Os direitos sociais estão relacionados à atuação do cidadão na sociedade. Como foi dito anteriormente, o cidadão é integrado a uma determinada sociedade por adoção ou por nascimento. A sociedade, como ambiente natural do cidadão, é uma instituição ativa e evolui tanto por ação do cidadão como pela dinâmica de sua própria cultura e de intervenções contingenciais. Sob a ótica do pensamento complexo (MORIN et al., 2003), os indivíduos são partes de uma sociedade e do mundo natural. Segundo os autores, não seríamos seres humanos se não tivéssemos crescido em um ambiente cultural onde aprendemos a falar e não seríamos seres vivos se não nos alimentássemos de elementos provenientes do mundo natural.
Apesar de toda a sociedade ser uma entidade formada por homens, ela adquire características próprias – cultura, normas e regras morais – depois de formada, que garantem sua existência e autonomia à revelia dos homens que a criaram. Além dessas características, adquire força também sobre os homens, que passam a agir segundo a cultura, as normas e as regras morais instituídas. Trata-se de inversões de poder e de influências, na qual a entidade criada ordena e molda os próprios indivíduos que a criaram. Além disso, por ter a competência de ordenar, a sociedade tem poder sobre os indivíduos, tanto para determinar seu desenvolvimento quanto para definir, impedir ou limitar suas ações (MORIN et al., 2003).
32 Dois pontos merecem destaque nessa interpretação. Um deles é que as sociedades são criadas para atender a uma determinada necessidade dos indivíduos, em uma determinada época de suas vidas. Essa necessidade, no entanto, muda e, tanto a sociedade como seus indivíduos, evolui. O poder é dado à sociedade, visando ao interesse coletivo, mas, ao longo das evoluções, o interesse social perde espaço para a supremacia de alguns interesses particulares que vão se manifestando. Morin (2000) assevera que, para entender as sociedades, é necessário entender as relações de poder, os processos de interação e a evolução dos sistemas que as compõem.
As interações entre as partes (pessoas e organizações) e o todo (sociedade) podem ser mais vantajosas ou não, dependendo da forma como as questões são analisadas e os problemas são tratados. O pensamento complexo Morin (2000) nos abre caminho para compreendermos melhor os problemas humanos e sociais, em uma era na qual a informação tornou-se tão importante. A partir da análise complexa, todas as dimensões do indivíduo podem ser identificadas, bem como suas necessidades e potencialidades. Analisar questões complexas significa analisar o todo e suas partes de forma completa, integrada e interdependente. Assim, é necessário entender o indivíduo (suas necessidades e suas condições para atuar na coletividade) e a sociedade (suas regras, cultura e normas), buscando compatibilizar esses entes de forma a promover o desenvolvimento de ambos.
Na abordagem de Morin at al. (2003), os indivíduos e a sociedade são sistemas dinâmicos e multidimensionais. Dinâmicos porque mudam constantemente, em função de interações, cultura, regras e evoluções naturais. Multidimensional porque convivem em uma realidade na qual lidam com diversos fatores simultaneamente – econômicos, psicológicos, mitológicos, sociológicos, dentre outros. Um dos grandes dilemas das sociedades modernas está associado a essa compreensão dos diversos papéis que o indivíduo desempenha na sociedade, por ser um sujeito dinâmico e multidimensional. Apesar de indivíduos e sociedade constituírem-se em um todo integrado, suas partes não são estudadas de forma complexa (unidas e enlaçadas), mas sim vistas separadamente. Do lado dos indivíduos, homens, mulheres e crianças, negros e brancos; pobres e ricos; empresários, trabalhadores, estudantes e desempregados. So lado dos sistemas sociais, saúde, educação e segurança; biologia, geografia e matemática. Ao se estudar dessa forma, perdem-se as interações entre as partes e, por conseguinte, fica comprometida a capacidade de se analisar, em sua dimensão completa, as influências que os indivíduos exercem sobre a sociedade e as consequências trazidas dessa interrelação.
