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os capítulos anteriores vimos o processos de formação de diversas torritorialidades no amplo território dos Sertões do Norte. Vimos no capítulo 1, um sistema peculiar de demarcação e controle das microrregiões com base nas Ribeiras; no capítulo 2, analisamos o sistema de demarcação do gado, ao invés das tradicionais cercas na sesmarias, configurando um universo onde predominaram fronteiras moles às fixas. Neste capítulo, nosso foco é a arquitetura rural em rede, ou seja, em perspectiva comparada, analisada a partir das territorialidades configuradas anteriormente. Com base na “Relação dos Proprietários dos Estabalecimentos Ruraes” do Recenseamento de 1920, coordenado pelo “Ministério da Agricultura, Industria e Commercio” através da “Directoria Geral de Estatística”, temos o quadro geral das propriedades rurais do Brasil. O recenseamento apresenta os seguintes números de propriedades rurais: 16.223 no Ceará, 5.578 no Rio Grande do Norte, 18.378 na Paraíba, 23.336 em Pernambuco e 65.181 na Bahia. Esse total genérico não engloba as diferenças intrínsecas a cada propriedade, muito menos distingue o tipo de atividade rural ali desenvolvida. No entanto, demonstra o grande número de fazendas existentes em princípios do século passado.

Nossa atenção dirige-se às fazendas de gado do século XIX. Decerto, a complexidade do território brasileiro na Colônia e no Império, sua ampla dimensão territorial, diferenças físicas, geográficas e econômicas, somadas às diversas formas de convívio social e organização material condicionaram diferentes partidos arquitetônicos.

No âmbito rural as edificações respondem, prioritariamente, aos condicionantes do sítio e à eficiência da sua função. Muito embora tenha sido nas construções residenciais onde a arquitetura rural brasileira produziu o mais rico e distinto repertório de exemplares, envolvendo exclusive manifestações estéticas relevantes, não menos importantes, quando existente, são os edifícios produtivos, cuja forma em geral corresponde à sua função..

Obviamente, no que diz respeito aos estabelecimentos de produção, cada tipo de atividade econômica tinha sua especificidade. No caso da pecuária, não havia processo de beneficiamento no local, pois se tratando de fazendas que vendiam o gado vivo. Nesse sentido, a única construção realmente necessária na “indústria do criatório” eram os currais, facilmente resolvidos com a utilização de pedras aparelhadas, toras de madeiras e/ou barro. De modo que, a atividade da pecuária caracteriza- se pela ausência de construções elaboradas para seu desenvolvimento. Devido ao número reduzido de mão-de-obra necessária ao criatório.

Inicialmente, as propriedades instaladas nos Sertões do Norte brasileiros destinadas ao criatório de gado despensaram edificações erguidas com técnicas construtivas duráveis. As casas sedes de fazendas de gado só vieram a ser erguidas quando as famílias estabeleceram-se nesses sertões, no século XVIII e com mais vigor no XIX. Nesses dois séculos, predominou a dificuldade de comunicação

entre as fazendas e os núcleos urbanos, favorecendo o caráter de subsistência das propriedades. A isso correspondem edifícios para beneficiamento de mandioca e cana-de-açúcar, e mais tarde do algodão. A dispersão das fazendas de gado é reflexo da atividade pecuária ali desenvolvida, caracterizada como uma atividade na qual o gado tinha que caminhar grandes distância para se alimentar e beber água, envolvendo em geral grandes glebas não cercadas. Tal característica irá refletir-se também nas relações do cotidiano.

O título de proprietário de fazenda de gado não garantia de alto poder econômico e posses avantajadas, e isso somado à escassa mão-de-obra disponível nos Sertões do Norte constituirá-se um outro condicionante do partido arquitetônico, determinando o aspecto das edificações.

Comparativamente, a arquitetura rural ligada à pecuária Sertões do Norte não possui a riqueza de repertório dos exemplares ligados ao café e ao açúcar. Mas, o que esta tese tenta demonstrar, é que a arquitetura do gado apresenta soluções genuínas, baseadas no saber vernacular, respondendo com rara eleza e conveniência às lógicas e especificidades dos sertões onde foram implantadas. Diferencia-se da arquitetura do açúcar e do café (também baseadas em práticas da arquitetura tradicional, com “saber fazer”) pelo uso mais restrito de elementos arquitetônicos, aproximando-se delas na organização dos espaços internos, em resposta à demanda.

Como veremos, na aparente homogeneidade do conjunto, residem diferenças substantivas, o que torna esse acervo ainda mais relevante do ponto de vista da cultura material. A arquitetura do

gado apesar de responder a condicionantes de partido arquitetônico similares, está longe de ser

homogênea. Como pretendemos demonstrar, trata-se de um conjunto heterogêneo. Decerto, dentro desta heterogeneidade há traços e aspectos comuns que alinhavam estes exemplares em uma rede coerente. As casas de morada selecionadas para análise datam, principalmente do século XIX. Nosso estudo comparativo do partido arquitetônico pautar-se-á em algumas categorias de análise comuns, a saber:

1) Topografia do terreno, implantação e orientação; 2) Caixa edilícia e modenatura;

3) Programa arquitetônico (ambientes constituintes e seu arranjo espacial); 4) Materiais, técnicas e sistemas construtivos;

5) Mobiliário e utensílios.

Perceberemos que esse acervo foi edificado a partir de técnicas construtivas tradicionais e sua implantação em diferentes sertões conferiu-lhe traços vernáculos particulares, principalmente decorrentes dos materiais disponíveis, que se diferenciam mais quantitativamente que qualitativamente.

Neste capítulo analisaremos as características dos remanescentes arquitetônicos da “indústria do criatório” inventariados em algumas ribeiras dos Sertões do Norte - Ribeiras do Piauí (29), Ribeira

dos Inhamuns (12), Ribeira do Seridó (43), Ribeiras da Paraíba (7) e Ribeiras do São Francisco e do Alto Sertão Baiano (25) - buscando denominadores comuns e particularidades.

Como salientamos na introdução, essa amostragem de 116 exemplares não se constitui a totalidade do universo empírico, certamente mais amplo e ainda carente de atenção por parte das academias e instituições voltadas à preservação do patrimônio cultural. No entanto, dão a medida de um universo bem mais plural do que parecia à primeira vista.

Benzer Belgeler