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1.1 – O regime republicano e a modernização da capital norte-rio-grandense

Antes de estudar os usos que os habitantes de Cidade Nova fizeram desse novo território, faz-se necessário, ainda que brevemente, discorrer sobre a implantação do regime republicano no Rio Grande do Norte, destacando a nova condição política do estado, os interesses dos grupos que estavam no poder e o envolvimento de tais grupos no processo de modernização de Natal durante o início do século XX, realidade que propiciou a idealização e a construção desse terceiro bairro da cidade. A análise da formação desses grupos políticos é fundamental para entender como as relações de poder estiveram presentes no bairro desde sua idealização e, posteriormente, perpetuaram-se no sistema de apropriação e uso do solo urbano nesse novo território, uma vez que esse grupo teve forte atuação na política de aforamento desenvolvida no novo bairro.

A instauração do governo republicano propiciou a construção de novas relações nos estados brasileiros, que ganharam maior autonomia. O domínio da esfera estadual significava o controle de verbas que poderiam ser empregadas diretamente nas áreas de influência de quem controlasse essa esfera de poder, realidade diferente da existente no período imperial. No Império, o que estava sendo definido era a unidade da nação, a preocupação do Estado e dos grupos políticos que o sustentavam era com o todo, com sua unidade, fazendo com que as partes, as províncias, não tivessem autonomia.

José Murilo de Carvalho em sua tese que foi publicada em dois livros, A Construção da Ordem e Teatro de Sombras, estudou a formação da elite política que atuou na construção do Estado imperial no Brasil. Para esse autor, a adoção de uma solução monárquica, a manutenção da unidade da ex-colônia e a construção de um governo civil estável foram consequências do tipo de elite política existente no período da Independência, caracterizada principalmente pela homogeneidade ideológica e de treinamento. Foi essa homogeneidade, produzida por meio de uma educação, sociabilização e treinamento (ocupação) profissional comum, que possibilitou a redução dos conflitos dentro de uma mesma elite e forneceu a concepção e a capacidade de implementar determinado modelo de

dominação política. Para Carvalho, “quanto mais homogênea (a elite), mais estável o processo de formação do Estado”53

.

Ao tornar-se independente, o Brasil possuía uma elite ideologicamente homogênea, formada na Universidade de Coimbra, com treinamento no funcionalismo público e isolada ideologicamente em relação às doutrinas revolucionárias. Durante o Império, essa elite reproduziu condições semelhantes, concentrou a formação de seus futuros membros, treinou-os na magistratura e reviveu a prática portuguesa de fazer circular seus administradores por vários postos e regiões.

Carvalho não negou a existência de divergências entre as províncias, mas ressaltou que esses conflitos não atingiam os limites estabelecidos pela manutenção da unidade nacional. A circulação geográfica dos políticos, sobretudo dos presidentes de província, não objetivava apenas o treinamento, mas tinha a função primordial de evitar que os funcionários se identificassem com os interesses locais e prejudicassem a unidade criada. Segundo o autor, a unidade foi fundamental para evitar que forças centrífugas levassem o Brasil ao mesmo destino de fragmentação das outras colônias da América Latina. A elite do Brasil imperial possuía, portanto, compromisso com o fortalecimento do Estado.

O autor ainda comparou essa elite imperial com a que dominou o poder após a proclamação da República. Para Carvalho, a elite republicana era mais representativa do que a imperial, sendo composta principalmente de bacharéis em Direito, após o período inicial, em que a presença dos militares foi substancial. Essa elite também era mais provinciana, uma vez que o federalismo impediu a circulação geográfica existente no período anterior. Sendo assim, os interesses locais tinham acesso mais direto ao centro de poder, fazendo o Estado republicano mais liberal do que o imperial, “embora não mais democrático, pois a maior representatividade da elite faria com que a dominação social se

refletisse com mais crueza na esfera política”54

.

