Enquanto os dois mitos de Eros associados às figuras de Afrodite Urânia e da segunda Afrodite concernem ao olhar contemplativo das duas partes da Alma em direção ao Um/Bem, a exegese do mito de Poros e de Penía explica o movimento de passagem do Intelecto até à parte inferior da alma, em seus dois sentidos, epistrófico, simbolizado pela figura de Eros, e processional, através da noção polissêmica de lógos. O mito pode ser representado esquematicamente assim:
349 Essa noção encontra-se também em II 1 [40] 6, 54; VI 7 [38] 11, 53; 67-68; 12, 12. Mas Plotino não parece
considerar que os daímones tornem-se corpóreos para aparecerem. Nem mesmo que os corpos aéreos ou ígneos os tornem visíveis.
350 Plotino refere-se a tal possibilidade, mas não menciona aparições de daímones. Todavia, considerando-se o
tratado conhecido por Ad Gaurum, supostamente de autoria de Porfírio, este explica tais aparições pela projeção de uma imagem no envelope vaporoso que os entorna (Ad. Gaurum, 42, 5 ed. Kalbfleisch = Festugière, p. 277).
Zeus Intelecto
Poros lógos
Expansão do lógos Néctar
Alma Jardim
Lógoi difundidos Objetos do jardim Afrodite Alma
Penía matéria inteligível
Eros daím n Desejo do Bem
Percebe-se de imediato que este esquema é mais complexo que os anteriores. Ele possui colunas desiguais e linhas seccionadas. Para compreendê-lo, torna-se preciso lembrar o princípio de intemporalidade, que rege a interpretação dos mitos. Todas as genealogias são simultâneas e estão representadas nas quatro colunas superiores, à esquerda. Eros é o fruto das duas relações míticas, de Zeus e Afrodite e de Poros e Penía. O nascimento de Eros ocorre no dia em que se festeja o nascimento de Afrodite, no jardim de Zeus, o qual é repleto de ornamentos. Nesse lugar, os deuses bebem néctar, e Poros está dormindo embriagado. O jardim alude à Alma replenada de lógos. O néctar e os objetos do jardim são símbolos de estados do lógos o qual procede do ato do Intelecto que produz a Alma. As linhas seccionadas têm o fito de mostrar a interpenetração desses elementos, além da sua simultaneidade. Poros e Penía concebem Eros no jardim de Zeus, isto é, o encontro de ambos representa a difusão do
lógos do Intelecto na matéria inteligível da Alma. Por isso Poros não está separado graficamente do Intelecto, embora ele se situe no nível da Alma. O lógos do Intelecto difunde- se, dando vida à Alma. Esta, como é consabido, possui duas partes; para que se constitua, é necessário que o lógos se difunda por toda ela, incluindo a alma do mundo, de onde os lógoi escorrem para as almas individuais que dela derivam. Portanto, se o lógos pode difundir-se até ao limite da processão, é necessário que Eros também esteja presente no limite. Eros, filho de Poros e Penía, é complemento do lógos: enquanto o lógos saturado procede do Intelecto, Eros olha em direção à origem última e a deseja, permitindo o retorno de todas as almas ao Bem.
Contudo, é mister advertir que, dada a complexidade deste mito, encontra-se certa disparidade de interpretações na literatura secundária. Com efeito, enquanto o primeiro terço
do tratado, que se ocupa da genealogia de Afrodite e Eros, pouco deteve os comentadores de Plotino, esta parte do tratado, que versa sobre o mito de Poros e Penía, ocupou alguns352, não tendo sido unanimemente interpretada. Dados os objetivos deste estudo, não será apresentada uma discussão em torno das divergências encontradas nas fontes secundárias, que seria imprescindível apenas em um trabalho que se detivesse exclusivamente na análise detalhada do tratado III, 5 [50]. Porém, podem registrar-se sumariamente certas dissensões entre os dois principais comentadores, observando que, por trás dessa diversidade de interpretações, está o simbolismo plotiniano da figura de Afrodite da narrativa de Sócrates. Ou seja, nem a Urânia, nem a Pandêmia do discurso de Pausânias, mas aquela cujo natalício era festejado quando da concepção de Eros. Para Hadot, ela representa a alma do mundo, mas, nesse caso, surge a dificuldade em explicar a passagem do lógos do Intelecto para esse nível inferior da alma. A mesma dificuldade permanece, se Zeus é associado ao intelecto da alma, solução proposta por ele. Por isso Hadot sugere que Poros e Penía representem dois aspectos da alma do mundo: “Poros representa a alma do mundo na medida em que ela é extensão das formas que se interpenetram no Intelecto, extensão ao longo da qual as formas do Intelecto na alma tornam- se ‘razões’ (lógoi) em todos os sentidos filosóficos da palavra (definição, razão, força produtora)”353. Penía, por seu turno, desempenha o papel da alma do mundo, quando ela se
352 De fato os estudos mais completos e indispensáveis para o estudo do tratado III, 5 [50] são WOLTERS, A. M. Plotinus “On Eros”, que consta de uma edição bilíngüe do texto, cuja tradução é comentada em detalhes, especialmente do ponto vista filológico. O outro estudo é PLOTIN. Traité 50 (III, 5). Introduction, traduction, commentaire et notes par P. Hadot. Paris: Cerf, 1990. Diferente da edição de Wolters, a de Hadot privilegia aprofundar aspectos da filosofia de Plotino nos comentários. Por serem profundos e eruditos, ambos os textos se complementam no estudo do tratado III, 5 [50]. Além desses, podem-se mencionar os seguintes artigos e capítulos de livros, observando que, excluído Lacrosse, os demais autores detêm-se apenas no mito de Poros e Penía: LACROSSE, J. “L’exégèse du mythe de la naissance d’Eros (Banquet, 203 b-c) dans les Ennéades de Plotin”. Les Cahiers Philosophiques de Strasbourg, 3 (1995) 131-147. LACROSSE, J. L´amour chez Plotin, pp- 41-64. DILLON, J.M., “Enn. III, 5. Plotinus’ exegesis of the Symposium myth”. Agon, 3 (1969) 24-44. HARRINGTON, K. W. “Plotinus’ allegorical approach to Platon myth in Ennead III. 5 and its antecedents”.
