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Uma das primeiras conquistas do governo de Costa Cabral foi a promulgação do Código Administrativo de 1842, que regulava o funcionamento e organização administrativa dos territórios portugueses. Atuando como legislação paralela aos parâmetros constitucionais, e tendo por objetivo organizar a vida social da população, o Código de 1842 complementava alguns pressupostos do Código anterior, datado de 1836, e de inspiração liberalizante, mais alinhada aos desideratos do movimento da Revolução de Setembro. 305
São aí regulamentadas as atividades dos Conselhos Municipais e Câmaras, das juntas paroquiais e suas fábricas – é importante ter em vista que, tal como no Brasil, cujas ligações entre Igreja e Estado só foram abolidas no Decreto 119 A de 1890, em Portugal estas mesmas instituições mantiveram-se administrativamente unificadas, através do regime do Padroado Régio, até o século XX.306
No Código, ainda, estão consignados os pré-requisitos para o exercício do sufrágio por parte dos cidadãos – mantendo-se o padrão censitário, e excluindo-se deste direito os clérigos, estrangeiros não-naturalizados, os menores de vinte e cinco anos, escravos libertos, criados de servir e todos aqueles que estivessem em situação de insolvência financeira.
Um aspecto importante, no campo econômico, a ser ressaltado neste momento, é a promulgação de um novo código fiscal para Portugal, a 19 de Abril de 1845. Através deste projeto, Cabral pretende realizar uma ampla reforma fiscal que melhore a estrutura arrecadatória e reordene os perfis de tributação. Para dar cabo a este fito, o projeto cabralista elimina as antigas obrigações dizimais, substituindo-as pelas chamadas
305 GARCIA (1981), pp.197-99. 306 ALMEIDA (2007).
199 contribuições de repartição, ou seja, taxações que incidissem sobre categorias definidas
da atividade econômica.
A contribuição de maior importância incidiria sobre os bens imóveis, notoriamente no setor urbano, em um modelo antecessor ao nosso Imposto de Propriedade Territorial Urbana (IPTU): Sendo as propriedades arroladas pelas administrações municipais, a partir de uma ‘matriz predial’, seria calculado o montante do imposto proporcionalmente a partir de seus rendimentos.
Da mesma forma, estabeleciam-se tributos sobre os rendimentos do trabalho, conforme a capacidade produtiva e a natureza das profissões dos indivíduos. Por último, a contribuição pessoal incidia generalizadamente, onerando os cidadãos com taxas gerais correspondentes a dois dias de trabalho ao ano.307
O período do Cabralismo ficaria igualmente conhecido, porém, pelas características nebulosas que envolveram a administração pública durante sua vigência. De fato, D. Maria II cumulou Costa Cabral de benesses e títulos em troca do apoio do mesmo à sustentação do Trono. Elevado à dignidade de Conde de Tomar (1845), Cabral traz para junto de seu condomínio do poder membros de sua própria família: Nomeia o irmão João Rabelo a presidente da Câmara dos Deputados, e o outro irmão, José Bernardo, a Ministro da Justiça. Não obstante, ainda usufrui, à larga, dos recursos estatais para benefício pessoal.
Maria de Fátima Bonifácio, em análise fortemente incisiva, faz alusão à situação apresentada:
Afora o círculo dos seus fiéis, (Costa Cabral, n.a.) era odiado de cima a baixo na escala social. O seu êxito político suscitou despeito generalizado. O seu rápido enriquecimento causou escândalo e também invejas inconfessáveis.
307 VASQUES (2009).
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Ninguém perdoava que o plebeu ainda há pouco conhecido por morar numa modesta casa a Buenos Aires e trajar um reles casaco com gola de chibo em breve habitasse um sumptuoso palácio na Calçada da Estrela, possuísse um castelo em Tomar e uma quinta na Mealhada. Subira ao poder em 1842, nada tendo de seu, e em 1845, apenas três anos depois, era já o que se via. Possuía equipagens e dava festas espaventosas; o recheio das suas casas era luxuoso; a mulher vestia-se na mais cara modista de Lisboa, a francesa Levaillant. Os jornais dissecavam os seus haveres, contabilizavam as luvas recebidas por contratos firmados pelo Estado com companhias particulares, calculavam o montante da sua fortuna e discutiam a origem dela. Os epítetos de «concussionário» e «ladrão» colaram-se à sua pessoa como a pele se cola ao corpo. Aparentemente, a sua notória e escandalosa corrupção não impressionava a rainha, de quem se tornara o favorito, que o elevou a conde em 1845 e que o honrava hospedando-se com a corte no castelo dele em Tomar. O espectáculo do plebeu alcandorado aos píncaros do poder e da glória esporeava a verrina dos seus inimigos. A aristocracia, regra geral, envolveu-o num fundo desprezo. Costa Cabral parecia desafiar tudo e todos308.
Torna-se patente, a partir da situação apresentada, que o governo anteriormente aclamado pelo povo logo seria alvo de sua ojeriza. Deveras, o afastamento das instâncias sociais intermediárias do centro do poder, associado à reforma fiscal apresentada pelo governo, com o aumento da carga tributária, e o reordenamento da vida pública com o novo código administrativo, acirraram os ânimos da população.
Este quadro geral também foi, de certa forma, açambarcado pelas lideranças oposicionistas ao regime, notoriamente associadas, ainda, aos absolutistas e miguelistas, há anos afastados do centro do poder e que se utilizariam daquela situação de desordem para trazer de volta à luz seus antigos projetos políticos309.
Bastaria uma pequena centelha para que estas tensões explodissem em novos motins: Tal foi o que ocorreu em Março de 1846, na província do Minho, freguesia de Fontarcada: Descontentes com os novos ordenamentos do Ministro do Reino, que manda colocar em prática a proibição de realizar sepultamentos dentro das igrejas, um grupo de
308 BONIFÁCIO (2003), pp.1250-51. 309 PEREIRA, Op. Cit, p.326.