4. ARAġTIRMANIN SINIRLARI
2.2. BURSA AHISKA TÜRKLERĠ’NDE DĠNĠ EĞĠTĠM VE DĠNĠ HAYAT
2.2.6. Bursa Ahıska Türklerinde Ġbadet
O estudo da representação do corpo em textos de Kristeva torna-se viável a partir das leituras da teórica. No entanto, a análise sobre as leituras de Kristeva frus- tra expectativas de resultados exaustivos: em primeiro lugar está o fato de que ela mantém, na atualidade, uma produção rica em referências diversas, as quais con- templam a teoria literária, a lingüística, a psicanálise e inclusive a criação literária no gênero romance; em segundo, ressaltamos, a partir da própria leitura da obra da pensadora, o fato de que ela desmotiva interpretações fechadas em esquemas totali- zantes e absolutos. A leitura de La révolution du poétique. L’avant-garde à la fin du XIXe.
siècle: Lautréamont et Mallarmé, resultado de sua tese de doutorado, evidencia um leque de possibilidades interpretativas e fornece pistas para a compreensão de outros textos mais recentes da escritora. Esse trabalho, que se centraliza na produção de po- etas importantes, os quais ganham espaço no título da obra – Lautréamont e Mallar- mé – não se esgota nessas duas referências centrais para o empreendimento de Kris- teva. Cabe-nos, portanto, com base em algumas referências situadas às margens dos textos centrais preconizados pela teórica, localizar o “corpo” em algumas leituras propostas por Kristeva, iniciando pelo escritor Georges Bataille.
As referências a Georges Bataille2, pensador caracterizado sob o epíteto de po-
eta maldito, são periféricas e metafóricas. O trecho a seguir evidencia noções que es- tão presentes em obras de Bataille, assim como sinaliza a palavra “dépense”, que tra- duzimos como “dispêndio” no sentido de excesso, gasto. Trata-se de um conceito central para Bataille e aparece, sobretudo, em sua obra La part maudite. É interessante constatar como Kristeva se vale desse conceito com a finalidade de relacioná-lo as
1 ‘“sa figure de platine’, ‘l’homme aux lèvres de bronze’, ‘l’homme à la prunelle de jaspe’,
‘l’homme aux lèvres de saphir’, ‘le corsaire aux cheveaux d’or’, ‘l’homme aux lèvres de soufre’” (La révoltion du langage poétique, 1974: 577).
2 Georges Bataille foi um importante colaborador da Revista Tel Quel da qual Kristeva fez
parte. Segundo Forest (1995:113), Bataille deixou seus últimos textos em estado de rascu- nho para serem revisados e publicados pelo comitê da Tel Quel.
suas próprias criações conceituais. É o caso do procès de signifiance (processo de signi- ficância), recorrente no pensamento de Kristeva, que surge ao lado de um verbo que chama a atenção para uma possível construção de Bataille – ainda que essa apareça sob forma verbal (En dépensant). A palavra experiência (l’expérience), ao se referir à experiência textual, toma por referência os textos dos poetas que ganham destaque de capa do livro – Lautréamont e Mallarmé –, entretanto é possível retomá-la no fe- chamento do fragmento recortado. A experiência textual a que a psicanalista se refere é próxima da experiência interior (l’expérience intérieure), ou seja, título de uma obra de Bataille. Existe, portanto, uma sutil alusão ao texto e às idéias centrais desse pen- sador sem mencioná-los diretamente:
Toda a experiência de vanguarda, desde o fim do século XX, do poe- ta maldito à esquizofrenia, demonstra, ao contrário, a possibilidade de um processo de significância diferente daquele do pensamento conceitual unificador. (...) a experiência textual deixa entrar a morte no dispositivo significante. Entretanto ela não se imobiliza numa i- nércia do pensamento, mas ilumina a unidade conceitual em ritmos, distorções lógicas (Lautréamont), paragramas e inversões sintáticas (Mallarmé), que registram, através do significante, a ultrapassagem do seu limite. (...) Pode-se dizer que o texto de vanguarda, desde o fim do século XIX, estava essencialmente ligado a deixar passar, num não-pensamento, pelo processo de linguagem, a violência da rejeição que aparece como uma morte ao sujeito unário, como uma castração ao analista (...). Gastando o pensamento pelo processo de significân- cia, o texto inscreve a negatividade que a sociedade (capitalista) e sua ideologia oficial recalcam. Se ele entra, no entanto, em contradi- ção com o sistema econômico e ideológico dominante, o texto parti- cipa do jogo; através dele, o sistema se dá o que lhe falta: a rejeição, mas a conserva num domínio à parte, circunscrito ao “eu”, à “experi- ência interior” de uma elite e ao esoterismo. O texto se torna o agen- te de uma nova religião que não será mais universal, mas elitista e esotérica (A revolução da linguagem poética, 1974: 166)1.