Diotima, 3 (1975) 115-125. COULOUBARITSIS, L. “Le logos hénologique chez Plotin”, pp. 231-243. ZAMORA, J. M. La génesis de lo múltiple. Materia y mundo sensible en Plotino. Valladolid: Universidad de Valladolid, 2000, pp. 182-199. PIGLER, A. Plotin: une métaphysique de l´amour. Paris: Vrin, 2002, pp. 180- 198.
torna o receptáculo, a matéria dos lógoi que escorrem do Intelecto nela354. Essa leitura é internamente coerente e, além disso, fundamenta-se na passagem do primeiro para o terceiro terço do tratado, que é feita, como foi visto, através da noção de daím n. Além do quê, pesa a favor dessa interpretação o fato de Eros, no discurso de Sócrates e Diotima, no Banquete, ser um daím n.
Wolters, por sua vez, com respeito à exegese do mito do Banquete, considera que a interpretação plotiniana de Eros, composto pela determinação e pela indeterminação na Alma, representa a necessidade constitucional da Alma em ser satisfeita com a pura determinação no Intelecto. Em outras palavras, representa a atividade da Alma em seu esforço de contemplar o Bem. O fato de Eros nascer, quando Afrodite nasce, indica que Eros e seus pais pressupõem a existência da Alma. Em outros termos, Wolters associa a Afrodite deste mito à Alma total. Poros é “a possessão da forma racional na Alma”, Penía “a falta de forma racional na Alma”355. A interpretação de Wolters também é coerente, mas não dá conta da passagem dos primeiros capítulos para os finais, mediante a noção de daím n.
A interpretação aqui sugerida fundamenta-se em dois princípios metodológicos que se encontram nas Enéadas. O primeiro, já anunciado, é o da acronia das realidades metafísicas representadas pelos mitos. Significa que Afrodite, Zeus, Poros, Penía e Eros representam realidades simultâneas, mas que devem ser dispostas segundo uma ordem hierárquica. Em outros termos, o primeiro princípio metodológico converte-se no seguinte princípio interpretativo: o mito põe em modo temporal realidades acronológicas. O segundo princípio concerne à polivalência alegórica em um dos seus aspectos: uma mesma noção filosófica corresponde a diferentes figuras míticas. E uma mesma figura mítica corresponde a diferentes noções filosóficas ou, em outros termos, realidades metafísicas. Com isso, o segundo princípio metodológico, da polivalência, coincide com certos aspectos da perspectiva
354 Ibidem.
alegórica dos mitos, como se poderá ver mais detidamente na terceira parte da tese. Por isso, na presente interpretação, admite-se a continuidade entre uma parte e outra do tratado, através da noção de daím n, considerando-se Eros filho de Poros e Penía como daím n. Mas também julga-se plenamente admissível que Afrodite represente a Alma total; assim sendo, o mito final do tratado III, 5 [50] apresenta um esquema completo da relação entre o Intelecto e Alma o qual se estende até ao nível inferior desta. Assim sendo, do ponto de vista metodológico, Plotino teria apresentado uma solução capaz de conciliar os mitos de Afrodite e Eros, do discurso de Pausânias, com aquele do discurso de Sócrates e Diotima, na medida em que a Afrodite desse mito reabsorve as duas Afrodites provenientes do discurso de Pausânias. Quanto a Eros, se Plotino mantém seu caráter daimônico, por um lado, possivelmente é em referência ao último discurso do Banquete. Por outro, ao situar Eros nos píncaros da processão, ele fecha o tratado, explicando, por outra via, que o amor é algo misto. Esse caráter do amor justifica a existência de diferentes tipos de amor humano, tema que ocupa o primeiro capítulo do tratado.