Deve-se frisar que as ideias que estão ligadas ao republicanismo, como o federalismo, o liberalismo, a democracia e a cidadania, não surgiram no país apenas com a Proclamação da República. Para Maria de Mello, desde o final da década de 1870, ou seja, ainda no período imperial, um novo sistema simbólico começou a ser moldado, tendo a reforma como palavra de ordem. Foi a partir desse período que o espaço público foi

53

CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial; Teatro de Sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, Relume-Dumará, 1996. p.28.

ampliado por meio de associações, conferências, imprensa, livrarias, confeitarias, clubes e mobilizações populares. Para a autora, “a renovação simbólica colou na sociedade porque não foi construída sobre um vazio. Foi pela rearrumação da tradição liberal, por exemplo,

que se montou outra narrativa da nação”55

. Nesse período, as conversas de rua, os rumores, as reuniões nas confeitarias, a leituras dos jornais em voz alta e as ilustrações contribuíram para que as notícias chegassem aos homens comuns, propagando a ideia de crise da monarquia e fomentando a criação do “solo republicano”56.

A monarquia começava a ser deslegitimada, tendo seus pilares, o catolicismo, o ecletismo, o romantismo, a escravidão, o regime de privilégios, o prestígio das instituições, questionados, criando-se uma disponibilidade afetiva para a aceitação de uma sociedade democrática e capitalista57. Segundo Mello, somente é possível entender a instalação da República no Brasil acompanhando-se a crise de direção do final do Império. O trabalho da autora, diferentemente de alguns trabalhos clássicos, que interpretam a Proclamação da República como um movimento militar e elitista, não se reduz a interpretação dos grandes quadros, dos grandes nomes que permeiam o imaginário republicano. Mello busca entender a crise da monarquia na perspectiva do conjunto da população. Para a autora, foi a partir dos primeiros anos da década de 1880 que a rua foi ressignificada, adquirindo sentido como espaço do uso público da razão, sendo utilizada pela população, juntamente com a imprensa, para divulgar insatisfações ou apoiar reuniões a favor do abolicionismo e, posteriormente, do republicanismo.

Mello comentou ainda as novas ideias que passaram a ser difundidas pela chamada Geração de 187058, que foi a responsável por consolidar a crise do regime imperial. Foi também nessa década que o Partido Republicano foi fundado e começou a enfatizar a propaganda republicana. Essa geração fazia uso do cientificismo, acreditando que ele seria responsável por libertar a inteligência de fantasias religiosas e dar ênfase a velocidade e ao progresso tecnológico capitalista. O positivismo, assim como o evolucionismo bebido em Spencer, Haeckel, Noiré e Hartmann, Lamarck e Darwin, também influenciaram a Geração

55

MELLO, Maria Tereza Chaves de. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: Editora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2007. p.11.

56 Ibidem, p.14. 57 Ibidem, p.94. 58

Compunham a denominada Geração de 1870 grupos reformistas contestadores que muitas vezes eram marginalizados em relação ao sistema, liberais dissidentes, republicanos, entre esses profissionais das mais diversas áreas: jornalistas, poetas, escritores, políticos, artistas, militares.

de 187059, ideias que, a partir de 1880, começaram a atingir as produções literárias, criticando o romantismo e dando ênfase ao naturalismo e ao parnasianismo.

Os republicanos interpretavam a igualdade e associavam-na a República enquanto liberdade política e civil, demarcando o fim dos privilégios. Atacavam a existência do Poder Moderador e ressaltavam a necessidade de moralizar as eleições, vinculando o regime monárquico ao atraso e o regime republicano ao progresso. Para os republicanos, a noção de distinções sociais não estava ausente, mas elas deveriam ser estabelecidas pelo mérito e pelo talento, e não pelo privilégio. Assim, “formou-se a convicção de que as reformas não se podiam realizar com a Monarquia e no entanto sem elas a modernização do

país estava descartada”60

.