1 “Toute l’expérience de l’avant garde, depuis la fin du XXe. siècle, du poète maudit à la
schizophrènie, démontre au contraire la possibilité d’un procès de la signifiance différent de celui de la pensée conceptuelle unifiante. (...) l’expérience textuelle fait entrer la mort dans le dispositif signifiant. Elle ne s’immobilise pas pour autant dans une inertie de la pensée, mais fait éclater l’unité conceptuelle en rythmes, distorsions logiques (Lautréa- mont), paragrammes et inventions syntaxiques (Mallarmé), qui enrigestrent, à travers le signifiant, l’outrepassement de sa limite. (....) On pourrait dire que le texte d’avant-garde depuis la fin du XIXe. siècle s’est essentiellement attaché à faire passer, dans une non- pensée, par le procès du langage, la violence du rejet qui apparaît comme une mort au sujet unaire, comme une castration à l’analyste (...). En dépensant la pensée par le procès de la signifiance, le texte inscrit la négativité que la société (capitaliste) et son idéologie officielle refoulent. Pourtant, s’il entre ainsi en contradiction avec le système économique et idéologique dominant, en texte en joue le jeu; à travers lui, le système se donne ce qui lui manque: le rejet, mais le conserve dans une domaine à part, circonscrit au ‘moi’, à l’
Em outra passagem, Kristeva menciona a polêmica entre Bataille e Sartre a respeito do poeta Charles Baudelaire, na qual, segundo a teórica, “Bataille reconhece a atitude menor do poeta, sua miséria infantil” (1974: 186). A partir do texto de Ba- taille, que nessa passagem ganha uma ampla citação de uma obra reconhecida – A li-
teratura e o mal –, Kristeva critica o posicionamento sartriano calcado na defesa do su- jeito pleno, nunca aberto ou negativizado na sua economia. Novamente o pensamen- to de Bataille serve para que ela realce pontos de sua própria intenção de construção poética:
“A poesia pode verbalmente pisotear a ordem estabelecida, mas não pode substituí-la. Quando o horror de uma liberdade impotente en- gaja de forma viril o poeta para a ação política, ele abandona a poe- sia. Mas desde esse momento ele assume a responsabilidade da or- dem por vir, ele reivindica a direção da atividade, a atitude maior: e nós não podemos deixar de apreender, de ver, que a existência poéti- ca, onde percebemos a possibilidade de uma atitude soberana, é ver- dadeiramente a atitude menor, ela não passa de uma atitude de crian- ça, de um jogo gratuito” (A literatura e o mal, Gallimard, 1957, p. 38- 39 texto de Bataille, In: A revolução da linguagem poética, 1974: 186- 187)1.
Há também certo afastamento no que diz respeito a essa “experiência interi- or”. Para ela, a questão está em introduzir o processo da significância não mais so- mente no interior de uma “experiência individual”, mas no processo objetivo da ci- ência, da técnica e das relações sociais da atualidade. Esse foi o empreendimento que os textos do fim do século XIX inauguraram.
‘expérience intérieure’ d’un élite, et à l’ésotérisme. Le texte devient l’agent d’une nouve- lle religion qui ne sera plus universelle, mais élitiste et ésotérique” (La révolution du lan-
gage poétique, 1974: 166).
1 “’La poésie peut verbalement fouler aux pieds l’ordre établi, mais elle ne peut pas se subs-
tituer à lui. Quand l’horreur d’une liberté impuissante engage virilement le poète dans l’action politique, il abandonne la poésie. Mais dès lors il assume la responsabilité de l’ordre à venir, il revendique la direction de l’activité, l’attitude majeure: et nous ne pou- vons manquer de saisir, à le voir, que l’existence poétique, où nous apercevons la possi- bilité d’une attitude souveraine, est vraiment l’attitude mineure, qu’elle n’est qu’une attitu- de d’enfant, qu’un jeu gratuit’” (La littérature et le mal, Gallimard, 1957, p. 38-39 texto de Bataille, in La révolution du langage poétique, 1974: 186-187).
