Quando os cristãos armados estavam expulsando os muçulmanos de Granada (1490), dando fim ao seu último território importante na metade ocidental do continente, o Império
17 Bizâncio manteve firme o controle do Oriente por mais 500 anos, até que no século XI, entretanto, os turcos
seljuk tomaram a Armênia bizantina. Em 1204, Constantinopla foi invadida pelos soldados mercenários da Quarta Cruzada, que mantiveram a ocupação até 1261. Mas foi com os turcos otomanos que se perpetrou a destruição final do Oriente romano-cristão. A partir do século XIII, os otomanos irão avançar de forma firme e implacável sobre o Ocidente, até que em 1453 tomam por completo a cidade de Constantinopla.
Otomano islâmico estava prestes a tomar as últimas partes bizantinas que resistiam entre o Adriático e a Pérsia, à medida que solapavam o poder veneziano no Mediterrâneo oriental e avançavam em direção aos Bálcãs. Em torno da periferia européia situavam-se os governantes que dominavam extensos territórios, que além do domínio Otomano, incluíam a Hungria, a Polônia, a Lituânia, a Moscóvia (assim chamada a Rússia), as terras da Ordem Teutônica, a União Escandinava, além de Inglaterra, França, Portugal, Espanha e Nápoles. Uma zona que vai do norte da Itália até Flandres e segue em direção a leste, até as fronteiras indefinidas da Hungria e da Polônia, estava fragmentada em centenas de áreas formalmente independentes.
Nesse contexto, Veneza e Gênova, junto com a região de Flandres, apresentavam-se como o conjunto de cidades-Estado de vida econômica mais dinâmica, sobrepondo-se aos aspectos agrários e formando a primeira micro-economia do mundo (FERRO, 1996). Tilly (1996) ressalta que havia a existência de uma rede urbana densa e desigual que convivia simultaneamente como uma divisão em inúmeros Estados bem-definidos e mais ou menos independentes, sem falar dos impérios extorquidores de tributos, dos sistemas de soberania fragmentada como as cidades-estado e das federações urbanas, onde a dinâmica do capital (cujo campo preferido eram as densas redes de cidades) atuava em conjunto com o da coerção (que se cristalizava, sobretudo, nos Estados amplos e agrários).
A necessidade de estabelecer novas rotas comerciais fora do domínio Otomano pelos portos dos países ibéricos, usando as costas atlânticas tornou-se uma solução trivial, pois os conflitos e guerras durante os séculos XIV e XV grassavam os recursos, exauriam os tributos e dificultaram as tradicionais rotas comerciais por terra entre a as pujantes economias daqueles Estados e cidades-Estado, assim como a rota de trocas com germânicos, poloneses e russos. Esse movimento em torno da busca de novas rotas e capitais inseriu e fortaleceu os circuitos econômicos em torno da Espanha e Portugal, cuja expansão para o norte iria colocar mais tarde a França, a Inglaterra e, sobretudo, os Países Baixos na linha de frente no comércio marítimo no século XVII, mostrando que as federações de cidades e territórios contíguos ainda podiam manter-se como potências mundiais nessa época (TILLY, 1996).
Ferro (1996, p.28) mostra que “[...] a expansão e as navegações foram, na verdade, o resultado cumulativo de dezenas de pequenas tentativas feitas por simples mercadores e aventureiros [...],” advinda da necessidade da nobreza se regenerar após seu enfraquecimento decorrente das guerras nos séculos anteriores. Essas tentativas, à medida que eram imbuídas de investimentos, tanto dos nobres, quanto dos Estados, tornavam-se cada vez mais seguras e acertadas e, em decorrência das novas exigências do modo de produção mercantil, também “a topografia e a cartografia passaram assim a ser impulsionadas pela apropriação privada do
espaço” (MARTIN, 1992, p.35). Além do capital, da influência das ciências, da cosmografia e das novas cartas náuticas que proporcionaram o avanço dos europeus, havia a necessidade do domínio dos ventos e dos mares, pouco conhecidos à exceção do Índico (CROSBY, 2011).
