Anda com arma pra cima e pra baixo. Se atira pra cima dos caras... (A., 18 anos sobre B, 14 anos).
[...] As mulheres que ficam com você pelo que você é são muito poucas. Elas querem o que você tem. Mas gente pode ir atrás, pode conseguir ter as coisas.
[...] Fiquei com muita raiva. Ficam oprimindo a gente. A gente não oprime eles. Tem dias deles e dias nosso. Ele pegou a gente, infelizmente. Mas não vai ficar agredindo a gente... se ele ficar agredindo acha que a gente é bunda mole. Vai ficar quieto? A gente não tá mamando na mamadeira, vamo pro arrebento. Gosta de agredir? Vai passar mal. Um dia dele, um dia nosso. Um dia da caça, outro do caçador. .
Esse casa é doido de pedra. Ele é muito louco. Anda com arma pra
Tais relatos evidenciam práticas de enfrentamento como demonstração de virilidade, a necessidade do uso da arma como demonstração de potência, e também de forma de ataque.
Encontramos em outras pesquisas, relatos demonstram as armas funcionando quase que como um “suporte psíquico” encorajando a uma postura de insubmissão, de poder.
Vestia-me, caminhava e falava como um homem com poder de vida e morte. As armas eram quase extensão de meus braços, até ao banheiro ia armado. Adorava armas, vivia desmontando-as, limpando, azeitando, treinando tiro ao alvo com elas e, infantilmente, girando-as nos dedos, tipo bangue-bangue. Não ligava para a vida de quem não estivesse ao meu lado, e já não estava apaixonado por ninguém. (MENDES, 2009, 314)
Tem jovem que, não sei se é o caso dos meninos, mas pelo menos é o meu caso, quando coloco uma peça na cintura eu já me sinto protegido, já. (YOKOMISO, 2013, p. 259)
Carreteiro (2003) considera que a lógica da virilidade surge como uma resposta a fragilidade do contrato narcísico.
O que pode acontecer quando o contrato narcísico não é sustentado positivamente pelas instituições, mas, ao contrário, é constantemente atacado? São produzidas marcas no psiquismo individual e grupal que contribuem para a formação de um déficit narcísico. Este é forjado gradativamente através de ataques cumulativos. O acúmulo do reconhecimento pautado na negatividade vai romper ou esgarçar o contrato narcísico. Tal processo terá desdobramentos subjetivos e sociais. [...] No presente texto gostaríamos de enfocar uma outra conseqüência do déficit narcísico: a lógica da virilidade . Esta tem na violência um de seus principais instrumentos. A virilidade se expressa pela violência simbólica ou real que se é capaz de impor ao outro (DÉJOURS, 1997, p. 100). A possibilidade de se cometer violência é uma construção social sustentada individual e grupalmente. O exercício da virilidade se rebela contra qualquer tipo de humilhação, desonra ou não reconhecimento. Os indivíduos movidos por esta lógica buscam construir atos considerados heróicos. Eles se mostram destemidos, corajosos e almejam ser reconhecidos como tal. (CARRETEIRO, 2003, p. 61).
Segundo a autora, a lógica da virilidade perpassa todos os espaços sociais, não obstante ela se faça mais dramática em certos territórios sociais. Assim, quando os sujeitos sofrem constantes ataques às suas posições de cidadãos, a virilidade pode se fazer mais presente. Ela “restaura (ainda que este mecanismo seja defensivo) uma
imagem narcísica ultrajada. Contudo, procedimentos de ação ficam enrijecidos”. (CARRETEIRO, 2003, P.62).
Outro aspecto levantado pela autora refere-se ao exercício da lógica da virilidade, e o olhar do outro.
Em seu entendimento, essa lógica
leva os sujeitos a estarem sempre atentos a situações que lhes possibilitem exercer atitudes de coragem e força física. O olhar do outro tem aqui um papel preponderante; ele pode desencadear algumas reações consideradas viris. Em situações de extrema dramaticidade pode-se espancar ou desafiar alguém quando seu olhar é sentido como invalidante. Os sujeitos não suportam ser alvo de um olhar que qualificam como contendo desprezo e se sentem compelidos a reagir. (CARRETEIRO, 2003, p. 62).
Afirma que a lógica da virilidade é uma das consequências advindas da experiência das humilhações sociais. Os atos viris são executados como uma maneira dos jovens se firmarem como destemidos e corajosos, longe de humilhações e não reconhecimento por parte da sociedade. Agir a partir dessa lógica seria agir de forma heroica, contra as injustiças já sofridas, como, por exemplo, a humilhação vivida pelos pais que é presenciada pelos filhos, os quais encontram na violência a única resposta para esse tipo de sofrimento. O olhar disciplinador por parte da sociedade observa as atitudes dos jovens a fim de detectar os comportamentos considerados desviantes, e estes passam a ser identificados como indivíduos suspeitos e perigosos. Essa classificação também seria uma forma de humilhação, retirando o reconhecimento de seus códigos sociais e culturais e, principalmente colocando o jovem como inválido, gerando, assim, o sentimento de vergonha. Essa, por sua vez, é considerada como uma situação de inferioridade por parte daquele que é submetido a ela. Dessa forma, a virilidade utilizada pelo jovem perante a vergonha vivenciada seria o seu modo reativo contra a repressão advinda daquele que o submete a essa situação.
Zaluar (2004, p. 215) ressalta a importância, dentro do tráfico, do “[...] etos da virilidade – tão importante nesse imaginário estruturado pela posse real da arma de fogo e pelo dinheiro fácil no bolso”.
Segundo a autora, além do consumo, existe outro fator muito importante para a entrada do jovem no narcotráfico: as armas. Em seu entendimento, os jovens são fascinados por uma “subcultura viril” que atinge diretamente a vulnerabilidade das
crianças e dos maiores de 18 anos. O que mais importa é o valor alegado obtido pela imagem externa e pelo uso da força (armas, dinheiro, roupas, drogas e mulheres).
O culto à virilidade e o desejo de afirmação da identidade masculina, especialmente em função do contato com armas e a possibilidade de acesso a mulheres – devido a visibilidade, prestígio e acesso a bens de consumo mais caros – também são variáveis importantes no processo de ingresso no tráfico de drogas. As constatações acima aparecem na pesquisa do Observatório de Favelas (FERNANDES, 2009)