entre os ideais democráticos de igualdade e de liberdade, pois há entre ambos uma permanente tensão, a qual para ser superada exige que a arte humana de criar espaços, onde a liberdade possa se manifestar, venha em auxílio à natureza humana de individualismo e isolamento (REIS, 1999).
Do mesmo modo, exige um elo capaz de estabelecer vínculos entre os cidadãos, que, segundo o pensador francês, poderia ser encontrado nos costumes trazidos especialmente pelo espírito religioso, como fora especialmente analisado. Tocqueville pôde perceber que a “fé religiosa dirige os corações dos homens em direção a seus semelhantes e leva os cidadãos de uma grande sociedade democrática à realização de ações que os fazem sair de dentro de si mesmos e se relacionarem com seus semelhantes, fortalecendo a liberdade entre eles” (REIS, 2002, p. 171).
Esse espírito apresenta ao cidadão uma forma de ser e de agir no mundo em sintonia com a coletividade, tornando possível a vida política, superando o isolamento individual e permitindo-se o estabelecimento de liames sociais.
Partindo dessa premissa e indo um pouco além, a busca do balanceamento entre liberdade e igualdade, pode, igualmente, encontrar grande suporte e equilíbrio por intermédio de um princípio de caráter relacional, o qual faz parte do próprio lema do tríptico francês de 1789, qual seja, o princípio da fraternidade.
Consoante explanado no primeiro capítulo do presente trabalho, a trilogia – Liberté,
Egalité, Fraternité – traduzia o desejo da nação francesa em três ideais: ser livre, ser igual e
ser fraterna. Porém, nesse período, a fraternidade era concebida, tão somente, no sentido patriótico antiaristocrático e, em seguida, não adquiriu qualquer expressão política ou social, pois relegada ao âmbito estritamente religioso.
A fraternidade não foi um tema explícito na Democracia da América de Tocqueville. Francesco De Sanctis (1991) percebeu a problemática de conduzir referida temática na perspectiva tocquevilleana, pois, de um lado, ele observou que a fraternidade estava implicitamente relacionada à condição de igualdade entre os homens, o que, em sua ótica, conduziria os homens à formação de uma sociedade de iguais levados à uniformidade e não à unidade. Poderia constituir, assim, no perigo da formação de uma fraternidade abstrata e massificada73.
De outro lado, ainda de acordo com De Sanctis (1991), em uma dimensão mais aprofundada e ligada à matriz universal da Revolução, a fraternidade estaria relacionada ao preceito evangélico de amor ao próximo, havendo o reconhecimento do outro como irmão.
Nesse aspecto, não há que se olvidar o fato de que a fraternidade está intimamente ligada às raízes da religião cristã (muito embora não seja exclusividade dela). Isso porque se percebe que referido princípio tem sua base no reconhecimento do outro como igual, logo irmãos uns dos outros, porque filhos de um único Pai, Deus (BAGGIO, 2008).
Em decorrência de sua íntima ligação aos fundamentos da religiosidade, é possível correlacioná-la ao espírito religioso vinculado ao espírito de liberdade, vislumbrado por Tocqueville.
73 Noutro viés, a Maçonaria, que influenciou a fundação e a história de independência de diversos países, entre eles, os Estados Unidos, atribuiu toda uma interpretação universalista e abstrata ao conceito de fraternidade, ligada também às ideias de liberdade e de igualdade, legitimando, o ideal de fraternidade entre os irmãos maçons que, segundo eles, seriam os mais aptos a exercer o controle e a orientação política da sociedade.
Ademais, dentro da perspectiva da religião cívica, a fraternidade pode perfeitamente passar de uma dimensão puramente religiosa para uma dimensão civil (republicana) ao se manter ligada ao espírito público de participação e cidadania, em um contexto que não implicaria necessário referimento religioso, tornando-se, desse modo, universalmente compreendida, como princípio potencialmente capaz de renovar valores morais e fornecer uma nova ética de atuação para os cidadãos em contraposição à indiferença social e à apatia de indivíduos desinteressados no destino da sociedade74.
Portanto, a secularização do cristianismo passou a compreender uma construção mais laica do significado da fraternidade, que pode ser absorvido como princípio essencial para a renovação dos laços sociais em uma democracia plural em que os direitos fundamentais do homem e do cidadão fossem recolocados sob o pressuposto de uma responsabilidade de vida em comum.
Desse modo, conforme já referenciado em outro momento, interessa alimentar o espírito público ou a “consciência pública” suficiente para formar uma melhor compreensão acerca da fraternidade e de sua expressão sócio-política na constituição de uma verdadeira teia social.
