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ALACAKLARIN KREDI KARTI İLE ÖDENMESİ 430

Belgede ALACAK YAPILANDIRMASI (sayfa 31-37)

BİRİNCİ BÖLÜM ÇeŞİtlİ HÜKÜMler

2.2. ALACAKLARIN KREDI KARTI İLE ÖDENMESİ 430

Júlio Fogaça, vivera no Tarrafal a Política Nova. Era um discípulo de Bento Gonçalves, de quem havia recebido formação política e ideológica. Foi pela sua mão que acedeu ao Secretariado pouco antes de ser preso com ele e pouco depois de ter aderido ao PCP. Amnistiado, Fogaça chegara ao continente incumbido de iniciar o processo de reorganização, de que fora, na fase inicial, o principal dirigente. Preso dois escassos anos depois, voltaria ao Tarrafal, onde chegou em Junho de 1943.

Depois da morte de Bento Gonçalves em 1942, mantinha-se na Organização Comunista Prisional um núcleo dirigente composto por membros do Comité Central, alguns dos quais haviam, em diferentes momentos, exercido inclusivamente funções ao nível do Secretariado, como era o caso de Júlio Fogaça, Alberto Araújo, Militão Ribeiro, Francisco Miguel, Manuel Alpedrinha, Carlos Matoso ou Miguel Wager Russell. Também aí se encontrava Gilberto de Oliveira e Domingos dos Santos, que haviam integrado a Direcção da Federação das Juventudes Comunistas e nessa qualidade participado no VII Congresso do Komintern e no VI da Internacional Comunista Juvenil; Sebastão Viola que frequentara a Escola Lenine, em Moscovo ou Oliver Bártolo e João Faria Borda que pertenceram à direcção da Organização Revolucionária da Armada.

Em 1942, a chegada de uma leva de presos não comunistas, a maioria dos quais nem sequer ficou alojado dentro do Campo permitiu que através de um deles em particular, Cândido de Oliveira, com importantes contactos com os meios da oposição moderada e anglófila e com sectores militares do MUNAF, a OCPT passasse a receber regularmente informações políticas e mesmo alguma imprensa clandestina, originária desses meios 338.

Nesta altura foi laboriosamente desenhado e afixado numa das casernas um grande mapa da Europa em guerra, onde, como refere Miguel Wager Russell, “passámos a seguir o desenvolvimento das batalhas e os avanços e recuos dos exércitos

338

Cf. AAVV, Tarrafal. Testemunhos, Caminho, Lisboa, 1978, p. 259 e Ramiro [Júlio Fogaça], Breve análise de alguns erros e

em guerra, com notável exactidão, pois o mapa ‘fabricado’ pelos nossos amigos permitia localizar com certa minúcia o desenvolvimento das operações militares” 339.

Passara-se também a ter acesso à leitura de jornais. A partir de finais de 1944, foi possível passar a receber, por assinatura, vários jornais, como O Século, o Diário de

Notícias, O Primeiro de Janeiro, que eram exaustivamente lidos e relidos, em particular

as notícias da guerra.

Com base na análise da imprensa e em recortes, um grupo organizou um ficheiro sobre as grandes empresas e as famílias mais poderosas, procurando detectar a evolução económica no seio do regime, que seria depois transportado para Portugal340.

O Secretariado do PCP havia, por sua vez, conseguido fazer chegar á OCPT, entre Junho de 1943 e Dezembro de 1944, várias cartas, resumos da imprensa partidária e até algumas publicações e manifestos, reportando-se designadamente às greves desse período, ao acordo luso-britânico ou ao Programa de Emergência do Governo Provisório341.

O relativo desanuviamento das condições de vida prisional foi aproveitado pelo colectivo de quadros comunistas para tomar conhecimento e debater as posições do partido, do que resultaram as propostas que, configurando-se entre meados de 1943 e inícios de 1945 como corpo elaborado e coerente, ficaram conhecidas como “Política de Transição”.

Essas propostas foram desenvolvidas num ambiente grande autoconfiança nas suas capacidades e de convicção que aquele núcleo que as elaborava é que representava a verdadeira direcção do partido, herdeira da sua história, do reconhecimento perante a Internacional Comunista, daquilo que no essencial representava o pensamento e o legado de Bento Gonçalves 342 e, em boa medida depositária dos fundamentos e da

iniciativa do processo de reorganização.

