O documento que marca o início do ML na Europa e serve de marco para a arte sacra no século XX, foi o Motu Próprio Tra Le Sollecitudini425, do Papa S. Pio X426. Embora o documento, datado de 1903, tenha como preocupação principal a questão da música sacra, existem elementos que discorrem sobre a arte em geral, e que têm uma igual aplicabilidade também à questão arquitetônica. O documento além de coibir abusos, tem sua importância dada - especialmente para o ML – ao afirmar que as artes devem ser utilizadas em função de uma maior participação dos fiéis à ação litúrgica. Essa preocupação está expressa pelo papa, quando diz na introdução do documento:
Sendo de fato nosso vivíssimo desejo que o espírito cristão refloresça em tudo e se mantenha em todos os fiéis, é necessário prover antes de tudo à santidade e dignidade do templo, onde os fiéis se reúnem precisamente para haurirem esse espírito da sua primária e indispensável fonte: a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja427.
É perceptível a apreensão do papa em relação à situação de alheamento dos fiéis no que diz respeito ao culto público da Igreja e fica claro que o elemento facilitador para o reflorescimento do espírito cristão é justamente a arte sacra, principalmente no que tange “a santidade e dignidade do templo” local onde os fiéis “se reúnem para haurirem esse espírito”. De fato, continua o Papa no número cinco do documento:
[...] a Igreja sempre reconheceu e favoreceu o progresso das artes, admitindo a serviço do culto tudo aquilo que o gênio soube encontrar de bom e de belo ao longo dos séculos, salvas sempre as leis litúrgicas428.
425 Motu Próprio Tra Le Sollecitudini, ASS 36 (1903-1904) 329-339.
426 Interessante o artigo intitulado S. Pio X e a Arte, onde o autor sublinha a grande preocupação de S. Pio X em
relação à promoção - dentro do campo da arte sacra - das artes plásticas em geral. Outra preocupação do Papa foi em relação à formação artística e litúrgica do clero, introduzindo no currículo de teologia o estudo da arqueologia e da arte sacra. Cf. OSWALD, Carlos. S. Pio X e a Arte. Vozes fasc. 5 (1954) 473-479.
427 Motu Próprio Tra Le Sollecitudini, ASS 36 (1903-1904) 329, Introdução. 428 Idem, n. 5.
Ou seja, apesar do Papa ao longo do documento colocar em guarda sobre os eventuais malefícios de uma influência nociva da arte profana, - especialmente em matéria musical - reconhece também que a Igreja soube se utilizar e incorporar no seu patrimônio as artes em geral, deixando desse modo a porta aberta para a recepção das artes de cunho moderno no âmbito da liturgia.
Conquanto o documento em si não dê nenhuma regra específica para a construção de igrejas, com as afirmações citadas acima, abre o caminho para a reflexão sobre o espaço sagrado e a participação ativa dos fiéis na liturgia.
As regras mais específicas no tocante ao espaço destinado ao culto, em época moderna, devem ser buscadas no Codex Iuris Canonici (CIC) de 1917.
As iniciativas de sistematização do corpo de leis da Igreja são anteriores ao ano de 1917, mas foi apenas com o Papa S. Pio X em 1904, que foi montada efetivamente uma comissão para sistematizar em um Código o cipoal de leis presentes na Igreja. Com a morte do Papa S. Pio X, coube ao seu sucessor, o Papa Bento XV, a promulgação em 1917 do CIC para toda a Igreja Latina.
O Código foi editado contendo diversas partes, onde abordava diferentes temáticas; no livro segundo do CIC está a parte destinada aos Lugares e Tempos Sagrados e, nessa parte, constam alguns cânones – CIC 1917, cc. 1.161-1.306 429 - que dizem respeito às igrejas
enquanto edifícios e ao seu mobiliário.
O cânone 1.161, por exemplo, define que igreja é um edifício sagrado dedicado ao culto divino 430, “com finalidade principal de servir a todos os fiéis para o exercício público
do culto”. Esses edifícios sagrados, segundo o CIC, se dividem em: basílicas maiores, igrejas patriarcais (sede de um Patriarca), igrejas primadas (sede de um Primaz), igrejas metropolitanas (sede de um Metropolita), catedrais (que possuem a cátedra do Bispo), basílicas menores, colegiadas, paroquiais e conventuais (de mosteiros ou conventos) e capelas. Embora haja algumas variantes arquitetônicas, - relacionadas ao tamanho dos edifícios religiosos, ao número de altares etc. - esta diferenciação no CIC se dá muito mais por questões de cunho canônico e eclesial do que propriamente por questões arquitetônicas.