Com tal arcabouço em sua formação político-econômica, com uma burguesia recém- desenvolvida ao lado de uma nobreza rural pronta para fornecer os funcionários necessários à nova empreitada, os portugueses serão os primeiros a se lançarem nessa nova aventura fria e calculista, começando pela região do Magreb, no norte africano, pois a conheciam melhor que qualquer outro povo europeu e mantinham contato direto com os mouros do Marrocos (ANDRADE, 1999). Na direção do Atlântico, a descoberta da ilha da Madeira (1419) e dos Açores (1431) logo se tornaria um posto avançado para seu maior desafio: contornar a costa da África. Conforme descreve Ferro (1996, p.44):
[...] tendo em vista a pobreza daqueles africanos, eles não tiveram nenhum interesse em penetrar ou ocupar o interior do país. Já eram senhores de Madeira e Açores – a ilha dessas aves de rapina –, tinham cruzado o mar tenebroso e o cabo Bojador, de onde, até então, ninguém voltava, pois os alísios de nordeste empurravam na direção do Atlântico; graças a caravela, puderam chegar, em 1444, ao Cabo Verde, em seguida aos rios da Guiné e, em 1460, à Serra Leoa. [...] Em 1482, Diogo Cão chegou ao Zaire e enviou emissários ao rei do Congo. Em 1487-8, Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas, desde então chamado cabo da Boa Esperança, e chegou, na região do atual Port Elizabeth, à baía das Vacas, assim chamada porque os negros ali criavam bovinos. Depois, os portugueses se lançaram rumo às Índias.
A conquista em direção às costas orientais da África era questão de tempo. Se os ventos do Atlântico ainda eram objeto de descoberta em busca de seu melhor aproveitamento (CROSBY, 2011), o sistema de circulação no Índico seguia o regime das monções, o que facilitou a navegação ao longo da costa do Quênia, em direção ao chifre da África, o avanço até o estreito de Ormuz (Omã) e a navegação ao longo da costa da Pérsia (Irã). Quando Vasco da Gama resolveu o enigma do Atlântico sul e chegou à Índia (1498), o esforço dos portugueses se concentrou no ato de mapear, controlar as rotas marítimas e monopolizar o tráfego na região, alcançando anos mais tarde o ambicionado Extremo Oriente.18 De fato, o que Bartolomeu Dias começou a ensaiar no Atlântico sul no domínio dos mares seria completado por Cristóvão Colombo com a navegação rumo ao oeste.
Como qualquer escolar sabe, a chegada de Cristóvão Colombo às Lucaias (Bahamas) em 1492, antes mesmo de Vasco da Gama chegar às Índias, marca o descobrimento da
18 Em 1510 é constituído o Estado Português da Índia. Málaca foi conquistada em 1511 e os portugueses
continuaram a exploração, alcançando as ambicionadas “ilhas das especiarias” (ilhas Molucas) em 1512; a China seria alcançada um ano mais tarde. Em 1529 o Tratado de Saragoça demarcou as explorações portuguesas e espanholas no oriente: as Molucas são atribuídas a Portugal e as Filipinas a Espanha. Em 1543 comerciantes portugueses aportam no Japão e em 1557 as autoridades chinesas os autorizam a estabelecerem-se em Macau.
América e inicia uma nova fase de expansão colonial e rearranjo do monopólio comercial. O papado de Alexandre VI – que até então era o único Estado19 que desfrutava de uma
autoridade “mundial” – interveio para por fim à concorrência entre portugueses e espanhóis através da delimitação de uma zona de influências pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Mas este ato também representou o primeiro passo para a sistematização de uma nova ordem mundial e do rearranjo do monopólio comercial, onde se aplica, inclusive, uma técnica cartográfica inovadora: a da linha e da fronteira precisa pela projeção matemática do espaço, em que as fronteiras passavam a ser não apenas representadas, mas também projetadas (MARTIN, 1992).
Desse modo é que a “descoberta” do Brasil em 1500 marca a posse simbólica e diplomática pela esquadra de Pedro Álvares Cabral da parte portuguesa no mundo Americano projetada pela cartografia, em uma época que a sua ciência e técnica estavam no pleno aprimoramento. A América já havia proporcionado seus tesouros aos espanhóis e, se bem que os portugueses tivessem chegado ao Brasil, a preponderância da Espanha ali se afirmava indubitavelmente (FERRO, 1996). Tal rivalidade só vai terminar com a organização dos respectivos impérios do século XVI ao XVIII.20