• Sonuç bulunamadı

2. Ahmed Cevdet Paşa’nın Hayatı

2.3. Ahmed Cevdet Paşa’nın Resmi Görevleri

Tendo em vista que se pretende, nesta dissertação, analisar editoriais da revista Tpm, faz-se necessário tecer um breve comentário acerca desse gênero discursivo para que seja possível compreender em que medida os textos analisados retomam e perpetuam as características tradicionais desse gênero e em que medida rompem com elas, atentando principalmente para o objetivo desses textos.

Viviane Heberle é uma pesquisadora de revistas femininas que se deteve com afinco na análise de editoriais. Segundo essa autora, quando se fala do editorial de revistas femininas:

Trata-se de um texto promocional que funciona com um cartão de visita, uma introdução à edição, uma saudação da editora, um bate-papo com as leitoras sobre assuntos da edição. Serve como uma propaganda geral da edição da revista e uma síntese das matérias principais. (HEBERLE, 1999, p. 75). Diz respeito, portanto, a um texto descritivo e argumentativo, pois, apesar de ser uma apresentação da edição, há uma clara intenção de persuasão, um caráter propagandístico de tentar convencer a leitora a ler ou comprar a revista. Há no gênero editorial um viés também de defesa de opinião, pois é nele que fica explícita a posição da revista sobre os assuntos e temas tratados, que se define a linha editorial e transparecem os valores e crenças dos editores. Ainda segundo Heberle (1999, p. 75):

Em linhas gerais, o editorial pode ser classificado como um texto exortativo e persuasivo, é de curta extensão (no máximo uma página inteira) e vem disfarçado de texto informativo. Vale lembrar, com Longacre (1983 e 1992)16, que textos exortativos são um subtipo do discurso comportamental. Referem- se a unidades de linguagem cuja função é influenciar ou modificar o comportamento de leitoras/es para fazerem algo que não estão fazendo, para deixarem de agir ou continuarem a agir de certo modo, etc.

Há, portanto, um objetivo de alinhamento com a leitora. Estratégias linguísticas e discursivas de envolvimento estarão, deste modo, permeando os editoriais. A esse respeito, Heberle (1999, p. 75-76) faz a seguinte observação:

[...] para atrair a atenção das leitoras e a aprovação das propostas apresentadas, duas estratégias argumentativas ou falácias são utilizadas: argumentum ad populum (apelo a emoções) e generalizações precipitadas. Ao apelar para as emoções, as editoras-chefes, como protagonistas de argumentação promovem a revista, incitando os ânimos e desejos das mulheres, procurando obter aceitação daquela edição e daquela revista específicas. Ao mesmo tempo, como parte de seus pontos de vista, as diretoras de redação utilizam

16 LONGACRE, R. The Grammar of Discourse. Nova York: Plenum Press, 1983. / LONGACRE, R. The discourse strategy of na appeals letter. In: MANN, T.; THOMPSON, S. (Eds.). Discourse Description: Diverse Linguistic Analysis of a Fund-Raising Text. Amsterdã/Filadélfia: John Benjamins, 1992; p. 109- 130.

generalizações sobre o comportamento das mulheres, tentando tornar as afirmações consensuais e evidentes.

Sendo assim, esse gênero exerce um poder de convencimento e formação de opinião das leitoras, que se veem representadas pelas generalizações acerca da mulher que se fazem nesses textos. Ao tornar consensual e evidente determinada concepção sobre a mulher, o Editorial exerce uma influência direta sobre o comportamento e a identidade das mulheres que leem a revista, determinando o modo como as mulheres se veem e são vistas pelos outros na sociedade, o que interfere sobremaneira nas relações de gênero que se estabelecem nos processos sociais mais diversos.

O tom da informalidade e da conversa amiga, que perpassa todas as seções de uma

revista feminina, conforme já foi apontado anteriormente nesta dissertação17, também se

encontra em muitos editoriais e gera uma cumplicidade entre leitora e enunciadora, causando um efeito de verdade no discurso e estabelecendo um vínculo de proximidade e confiança da leitora com a revista, o que implica uma eficiência persuasiva ainda maior do discurso. Conforme diz Heberle (1999, p. 83):

A informalidade e o caráter promocional podem ser observados através do layout dos textos, do tom conversacional, dos elementos interdiscursivos dos processos e participantes e do léxico referente a questões do âmbito privado. As diversas estratégias discursivas visam atrair as leitoras a serem consumidoras das revistas e dos produtos anunciados nelas, e a se assemelharem às mulheres representadas.

Fica nítida, então, a importância de estudar a representação presente nos editoriais de revistas femininas, pois é neles que a ideologia das revistas toma contornos mais definidos e claros para o analista.