Chegaram a designar a direcção da OCPT de Comité Central343, o núcleo de

quadros “em torno do qual giraria, futuramente, todo o trabalho de direcção do

Partido”344, a apontar Alberto Araújo como futuro secretário-geral345, a definir planos de

339

Miguel Wager Russell, Recordações dos tempos difíceis, Edições Avante!, Lisboa, 1976, p. 92

340

Idem, p. 127

341Cf. Amílcar [Sérgio Vilarigues], Junho de 1953. Queridos Camaradas, dact., p. 3, in IAN/TT, Pide/DGS, P. 93-GT, [79] 342

Cf. Ribeiro [Gilberto de Oliveira], Queridos Camaradas, Junho de 1950, dact., p. 3, IAN/TT, Pide-DGS, P. 253/GT, [107]

343

Cf. Ribeiro [Gilberto de Oliveira], Queridos Camaradas..., p. 2, [106]

344[João Rodrigues ?], Uma autocrítica... p. 3 345

acção e a distribuir entre si a responsabilidade por frentes de trabalho – sindical, movimento juvenil e outras346.

Olhavam o país e o mundo a partir do interior de um campo prisional localizado numa ilha atlântica, com base em informações profundamente filtradas pelos diversos e sucessivos mecanismos por que passavam até que delas pudessem dispor.

Mediados pela distância e pelas condições prisionais, era por carta que debatiam com a direcção do partido no interior, saída do III Congresso, cujas conclusões criticavam de forma áspera, em particular a estratégia para o derrube do regime, adoptando, frequentemente, um tom imperativo. Numa dessas cartas, de 23 de Novembro de 1944 afirmavam:

“Não acreditais na política de transição. Deveis acreditar.

Doutrinariamente tendes disso a obrigação. E por lições de factos contemporâneos. Vede como procedeu a URSS na Finlândia, na Roménia, na Bulgária, na Iugoslávia e na própria Polónia” 347

Sustentavam que o derrube do salazarismo resultaria de uma estratégia de desagregação interna do seu bloco político de apoio, admitiam que se poderia traduzir num golpe militar, conchavando os sectores em dissidência do regime com a ala militar do MUNAF e com o apoio dos Aliados.

Sobre a política de frente única e os movimentos grevistas de 1943 e 1944, acusavam o partido de os sobrevalorizar, entrando num caminho de esquerdização, de que os “famigerados GAC” 348 como Júlio Fogaça se lhes refere, eram exemplo.

Assinalavam então que os perigos dessa radicalização, sem condições para vencer, poderia suscitar uma repressão feroz que desarticularia e desanimaria o movimento operário, paralisando-o e bloqueando qualquer intervenção no curso dos acontecimentos por um período prolongado.

Sustentavam, por isso, que não se devia radicalizar o movimento operário e popular e que a sua actuação se era fundamental, devia também contribuir para tranquilizar os sectores políticos e militares da burguesia liberal, pois como referiam “Dando sempre a primazia ao movimento de massas, que aliás não exlue mas o

propicia, não se deve por de parte um golpe de Estado, por cima, que será tanto mais

346

[João Rodrigues ?], Uma autocrítica... p. 3

347Cit. por Ramiro [Júlio Fogaça], inBreve análise de alguns erros..., p. 4 348

facilitado e tanto mais a ele se disporão quanto os que tiverem de o fazer saibam que não vão cair no que mais temem: a revolta e a vingança populares” 349.

Por outro lado, defendiam ainda que o fortalecimento da unidade nacional não devia implicar uma grande estruturação orgânica para além do CNUAF e por isso se opunham à criação de comissões regionais ou locais; entendiam o MUNAF como um poderoso movimento de massas, apenas enquadrado por uma imprensa própria, na qual o partido se integraria.

