1. BÖLÜM
5.2. Metin Güven Şiirinde Dil
5.2.2. Ses ve Ahenk
Embora a Constituição não evidencie a tarefa de cada poder, especificamente, como dissemos, apenas contemplando as competências dos órgãos de execução atrelados aos três poderes constituídos, não é estruturante lógica desse sistema a possibilidade de um poder, isoladamente, conseguir debelar todas as crises do Estado.
Noutras palavras, o Judiciário não pode (nem deve) suportar a situação de que, na falta de legitimidade constatada para os demais poderes, ele os substitua – sozinho – na
implementação dos direitos fundamentais 88. Além disso, necessita suportar as demandas
resultantes das crises econômicas (repercussões tributárias, empresariais, governamentais
etc.), de segurança pública (repercussões penais e civis), da ciência (biosegurança, bioética,
novas fontes energéticas etc.), da reforma agrária (milhares de ações possessórias, desapropriatórias e para demarcação de reservas indígenas) e da estruturação da sociedade (decisões sobre a identidade, a sexualidade, as famílias, a filiação, o casamento, os bens etc.), somente para citar alguns exemplos.
Para não eximir completamente o Judiciário desses acontecimentos da democracia contemporânea, é importante não negar a existência, concomitante a tudo isso, de uma dose de autoexpansão judicial. Isto é, os juízos não se tornaram somente “vítimas” de um processo “forçado” de crescimento dos outros dois poderes. Antes, a jurisdição também começou a perceber vantagens trazidas pelo acréscimo de espaço institucional na sua relação com os
poderes eleitos e com a sociedade. Naturalmente, a mentalidade 89 e as práticas institucionais
88 “À justiça não cabe resolver todos os problemas, dar a última palavra em matéria de ciência ou de história, definir o bem político e responsabilizar-se pelo bem-estar das pessoas. Ela não o pode e não o deve, sob pena de mergulhar-nos num inferno sofista frustrante, estéril e destruidor, que ninguém deseja. A justiça jamais nos livrará do escrúpulo por ter que fazer política, porém ela nos estimula a inventar uma nova cultura política”. GARAPON, Antoine. O juiz e a democracia..., ob. cit., p. 265.
89 “A primeira grande reforma que deve ocorrer no Judiciário, e sem dúvida a mais importante de todas, é a mudança de mentalidade. Embora se tenha tornado habitual, na linguagem comum do povo, a referência ao Judiciário como sendo “a Justiça”, o fato é que na grande maioria das decisões judiciais, sobretudo dos tribunais superiores dos Estados e do país, fica evidente que existe preocupação bem maior com a legalidade do que com a justiça”. DALLARI, Dalmo de Abreu. O poder..., ob. cit., p. 84.
dos novos componentes do Judiciário trataram de avançar, ainda mais, nessa direção, sentindo-se os juízes vocacionados a respostas tão [ou mais] políticas quanto [que] jurídicas, em diversas questões.
O debate doutrinário que deu suporte a essa nova mentalidade suscitava, sobretudo, que, constitucionalmente, vários órgãos judiciais foram criados para essa aplicação política do Direito, como seria o caso dos Tribunais Superiores, em particular, o Supremo Tribunal
Federal 90. Considerando, ainda, que nosso sistema jurídico respeite o duplo grau de jurisdição
(garantido como princípio implícito na Carta Magna), portanto, somente seriam necessárias duas apreciações de um caso concreto: uma primeira, mais detida, e uma segunda, revisora da anterior. Assim, aos Tribunais que não sejam de revisão de julgados, cabe uma superposição no universo jurídico. Não se prestando a ser mera instância recursal, tornam-se mantenedores dos pilares maiores do ordenamento: a segurança jurídica (estabilidade e eficácia das decisões) e a própria Constituição (enquanto sentido objetivo último de justiça, inclusive).
E, com esse raciocínio, o próprio Judiciário entendeu que essas tarefas ultrapassavam
as fronteiras exclusivamente jurídicas, resvalando sempre no âmbito do político 91. Nesse
ponto, ressaltava-se que não seria possível culpar o Judiciário daquilo que estaria apto a fazer e daquilo que, por missão, lhe competiria. A afirmação de que o Supremo Tribunal Federal traveste com túnica jurídica suas posições políticas se consideraria eufemismo, então, de algo que acontece porque deve acontecer: o Supremo Tribunal tem posições políticas – e as declina
em seus arestos. Não precisa disfarçá-las num linguajar jurídico 92.
Não obstante a força desses argumentos, fizeram-se ouvir, na prática, mais reclamações que aplausos a essa atuação “invasiva” dos juízos (notadamente, dos Tribunais Superiores) na esfera pública de deliberações. Entretanto, para os fins deste trabalho,
90
“Perante o legislador político, o tribunal não pode arrogar-se o papel de crítico da ideologia; ele está exposto à mesma suspeita de ideologia e não pode pretender nenhum lugar neutro fora do processo político”. GONET BRANCO, Paulo Gustavo. Juízo de ponderação..., ob. cit., p. 83, referindo-se a Habermas.