O Editorial é uma seção presente em praticamente todas as revistas femininas, embora possa ganhar denominações diferentes dependendo da publicação. Ele também pode ser chamado de “carta da editora” ou “carta da redação”, por exemplo – o nome escolhido pela revista já pode indicar o teor do texto. Quando chamado de “carta”, pressupõe-se um tom mais íntimo e familiar, que se aproxima da leitora pela informalidade e pela conversa; se chamado de “editorial”, espera-se um tom mais formal e mais argumentativo, semelhante aos editoriais de jornais ou revistas informativas.

Também varia de revista para revista o equilíbrio entre a descrição e a argumentação nos editoriais. Há revistas em que predomina no Editorial a simples apresentação do conteúdo da edição e outras em que predomina a defesa de um ponto de vista relacionado à mulher e aos assuntos abordados pela publicação. A esse respeito, ao

analisar as cartas da editora da revista A Mensageira, Andrade (2012, p. 261) fez o seguinte comentário:

Em relação às cartas da editora de revistas femininas contemporâneas, como por exemplo, Claudia, Marie Claire ou Criativa, verificamos que estas revistas apresentam a carta da editora sempre assinada pela editora-chefe ou pela diretora de redação e seu conteúdo é muito mais uma apresentação das matérias que serão encontradas nas revistas, funcionando como uma espécie de convite à leitura, já que destaca resumidamente algumas reportagens ou artigos considerados relevantes. Desse modo, há uma distinção em relação às cartas de A Mensageira que estariam muito mais próximas do que hoje denominamos de editorial e pode ser encontrado em jornais como Folha de S.Paulo ou ainda na revista mensal Veja, que apresentam textos argumentativos em que há a tomada de posição por parte do veículo de comunicação em relação ao tema apresentado por meio de um texto argumentativo.

A partir dessa observação, verifica-se que a revista Tpm também não guarda muita semelhança com as cartas da editora apresentadas por revistas como Claudia e Marie Claire na medida em que, como A Mensageira, tem um padrão de editorial mais argumentativo do que de apresentação, apesar de não deixar de ser também uma apresentação e um convite à leitura da revista. Dos editoriais selecionados para análise nesta dissertação, alguns mostram um teor mais argumentativo do que outros, mas há também a remissão a reportagens e seções da edição que funcionam como uma apresentação e um incentivo à leitura desse conteúdo. Há, portanto, uma variação de tom nos editoriais da revista Tpm estudados, mas é possível dizer que tais textos pretendem defender ideias e pontos de vista de forma explícita, deixando clara a linha editorial seguida pelo periódico.

Outro dado que deve ser apontado em relação aos editoriais da revista Tpm é o fato de a maioria deles ser assinada por um homem, e não por uma mulher. Esse dado é significativo porque nas principais revistas femininas em circulação no mercado a

assinatura é de uma mulher – comumente, da editora-chefe ou da diretora de redação,

conforme observado por Heberle (1999) e Andrade (2012). A determinação de que essa seção deve ser assinada por uma mulher já vem embutida, muitas vezes, na denominação escolhida pelas revistas para o gênero, que, como já foi dito, muitas vezes recebe o nome de “carta da editora”. Ainda de acordo com o que já foi citado, do total de trinta editoriais analisados nesta dissertação, 22 são assinados pelo diretor editorial Fernando Luna, três pela diretora de redação Carol Sganzerla e quatro pela diretora do núcleo de revistas Trip e Tpm Micheline Alves. Apenas um dos editoriais analisados leva a assinatura “Os editores”, sinalizando um texto coletivo. Tal fato pode indicar, por exemplo, a intenção da revista de dialogar tanto com o público feminino quanto com o público masculino, o

que também já foi comentado nesta dissertação. Sinaliza ainda que não se trata de uma revista feminista, uma vez que esse movimento demanda um protagonismo das mulheres nas formas de comunicação e de luta do movimento; portanto, uma revista feminina cujo editorial leva a assinatura de um homem não caracteriza um veículo que representa o movimento feminista, embora o feminismo procure também levar aos homens o debate sobre a luta que propõe, isto é, o feminismo acredita que a luta das mulheres por direitos iguais deve ser também uma luta dos homens, mas não deve ser guiada ou protagonizada por eles.

Ter uma voz masculina argumentando sobre os principais pontos de vista defendidos por uma revista feminina também pode indicar certa desigualdade de poder entre gêneros dentro da editora, o que sinalizaria uma contradição da revista Tpm, que defende a igualdade de gêneros. Essa situação se agrava quando percebemos que as duas

mulheres que assinam, esporadicamente, o editorial – Carol Sganzerla e Micheline Alves

– têm cargos hierarquicamente inferiores ao de Fernando Luna: respectivamente, de diretora de redação e diretora do núcleo de revistas Trip e Tpm.