Outra referência a Bataille encontra-se em “L’acte Bataille”1, de Philippe Sol-
lers. O estudioso de Bataille e marido de Kristeva aborda a constituição de um sujeito dividido no que chama de causalidade duplicada, simultaneamente interna e externa ao sujeito. Tal processo faz com que a unidade subjetiva seja despendida (dépensée). Tornando-se irredutível ao conhecimento, ela escapa através do riso, do erotismo ou do sagrado. Todas essas manifestações da “dépense”, é importante ressaltar, são te- máticas exploradas por Bataille. Essa exposição participa de um capítulo destinado à prática – o subcapítulo em questão se chama La pratique2. Para Kristeva, o sujeito de
uma experiência prática é um excesso (excès), no entanto é de extrema necessidade para as renovações sociais e, conseqüentemente, artísticas.
O texto, segundo Kristeva, é uma prática na qual se constitui e se destrói uma “formação econômica e social”. Trata-se de um lugar de relações sociais e também associais, em que noções importantes como a rejeição (rejet) e o dispêndio (dépense) (1974: 371) exemplificam as relações associais. O fragmento a seguir é antecedido de uma referência a Marx como sendo o articulador da noção de formação econômica e social. Tal noção marxista presume análises e posições precisas sobre diferentes mo- dos de produção imbricados em uma mesma sociedade, sobre as diferentes superes- truturas e sobre as articulações específicas de cada um desses domínios, assim como resume Kristeva em A revolução da linguagem poética (1974: 368-369). Kristeva, todavia, propõe algo além de uma análise da superestrutura, e para tanto ela se vale, explici- tamente, de uma obra de Bataille – A parte maldita –, na qual o autor discorre acerca da função do “dispêndio”:
Parece-nos que uma definição sintética de uma sociedade suporia i- gualmente levar em conta os modos de reprodução e, com eles, as re- lações, por assim dizer, associais, de forma a pôr à prova a coesão social, constituindo os lugares de seu dispêndio* (dépense) [nesta pa- lavra há uma nota de rodapé: “Que Georges Bataille examinou na
Part maudite”] e localizando, tanto na prática sexual quanto nos ritos,
e em geral, as práticas significantes (poesia, dança etc) das quais elas
1Philippe Sollers, “L’acte Bataille”, in Tel Quel, n. 52, hiver 1972, p. 44. Cf Kristeva, La révo-
lution du langage poétique, 1974, nota 13, p. 181.
2 Julgamos conveniente marcar a distinção que ela promove entre experiência e prática. A
recusa, por exemplo, de Mallarmé de engajamento em atividades políticas não o afasta de crucial importância para mudanças sociais que os textos do poeta instigam.
são inseparáveis (A revolução da linguagem poética, 1974: 369)1.
Em linhas gerais, Kristeva não se contenta com uma dicotomia simples entre infraestrutura/superestrutura, mas em práticas que podem aparecer como plurifun- cionais ou plurideterminadas. Para ela, sem a possibilidade da existência supérflua do “dispêndio” (dépense), o qual é representado na sociedade burguesa pela política, pela cultura ou, mais especificamente, pela contestação e subversão políticas e cultu- rais, seria impossível a formação do sujeito, sustentado pelo materialismo dialético, por uma “consciência de classe” (1974: 338).
A literatura e o mal, já mencionada, volta à cena em nota de rodapé, justapon- do-se à poesia de Mallarmé: “A experiência de Mallarmé participa de um processo histórico que desafoga o dispêndio (dépense) de seus compromissos com os valores burgueses, mas o cumprimento deste processo ainda não nos parece efetuado em nossos dias” (cf. n. 41, In: A revolução da linguagem poética, 1974: 435)2. Curiosamente,
a psicanalista retoma a polêmica de Sartre com Bataille sobre Baudelaire nessa mes- ma nota. Kristeva reitera o fato de Bataille ter assumido certo posicionamento que a- tribui à atividade literária o papel de oposição a uma sociedade do proveito e da ne- cessidade. Logo depois, a teórica retoma a temática da procriação, da filiação, já es- boçada na referência à obra A parte maldita, e menciona outro texto central de Geor- ges Bataille: O erotismo3. A partir dessa obra de Bataille, Kristeva tece algumas consi-
derações que nortearão a importância que a psicanalista faculta à figura materna e suas implicações misteriosas. É em função de O erotismo que Kristeva sustenta uma espécie de ruptura nas relações familiares e, por conseguinte, nas relações de poder: “A sexualidade como dispêndio (dépense) ou como erotismo não tem lugar dentro da
1 “Il nous semble qu’une définition synthétique d’une société supposerait également la prise
en considération des modes de reproduction et, avec eux, des rapports pour ainsi dire a- sociaux mettant à l’épreuve la cohésion sociale, constituant les lieux de sa dépen- se*(Bataille examina em La part maudite, cf. nota de rodapé), et se situant aussi bien dans la pratique sexuelle que dans les rites, et en général les pratiques signifiantes (poésie, danse, etc.) dont ils sont inséparables” (La révolution du langage poétique, 1974: 369).