91 “Os juízes exercem atividade política em dois sentidos: por serem integrantes do aparato de poder do Estado, que é uma sociedade política, e por aplicarem normas de direito, que são necessariamente políticas. Mas, antes de tudo, o juiz é cidadão e nessa condição exerce o direito de votar, o que não é desprezível quando se analisa o problema da politicidade de suas decisões judiciais”. DALLARI, Dalmo de Abreu. O poder..., ob. cit., p. 89. 92 “O reconhecimento da politicidade do direito nada tem a ver com opções partidárias nem tira, por si só, a autenticidade e a legitimidade das decisões judiciais. Bem ao contrário disso, o juiz consciente dessa politicidade fará um esforço a mais para conhecer e interpretar o direito, considerando sua inserção necessária num contexto social, procurando distingui-lo do direito abstrato ou do que é criado artificialmente para garantir privilégios, proporcionar vantagens injustas ou impor sofrimentos a outros com base exclusivamente numa discriminação social”. DALLARI, Dalmo de Abreu. O poder..., ob. cit., p. 98.
considera-se infundada a ideia de que as iniciativas judiciais trazem prejuízos à esfera pública, eis que esse entendimento desconsidera, em absoluto, o Poder Judiciário como ator (legítimo) da cena democrática – o que conjura contra a própria intenção constitucional de inseri-lo na tríade de poderes estatais. Com efeito, parece-nos inviável imaginar o desenho estatal como singela distribuição de atividades, quando, em verdade, distribuem-se forças políticas. Aliás, a fórmula clássica de tripartição se propôs, justamente, para uma limitação dessas forças, de um poder sobre o outro (le pouvoir arrête le pouvoir). Se houvesse uma rígida divisão de tarefas entre cada uma dessas estruturas constitucionais nenhuma tensão resultaria, muito menos interpenetração de forças.
Nesse compasso, o Judiciário é – como os outros são – poder constituído pelo político, que se define e se delimita politicamente também, nos seus embates com os demais. A diferença entre poder eleito e poder não-eleito, lembrada constantemente como a marca que desenraiza a política do Judiciário, em verdade, é diferença que, primeiro, pode muito bem ser circunstancial (nada impede que uma Constituição determine que o Judiciário seja eleito) e, segundo, reforça-se por meio de um amesquinhamento da compreensão sobre o fenômeno político (reduzindo-o ao âmbito eleitoral).
Admitindo-se a crise de legitimidade dos poderes eleitos somada a todas as incertezas que assolaram a cidadania brasileira (e o próprio mundo, como um todo), no despertar do novo milênio – sem resolução definitiva para várias questões sociais, políticas, econômicas, éticas, religiosas, territoriais etc. – e admitindo-se que esses fatores foram essenciais para que o Judiciário expandisse sua área de atuação, provocado pela própria sociedade, é preciso, finalmente, admitir que a Justiça não tem condições materiais nem políticas de resolver essa
avalanche de querelas sem o contributo firme dos demais poderes 93.
Não há dúvida de que os microssistemas de poder estatal (Administração, Legislação e Justiça) estiveram cindidos por critérios de pragmaticidade herdados do constitucionalismo do século XVIII, isto é, parecendo necessária a descentralização das funções essenciais do Estado, para que atendesse às expectativas de sua idealização (especialmente no sentido de
93 “O direito passou a constituir uma nova forma de consumo, as causas massificaram-se perdendo qualidade e os tribunais transformaram-se em fábricas de processos cuja falência técnica pode estar à vista se persistir a inexistência ou deficiente eficácia dos modelos de recuperação”. AFONSO, Orlando Viegas Martins. Poder
oferecer proteção integral ao desenvolvimento das potencialidades do indivíduo), geraram-se aquelas categorias funcionais. Porém, de maneira alguma, particularmente hoje, representam uma trifurcação, ou seja, três caminhos diferentes de gerência do Estado.
O que, entretanto, vem sendo combatido, eis que cada vez mais os conceitos de sinergia, de responsabilidade e de responsividade pressionam os três poderes constituídos a descobrir a verdadeira face da harmonização de suas atuações. Em outros termos, a necessidade de responder, pronta e efetivamente, às demandas sociais, econômicas, políticas (e de todas as ordens) do Estado democrático de Direito, compôs o arranjo de poderes constituídos sobre o dever de cooperação e diálogo institucional, sob pena de falência do Estado, principalmente porque o Judiciário, isoladamente, não suportaria essas demandas.
