• Sonuç bulunamadı

Akhilleus Skyros’ta Sahnesi-Zeugma (Mozaik)

Como ressaltei no início desse tópico sobre os caminhos percorridos em [e até o] campo, a minha pesquisa foi desenvolvida em dois momentos, sendo realizada, primeiro, a etapa etnográfica. Então, apresento aqui esses passos iniciais, mesmo que cronologicamente deslocados aqui na tese. Ressalto que isso é intencional, uma vez que a história não é linear, mas sim fragmentada.

Portanto, resgatando o processo de escolha da família que eu iria acompanhar, mencionado na introdução dessa tese, é importante ressaltar que, no início, o meu intuito era acompanhar mais de uma família e tecer comparações entre as formas de gestão praticadas por cada uma delas. Mas dado o fator limitante do transporte [mencionado anteriormente], a minha alternativa era escolher apenas uma família. O critério que estabeleci para escolher uma dentre 180 famílias foi que a família morasse no lote, ou seja, no local de trabalho. Para que fosse possível observar não só o ambiente de trabalho, mas também as relações familiares e como estas poderiam influenciar as formas de gestão adotadas por seus membros.

Diante desse critério, o gerente do distrito de irrigação me apresentou duas possibilidades: 1) um senhor, que tinha passado por um dos primeiros treinamentos para receber o lote e que, em virtude da idade já avançada, não estava mais trabalhando no lote, seus filhos e netos é que mantinham a produtividade do lote, e 2) uma senhora, que tinha sido abandonada pelo marido, e que por isso, tinha assumido a administração do lote da família. O marido voltou para casa, mas ainda assim ela continua “tomando conta do lote” [como ela mesma dizia].

Para definir qual das duas famílias eu iria acompanhar, fui primeiro até o lote do senhor que ele havia falado, pois ficava mais próximo à sede do distrito, local em que me encontrava. Chegando lá, expliquei para o neto dele, que era o gerente do lote, do que se tratava minha pesquisa e o que eu queria. Disse que eu precisaria estar no lote com eles todos os dias, e, se fosse possível, até mesmo, ajudá-los nos afazeres diários da produção de uva e manga, que eram as plantações que eles tinham no lote. O rapaz não se sentiu muito a vontade quando expliquei que precisava estar lá dia-a-dia e, quando perguntei se eles moravam lá, ele

disse que não, que as famílias residiam na agrovila. E pediu um tempo para dar a resposta. Diante disso, voltei até a sala do gerente do distrito e expliquei a situação para ele, eram seis homens que trabalhavam naquele lote, mas que não moravam lá. Além disso, expliquei que percebi o desconforto do rapaz com a minha presença.

Então, o gerente do distrito me pediu um prazo para que ele pudesse conversar com a senhora que havia citado anteriormente. Pediu que eu retornasse ao Projeto em dois dias. Passados os dois dias, retornei ao Bebedouro, mas não encontrei o gerente e ele também não havia deixado nenhum recado. Procurei-o no restaurante da Embrapa, mas também não o encontrei. Durante uma semana fiquei ligando para ele, sem sucesso. Lembro-me bem do desânimo que ia se abatendo sobre mim e da minha preocupação em como encontrar alguma família que me aceitaria sem sequer saber o que eu queria ali. Aproveitei esse tempo para pesquisar os documentos sobre o Projeto na biblioteca da Embrapa. Encontrei importantes registros que me ajudaram a construir esta tese. Uma semana depois, o gerente do distrito me ligou e disse que a senhora havia aceitado me receber em seu lote. No dia seguinte, fui até o lote dela para explicar a pesquisa para ela e saber se realmente havia disposição da parte dela em me receber. Antes que eu falasse qualquer coisa, ela me perguntou:

Você é da Receita [Federal], é? Porque se for, eu não quero você aqui não... Já andou uma menina aqui da Adagro [Agência de Defesa e Fiscalização de Pernambuco, órgão integrante da estrutura organizacional da Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária do estado de Pernambuco] multando a gente e eu não quero mais confusão. Os meus funcionário não têm carteira assinada e eles não usa aquelas coisa... como que chama aquelas coisa? [...] Coisa pra não machucar [equipamento de proteção individual]... E nem roupa pra aplicar veneno [agrotóxico]! [anotações de campo, 29 de maio de 2012]

Diante dessa recepção, vi que não seria muito fácil estabelecer uma relação de proximidade. Então, comecei a explicar para ela que eu não era funcionária da Receita Federal e nem da Embrapa. Que a minha pesquisa era desenvolvida na universidade, em uma cidade que ficava há mais ou menos dois mil quilômetros dali, em Minas Gerais. Peguei minha identificação de estudante da UFMG para mostrá-la, mas ela disse que nem adiantava eu mostrar nada a ela, porque ela tinha pouca leitura e que não ia saber ler o que estava ali. Como eu não tinha como provar para ela aquilo que eu falava, tentei acalmá-la contando um pouco da minha história de vida. Contei sobre a minha família, como entrei na faculdade até chegar ao momento dessa pesquisa. E finalizei dizendo para ela que o que eu tinha a oferecer para ela era a minha palavra de que eu não estava lá para prejudicá-la, mas que se ela não quisesse participar da pesquisa, que eu entenderia.

Quando eu disse isso, ela falou que já tinha conversado com o gerente do distrito e que ele havia assegurado que eu era “gente boa”, que queria fazer uma coisa boa para ela. Que essas pesquisas iam melhorar a vida dos colonos. E ela continuou dizendo que um pessoal da CODEVASF [Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco] tinha passado na casa dela, fizeram um monte de perguntas, mas que não tinham feito nada para resolver os problemas que ela tinha apontado. Ao afirmar isso, percebi que ela não estava dando muita credibilidade para [essa tal] pesquisa. E minha estratégia [ou tática] foi mostrar para ela o que de tão importante tinha ali na vida, na casa e no trabalho dela. Aos poucos fui ganhando sua confiança e ao final do dia, ela já tinha dividido comigo histórias particulares da vida dela com os filhos e com o marido. No dia seguinte era dia de colheita da uva e eu pedi para filmar a colheita, nesse momento, ela recuou totalmente. E perguntou:

Ôxi! Mar mulhé, tu quer filmar para quê? Você qué amostrá as coisa errada que eu faço, é? [anotações de campo, 29 de maio de 2012]

Nessa hora, pensei que todo o meu trabalho de aproximação tinha sido perdido e que eu acabara de perder a “família” que eu tanto precisava [e queria] para desenvolver minha pesquisa. Mas ela continuou:

Mar eu gostei de você, eu vou confiar que o Dr. Pedro [nome fictício do gerente do distrito] não ia me mandar uma pessoa que fosse me fazer mar, né mesmo? [anotações de campo, 29 de maio de 2012]

Essas palavras me trouxeram alívio. E ela, para demonstrar que realmente tinha gostado de mim, me levou até o parreiral de uva e colheu os cachos mais bonitos, colocou em uma sacola e me deu de presente. Como eram muitos cachos de uva, eu disse para ela que não precisava colher mais e ela disse que quando queremos dar um presente a alguém, devemos dar o melhor que temos e que se eu não conseguisse comer toda a uva, que eu podia dar um cacho para o motorista que ia me buscar ou para uma vizinha que eu gostasse. Aceitei o presente e a lição de vida.