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No início de 2004, a pesquisadora apresentou à coordenação do curso de direito da Universidade São Francisco, onde era professora desde 2001, projeto de implantação de grupos de pesquisa, um diurno e outro noturno, na área de direito do consumidor, empregando o paradigma da aprendizagem baseada em problemas e com o objetivo explícito de realizar a parte prática de sua pesquisa de doutorado.

A instituição se mostrou resistente inicialmente, porque não dispunha de projeto de pesquisa ou de extensão em que pudesse alocar a realização da atividade. Em suma, não havia previsão de verbas destinadas ao projeto, para remuneração da pesquisadora ou bolsa de estudos aos alunos.

Em princípio, foram inúteis os argumentos de que a pesquisadora não tinha intenção de receber pagamento, pois estava realizando sua pesquisa de campo para a tese de doutorado. A instituição demonstrou compreensível temor em manter um profissional trabalhando sem remuneração, em razão das complicações de ordem legal que isso poderia causar.

Somente em maio de 2004 a atividade foi autorizada pelo coordenador do curso de direito da Universidade São Francisco, campus de Bragança Paulista, estado de São Paulo.

A pedido da pesquisadora, a coordenadora-adjunta do curso de direito, Professora Doutora Sandra Nitrini, aceitou participar do projeto para conhecer o trabalho e assim realizar a necessária integração entre a instituição e os grupos de pesquisa. Essa participação, no entanto, ficou limitada ao comparecimento a algumas reuniões do grupo da manhã no início do trabalho e ao acompanhamento dos grupos nas atividades realizadas fora da universidade.

A Universidade São Francisco é uma instituição de ensino confessional e tem dois campi no estado de São Paulo, onde são ministrados cursos de direito, um em Bragança Paulista e outro na capital. A pesquisa foi realizada no campus de Bragança Paulista.

As turmas da manhã são compostas por alunos que, na maioria das vezes, realizam estágio no período da tarde em escritórios de advocacia, fórum, delegacias, serviços de assistência jurídica gratuita, entre outros. As turmas da noite

são compostas por alunos que normalmente exercem atividade profissional e com ela custeiam o curso, no todo ou em parte, e suas despesas pessoais.

O projeto foi planejado para ser aplicado em dois grupos de alunos que se reuniriam semanalmente antes do horário regular das atividades acadêmicas para os do período noturno, e depois do horário regular para os do período matutino. O período diurno tinha aulas das 8 h às 11h23 e o noturno no período entre 19h20 e 22h30. O grupo da manhã se reuniu às quintas-feiras, no horário das 11h30 às 13 h e o grupo da noite às terças-feiras, das 18 h às 19h15.

O tempo de duração das reuniões não era o mais adequado, porque certamente provocaria a segmentação das discussões. Em cursos que utilizam o paradigma da aprendizagem baseada em problemas, as reuniões das equipes tutoriais são realizadas com três horas de atividade no mínimo. Entretanto, não havia como desenvolver a atividade em outro horário, pois quase todos os alunos da manhã tinham compromissos à tarde e os da noite tinham compromissos durante todo o dia.

Nesse cenário, a proposta de realizar uma atividade extracurricular no período da tarde, entre as 14 e as 17 horas, por exemplo, se mostrou inviável. Um maior espaço de tempo teria permitido, provavelmente, melhor aproveitamento da fase de discussão dos resultados da pesquisa individual de cada aluno, bem como melhor desenvolvimento da etapa de convivência e construção de conhecimento em grupo, fase que também é importante para os objetivos da aprendizagem baseada em problema.

Uma consulta prévia e informal com graduandos do período da manhã sobre quem teria condições ou interesse em participar de um projeto de atividade extracurricular no período da tarde revelou que eram poucos os alunos interessados,

além do que a atividade estaria sujeita a ser interrompida, em vista do abandono por parte daqueles que conseguissem estágio.

A mesma consulta prévia, realizada informalmente com os graduandos do período da noite, permitiu concluir que não havia alunos interessados em participar de uma atividade no período da tarde. Além de trabalharem, também teriam dificuldade de acesso à faculdade nesse período, porque muitos vêm de cidades vizinhas e utilizam coletivos fretados, que saem no final da tarde ou início da noite. Nesse contexto, o horário escolhido para as reuniões, tanto no período da manhã como no da noite, mostrou ser o único viável para a realização do trabalho.

Desde o início, a tutora-pesquisadora planejou superar o problema do limite de tempo com maior número de reuniões para a solução de cada problema apresentado aos grupos. Algumas vezes, um problema era discutido em três ou quatro encontros, perfazendo três ou quatro horas de discussão para cada um, como ocorre nos cursos que utilizam esse paradigma de forma curricular.

A dificuldade de tempo não alterou a forma de elaboração dos problemas. Eles foram criados para serem discutidos em três ou quatro horas e, em razão dos limites de tempo de cada reunião, para serem trabalhados em três ou quatro reuniões. Essa era a expectativa inicial e, ao final do período da experiência, pode- se constatar eu o tempo previsto inicialmente foi utilizado.

Por outro lado, a utilização de mais reuniões visando à solução de cada problema apresentado demonstrou uma interessante peculiaridade: a pesquisa contínua por parte dos alunos. Nas reuniões cada participante discutia o seu próprio material de pesquisa e o material pesquisado pelos outros membros do grupo. Motivados pelas dúvidas que surgiam durante a exposição do material pesquisado e

nas discussões, os alunos em geral realizavam novas pesquisas durante a semana, trazendo para a reunião seguinte novos dados e reflexões.

Observou-se também que os alunos que não haviam tido tempo ou motivação para desenvolver sua pesquisa individual durante a semana, pouco participavam na reunião. Mas, na continuidade da discussão na reunião seguinte, normalmente traziam sua própria pesquisa e tinha participação mais ativa, inserindo- se na discussão do grupo na busca de soluções ao problema.

Se tivesse acontecido uma reunião com três ou quatro horas de duração para discutir cada problema, o aluno que se apresentasse sem pesquisa individual ou com pesquisa de pouca profundidade, provavelmente teria dificuldades para se inserir na discussão. Na experiência realizada, esse obstáculo pôde ser superado porque ocorriam duas ou três reuniões sucessivas para a discussão de um mesmo problema.

4. 3 AS RAZÕES DA ESCOLHA DE RELAÇÕES DE CONSUMO COMO

Benzer Belgeler