São dois os personagens principais: André (Lázaro Ramos) e Sílvia (Leandra Leal) Ambos são de camada social baixa, trabalhadores do comércio. Ele é operador de fotocopiadora em uma papelaria, ela é vendedora em uma loja de roupas. São vizinhos, mas nunca se viram. André, depois de economizar durante um ano, consegue comprar um binóculo. Com ele, passa a observar o entorno, as pessoas e a cidade. É através desse olhar voyeur que ele descobre Sílvia e por ela se apaixona. Olhar não custa nada, e, para um sujeito que não tem dinheiro, tentar adivinhar coisas sobre a cidade e sobre as pessoas pode ser um bom passatempo. André precisa de dinheiro para conquistar Sílvia e para mudar de vida, deixar de trabalhar como operador de fotocopiadora e se tornar o ilustrador que sonha ser um dia. A máquina xerox traz um mundo de fragmentos para ele, pistas sobre uma vida mais rica do que a que vive. Imagens e palavras que apontam para uma realidade que lhe parece inacessível. André coleciona restos deixados
na máquina, pedaços de papel borrados, sobras de informação. Seu quarto é o retrato desse universo múltiplo e recortado; imagens forram as paredes, transformando o ambiente em uma grande colagem.
A máquina de fotocópia colorida pode ser a saída para essa prisão social, econômica e afetiva, e ele então decide falsifi car dinheiro: notas de cinqüenta reais. Fazer isso é um risco, o medo de ser pego é grande, mas o sucesso também é possível. Nem que seja para conseguir a quantia necessária para comprar uma camisola na loja de Sílvia. São 38 reais e ele não tem esse dinheiro.
André imprime a nota e consegue trocar em uma agência lotérica. O troco lhe permite voltar à loja para comprar o chambre e mais uma vez conversar com Sílvia. Os encontros passam a acontecer como coincidências e a aproximação vai se dando aos poucos. Tendo convites para a inauguração de um bar, André pergunta para a Marinês (Luana Piovani), sua companheira de trabalho, se ela quer ir com ele. Cada ingresso dá direito a duas cervejas. Ela aceita, mas pergunta se pode levar um amigo. André, decepcionado, diz que sim e sai em busca de Sílvia para convidá-la para o programa. Tímido e inseguro, o máximo que consegue fazer é perguntar se ela gosta de cerveja.
O amigo de Marinês é Cardoso (Pedro Cardoso), com quem André vai estabelecer uma relação de cumplicidade quanto às falsifi cações, troca das notas e outras ações em busca de dinheiro, como o assalto a um carro-forte. Mais algumas notas falsas permitem que ele compre uma cortina japonesa de presente para sua amada e um porta-jóias na loja de antiguidades onde trabalha Cardoso. Nota falsa, caixa falsa, e assim André conta sobre as falsifi cações para seu novo amigo.
As coisas se complicam quando André, para fazer um assalto, compra com o dinheiro copiado uma arma de um amigo trafi cante. O sujeito vai preso quando tenta usar as notas. Ao sair da cadeia chantageia André que, para se livrar da ameaça, acaba por levá-lo a uma armadilha disposta pela própria cidade – estacas de madeira cobertas com areia sob uma ponte de onde eles costumavam brincar se jogando do alto – lugar onde o trafi cante acaba morrendo literalmente estrepado. O motivo do assalto é a descoberta, em um de seus momentos de vouyerismo, de que o pai de Sílvia – Antunes (Carlos Cunha Filho) – é um tarado que observa a fi lha pelo buraco da fechadura. A necessidade de dinheiro para tentar livrar a namorada daquele pai incestuoso justifi ca a radicalidade da ação; esta ocorre em meio a trapalhadas que
resultam no ferimento do pai de Sílvia – segurança do carro-forte – e na fuga de ônibus dos cúmplices (André e Cardoso), cuja passagem é paga com o dinheiro roubado.
A sorte é outra possibilidade de salvação e André insiste em jogar na loteria apostando sempre nos mesmos números: 1, 2, 3, 4, 5 e 6. A notícia de que estes foram sorteados está na mesma página do jornal onde foi publicado um retrato falado do assaltante – completamente diferente de André – e a informação da prisão do amigo trafi cante de quem havia comprado a arma. A compreensão do que está acontecendo via mídia vai se dando aos poucos, como camadas de sentido que vão se sobrepondo, mudando o signifi cado da realidade.
Para desviar a atenção da imprensa, André entrega o bilhete premiado para Marinês. O dinheiro do assalto não é utilizado e eles gastam o da loteria. Depois de tantos acontecimentos, a reviravolta fi nal ocorre quando Sílvia conta para André que desde o início sabia que ele a vigiava. A revelação ocorre depois do jantar em que André pede a mão de Sílvia em casamento ao pai da jovem e este o reconhece como o assaltante do carro-forte. Sem nenhum pudor, o homem ameaça entregá-lo à polícia caso não receba uma parte do dinheiro.
Em casa, mais uma vez observando Sílvia, André se depara com o fato de que ela sabe que está sendo espionada. Diante da janela, a jovem se deixa ver com um caderno onde escreve que sabe de tudo e que tem urgência em conversar com ele. No encontro, relata que o pai lhe contou sobre o assalto e que André não deve ceder à chantagem. Ela diz que prefere matar o segurança e que suspeita que ele não seja seu pai verdadeiro. Para Sílvia, seu pai é um outro homem por quem a sua mãe foi apaixonada, um homem lindo, um artista. Sílvia convence André da validade do assassinato e propõe que, concluída a ação, eles viajem para o Rio de Janeiro. O idílio amoroso encontra seu clímax quando André diz a Sílvia que é operador de fotocopiadora e ela responde que sempre sonhou em casar com um operador de fotocopiadora. O assassinato acontece com a explosão do apartamento onde morava Antunes.
Uma carta escrita por Sílvia para o pai ideal (Paulo José) atualiza o espectador sobre a perspectiva narrativa construída por ela. O que foi escrito adquire voz e dá conta do momento em que ela se percebe espionada pelo vizinho e do modo como lida com a situação. Sílvia passou a se mostrar para André de um modo planejado, não deixando que este percebesse que ela sabia o que estava acontecendo. Ela descobre onde
o rapaz trabalha, testa suas ações, confi rma seu interesse e, simulando uma falta de correspondência, estimula a aproximação. A narrativa, neste momento, se reconstrói sob a voz over de Sílvia que se apropria de acontecimentos reais, mas que também cria uma nova realidade explicando o modo como André ganhou dinheiro – arrumou um bom emprego – e eles puderam casar e ir para o Rio de Janeiro. O fi lme é recontado a partir desta fala que revela o quanto os acontecimentos foram por ela direcionados. Do Rio de Janeiro, André também escreve para sua mãe dizendo estar na Holanda. Sob o Cristo Redentor estão os dois casais – André e Sílvia, Cardoso e Marinês –, livres de qualquer punição e sem nenhum sentimento de culpa. Eles esperam o homem que Sílvia crê ser seu pai verdadeiro. Paulo José, aqui também nomeado Paulo, cria mais uma camada de signifi cados para a narrativa. Seria ele um personagem ou estaria ali como o ator que todos nós conhecemos? Esclarecer esta questão não é a intenção do fi lme e de nenhum deles. Os quatro estão pouco preocupados com isto. A justifi cativa para tudo está na busca da felicidade que todos merecem e que só alguns conquistam.