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A fim de compreendermos as propostas teóricas e metodológicas do ISD e apresentarmos os conceitos basilares dessa teoria, acreditamos ser de grande importância o levantamento de suas bases filosóficas e psicológicas.

O ISD se inscreve e aceita todos os princípios interacionistas sociais e rejeita a visão dualista que instaura as dicotomias físico x psíquico e material x ideacional para a explicação do desenvolvimento e funcionamento do pensamento humano. Bronckart (2009) adere ao interacionismo social proposto por Vygotsky ao postular uma teoria do humano.

Vygotsky se opunha ao dualismo ao considerar que os estudos psicológicos de sua época tentavam explicar o objeto da psicologia ou pelo funcionamento físico ou somente pelo funcionamento psíquico. Ele acreditava que esse objeto deveria ser encarado em sua totalidade, sendo assim, buscou interpretá-lo de modo unificado.

A proposta interacionista social de Vygotsky retomada pelo ISD busca, portanto, “demostrar como o social se transforma em ideacional e como, subsequentemente, o ideacional interage com o corporal (BRONCKART, 2009: 33). Para essa compreensão, ao longo de sua vida, Vygotsky retomou e reformulou alguns conceitos como os de: sociabilidade, interação social, instrumento psicológico, cultura, história e funções mentais superiores (IVIC, 2010).

O conceito de sociabilidade é explicado por Vygotsky (1932) pela predisposição genética social, ou seja, nascemos em um mundo já construído

sócio-historicamente, somos seres sociais e esse social nos constitui. Quanto à interação social, Vygotsky (1932) explica que, ao nascermos interagimos com a realidade e com os outros através das mediações com os adultos, portadores das mensagens culturais, e isso só é possível através da convenção e internalização dos sistemas semióticos que, a princípio, exercem função de comunicação e depois funções internas.

Essa interação acontece em um processo dialético ininterrupto transformador e contínuo. A interação entre o humano e o social é sempre mediada, seja por instrumentos externos, seja por instrumentos semióticos. De acordo com a abordagem interacionista-social, se interagimos, nos transformamos, não desaparecemos com os outros conhecimentos que já adquirimos, mas os transformamos quando nos apropriamos dos novos conhecimentos e depois de internalizado/apropriado devolvemos para o social com as novas representações. Sendo assim, em um movimento dialético nos transformamos e transformamos a substância única, afetamos e somos afetados.

O conceito de instrumento está em correspondência e dependência com o conceito de interação social, pois ao interagirmos existem instrumentos que se encontram entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age. O instrumento é um objeto socialmente elaborado. Além de mediar, o instrumento dá uma forma à atividade, materializa-a, sendo assim, mesmo que as atividades já tenham acontecido elas continuam a existir, pois os instrumentos as representam e, logo, as significam. (SCHNEUWLY, 2010). Para uma maior compreensão do que se postulou como instrumentos psicológicos, sendo essa necessária para discorrermos sobre outros conceitos nessa pesquisa, nos dedicaremos a seguir nessa interpretação.

Para a explicação vygotskyana de instrumento psicológico (de agora em diante IP), utilizaremos a interpretação de Friedrich (2012) que trouxe algumas questões da rica obra de Vygotsky que não foram muito discutidas ao longo da história, dentre elas a de instrumento presente nos estudos contemporâneos ao ano de 1930. Iniciando a compreensão sobre essa questão, a autora frisa que,

primeiramente, devemos depreender a atividade humana como tripolar, pois toda a ação do homem é mediada por objetos construídos socialmente. Dessa forma, Vygostky introduz o conceito de mediação.

Esquema 1: Tripolaridade da Atividade Humana

Indivíduo Humano Instrumento Situação

Os objetos que mediam a ação humana são de duas naturezas: os instrumentos técnicos, também conhecidos como ferramentas, e os IP. Eles se distinguem, segundo Friedrich (2012) pela direcionalidade da ação, ou seja, o primeiro se direciona para as transformações dos objetos e situações externas ao humano e o segundo às estruturas psíquicas humanas. Considerar ambos como responsáveis por exercer as mesmas funções é, portanto, um verdadeiro equívoco.

Dessa forma, o IP se diferencia fundamentalmente da ferramenta técnica, pois o primeiro se endereça ao psiquismo e ao comportamento, já o segundo constitui o elemento intermediário entre a atividade humana e o objeto externo. Ele destina-se, portanto, a obter mudanças no próprio objeto. As ferramentas, nesse sentido, estariam entre o sujeito e os objetos, já o IP entre o sujeito e ele mesmo.