Ao olharmos para o expediente da revista Tpm, vemos que os quatro principais cargos, que aparecem no topo da lista, são ocupados por homens: editor (Paulo Lima), diretor superintendente (Carlos Sarli), diretor editorial (Fernando Luna) e diretor financeiro (Agenor Santos). Abaixo destes, há mulheres ocupando cargos como diretora de publicidade e circulação, diretora de eventos e projetos especiais proprietários, e diretora de criação. No entanto, todos os cargos relacionados à Redação, incluindo o de redatora-chefe, são ocupados por mulheres, embora o corpo editorial tenha variado durante o período analisado.

Mais uma vez, esse cenário reflete que, por mais que haja uma iniciativa da revista em propor novas formas de pensar a mulher na sociedade, ela está inserida em uma estrutura social de ideologia machista, que conduz a uma realidade de desigualdade de

gêneros em que os homens – em sua maioria, brancos – ocupam a maioria dos empregos

formais e dos cargos mais altos das empresas no Brasil (IBGE, 2014). No que diz respeito ao ramo da comunicação, o quadro é ainda mais discrepante: segundo dados da organização The Representation Project (2015), dos Estados Unidos, as mulheres são proprietárias de apenas 5,8% das estações de rádio e televisão, ocupando somente 3% dos cargos mais altos na grande mídia, incluindo telecomunicações, entretenimento, mídia impressa e publicidade. No Brasil, as mulheres ainda ganham aproximadamente 30% menos do que os homens (VALOR ECONÔMICO, 2014).

Levar em conta informações dessa natureza ao se proceder a uma análise crítico- discursiva dos textos é de fundamental importância, pois, dentro dessa perspectiva teórica, deve-se considerar todo o contexto de produção e recepção dos textos para que eles façam sentido no que tange à estrutura social, às práticas sociais em que estão inseridos e aos demais discursos que permeiam essas práticas e com eles estabelecem relações interdiscursivas, assim como observa Andrade (2012, p. 261):

Os textos surgem em situações sociais específicas e são construídos com finalidades específicas pelos escritores e também por seus leitores. O sentido encontra a sua expressão no texto e aí é negociado a partir de uma situação concreta de relações sociais estabelecidas na interação. Ao se analisar as cartas da editora, portanto, há que se destacar a relação com o seu processo de produção e interpretação, ou seja, a prática discursiva que lhe dá origem. Nessa ótica, o texto resulta do processo de produção e do meio no qual o processo de interpretação é realizado. Quando se trata das condições sociais de produção e interpretação de textos, é necessário tratar das práticas socioculturais que propiciam e influenciam essa produção e interpretação, e acabam interferindo no texto.

Na análise das cartas da editora, os textos podem ser considerados o produto de um processo. Produto, porque é por meio de estruturas discursivas (narrativa, descritiva, argumentativa, entre outras) expostas na carta que a instituição (no caso, a revista) tenta persuadir suas leitoras. Nesse processo, a editora (diretora de redação) formula opiniões em função do que a sociedade determina, ou seja, daqueles assuntos que as pessoas estão discutindo, daqueles artigos que são do interesse da leitora, dos fatos que a editora julga serem os mais importantes para serem mencionados naquela edição.

Deve-se observar também que as outras revistas femininas, cujos editoriais são assinados por mulheres que ocupam, principalmente, o cargo de diretoras de redação, editoras-chefes ou redatoras-chefes, não são necessariamente parte de uma editora onde há maior igualdade entre os gêneros, pois o fato de isso acontecer não quer dizer que a estrutura hierárquica não reflita também a predominância masculina nos cargos de maior peso da editora. Também deve ser levado em conta que colocar um homem para assinar os editoriais da revista Tpm é uma opção da editora Trip, já que há mulheres ocupando cargos que lhes possibilitariam assinar os editoriais e, com isso, disfarçar uma possível desigualdade de gêneros dentro da editora. Contudo, isso não é feito, o que também pode gerar na leitora o seguinte efeito: o debate acerca da mulher e os assuntos abordados na revista Tpm não devem ser restritos ao público feminino; os homens também devem ser conscientizados quanto aos padrões irreais a que as mulheres são submetidas pela mídia, principal tópico que a revista Tpm procura abordar.

Dessa forma, observa-se que os editoriais da revista Tpm estão inseridos em uma tradição do gênero, pois reproduzem algumas características de sua forma prototípica, que é a apresentação dos conteúdos da revista e a defesa de um ponto de vista acerca da

mulher, e rompem com outras, sobretudo porque são assinados, majoritariamente, por um homem, e não por uma mulher.

Benzer Belgeler