Quer-se dizer que, não importam os esforços da Justiça para aperfeiçoar seu atendimento à população – e mesmo que seja considerada, definitivamente, legítima a decidir sob todas as veredas possíveis, inclusive políticas – não conseguirá honrar um compromisso com a sociedade que é de todo o Estado, e não apenas da jurisdição: o compromisso de aperfeiçoamento (até a plenitude, enquanto ideal) da vida social, através das práticas
democráticas 94.
A embaraçosa constatação de um assoreamento do Judiciário também se amenizou, nos últimos anos: os números continuam não sendo os ideais, porém, ao menos, na comparação com o passado, se mostram inspiradores. Entre 2008 e 2010, como se frisara antes, a Suprema Corte brasileira fora presidida pelo ministro Gilmar Ferreira Mendes, sob os
auspícios teóricos de Peter Häberle 95 (crendo-se, portanto, numa sociedade aberta dos
intérpretes constitucionais) e a constante influência do Tribunal Constitucional Alemão, como exemplo de práxis adequada à proteção dos direitos fundamentais. Isso, inegavelmente, contribuiu para uma transparência e uma maior aproximação do Poder Judiciário à sociedade.
94 E, a propósito, esses esforços vêm acontecendo. No campo da mentalidade, o comportamento do Supremo Tribunal Federal, v.g., na última década, tomou feições de uma Corte exclusivamente Constitucional, aos moldes das Supremas Cortes europeias. O controle concentrado de constitucionalidade começou a ser mais e melhor utilizado, a fim de que a proteção ao texto magno se desse de maneira abrangente, isto é, que as decisões do Tribunal para determinado caso valessem para todos os demais com a mesma fattispecie.
95 “No enfoque häberliano, a Constituição passa por uma “relativização”, no sentido de permitir, em seu bojo, a pluralidade de pontos de vistas até mesmo opostos. A Constituição é criada, transformada e desenvolvida em processos abertos de formação da vontade”. CONTINENTINO, Marcelo C. Revisitando os fundamentos..., ob.cit., p. 93.
A presidência do Conselho Nacional de Justiça – segundo órgão na hierarquia judiciária – também exercida pelo ministro Mendes naquele período se moveu por assuntos que, durante décadas, foram considerados imexíveis no Judiciário. As modulações de efeitos nas ações de controle de constitucionalidade, a objetivação do controle difuso, a reinterpretação da incumbência do Senado Federal no controle de constitucionalidade, as denominadas sentenças aditivas, as barreiras deitadas contra a recorribilidade (a repercussão geral, a súmula impeditiva de recursos e o prequestionamento, e.g.), a ativação da reclamação constitucional, do mandado de injunção, a súmula vinculante, a técnica da transcendência dos motivos determinantes, todos esses mecanismos tornaram o Supremo um Tribunal ímpar no ordenamento brasileiro.
Nos dias atuais, o contexto é outro, tanto que se chega a denunciar uma certa monopolização da Carta Magna, por parte daquele Tribunal. Praticamente todas as controvérsias expostas nos processos brasileiros passaram a depender de uma resposta do Supremo Tribunal Federal. Os juristas parecem ficar aguardando o próximo passo intrigante da Corte, para acender ou arrefecer seus ânimos sobre determinadas causas. Todavia, essas consequências adversas não surpreendem, tendo em conta a performance acelerada do Tribunal, qualificando-se como o de melhor estrutura no Brasil, ao lado do Superior Tribunal de Justiça. A propósito, todos os Tribunais Superiores passaram a firmar convênios institucionais, a realizar campanhas socioeducativas, a virtualizar o processo judicial, a recompor suas gestões administrativo-financeiras, a enfrentar as situações internas com maior rigor disciplinar, a regulamentar temáticas importantes para a magistratura e para as carreiras de apoio, a informar a população sobre suas iniciativas através do rádio, da televisão, da internet e das revistas, jornais e boletins especializados.
Enfim, houve, notadamente na última década, uma série de estratégias que alteraram, de vez, a face do Poder Judiciário frente a sociedade (e por intermédio do Conselho Nacional de Justiça, por exemplo, espera-se que essas estratégias continuem e se fortaleçam).
Porém, essa maior prestatividade do Judiciário fora outro item causador do aumento do número de demandas. Ou seja, as respostas positivas da atividade estatal tendem, no Estado democrático de Direito, a gerar novas provocações em conta de novas litigiosidades (novos conflitos de interesses [âmbito subjetivo] e novos conflitos normativos [âmbito
objetivo]). De sorte que, conforme antecipamos, não há incremento na efetividade do Judiciário capaz de tolerar as sempre-novas demandas gestadas no seio da cidadania. É imprescindível que todos os poderes estejam afinados em prol dos direitos fundamentais.
A visão obsoleta de que somente o Judiciário seria hábil a lidar com direitos dos cidadãos era, mesmo, incompreensível, posto que todo o arcabouço estatal fora instituído para
garantir as prerrogativas da dignificação da vida 96.