Era nesse contexto que admitiam a suspensão do Avante! O tom era cuidadoso, mas inequívoco:

“com sacrifício dos nossos interesses partidários mas tendo em conta os

interesses nacionais, iremos à suspensão do nosso “Avante!” e iniciaremos a publicação dum jornal por nós dirigido integrado nos objectivos do CUNAF que será um órgão livre do povo português, aberto a todos os portugueses que quiserem lutar e posto à disposição do CUN para o que importar [na] luta nacional” 350

A OCPT congregou, no essencial, em torno da “Política de Transição” praticamente todo o conjunto de militantes aí detidos, pois como reconhece Gilberto de Oliveira, “tinha sido aventada por um dos elementos responsáveis da Organização

Comunista Prisional do Tarrafal e, logo de seguida, apoiada por outro elemento também responsável. Todos, mais ou menos, discutimos a questão e, de uma maneira geral, por insuficiência de raciocínio, as manifestações foram a favor. Foram poucos os casos de quem se manifestasse contra” 351.

O próprio Gilberto de Oliveira assevera, por exemplo, ter-se Militão Ribeiro, como ele, oposto aos fundamentos da “Política de Transição”, mas apenas no que no que concernia ao abaixamento do papel dirigente do partido e à sua diluição política 352

no quadro da resistência antisalazarista.

Militão já tinha expresso a opinião de que o estádio de amadurecimento da consciência política do proletariado estava bastante atrasado, pelo que a constituição dos GAC, entre finais de 1944 e início do ano seguinte, orientando-se para a possibilidade próxima da insurreição, não estava conforme a realidade, desfocando-a.

349

Idem, p. 6 350

Idem, p.8

351Gilberto de Oliveira, Memória viva..., p. 196 352

Do seu ponto de vista, entendia que, prioritariamente, o partido deveria ajudar ao desenvolvimento de movimentos reivindicativos, ficando a convocação de greves para uma fase mais avançada, quando a consciência dos trabalhadores assim o justificasse. Ao partido caberia demonstrar, através de exemplos, como nas cidades e nos campos camadas da pequena e média burguesia se haviam colocado ao lado dos operários nas suas lutas e apoiado as suas reivindicações.

Entendia aliás que a nação estava dividida e que o perigo de guerra civil era real latejava, defendendo em consequência “que só a reconciliação da família portuguesa

poderia criar as condições para uma saída menos dolorosa do actual estado de coisas. (...) Devia-se criar um ambiente que servisse para desagregar as forças do fascismo e não para as unir. Na medida em que o P., através da sua imprensa punha o problema da insurreição do povo como única saída, as forças mais tímidas do povo – que têm horror à insurreição – afastavam-se do próprio P.” 353.

Condensa-se aqui o essencial da “Política de Transição” em larga convergência de pontos de vista com Júlio Fogaça e outros dirigentes no Tarrafal, ainda que menos optimista que estes, que podendo concordar parcialmente consigo quando ao estado de consciência do movimento operário, tomavam a desagregação do regime e a situação internacional como factores potencialmente favoráveis.

Chegava-se à Política de Transição por caminhos distintos e matizes diversos, mas engrossando um caudal crítico consideravelmente consistente. A OCPT afirmava mesmo em 1944 que “Toda a possibilidade de desagregação do fascismo tem

importância na actual fase, desde que constitua (e constituirá) uma base [a]largada do trabalho antifascista. Por isso mesmo haverá de ser-se audaz, largo de vistas, vencer- se muitos esquerdismos, próprios e alheios, lutar contra esperanças falsas, e esquemas bonitos. Concretizando: não deixaremos o pouco, seguro, pela ideia de que as massas já estão em braza e mais uns momentos e o fascismo cairá de pôdre”354.

Deste modo, os defensores da Política de Transição contestavam o essencial da estratégia para o derrube do regime tal como o III Congresso a definira. Afinal, aquilo que o Comité Central vinha combatendo como tendências nocivas no seio do movimento democrático, era no fundo defendido pelo grupo do Tarrafal: o apoio e expectativa em relação ao putsch ou à revolução de palácio resultante da desagregação do regime, o atentismo em relação aos Aliados, a desvalorização do movimento 353Ant[ónio], [Militão Ribeiro], Resumo da minha intervenção crítica..., p. 3

354

operário e popular como motor da frente antifascista, o rebaixamento do papel dirigente do partido exercido em nome e com voz própria.

No Tarrafal a unidade de pontos de vista parecia ser total, sem qualquer oposição significativa. Segundo Gilberto de Oliveira “não houve um só caso de

aceitação disciplinar, por submissão á maioria de camaradas que, discordando manifestaram abertamente a sua discordância das críticas e sugestões feitas nas cartas da OCP à Direcção do nosso Partido” 355.

