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Ahlâk-Felsefe İlişkisi

Passado o estranhamento inicial dos alunos com a pergunta sobre a cor de pele que eles se percebiam e entrando nas questões que envolviam as religiões de matriz africana, eles silenciavam profundamente, ficavam concentrados, como quem acompanha a história de um griot 59, e pela rapidez de marcações no papel era perceptível que a maioria já tinha um posicionamento sobre aqueles assuntos religiosos.

Sobre as religiões de matriz africana, formulamos 04 perguntas afim de identificarmos preconceitos e discriminações sobre este assunto. Na primeira, de número 11 no questionário, perguntamos “Você já frequentou (ou visitou) algum terreiro de Macumba, Umbanda, Candomblé, Espiritismo?”, onde tivemos que nenhum dos alunos carismáticos frequentou ou mesmo visitou pela escola algum local de religião afro.

Na questão 12, que queria saber “Na sua opinião, a Macumba, Umbanda, Candomblé, Espiritismo, são:”, obtivemos que 76% são crenças erradas e os 24% restante consideraram que são certas. O curioso foi perceber que em alguns questionaram que marcaram como crenças erradas, escreviam logo abaixo, como justificativa para suas respostas, frases do tipo: “ só há um Deus”, “ eles não são a Casa de Deus”, “ porque são muito ruins”, “ eles fazem mau para os outros”, e “ porque isso não é coisa de Deus”. Isto pode ser compreendido também como um reflexo trazidos pelos ensinos carismáticos do livro

Meu Lugar é o Céu, outro exemplar de formação da RCC, que faz a seguinte conclamação, Se você entendeu a seriedade e a importância de viver com Jesus, desfaça-se dos objetos que talvez você tenha adquirido em terreiros, com a “benção” dos pais e mães-de-santo. Não os dê para ninguém, destrua-os, jogue-os fora! O demônio não pode imperar em nossos lares, não pode ter brecha em nossa vida” (AUGUSTτ, 2003, p. 90)

Já os alunos que marcaram como certo, escreveram frases justificativas como “ cada um tem sua escolha de religião”, ou “ cada pessoa tem o direito de ter o seu próprio Deus”, o que demonstra possibilidades de abertura diante das normas carismáticas, e que devem ser aproveitadas pelos professores para sedimentar reflexões sobre multiculturalidade na educação.

59 Os griots são depositários da história dos reis e da comunidade a que pertencem. Podem ser divididos em três categorias: os griots músicos, os griots embaixadores e cortesãos e os griots genealogistas, historiadores ou poetas. BERNAT, 2013Isaac. Encontros com o griot Sotigui Kouyaté. Rio de Janeiro:Pallas, 2013.

σa questão 13, que queria saber “ Os Santos (ou Orixás) da Macumba, Umbanda, Candomblé, Espiritismo, são:”, obtivemos que 42% consideram como deuses, 36% os veem como demônios e 22% os consideram maus. Esta percepção encontra significado também nas palavras do professore Felipe Aquino, autor de livros de estudo da RCC e conferencistas em vários estados brasileiros, quando, ao discorrer sobre os orixás, encerra seu pensamento alertando que “ não é necessário dizer o quanto estas concepções ( sobre os orixás) são contrárias ao cristianismo e muito perigosas para a vida espiritual do cristão” ( AQUIστ, 2010, p.167)

Nas questões específicas sobre as religiões africanas, usamos o termo “macumba”, como se diz no popular, pois entendemos que se usássemos Umbanda e Candomblé poderíamos não ser compreendidos, ou mesmo gerar mais questionamentos durante o questionário para explicar o que eram aqueles termos, ou, pior ainda, perdermos alguma resposta por não compreensão sobre o que queríamos nos referir.

As reações perante a palavra “macumba” eram diversificadasέ Em algumas escolas alguns alunos riam ao lê-la, outros colocavam o pescoço em riste e olhavam para um colega pronunciando-a e outros, compreensivelmente mais religiosos cristãos, soltavam termos, em seu reservado como : “ -Que é isso aqui: macumba?Tá é amarrado!”έ Sucederam, então, várias observações importantes a cerca da palavra macumba nos questionários, como veremos na sequencia.