A intervenção do IP em nosso psiquismo ou em nosso comportamento acontece de forma artificial, pois ele não é um fenômeno de natureza biológica do homem, não é inato a ele, mas construído e disponível socialmente e apropriados de acordo com as necessidades humanas. O termo “artificial” contrapõe, portanto, a determinação inata do psiquismo, ou seja, os instrumentos construídos socialmente não nascem conosco, mas são introduzidos em nossas práticas e comportamentos nas e pelas interações.

Com o que o homem dispõe biologicamente, ou seja, seus “instrumentos” naturais é possível apenas exercer funções psíquicas inferiores, ou seja, espontâneas, pouco elaboradas. No entanto, ao apropriar-se dos IP, o acesso às funções psíquicas superiores torna-se possível, pois o instrumento transforma essa ação voluntária. A noção de IP tem a significação de

artificialidade, pois é como se o acesso aos processos superiores fosse possível pela intervenção artificial. Como se o sujeito pudesse agir sobre seu psiquismo. É, portanto, a adaptação artificial que atua no processo psíquico, o que caracteriza a função do IP, ou seja, o controle do comportamento psíquico.

Os IP são utilizados, primeiramente, como objetos de regulação social – interpsíquicos – e depois se transformam em meio de influência sobre si mesmo – intrapsíquicos. Sendo assim, ao apropriar-se das funções interpsíquicas, o indivíduo também interioriza as relações sociais que ocorrem entre as pessoas nas instituições sociais. Portanto, as interações entre duas ou mais pessoas se unem em uma única pessoa. Esse movimento do interpsíquico para o intrapsíquico pode ser exemplificado com a apropriação dos gêneros textuais e de suas características constitutivas. Esses estão disponíveis na sociedade, no entanto, em determinada situação, com precisas necessidades de comunicação e interação, o indivíduo se apropria de um gênero para atingir seu objetivo. Ao se apropriar, ele tornou o que era até então da sociedade em seu objeto de regulação do pensamento e de suas ações sociais.

Friedrich (2012) conclui sobre o estatuto dos IP, afirmando que eles devem ser analisados como oriundos de e portadores, neles mesmos, das relações sociais bem específicas que se reconstituem no interior do sujeito. Dessa forma, as leis do pensamento não são mais, após a apropriação dos IP, naturais, mas sociais.

Além da compreensão do conceito IP de Vygotsky (1930), que retomamos através das considerações de Friedrich (2012), Schneuwly (2010) adere à proposta de Rabardel (1999). Consideramos ser ela mais voltada para a explicação de como o IP, que direciona para as funções psíquicas e comportamentais, é de fato apropriado e torna objeto do sujeito e da sociedade.

Assim como Friedrich (2012) nos colocou, Rabardel (1999) também insiste na necessidade de compreendermos a diferença entre ferramenta (termo retomado pelo autor como artefato) e IP. Ao persistirmos nessa

confusão de conceitualização, segundo ele, estamos continuando a pensar ingenuamente.

A reinterpretação de Rabardel (1999) da teoria vygostkyana quanto ao IP consiste em pensarmos que ele é uma entidade composta pela forma do objeto (do que foi construído socialmente) e do sujeito, no sentido filosófico do termo. Ou seja, o IP é definido pelo autor como uma entidade fundamentalmente mista, uma junção do artefato material ou simbólico com a organização construída pelo próprio indivíduo, que é chamada de “esquemas de utilização”, as quais correspondem às dimensões representativas e operacionais. Abaixo vemos a ilustração da bipolaridade do IP proposta por Rabardel (1999):

Esquema 2: Instrumento Psicológico por Rabardel (1999)

INSTRUMENTO PSICOLÓGICO

O IP não deve ser compreendido como uma parte do mundo externo do sujeito, que está disponível para ser associado à ação, ou seja, não é aplicável. Eles são apropriados em um ato instrumental através dos esquemas de utilização que constituem as entidades psicológicas. Os dois constituintes do IP são associados um ao outro, no entanto, assim como explica Rabardel (1999) estão em uma situação de independência relativa, ou seja, um mesmo esquema de utilização pode ser aplicado a uma multiplicidade de artefatos aparentemente de uma mesma classe, de classes vizinhas ou diferentes. Exemplos disso são os diferentes gêneros textuais – carta argumentativa, artigo de opinião, etc – , que podem ser construídos por uma organização e sequencialidade muito semelhantes , a argumentação.

Esquema(s) de utilização

Artefato Material ou

A independência relativa dos constituintes do IP também está relacionada às circunstâncias singulares da situação e das condições que o sujeito se confronta. Vejamos como isso é ilustrado por Schneuwly (2010)

Esquema 3: Os Instrumentos Psicológicos na ação humana

O agir com e pelo IP deve ser compreendido em uma totalidade dinâmica que se desenvolve especialmente relacionada às situações de ação, nas quais o instrumento é apropriado pelo sujeito. Dessa forma, o artefato não é o instrumento ou componente dele, mas é instituído como IP pelo sujeito que lhe dá tal estatuto de meio para atingir os objetivos de sua ação. Quando inscritos em uma atividade, quando apropriados, os artefatos provocam reorganizações, modificam a estrutura e o funcionamento das funções psíquicas, determinam sua propriedades pelo ato instrumental.