2 “L’expérience de Mallarmé fait partie d’un processus historique qui dégage la dépense de
ses compromis avec les valeurs bourgeoises, mais l’accomplissement de ce processus ne nous paraît pas effectué jusqu’à nos jours” (La révolution du langage poétique, 1974: 435).
Santa Família, e só encontrará refúgio fora da família, na mística: no século III, Cle- mente de Alexandria introduz explicitamente os mistérios – o mistério – no culto cris- tão1 (1974: 488).
A aceitação do excedente característico do erotismo muda a acepção de família na medida em que oferece espaço para algo além da procriação. É a partir dessa perspectiva que Kristeva sugere modificações no âmbito da arte. O movimento sim- bolista, por exemplo, substitui a figura do Soberano pela imagem da Mãe carregada de mistério. Com base na obra O erotismo de Bataille, evidenciamos a espessura que a teórica oferece ao corpo feminino. Apesar de ressaltar o poder feminino, esse nunca é reconhecido pela lei simbólica ou, em outras palavras, pelo domínio fálico. O poder da geratriz permanece misterioso, sendo possível percebê-lo por meio de seus efeitos concretos. Valendo-se da figura mitológica de Ísis Kristeva frisa a plurifuncionalida- de da deusa que é mãe, esposa e irmã, além de ser aquela que ressuscita Osíris. Se o texto de Bataille sobre o erotismo nos leva a refletir sobre o mistério do excedente, que não está restrito à procriação, ele também faz uma ponte para outra leitura cen- tral de Kristeva que se soma a essa. Trata-se do Timeu de Platão, obra da qual a psi- canalista se utiliza para elucidar a noção central chamada de chora semiótica. A chora, apesar da dificuldade que impõe de ser apreendida, tal como ela recorta do texto de Platão, constitui um receptáculo nutritivo e materno. Novamente estamos em contato com o domínio do corpo: “O espaço-receptáculo platônico é uma mãe e um alimen- to”2 (cf. n. 17 In: A revolução da linguagem poética, 1974: 25).
Outra referência presente em A revolução da linguagem poética é sobre o poeta e dramaturgo Antonin Artaud3. Em suas notas preliminares, que estruturam os objeti-
1 “La sexualité comme dépense ou comme érotisme n’a pas lieu dans la Sainte Famille, et ne
trouvera refuge qu’en dehors de la famille, dans la mystique: au III e. siècle, Clément d’Alexandrie introduit explicitement les mystères – le mystère – dans le culte chrétien” (La révolution du langage poétique, 1974: 488).
2 “L’espace-réceptacle platonicien est une mère et une nourrice” (n. 17, In La révolution du
langage poétique, 1974: 25).
3 O número 20 da revista é dedicado a Artaud; decore disso uma configuração estética da
revista que contempla não somente autores tradicionais franceses como Flaubert, mas também aqueles que estão à margem dos grandes autores e circulam sob o epíteto de malditos. Conforme Forest (1994: 437), Artaud e Bataille, na década de 60, atuavam na cena literária em plano secundário como uma espécie de “curiosidade” literária. Como
vos do longo trabalho desenvolvido em sua tese, Kristeva sustenta que a sua orienta- ção consistirá numa espécie de renúncia às totalizações típicas de discursos positivis- tas que reduzem as práticas significantes a meros formalismos ou ao que ela conside- ra “uma identificação redutora a outras ilhotas (discursiva, ideológica e econômica) do conjunto social” (1974: 13). É nesse contexto de inovações interpretativas que sur- ge a primeira alusão a Artaud. Ao lado de Lautréamont e de Mallarmé – os persona- gens centrais da análise maior – o nome do dramaturgo francês aparece praticamente por acaso ao lado do escritor James Joyce. Esses autores compartilham a experiência de terem modificado substancialmente a linguagem de forma inovadora em suas respectivas épocas. Ao longo de outros trabalhos, Kristeva volta recorrentemente a Joyce1, o mesmo sendo observado às referências que faz de Artaud, em La révolution:
com Lautréamont, Mallarmé, Joyce, Artaud, para só citar alguns, se trata de um fenômeno novo. – O modo de produção capitalista pro- duz, separa, mas ao mesmo tempo explora, para se regenerar, uma das manifestações das mais espetaculares do discurso, a qual, sendo uma manifestação do sujeito e dos seus limites ideológicos, provoca um triplo efeito e lança três séries de questões (A revolução da lingua-
gem poética, 1974: 13)2 .