Para a direcção do partido no interior os acontecimentos até poderiam nem evoluir de forma esquemática, admitindo um putsch ou um golpe palaciano, mas o eixo estratégico central deveria assentar na acção operária e popular como factor de arrastamento de outros sectores sociais, políticos e militares com vista à insurreição e ao derrube do regime e não na movimentação “por cima”356.

Por outro lado, a convergência objectiva entre a Política de Transição e a orientação que os sectores não comunistas queriam impor ao movimento antifascista minavam a própria legitimidade da direcção do PCP, fundada justamente nas resoluções do III Congresso.

Mas também no interior e no seio do partido vinham-se entretanto desenvolvendo e cristalizando posições decorrentes da apreciação conjuntura nacional e internacional em divergência com a linha aprovada em congresso.

Na apreciação das greves de 1944 tinham já surgido opiniões contrárias ao à avaliação do movimento e mesmo à oportunidade da sua convocação. Seriam minoritárias segundo o Secretariado do CC, mas convergentes com a apreciação que a OCPT faz sobre o assunto, a partir do Tarrafal e no quadro da “Política de Transição”.

Havia ainda sinais de alguma permeabilidade por parte de militantes na legalidade à pressão exercida pelas correntes não comunistas do MUNAF.

A reunião ampliada do Comité Central de Maio de 1945 procura debater estas matérias, inserindo na agenda dos trabalhos um ponto sobre a “Política de Transição”, ainda que sem tempo útil para as tratar e no curso das próprias discussões aí travadas ter-se-iam expressado pontos de vista que Álvaro Cunhal mais tarde classificará de browderistas, veiculados pelo menos por Fernando Piteira Santos.

O espectro do browderismo adquiria na segunda metade dos anos quarenta e no quadro do movimento comunista internacional um carácter herético. Earl Browder, 355Cf. Ribeiro [Gilberto de Oliveira], Queridos Camaradas..., p. 1, [105]

356

Cf. Álvaro Cunhal (Duarte), O caminho para o derrubamento do fascismo, IV Congresso do Partido Comunista Português, 1º volume, Edições Avante!, Lisboa, 1997, pp 173-175

secretário-geral do PC Americano, negava em 1944 a definição leninista de imperialismo, como um estádio de desenvolvimento superior do capitalismo. Vislumbrava sinais de decadência que o tornariam agonizante, para ainda acrescentar que, do seu ponto de vista, nos Estados Unidos o que havia era um capitalismo jovem, contrariando o seu carácter imperialista.

Deste modo, desvalorizando a superioridade e a agressividade do capitalismo americano, sustentava que a burguesia nacional tinha naquela etapa história interesses comuns com o proletariado, que deviam ser valorizados. Havia como que uma comunhão de interesses entre trabalhadores, industriais, financeiros e comerciantes que não queriam uma nova crise económica, pelo que considerava possível resolver divergências e tensões de interesse nacional pondo limites à conflitualidade social e política357 .

Por outro lado, encarava a frente mundial antifascista, expressa na Conferência de Teerão, como a negação das ideias leninistas quanto ao novo carácter do imperialismo, com o qual afinal a União Soviética cooperava e, como deduzia, “se a

União Soviética pode cooperar com os poderes imperialistas pode também viver em paz com os capitalistas”358.

Levando mais longe a sua tese, não via razão para a existência de um Partido Comunista nos EUA, pelo que propõe a sua dissolução ao congresso de 1944, que ve aprovada, sendo criada em sua substituição uma Associação Política, onde os militantes que o entendessem se podiam filiar, podendo pertencer ao mesmo tempo a outro partido americano.

Perante a heresia, Jacques Duclos, impulsionado pelos soviéticos, seria, em Abril de 1945 o primeiro359 a acusá-lo de semear “perigosas ilusões oportunistas”num

contundente artigo em Les Cahiers du Communisme360, a revista teórica do PCF, artigo

que circulou dactilografado em Portugal361.

Não obstante, as ideias de Browder haviam-se conseguido disseminar dentro de muitos partidos comunistas, designadamente em Cuba, na Colômbia, na Venezuela ou no Brasil.