De acordo com Rabardel (1999), não é exagerado dizer que, partindo de uma fórmula vygotskyana, todo ato instrumental contém uma fórmula específica, um conjunto de relações que o sujeito mantém com a realidade, a qual lhe permite agir com ele mesmo e com o outro. O instrumento, entidade mista que tem a forma do sujeito e do objeto é, assim, uma entidade social e individual.

O estatuto das interações, por sua vez, e, consequentemente, o desenvolvimento humano de acordo com Braga (2010) acontecem na história, ou seja, acontecem diacronicamente e sincronicamente, algo situado em um

Esquema(s) de utilização Artefato Material ou simbólico Sujeitos Situação

prolongamento de tempo ou em determinado tempo. Portanto, compreendemos as interações e o desenvolvimento dentro de um prolongamento de tempo, ou seja, historicamente.

Em relação ao conceito de Cultura, Vygotsky (1929 e 1931), refere-se à produção humana que tem duas fontes simultâneas: a vida social e a atividade social do homem. A Cultura é o conjunto das obras humanas, e entre elas e a natureza existe uma linha divisória que passa pelo homem que é obra da natureza e agente de sua transformação.

Quanto às funções mentais superiores, ou seja, estágios avançados do desenvolvimento humano, temos nelas o aparecimento da linguagem privada, da linguagem interior e do pensamento verbal. O acesso às funções mentais superiores acontece, nessa perspectiva, quando o indivíduo apropria-se de instrumentos culturais que desenvolvem nele técnicas interiores para a formação de conceitos: experimentais, espontâneos e científicos.

Esse acesso, iria desde o desenvolvimento da criança conquistado por meios não complexos, como a educação informal dos pais e outros adultos, por exemplo, para um desenvolvimento da criança trabalhando em colaboração e assistência de um adulto, como é o caso da escola.

Essa passagem, das funções mentais inferiores para as funções mentais superiores acontece, de acordo com Vygotsky (1930), pela mediação linguageira. Ou seja, os indivíduos agem sobre a natureza, sobre o outro e sobre si mesmo pela/com a linguagem. Sendo assim, a tese do ISD de que a linguagem é essencial para o desenvolvimento humano é explicada nessa importante mediação com um instrumento desenvolvido sócio-historico- culturalmente, que constitui o homem.

Dessa forma, compreende-se o porquê de ser um Interacionismo Sociodiscursivo, pois agimos, nos desenvolvemos, e desenvolvemos o outro e tudo o que nos cerca pela e na linguagem.

A percepção da linguagem como fator de desenvolvimento e gênese da consciência humana vai ao encontro dos postulados de Volochínov (2006). O

filósofo defendia que o centro organizador do consciente se encontra no exterior e que é a linguagem, portanto,que organiza o consciente e a atividade mental, modelando-os e determinando-os.

Segundo Volochinov (2006), a expressão linguageira é determinada pelas condições reais do enunciado. O enunciado é o produto das interações entre os indivíduos; tem o estatuto dialógico, pois sempre está dirigido a alguém, a um auditório social; é nesta interação que o enunciado ganha a forma e o estilo ocasional.

Os signos que compõem os enunciados também são produtos da interação, ou seja, não são dados, mas construídos. A realização/ materialização dos signos é determinada pela relação social e ela só acontece, ou seja, torna-se material, quando passa pelo social. Sendo assim, os enunciados que se realizam pelos signos não nos pertencem, não são construções individuais, mas construções sociais.

A consciência, por sua vez, fora da realização material é ficção (VOLOCHINOV, 2006). Dessa forma, ela não se situa acima do ser e não determina a sua constituição. É, pois, uma força constituinte do ser. Nessa concepção, quando a consciência embrionária passa pela objetivação social, torna-se força real e assim passa a ser fato social e não um ato individual interior.

Conclui-se, portanto, que a materialização é a passagem pelo social e nessa passagem a palavra não é mais individual, mas social. E quando materializada, a expressão toma o sentido reverso, ou seja, quando a materialidade é apropriada pelo sujeito ela estrutura a vida interior, a consciência.

Apoiados em tais fontes filosóficas e psicológicas, os estudos e pesquisas Interacionistas Sociodiscursivos se desenvolvem. A seguir, apresentaremos a tese principal do ISD de que a linguagem é fundamental para o desenvolvimento humano e que ela não é uma característica individual, mas construída socialmente.

Benzer Belgeler