• Sonuç bulunamadı

3. ÇOK ÖLÇÜTLÜ KARAR VERME

3.3. AHP ve TOPSIS Yöntemi

Vainer (2002, p.76), que analisa de forma crítica e contundente a abordagem de diversos autores sobre o PE voltado para as cidades, afirma que a problemática da “competitividade urbana” é o nexo central da “nova questão urbana”, que não mais teria seu debate conduzido por temas como crescimento desordenado, reprodução da força de trabalho, movimentos sociais urbanos, dentre outros. Essa competição, ainda segundo o autor, tem como ponto focal a venda das cidades como mercadorias que devem possuir atributos que atraiam o capital estrangeiro, ou seja, as cidades são enxergadas e geridas como empresas e devem ser concebidas como agentes econômicos que atuam no contexto do mercado global. É o planejamento apoiado no

marketing urbano ou das cidades, elaborado e implementado segundo seus

pressupostos, mas não exclusivamente. Ao contrário do marketing tradicional, que condiciona a venda de qualquer produto ao tipo de consumidor, este marketing das cidades teria como princípio a venda dos atributos das metrópoles “[...] que constituem, de uma maneira ou de outra, insumos valorizados pelo capital transnacional”. (VAINER, 2002, p.79). Propugna o autor que, em conformidade com os preceitos dos planos, esse marketing não pretende atingir qualquer consumidor, visitante ou investidor. Buscam-se visitantes e usuários solváveis e não imigrantes ou usuários pobres, que devem ser seduzidos a “comprar” aqueles atributos oferecidos pelas cidades “à venda”, tal como suas edificações, monumentos, centros históricos, estes últimos ocupando posição central nos folders e portfólios de divulgação dos atributos urbanos das cidades em todas as partes do mundo.

Enfocando esta nova questão urbana associada aos monumentos e edificações históricos e as questões relativas à requalificação urbana, Peixoto (2009, p.41-42) afirma que está na origem da problemática da “requalificação urbana”, entre outros fatores,

[...] a emergência de um cenário de concorrência e de competitividade entre cidades que adensa a importância de factores representacionais e imagéticos, assim como de intervenções urbanísticas e arquitectónicas que concretizam no espaço símbolos de afirmação e de identificação das cidades.

Essa concorrência leva as cidades a produzir intervenções urbanísticas de forma a que ocorra a produção do cenário muitas vezes numa perspectiva de idealização de um passado que nunca existiu, onde centros históricos e edificações

se tornam, em certas iniciativas, o que nunca foram, em função de uma busca de uma certa diferenciação pelo fenômeno imagético associado à história do lugar. Sobre este fenômeno, Valença (2010, p.04) aponta a revitalização, a renovação, a reinvenção dos patrimônios arquitetônicos e urbanísticos dos centros históricos “[...] nem sempre históricos, mas que se tornam simulacros da história”. Tudo isso como parte do

marketing para as cidades. Diz o autor que:

Construíram-se hotéis, infra-estrutura e serviços disneylandizados, produziram-se tradições culturais, imprimiram-se marcas próprias num mundo que, para as elites, tem se tornado cada vez mais homogêneo com suas infra-estruturas e serviços VIP [...] (aeroportos, centros de convenções, hotéis, shopping centers, parques temáticos, condomínios fechados, ou seja, espaços proibidos para os não solváveis, indesejáveis, nos quais circulam as elites).

Ainda segundo Valença (2010, p.04), essa estratégia teria tornado as cidades iguais, sem a “aura” que revestia seus patrimônios, transformando-os em objetos “fetichizados” na tentativa de atrair o visitante “solvável” (turista e/ou investidor), que é o consumidor estrangeiro abonado, detentor do capital que se quer ver investido nas cidades competidoras. Aqui o autor procura mostrar o caráter excludente do receituário defendido pelos arautos dos planos estratégicos e do marketing para as cidades, que buscam transformá-las em mercadorias de luxo, destinadas a potenciais investidores nacionais ou estrangeiros.

É um processo que Lima, E. (2004, p.02) chamou de “museificação” onde a arquitetura assume “[...] um destaque cenográfico na cidade”. O objetivo é a atração de turistas através de equipamentos culturais que adquirem valor econômico, numa estratégia rentista que muitas vezes ignora a continuidade espacial e histórica do lugar causando prejuízo aos residentes.

Fonseca (2008, p.624), analisa a grande expansão turística das últimas décadas e a consequente competição entre os destinos turísticos. Diz a autora que esses destinos buscam a diferenciação, objetivando a conquista de novos clientes, entretanto, a inclusão competitiva desses espaços periféricos no processo da globalização da economia “[...] tem originado uma lógica perversa, onde a maior parte da população residente é excluída dos espaços produzidos para fins turísticos, ou seja, é uma inserção que gera processos de exclusão”.

Este caráter excludente é também destacado por Silva, M. (2004, p.03), que elabora uma visão crítica acerca da espetacularização e mercantilização da cidade:

A remodelação de cidades por vezes implica na camuflagem e remoção de elementos “indesejáveis”; da mesma forma, aspectos “desejáveis” são enfatizados ou simplesmente inventados, sem qualquer relação com a história e cultura locais.

Portanto, percebe-se que a exclusão de camadas da população não incorporadas ao mercado de consumo é uma das consequências negativas relacionadas à adoção da fria lógica empresarial e dos planos estratégicos para a resolução dos problemas urbanos com base no marketing.