Em Portugal, Piteira Santos (Fred), enquanto membro do Comité Central teria, em várias ocasiões (Fevereiro e Maio de 1945, pelo menos) sustentado posições nessa 357Cf . Duarte [Álvaro Cunhal], Unidade, garantia da vitória, Informe ao Comité Central em Junho de 1947, dact., p. 55

358

Cit. The Witnesses Joszef Peter, in http://homepages.nyu/~th15/peters.html, 2/6

359

Cf. Álvaro Cunhal, Duas intervenções, Edições Avante!, Lisboa, 1996, p. 79

360Cit. Duarte [Álvaro Cunhal], Unidade, garantia da vitória..., p. 56 361

linha, designadamente a ideia de arbitragem como forma de resolver, num contexto de interesse nacional, os conflitos entre trabalhadores e patrões. Esta concertação de interesses daria legitimidade, com bom senso e patriotismo, a um amplo governo de unidade nacional, que pudesse fazer caminho até ao socialismo.

Aliás, segundo Álvaro Cunhal, Piteira Santos teria, nessa altura, inclusivamente reconhecido e assumido a sua concordância com algumas das ideias de Browder, que conhecia, verberando contra uma leitura petrificada dos textos marxistas, a que oporia um “marxismo criador”. E não seria o único, mas, aparentemente, aquele que de modo mais consistente o teria demonstrado362.

Por outro lado, Piteira Santos, enquanto membro do CC do PCP também conhecia a “Política de Transição” avançada pela OCPT, ainda que dificilmente se pudesse identificar em todos os seus contornos com o que os dirigentes no Tarrafal sustentavam, já que punham objectivamente em causa todo o esforço da elite dirigente do interior, de que Piteira fazia parte como homem da reorganização, como membro eleito do CC no III Congresso, como autor inclusivamente da versão inicial do documento apresentado ao CNUAF em que se desenhavam os GAC. A este perfil dificilmente caberia o tom presunçosamente crítico e eivado de arrogância que transpirava das cartas que chegavam do Tarrafal.

No entanto, ao Tarrafal não chegaram as teses de Browder. Mas, segundo Gilberto de Oliveira, teria chegado a notícia da dissolução do PCA e da constituição da Associação Política que não suscitaram nenhuma discussão séria nem nenhuma condenação formal363. Aliás, para si, se alguém no Tarrafal mais se teria aproximado

dessas ideias não foram os comunistas da OCPT, mas sim o grupo de José de Sousa. Gilberto de Oliveira considera que havia aspectos essenciais em que a Política de Transição se afastava do browderismo, designadamente ao considerar a desagregação do regime como via para um governo de unidade nacional, quando as ideias de Browder levariam, antes, à reconciliação com o regime. Mas reconhece, no entanto, que havia também aspectos essenciais em que a proximidade era evidente, como na tendência para a conciliação entre trabalhadores e patrões.

Na carta enviada do Tarrafal pela OCPT em 12 de Janeiro de 1945 defendia-se que as reivindicações dos trabalhadores deviam ser postas “num tom que não

362Cf. Duarte [Álvaro Cunhal], Unidade, garantia da vitória..., p. 56 363

atemorizem os patrões e os empregados não fascistas e que estes não estejam contra os operários que lutam”364

De qualquer modo, objectivamente, a “Política de Transição” e o Browderismo, eram como que duas faces da mesma moeda, ambas produzidas afinal no mesmo contexto internacional de aliança mundial antifascista em fim de guerra, ambas deslizando e sedimentando-se na onda insinuante que essa aliança havia projectado.

A condenação pelo PCP quer da Política de Transição quer do Browderismo iam mais uma vez na onda do movimento comunista internacional, masnem por isso anulava a existência de duas linhas que se iriam continuar a confrontar, naquilo que se apresentava como a mais importante querela interna desde a reorganização, tanto nos termos das divergências em questão, como dos seus impactos e das suas repercussões na identidade política do PCP.

Porém, as questões subjacentes ao debate em torno da Política de Transição eram mais remotas e, relacionando-se directamente com a questão da hegemonia ideológica e política do partido, haviam estado bem vivas e presentes desde os anos 30, designadamente em torno da política nos primeiros esforços para a construção da Frente Popular.

Belgede ALACAK YAPILANDIRMASI (sayfa 31-37)