Para Mello, a partir de 1880, sobretudo com a campanha abolicionista, a opinião pública tornou-se forte como força social, passou a ser vista como verdadeira representação do povo brasileiro. O bombardeio da propaganda republicana nos últimos anos do Império ajudou a criar uma “cultura em que a república era entendida como o governo da opinião

pública”61

. Todavia, como será elucidado com exemplos ao longo da dissertação, várias ideias vinculadas ao republicanismo no período da propaganda não foram colocadas em prática ao longo da efetivação do regime republicano no Rio Grande do Norte e no restante do país.

Edgar Carone também ressaltou mudanças implementadas pelo regime republicano. No Império, as rendas locais destinavam-se ao governo central. A construção do governo republicano proporcionou novos mecanismos nos estados brasileiros, que ganharam maior autonomia e puderam modificar suas relações de dominação e identidade. Com a República ocorreu a promulgação da Constituição de 1891, que concedeu maior liberdade aos estados; a receita de exportação pôde ser revertida para as próprias unidades federativas, e as representações políticas estaduais passaram a ser mais autônomas62. Os estados também passaram a deter a propriedade das minas e das terras devolutas situadas em seus territórios, puderam realizar entre si ajustes e convenções, cobrar impostos interestaduais, decretar impostos de exportação, contrair empréstimos no exterior, elaborar sistema eleitoral e judiciário próprios, organizar força militar, entre outros.

59 Ibidem, p.98.

60 Ibidem, p.185. 61

Ibidem, p.124.

62 CARONE, Edgar. A República Velha: I - instituições e classes sociais (1889-1930). Rio de Janeiro: Difel, 1983.

Contudo, essa autonomia estadual favorecida pelo federalismo, aliada à formação da grande propriedade, permitiu o fortalecimento de um sistema baseado nos domínios familiares e sociais, formando o que o autor denominou de “governos oligárquicos”63. Carone ressaltou que existiam diferenças entre os governos estabelecidos pelas famílias poderosas e influentes no Brasil. Nos estados mais favorecidos economicamente e com mais destaque no cenário nacional, a máquina governamental era forte e complexa, fazendo com que o partido dominante representasse um poder controlador e distribuidor, equilibrando mais os desejos individuais e coletivos. Já nos estados mais desfavorecidos, como o Rio Grande do Norte, o predomínio familiar era exercido com mais força.

Dessa maneira, apesar da existência de novas ideias, o autor destacou que, durante o regime republicano, as formas representativas não foram colocadas em prática como idealizado, predominando o uso da força, o domínio do mais forte, apesar da existência de sistema eleitoral e jurídico64. Para o autor, desde o início da implantação do novo regime, as forças estaduais deturparam o sentido democrático da República, transformando o sistema eleitoral em um jogo controlado pela situação.

Raymundo Faoro também demonstrou como muitas bandeiras do republicanismo foram modificadas com a instauração do governo republicano. Para o autor, no regime republicano, sobretudo com o governo de Campos Sales (1898-1902), cada estado passou a ter o seu dono, sendo controlado por um poder pessoal ou de determinada família65. A denominada política dos governadores, instituída pelo governo de Campos Sales, foi a responsável por dar estabilidade ao grupo dirigente estadual, que tinha sua força nos partidos locais, institucionalizando relações já existentes.

Para Faoro, as leis republicanas não foram capazes de conter os abusos, as eleições a bico-de-pena foram características desse regime, e a segurança legal à oposição não permitiu que ela se manifestasse. Segundo o autor, no regime republicano, a linha entre o interesse particular e o público, assim como na colônia e no império, continuou fluida, e até mesmo indistinta. Frequentemente o poder estatal era utilizado para o cumprimento de fins privados66. Continuou existindo o que o autor denominou de patrimonialismo. Para Faoro, a realidade histórica brasileira demonstrou a persistência secular da estrutura patrimonial,

63 CARONE, Edgar. A República Velha: II – evolução política (1889-1930). Rio de Janeiro: Difel, 1977.p.10. 64 Ibidem, p.11.