Ao retornar a Artaud, curiosamente a autora o situa ao lado dos protagonistas – Lautréamont e Mallarmé. James Joyce, como na citação anterior, também divide a cena com o dramaturgo. A experiência da leitura desses escritores é descrita com cautela, pois requer significativo desprendimento das normas gramaticais, uma espé- cie de descolamento sígnico que atiça um lado obscuro daquele que se aventura em tal empreendimento. Não é sem o sofrimento de um leitor experiente que Kristeva adverte sobre as possíveis perturbações que tais textos imprimem naqueles que se
forma de inseri-los entre os autores consagrados, no verão de 1972, a revista organiza um colóquio chamado “Rumo a uma revolução cultural: Artaud e Bataille (“Vers une révolu- tion culturelle: Artaud et Bataille”).
1 Referimo-nos a Pouvoirs de l´horreur. Essais sur l’abjection. Paris: Seuil, 1980.
2 “avec Lautréamont, Mallarmé, Joyce, Artaud pour ne citer que quelques-uns, il s’agit
d’un phénomène nouveau. – Le mode de production capitaliste produit, écarte, mais en même temps exploite, pour s’en régénérer, un des éclatements les plus spetaculaires du discours, lequel, étant un éclatement du sujet et de ses limites idéologiques, provoque un triple effet et pose trois séries de questions” (La révolution du langage poétique, 1974: 13).
deixam tocar pelo esfacelamento do significante em busca de uma experiência mais próxima com tais textos:
Com Lautréamont, Mallarmé, Joyce, Artaud, ler significa abandonar a operação léxico-sintático-semântica do deciframento e refazer o trajeto da produção deles. Quantos são capazes? Nós lemos a partir do significante, tecemos vestígios, reproduzimos narrações, sistemas, derivas, mas nunca o vazio perigoso e violento dos quais esses textos são a única testemunha (A revolução da linguagem poética, 1974: 98, grifos nossos)1.
Em outra passagem referente ao capítulo sobre a negatividade e a rejeição, en- tre o pensamento hegeliano (Fenomenologia do espírito; Ciência da lógica) e alguns apon- tamentos acerca de idéias de Kant e de Frege, acha-se uma citação pequena, entretan- to de forte apelo visual, de Antonin Artaud. Para ilustrar o choque de forças caracte- rístico da negatividade, Kristeva se vale de um fragmento do texto O autômato pessoal (L’automate personnel2), de Artaud: “Sente-se lá uma trituração de represas, um tipo
de horrível choque vulcânico onde a luz está dissociada do dia. E desse choque, e desse rasgo de dois princípios nascem todas as imagens em potência, num choque mais vivo do que a lama profunda”3 (1974: 107). Na citação que segue, com o objetivo
de ilustrar a construção do que chama de “significância” (signifiance), nota-se algo mais complexo do que a negatividade hegeliana na medida em que se apresenta an- terior e interior a esta, a teórica, novamente, fecha o pensamento com um trecho de “As novas revelações do ser” (“Les nouvelles révélations de l’être”), de Antonin Ar- taud:
É em tecnologia e em política, mas também em arte, que se parece encontrar os domínios onde o desejo é excedido por um “movimen-
1 “Avec Lautréamont, Mallarmé, Joyce, Artaud, lire signifie abandonner l’opération lexicale-
syntaxique-sémantique du déchiffrement, et refaire le trajet de leur production. Combien en sont capables? Nous lisons du signifiant, tissons des traces, reproduisons des narrati- ons, des systèmes, des dérives, mais jamais le creuset dangereux et violente dont ces tex- tes ne sont que le témoin” (La révolution du langage poétique, 1974: 98).
2 Cf. Guinzburg, em Linguagem e vida. Antonin Artaud, O autômato pessoal seria o resultado
da opinião de Artaud a respeito de um retrato que o amigo Boschére havia pintado do poeta na véspera e de memória (2004: 197).
3 ‘“On y sent un broiement d’écluses, une sorte d’horrible choc volcanique où s’est dissociée
la lumière du jour. Et de ce heurt, et de ce déchirement de deux principes naissent toutes