Arantes, O. (2002, p.31) afirma que PE talvez seja um eufemismo para gentrificação, apontada pela autora como processo, em seu sentido original, de “[...] invasão e reconquista, inerente ao retorno das camadas afluentes ao coração das cidades”. Diz a autora que, talvez, em sua apoteose, a cidade estrategicamente planificada poderia se transformar numa cidade “inteiramente gentrificada”. Assinala ainda que é necessário abrir

[...] um parêntese a respeito deste tópico, que se tornou um dos pontos de honra da diluição culturalista da espoliação urbana, pois afinal o que importa nisto tudo é sempre determinar quem sai e quem entra, só que agora se trata de uma apropriação do espaço legitimada pelo upgrading cultural. (ARANTES, O., 2002, p.31)

Outra consequência negativa é apontada por Lapa (2011, p.49) ao analisar o papel dos atores envolvidos no processo das transformações urbanas relativas ao

marketing das cidades. Diz respeito à percepção de que valores culturais “[...] podem funcionar como objeto de marketing para atrair consumidores, desempenhando o papel de um ativo no desenvolvimento local”. Observa ainda que:

As atividades do turismo, que podem carrear recursos importantes para as economias locais, podem também representar uma ameaça à autenticidade do patrimônio cultural e à sua permanência. Essa ameaça se amplia quando a estratégia de marketing opera eficazmente, atraindo enormes contingentes, em ocasiões especiais, ou fluxos contínuos de turistas, no cotidiano. A falta de consciência ética, na utilização dos recursos naturais e culturais, e a falta de compromisso com a permanência e conservação dos valores locais podem levar ao falseamento ou, pior, à ruína do patrimônio cultural.

Ao transpor os planos da realidade empresarial para a realidade da cidade, os planejadores incorporam os princípios da gestão de negócios, guiados pelo mercado, transformando a cidade num agente econômico submetido às regras e modelos desse

mercado, que passa a atender às expectativas geradas no e pelo mercado, o que pode gerar consequências positivas e negativas.

Afirma Vainer (2002, p.89), sobre as redefinições políticas e econômicas na cidade empresarial:

O que nos parece central extrair dessas leituras é que a analogia cidade- empresa não se esgota numa proposta simplesmente administrativa ou, como muitas vezes pretendem apresentar seus defensores, meramente gerencial ou operacional. Na verdade, é o conjunto da cidade e do poder local que está sendo redefinido. O conceito de cidade, e com ele os conceitos de poder público e de governo da cidade são investidos de novos significados, numa operação que tem como um dos esteios a transformação da cidade em sujeito/ator econômico [...] e, mais especificamente, num sujeito/ator cuja natureza mercantil e empresarial instaura o poder de uma nova lógica, com a qual se pretende legitimar a apropriação direta dos instrumentos de poder público por grupos empresariais privados.

Portanto, trata-se de um amplo realinhamento político em que os protagonistas das ações dos planos são os mesmos que põem a roda do mercado para girar. É uma despolitização da cidade com claro enfraquecimento do poder político local face aos ditames mercadológicos. Afinal, a cidade agora é uma empresa, onde não cabem exercícios democráticos ou instrumentos efetivos de participação cidadã. Por outro lado, e em aparente contradição, os planejadores precisam do consenso entre os cidadãos, buscam a cidade unificada, mesmo esta não sendo mais um espaço político e sim econômico. Esse consenso é necessário já que a cidade agora deve ser unificada em torno de um projeto.

Ainda segundo Vainer (2002), o consenso é obtido através de alguns artifícios, quais sejam: o cidadão deve ser refém das crises, deve ter a percepção de que a cidade em crise tem como única saída o plano; esse consenso deve gerar um sentimento de união, quase patriótico, sem o qual não há saídas; e, finalmente, estando a cidade pacificada e sob a égide do empresariamento, não há necessidade de embates políticos, pois já não há sentido na política, o que leva a governos locais fortes e personalistas. Enfim, considera que o discurso dos novos planejadores, de forte conteúdo ideológico, baseia-se numa oferta de vantagens de difícil contestação. Na visão do autor, a nova ideia de cidade, que chama de polis, lugar do exercício da política e da cidadania, é superada pela city, lugar dos cidadãos cativados pela ideia de gerenciamento, pela ideia de cidade-empresa, cidade do consenso, cidade dos líderes carismáticos. Mas aponta que a polis poderá prevalecer, como lugar de

embates políticos e terreno fértil para o permanente exercício da reconstrução e reapropriação dos espaços públicos.

Os desafios às cidades apontam, como visto, para o enfrentamento de uma nova realidade colocada pelo reordenamento das forças políticas, capitalistas e da sociedade civil, em busca da solvência das cidades mediante as crises do capitalismo. É uma alteração da geometria onde a assimetria se dá pelo ganho ou pela perda de competitividade, pela competência ou incompetência dos gestores públicos e privados em levar suas cidades ao podium dos vitoriosos, nesta corrida pela atração dos fluxos de capitais nacionais e internacionais. Como receita para a vitória, como visto, o PE tem sido indicado desde os anos 1980 por diversos especialistas, autores e gestores públicos. Essa não é uma receita unânime nem atinge o consenso na opinião dos pesquisadores, notadamente em Fonseca (2008), Harvey (2005), Vainer (2002) e Valença (2010), como visto anteriormente, nem é intenção desta pesquisa buscar estabelecer se esse modelo de gestão urbana funciona ou não, se deve ser adotado ou não pelas cidades. Trata-se, na presente formulação do referencial teórico da pesquisa, de entender o modelo preconizado, suas nuances, peculiaridades, o que modifica na paisagem urbana. Entende-se que, até o momento, diversos desses fatores já foram abordados segundo a visão de diversos pesquisadores. Procurar-se- á, a partir de agora, um aprofundamento buscando-se uma visão mais sistemática sobre o tema: PE para as cidades.

2.2 O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO COMO SOLUÇÃO PARA AS NOVAS

Benzer Belgeler