Os ideais de liberdade e de igualdade, reconhecidos como indiscutíveis categorias políticas do Estado social democrático moderno, se mantêm, muitas vezes, de maneira fragilizada na democracia. Bem assim, não são suficientes por si mesmos para produzir vínculos entre os homens.
Logo, poder-se-ia refletir se o princípio da fraternidade, compreendido também como verdadeira virtude cívica de dimensão humano-relacional, não poderia contribuir com a realização de uma política de fato, mais comprometida com o bem da coletividade (sentido aristotélico) funcionando como elã dos pilares democráticos de igualdade e liberdade?
Certamente, a fraternidade traz em si mesma o potencial de colocar a ação política a serviço do outro, buscando respeitar o que distingue e aproximar o que une, comprometendo- se com o bem de todos. Tal percepção faz parte intrínseca da concepção pública compartilhada de pessoa (NUSSBAUM, 2013).
74 O fato de sua vinculação às raízes teológicas cristãs ser apontada como um dos aspectos para seu enfraquecimento enquanto expressão sócio-política, ao lado dos princípios da liberdade e da igualdade (tal como as críticas sucedidas à Tocqueville no sentido de coligar o espírito de liberdade ao espírito da religião), não impede o seu reconhecimento enquanto princípio de abrangência universal, capaz de fortalecer os laços sociais entre os homens. Tosi (2014, p. 41) entende que: “se colocarmos a fraternidade na referência com os outros dois valores da famosa tríade da revolução francesa, poderemos dizer que, de certo ponto de vista, a experiência da fraternidade é mais universal e difundida daquela da liberdade e da igualdade, porque é primordial”.
Se a liberdade remete o indivíduo na sua singularidade, e a igualdade a uma dimensão social que permanece limitada a uma identidade de um grupo ou classe, a fraternidade se abre à ideia de um outro com o qual não há somente direitos a opor, mas responsabilidades a compartilhar (TOSI, 2014, p. 45)
Nessa relação de fraternidade, em que as responsabilidades devem ser compartilhadas, forma-se um verdadeiro sistema social, em que “o outro deve ser reconhecido como o ser humano e receber um tratamento transparente e ético porque dele depende a realização do
eu” (BAGGENSTOSS, 2011, p. 197).
Desse modo, abre-se espaço propício para o desenvolvimento de uma nova ética da responsabilidade que considere o outro a partir de uma nova lógica relacional: da identidade para o reconhecimento da alteridade (TOSI, 2014), em uma atmosfera coletiva e participativa. “É nessa relação, pautada pela fraternidade, que o indivíduo é capaz de transcender a si mesmo – observando-se como aberto e relacional – à comunidade em que vive” (BAGGENSTOSS, 2011, p. 178).
Amplia-se, assim, a dimensão política da fraternidade. Isso porque a ação humana é dirigida a seus semelhantes e cada homem é conduzido à realização de ações que o faz sair do individualismo e da apatia social e ir ao encontro do outro, estabelecendo vínculos fraternos entre eles, através do resgate de liames sociais, outrora relegados e esquecidos.
Verifica-se, portanto, que a fraternidade se encontra em uma imbricada relação com os princípios da liberdade e da igualdade, tendo sua base, no reconhecimento recíproco de todos como irmãos, iguais e livres75, na medida em que, seremos mais livres e iguais, se, antes de tudo, nos dispusermos a sermos mais fraternos (BAGGIO, 2008).
Essa trilogia, mesmo com a distância de dois séculos da Revolução Francesa, ultrapassando gerações, é renovada, contribuindo para favorecer uma possibilidade de reestruturação social à democracia.
75 Destaque-se que, atualmente, em decorrência de sua abertura terminológica, a fraternidade permite ser compreendida, também, através de outros espectros, como os que se observam a partir das teorias de reconhecimento, as quais igualmente podem servir de base para um tipo de compreensão cada vez mais moderno acerca da fraternidade. Um exemplo disso é a teoria de reconhecimento desenvolvida por Axel Honnet em seu livro A luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais (São Paulo: Ed. 34, 2003), segundo o qual: “o nexo existente entre a experiência de reconhecimento e a relação consigo próprio resulta da estrutura intersubjetiva da identidade pessoal: os indivíduos se constituem como pessoas unicamente porque, da perspectiva dos outros que assentem ou encorajam, aprendem a se referir a si mesmos como seres a que cabem determinadas propriedades e capacidades. A extensão dessas propriedades e, por conseguinte, o grau da autorrealização positiva crescem com cada nova forma de reconhecimento, a qual o indivíduo pode referir a si mesmo como sujeito: desse modo, está inscrita na experiência do amor a possibilidade da autoconfiança, na experiência do reconhecimento jurídico, a do autorrespeito e, por fim, na experiência da solidariedade, a da autoestima” (HONNETH, 2003, p. 272).