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FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. v. 2. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1975. p.568.

que teve sua gênese em Portugal e foi implantada no Brasil colonial permanecendo até o governo de Getúlio Vargas67. Assim, segundo o autor, a pressão da ideologia liberal e democrática não quebrou a estrutura patrimonialista existente no país, em que o poder público confundia-se constantemente com o privado.

Apesar da propaganda republicana não ter sido concretizada com a implantação do governo, é importante destacar que nem todo o processo foi envolto por continuidades. Com a República, e a promulgação da Constituição de 189168, foi permitido a elaboração de constituintes estaduais, que concederam aos municípios maior liberdade administrativa e financeira, atendendo demandas por autonomia regional, então sufocadas pelo centralismo imperial. Todavia, essa autonomia, embora relativa, favoreceu o uso do dinheiro público em favor de interesses particulares. Os governadores ou presidentes, denominação que variava dependendo do estado69, possuíam uma enorme soma de poder, dirigindo e controlando a política por meio de poderosas máquinas partidárias estaduais. Nesse processo, os coronéis, aqueles que integravam a Guarda Nacional, eram peças fundamentais70. O jogo de poder no período republicano assentou-se, portanto, no que

alguns estudiosos denominaram de “liberalismo excludente”71

. Manteve-se um liberalismo de representação limitada e restritiva, em que o poder local e estadual era circunscrito aos membros mais abastados e influentes.

Para compreender a repercussão dessas mudanças e continuidades com a implantação do regime republicano no Rio Grande do Norte, o estudo de Renato Amado Peixoto, Espacialidades e estratégias de produção identitária no Rio Grande do Norte no início do século XX, é uma referência importante. O trabalho de Peixoto é essencial para a

67 Ibidem, p.734.

68 BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 24 de fevereiro de 1891. Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao91.htm>. Acesso em: 15 de out. 2013.

69 Edgar Carone, assim como Resende, destacou que, durante a Primeira República, cada estado teve sua constituição, que especificava o título do chefe do Executivo. Em algumas unidades federativas eram denominados de presidentes, em outras, de governador, ver: CARONE, Edgar. A República Velha: II – evolução política (1889-1930). Op. cit., p.10.

70 Instituição de origem imperial, que começou a entrar em decadência na década de 1870. Era uma espécie de milícia civil criada para manter a ordem e retirar do governo o controle sobre os meios de coerção. Para fazer parte dessa Guarda exigia-se, no período imperial, a quantia de 200.000 réis nas cidades e de 100.000 réis no interior. Ver: CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial; Teatro de Sombras: a política imperial. Op. cit., p.252.

71 RESENDE, Maria Efigênia Lage de. O processo político na Primeira República e o liberalismo oligárquico. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano I- O tempo do liberalismo excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p.98.

compreensão de como a identidade e a espacialidade norte-rio-grandense foram construídas nesse período de transição. Para Peixoto, durante o Império, em que a preocupação era com a formação da identidade e da espacialidade nacional, as tensões locais existentes por disputas de grupos familiares nas províncias eram deslocadas espacialmente. Os membros desses grupos não ocupavam cargos apenas no interior dos limites de suas províncias. Ao contrário, eram designados para ocupar cargos em diversas regiões, a serviço do Estado,

desconstruindo um dos sentidos de atuação dessas organizações e permitindo “a

incorporação destas organizações familiares ao projeto de Nação e deslocando as tensões para outro nível de discussão, no sentido da permanência da centralidade do Estado,

representado pelo Imperador e pelo Parlamento sediado no Rio de Janeiro”72

. Observa-se como Amado afina-se com a discussão de José Murilo de Carvalho a respeito da preocupação com a unidade nacional em detrimento da autonomia provincial durante o Império73.

