O meio físico é um importante fator para o crescente número de atropelamentos nas áreas urbanas. O trânsito de passagem rasga o tecido dos bairros sem nenhuma consideração pelos residentes. A humanização de bairros residenciais deve acontecer por meio da criação de bolsões residenciais, ou outra forma de restrição do trânsito de passagem que desenvolve velocidades superiores a 30 km/h.
Os especialistas recomendam que as crianças com menos de 8-9 anos não devem ficar sozinhas, próximas de ruas e avenidas com trânsito intenso, pois os riscos de se envolverem em acidentes são muito grandes, dadas suas naturais limitações (DAROS, 2000). Como elas não podem ser adaptadas ao tráfego e este não pode se adaptar totalmente às suas necessidades, devem-se criar ambientes mais seguros, próximos a seus lares, e não deixá-las a sós no trânsito, antes de 9-10 anos de idade.
Além da segurança no trânsito, outros fatores relacionados ao meio físico podem contribuir para a queda da qualidade de vida. Pesquisa feita nos Estados Unidos revelou que as crianças expostas ao ruído excessivo, nas escolas e em casa, apresentavam pressões sangüíneas mais altas que as crianças de locais tranqüilos, além de terem mais dificuldade em acompanhar as aulas.
Outro problema com relação ao meio físico é a falta de visibilidade, em que o condutor não vê o pedestre devido aos obstáculos existentes nas calçadas ou canteiros, tais como: árvores, postes, placas e outros, ou mesmo de carros estacionados ao longo do meio-fio, possibilitando ao condutor pouco tempo e espaço para reação diante de uma situação de risco. Portanto, os problemas do meio físico podem estar relacionados às condições de iluminação, sinalização, obstáculos ao espaço de circulação, concepção da via, geometria viária inadequada, os quais permitem e induzem velocidades incompatíveis com o lugar.
Sem deixar de considerar as particularidades de cada local, alguns padrões viários e tendências nas travessias são semelhantes, como por exemplo, a quantidade significativa de atropelamentos que ocorre em interseções, onde se tem um maior número de conflitos entre conversões de veículos e travessias de pedestres, principalmente quando os veículos estão realizando giros à esquerda (CEPES, 2000c). Por razões de falsa economia, a separação entre trânsito de veículos e de pedestres tem sido realizada através de túneis ou passarelas para pedestres. Ao invés destes ficarem ao nível do chão e os veículos passarem por baixo ou por cima, são os pedestres que tem de galgar escadas e rampas, até uma altura equivalente a dois andares de um edifício, representando verdadeiros obstáculos à acessibilidade.
MIRANDA e CABRAL (2005) relatam que a probabilidade de ocorrência de lesões com pedestres aumenta quando o ambiente físico apresenta as seguintes características:
a) inadequação dos passeios para atender ao fluxo de pedestres; b) ciclos semafóricos inadequados;
c) abrigos de pontos de parada de ônibus ocupando todo o passeio, impedindo a passagem do pedestre;
d) pisos inadequados e em mau estado de conservação;
e) desníveis abruptos entre o passeio e as rampas de garagem;
f) ausência de sinalizações e de adaptabilidade para deficientes físicos; g) veículos estacionados indevidamente sobre as calçadas;
h) passeios ocupados com material para obras; i) passeios com largura insuficiente;
j) instalação inadequada de equipamentos urbanos;
l) bancas de revistas ocupando toda a largura dos passeios;
m) presença de equipamentos comerciais, além dos limites dos estabelecimentos;
n) ausência de sistemas de drenagem nos aparelhos de ar condicionado em edifícios, acarretando queda de pingos de água em passeios;
o) escoamento das águas pluviais provenientes de marquises e calhas; p) dejetos de animais;
q) lixo nas calçadas.
Esses fatores, além de afetarem a segurança nos deslocamentos, também provocam uma queda na qualidade de deslocamento do pedestre, repelindo-o do passeio e empurrando-o para a via. CRIANÇA SEGURA (2006) apresenta uma combinação de fatores para a ocorrência de atropelamentos envolvendo crianças. Esses fatores de risco incluem:
a) alto volume de tráfego;
b) limite de velocidade da via acima de 40 km/h; c) crianças transitando nas ruas;
d) calçadas precárias ou inadequadas; e) luminosidade;
f) tempo chuvoso.
Muitas vias são asfaltadas e abertas ao tráfego de veículos antes de disporem de infra-estrutura adequada para o deslocamento de pedestres, principalmente na periferia de nossas cidades, sem a devida preocupação com a construção de calçadas. Como resultado, aumenta-se o risco de atropelamentos, já que o pedestre é obrigado a disputar espaço na pista de rolamento juntamente com o veículo.
Nas áreas onde existem calçadas, nem sempre o pavimento se encontra em boas condições, e com inclinações adequadas à circulação do pedestre. É cada vez mais freqüente a invasão das calçadas por rampas de acesso às garagens, tornando- as muito inclinadas lateralmente. Tanto essas rampas, como as subidas e descidas ao longo da calçada, devido à topografia do terreno, deveriam ser controladas, de forma a não ultrapassarem 3% de inclinação lateral e 12% de inclinação longitudinal (DAROS, 2000). O que se observa, porém, é um desrespeito a esses parâmetros, tornando impossível e desconfortável aos de menor idade, andar a pé com segurança.
O enfoque no meio físico, portanto, é importante, pois a percepção que o cidadão tem do meio ambiente de tráfego vai influenciar seu comportamento no trânsito e seu relacionamento com os outros usuários (FARIA e BRAGA, 1999). A imagem de um bom ambiente dá um sentido importante de segurança emocional, e pode estabelecer uma relação de harmonia entre o homem e o mundo exterior (LYNCH, 1960), o que contribui para uma melhor qualidade de vida nas cidades.