível, de duas línguas, mas sim como a aquisição de duas línguas distintas com suas heranças culturais, nas quais devem ser discutidas as questões de identidade, de poder, de status e de representações que atravessam
esse processo, com um currículo que contemple as questões culturais, sociais, históricas e políticas da surdez e não apenas uma tradução do currículo da escola regular para a Língua de Sinais, num projeto onde o Surdo esteja incluído como professor e participe do planejamento. Se não o fizermos, estaremos transformando o bilingüismo para Surdos em mais um “método”, ou seja, um recurso pedagógico especial no qual a Língua de Sinais é encarada apenas como um meio para se chegar a Língua Portuguesa.
A proposta bilíngüe não privilegia apenas uma língua, mas quer dar direito e condições ao individuo Surdo de poder utilizar duas línguas, portanto, não se trata de negação, mas de respeito; o indivíduo escolherá a língua que irá utilizar em cada situação lingüística em que se encontrar. Esta proposta deve levar em consideração as características dos próprios Surdos, incluindo a opinião dos Surdos adultos com relação ao processo educacional da criança Surda.
Ao final deste trabalho, após ter pesquisado sobre a educação dos Surdos, bem como tomar conhecimento da história de vida de muitos Surdos adultos e observar a rotina de uma escola para Surdos, pareceu-me um tanto pretensioso o objetivo deste trabalho.
Em uma das palestras que fui, tomei conhecimento de uma ONG da África do Sul, cujo lema é “Nada sobre nós, sem nós”, e me pego refletindo se eu como ouvinte, tenho o direito de propor um modelo de educação para os Surdos, sendo que não passo por suas vivências.
Assim, acredito que um projeto bilíngüe de educação para Surdos, deve ser um Projeto de Surdo para Surdo, porém, a história da educação de Surdos nos mostra que a Pedagogia se eximiu durante mais de um século de sua educação e, se dedicou a ensiná-los a falar, seguindo uma concepção médica, o que provocou um empobrecimento na sua educação. Esse século de prejuízo, onde foi privilegiada a educação por meio da língua oral, trouxe consigo a dificuldade de acesso do Surdo ao mundo do conhecimento e da educação, a qual esta sendo retomada aos poucos por essa Comunidade que, após conquistas legais de liberdade de uso de sua língua, de direito à intérpretes, vem conquistando formação universitária e agora vai tendo a oportunidade de fazer ouvir suas mãos e de falar por si mesmo, de fazer um Projeto Bilíngüe Surdo para a surdez.
O que procurei mostrar neste trabalho foi aquilo que é a vontade dessa Comunidade, uma vontade que pude vivenciar em sala de aula, onde tive colegas
Surdos, em depoimentos de Surdos, no aprofundamento por meio da habilitação de EDAC, nos cursos de LIBRAS que tive com professores Surdos e na minha convivência com essa Comunidade.
Apesar de acreditar que o Surdo possa falar por si mesmo, não poderia deixar de, mesmo que de uma forma simples, contribuir para divulgar seus desejos, seus direitos, sua língua e cultura para uma sociedade que ainda acredita que o Surdo é Surdo-Mudo, que o Surdo é um deficiente mental e que a Língua de Sinais é simplesmente uma linguagem, uma mímica universal, subordinada às línguas orais e sem estrutura própria.
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