Ainda segundo Peixoto, com a República, e o declínio do antigo sistema, tem-se novo arranjo político. Foi nesse período que uma nova organização familiar assumiu o poder no estado do Rio Grande do Norte, e seus interesses deixaram de ser conquistados por meio de uma ordem baseada na fluidez do espaço, que diluía as tensões. Nessa nova realidade, em que fazia sentido a preocupação com unidades federativas e não mais apenas com o todo, em que os estados adquiriam maior autonomia, as ambições dos grupos familiares seriam atendidas somente por meio do controle do aparelho local e, sobretudo, do estadual. Controlando o governo do estado, os grupos familiares poderiam dispor dos recursos de uma unidade estadual e conseguir mais benefícios por meio de seus representantes junto ao governo central.

Dessa maneira, para justificar e legitimar esse grupo familiar que assumiu o poder no Rio Grande do Norte no cenário republicano, fazia-se necessário construir um discurso, uma narrativa que remetesse esse poder a um passado sagrado, um discurso articulado a um passado que ele mesmo criava. Narrativa essa que seria responsável ainda por construir a centralidade da cidade de Natal, em detrimento de outros discursos existentes no estado no

72 PEIXOTO, Renato Amado. Espacialidades e estratégias de produção identitária no Rio Grande do Norte no início do século XX. In: PEIXOTO, Renato Amado (org.). Nas trilhas da representação: trabalhos sobre a relação entre história, poder e espaços. Natal: Editora da UFRN, 2012.p.19.

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Para compreensão mais aprofundada sobre a formação da identidade e espacialidade nacional em meados do período imperial, ver: PEIXOTO, Renato Amado. Cartografias Imaginárias: estudos sobre a construção da história do espaço nacional brasileiro e a relação História e Espaço. Natal: Editora da UFRN, 2011.

mesmo período. Peixoto destacou que no início do século XX existiam três interesses espaciais distintos (o mossoroense, o seridoense e o natalense), que comportavam grupos familiares com sistemas eficazes de estratégias, visando a autopreservação e o aumento de seu poder. O interesse vitorioso, segundo o autor, foi o natalense, dirigido pelos Albuquerque Maranhão. Assim, foi produzida uma centralidade de Natal, fazendo representar um sentido de espaço particular, que se impôs sobre as construções de outros espaços74.

Foi nesse sentido que o grupo familiar Albuquerque Maranhão, que assumiu o poder no estado nesse novo cenário, esforçou-se por construir uma espacialidade e identidade norte-rio-grandense, representando esse período como promissor, como diferente do anterior, do imperial. Tratava-se de um momento em que esse grupo dirigente queria afirmar-se na cidade, e, para tanto, inscrevia-se nas toponímias da urbe, nos novos territórios criados, como o terceiro bairro – Cidade Nova –, e, especialmente, na historiografia local e estadual, que começou a ser escrita e disseminada nesse período.

Assim, por exemplo, a obra sobre a história do Rio Grande do Norte produzida por Tavares de Lyra75, membro da família Albuquerque Maranhão, enfatizou um passado fundador de uma identidade e de uma espacialidade norte-rio-grandense em que a ação dos antepassados de sua família teve papel primordial76. Dessa maneira, não apenas Pedro Velho de Albuquerque Maranhão foi representado enquanto herói fundador, mas outros membros de sua linhagem também foram imortalizados na obra como símbolos, como heróis de seus tempos. Jerônimo de Albuquerque foi colocado como responsável pela fundação de Natal; André de Albuquerque foi mencionado como o herói da Revolução de 1817 e, por último, Pedro Velho de Albuquerque, foi representado como precursor da República no Rio Grande do Norte77.

74 PEIXOTO, Renato Amado. Espacialidades e estratégias de produção identitária no Rio Grande do Norte no início do século XX. Op. cit., p.32.

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A obra de Tavares de Lyra sobre a história do Rio Grande do Norte foi publicada em sua primeira edição no ano de 1921.

76 Para a compreensão de como a manipulação do imaginário social é importante em momentos de mudança política, social e de redefinição de identidades culturais, ver: CARVALHO, José Murilo. A formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Nesse livro o autor destacou a importância dos heróis para a legitimação do regime. No Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão será construído enquanto esse herói, o responsável pelas mudanças promissoras do

Benzer Belgeler