Organizando os questionários em casa, curiosamente, em dois deles, de duas escolas diferentes, Escola 01e 02, veio uma nota explicativa, feita por alunos que se identificavam como evangélicos, nos cantos das páginas, com os dizeres: “ - Eu sei que

macumba não é uma religião, é uma árvore sagrada na África e um instrumento musical”έ Que achado! Que aprendizado eu tive, ao perceber que nem todos estavam no ponto “zero” sobre os debates deste assunto e alguns já assimilavam o grau de tratamento pejorativo que esta palavra trazia.

Retornando à escola que lecionei por seis meses em 2014, reencontrei os alunos das cinco turmas de 7º. Ano, agora dispostos em oito turmas de 8º. Ano. Alguns deles, ao receber o questionário balançavam a cabeça e abriam a boca em sinal de positividade e de aquele enfoque era velho conhecido, o que foi bom. A surpresa maior veio na transição do 8º.B para o 8º.C, quando duas alunas, que tinham acabado de responder ao questionário na turma B, me abordaram no corredor e falaram indignadas:

“Professor, mas o senhor não ensinou pra gente que macumba era uma palavra que desrespeitava o pessoal da Umbanda e do Candomblé? O senhor já esqueceu? Fiquei revoltada e escrevi no questionário que não se pode tratar assim as pessoas dessas religiões. Olha o respeito! Fiquei indignada, ainda mais vindo do senhor!”

Tive um misto de alegria e preocupação. Elas eram minhas alunas no tempo do 7º. Ano. Havia ficado algum aprendizado de nossas aulas, e no sentido que eu mais buscava: o respeito às diferenças para além da sala. Aquilo servia de força motriz para acreditar que desfazer misticismos, preconceitos sobre as religiões de matriz africana, com o apoio do ensino de História, era uma via que levava também à cidadania a partir da escola. Expliquei para elas o que havia ocorrido e o porquê do uso da palavra daquela maneira, o que gerou um entendimento entre nós.

Seguindo, um outro acontecimento pôde ser notado, quando, diante de uma dúvida, um aluno erguia a mão para perguntar particularmente algo que não entendeu. Na maioria das vezes eram interrogações sobre as religiões de matriz africana, e sanada a dúvida, alguns alunos fixavam os olhos em mim. Era um olhar de soslaio, que voltava ao papel quando eu os encontrava. Parecia quererem dizer alguma coisa, mas nada expressavam pela boca. Depois que terminavam de responder o questionário e o entregavam, os olhares voltavam a se fixar e alguns alunos até faziam a fatídica pergunta: “ – Professor, você é da

macumba?”. Eu nada respondia, pois não queria direcionar o pensamento deles sobre a

origem da pergunta para nenhum ponto religioso, bastando apenas a pesquisa para o mestrado. O que aqueles olhos queriam transmitir? O que poderia vir daquelas pupilas que traziam desconserto? Na Escola 04, por exemplo, um desses olhares falou. Depois de muito me fixar, fez gesto com a mão chamado para entregar o questionário, e na entrega perguntou baixinho: “ Você é de santo?”έ Responde com outra pergunta para ver sua abertura de impor- se sobre o assunto: “- Como? O que você disse?”. Ele nada mais falou e cruzou os braços, apoiando a cabeça na junção deles encostadas junto à mesa da cadeira. Prevalecia o receio em falar publicamente sobre sua possível confissão religiosa.

No fundo dos meus pensamentos, estes olhos que pareciam querer falar alguma coisa me lembravam os alunos que pertenciam, mas não falavam sobre as religiões de matriz africana.

Depois de cada escola pesquisada, organizando os questionários, eu buscava pela resposta da pergunta “Você tem religião? Qual?” buscando os católicos carismáticos e os possíveis crentes nos orixás. Mas somente em uma escola, a 03, ocorreu de haver duas respostas positivas para esta pergunta na opção Umbanda.