O cânone 1.162 estabelece que ninguém poderá construir uma igreja para uso público sem o consentimento expresso e por escrito da autoridade competente e que normalmente, são
429 Para a arte sacra, fazem referência os seguintes cânones do CIC 1917: cc. 485; 1.161; 1.162; 1.164; 1.178;
1.261; 1.268; 1.269 § 1; 1.279; 1.280; 1.385; 1.399.
os bispos431 das várias dioceses espalhadas pelo mundo432. Uma vez construída, a igreja poderá ser utilizada apenas para o seu fim, ou seja, para as celebrações públicas, conforme o c. 1.165 § 1 e, preferencialmente somente após o rito da consagração ou dedicação solene ou, pelo menos, após a bênção dada pelo Ordinário433.
No parágrafo 4º do cânon 1.165, o CIC impõe que as igrejas construídas em materiais não duráveis, tais como, a madeira, o ferro ou outro metal, não devem ser consagradas, mas apenas benzidas. Isso para sublinhar a estabilidade do culto cristão. Em relação às igrejas construídas com a técnica do concreto armado, - tal era a novidade do artifício – a Sagrada Congregação de Ritos, sob consulta, emanou uma instrução dizendo ser possível consagrar a igreja, desde que as doze cruzes espalhadas pelas paredes ou colunas da igreja, - simbolizando os doze Apóstolos - e o dintel, bem como os batentes da porta principal fossem em pedra434.
O CIC 1917, embora não defina nada em termos de estilo, no cânon 1.164 § 1 diz que os ordinários, se for necessário, devem pedir o parecer de pessoas competentes, e terão que
“vigiar para que na construção ou restauração das igrejas, se guardem a forma tradicional cristã e as leis da arte sacra”. Com essa afirmação de caráter geral, o CIC – ainda que
indiretamente, através de uma leitura interpretativa redutiva do cânon – consagrou os chamados estilos históricos, dificultando um maior diálogo com as artes e estilos modernos.
O Magistério da Igreja entre o século XIX e o início do século XX, teve um distanciamento do mundo moderno e como tal, assumiu uma postura geral de condenação em relação às ideias ligadas a concepções modernas e liberais435. Esta atitude negativa genérica, como era de se esperar, levou a um uso muito pequeno da aplicação da arte e da arquitetura moderna no culto até as primeiras décadas do século XX.
431 O CIC 1917 fala de Ordinário, termo canônico que designa outras figuras além dos bispos; por exemplo: os
Abades.
432 Oficialmente, foi baseada neste cânone que a cúria de Belo Horizonte, sob o governo de D. Antonio dos
Santos Cabral, vetou a consagração da capela de S. Francisco, na Pampulha, obra de Oscar Niemeyer. Outro cânone que fora invocado à época, segundo a imprensa, foi o c. 1279, que vetava, à juízo do Ordinário, a exposição de “imagens que não mostrem a devida decência e honestidade, ou deem aos ignorantes ocasião de erro”, isso em referência à pintura do S. Francisco se despojando de suas vestes, de Cândido Portinari, considerado uma aberração disforme à época. Cf. Art. “Moderno demais”, templo de Niemeyer demorou a ser sagrado em BH, In: Jornal “A Folha de São Paulo”, edição de 12/07/2004, caderno cotidiano.
433 Para um histórico do Rito da Dedicação e de Benção das igrejas, ver BRAGA, P. Carlo, La Liturgia della
Dedicazione. In: Il Tempio. Atti della XVIII Settimana Litúrgica Nazionale. Monreale: Centro Azione Litúrgica, 1968, p. 65 ss.
434 S. C. de Ritos, 12 de novembro de 1909, n. 4.240, AAS, 1909, 797.
435 Os documentos do magistério da época condenam explicitamente o liberalismo e os erros do modernismo: Cf.
por exemplo, Mirari Vos, (15 agosto 1832) Acta Gregorii Papae XVI, I, 169-174; a encíclica de Pio IX Quanta cura e o Syllabus, ASS 3 (1864) 162s; a encíclica de Pio X Pascendi, ASS 40 (1907) 596-597 e Lamentabili, ASS 40 (1907) 473s.
Foi preciso aguardar o ano de 1947 com a Encíclica Mediator Dei do Papa Pio XII436, sobre a liturgia, para deixar claro que também a arte moderna estava apta a fazer parte do patrimônio da Igreja. De fato, no número 179 da Encíclica, o Papa diz a respeito:
O que dissemos da música, se aplica às outras artes e especialmente à arquitetura, à escultura e à pintura. Não se devem desprezar e repudiar genericamente e por preconceitos as formas e imagens recentes, mais adaptadas aos novos materiais com os quais são hoje confeccionados; mas, evitando com sábio equilíbrio o excessivo realismo de uma parte e o exagerado simbolismo de outra, e tendo em conta as exigências da comunidade cristã, mais do que o juízo e o gosto pessoal dos artistas, é absolutamente necessário dar livre campo também à arte moderna, se esta serve com a devida reverência e a devida honra aos sagrados edifícios e ritos; de modo que ela possa unir a sua voz ao admirável cântico de glória que os gênios cantaram nos séculos passados a fé católica437.
Dessa forma o Papa deixa claro que a arte moderna tem o seu devido lugar na Igreja.