33 Outro grande dilema verificado na interação indivíduo e sociedade é apontado por Mosco (1999). O autor afirma que, na era tecnológica e da informação, as cidades tornaram- se tecnópoles, pela concentração de ciência, tecnologia e capital volátil. Esse fenômeno determinou um novo papel para as pessoas, não como cidadãos, mas como consumidores ou membros de audiências. É uma inversão simplista da visão de Marshall sobre desenvolvimento da cidadania: enquanto o autor defende um direito puro e legítimo, conquistado pacificamente para todos os membros da sociedade, nas tecnópoles existe uma tendência discriminatória, que dá poder ao Estado para definir quem, dentre os membros da sociedade, pode ter os direitos e quem não os terá.
Esses dois dilemas juntos – a sociedade adquire tem poder sobre os indivíduos que a criaram e o Estado define que tem direito e que não o terá – levam ao mais grave problema social das sociedades modernas: a falta de cidadania. Quando uma sociedade analisa a si mesma de forma segmentada e priva uma camada de indivíduos de possuir/exercer direitos sociais, pode-se dizer que falta cidadania nessa sociedade. Dimenstein (2005) afirma que a falta de cidadania é percebida, por exemplo, quando uma sociedade gera um menino de rua. Para ele, este é um dos sintomas mais agudos da crise social, porque gera um círculo vicioso de difícil solução e com consequências para toda a sociedade. Se os pais do menino de rua são muito pobres, não serão capazes de sustentar seu filho e garantir-lhe educação; sem educação, esse menino não consegue arrumar emprego; sem emprego, ele também será muito pobre e, quando tiver seus próprios filhos, dará a eles a mesma condição de vida que recebeu. Assim, o direito ao emprego e à moradia, quando não é assegurado, gera miséria, que se torna um processo contínuo que se vai alastrando em uma sociedade.
Cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la. É poder votar em quem quiser sem constrangimento, processar um médico que tenha agido com negligência. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o direito de ser negro, índio, homossexual, mulher, sem ser discriminado. De praticar uma religião sem ser perseguido (DIMENSTEIN, 2005, p.12-13).
O autor afirma que se pode medir o estágio de cidadania de uma sociedade pelas ações praticadas por seus membros. Por exemplo, ações simples como respeitar o sinal vermelho, não jogar lixo na rua, não destruir escolas ou telefones públicos, demonstram respeito pelo bem público. Significa, portanto, que os membros dessa sociedade exercem de fato a cidadania. O respeito à coisa pública, como qualquer outro dever do cidadão, é
34 adquirido por meio de educação que desenvolva capacidade técnica e consciência crítica nos indivíduos.
A crise social decorrente da pobreza e da desigualdade fragiliza a cidadania e afeta toda a sociedade de diferentes formas (DIMENSTEIN, 2005). Uma parte privilegiada da população, com acesso à educação, pode pensar que está segura, por estar em condições de conquistar bons empregos, o que lhe garantirá sobrevivência e qualidade de vida para si e seus filhos. Entretanto, é importante perceber que o desenvolvimento de uma parcela dos indivíduos não é suficiente. Aquela outra parcela, que foi excluída da sociedade pela miséria e falta de oportunidade, irá pressionar as demais classes sociais, buscando as condições mínimas para sua sobrevivência. Assim, quanto maior o número de indivíduos miseráveis, maior será a pressão sobre as outras classes sociais.
Demo (2002) reitera, em seus estudos, que a desigualdade social é o grande problema que afeta a dinâmica das sociedades. Atribui a desigualdade a um desvio do capitalismo. A sociedade atual é caracterizada por ser cooperativa e competitiva, preponderando dinâmicas discriminatórias que produzem, como regra, sociedades muito desiguais e injustas. No entanto, para ser menos desigual, deveria ser mais cooperativa e solidária, com traços de politicidade.
O “ser político” é fundamental para a convivência social, porque faz parte da razão humana, no sentido em que representa a capacidade biológica de fazer história própria, individual e coletiva. O “ser político” consegue interferir em seu destino pela via da aprendizagem e do conhecimento, o que irá promover uma convivência mais igualitária e polarizada, carreando para processos institucionais que melhoram a condição de vida. Cidadãos formados e conscientes criticamente apresentam uma atitude mais reconstrutiva perante a realidade, característica essencial, hoje, no contexto da sociedade do conhecimento. Apesar de ser impraticável imaginar uma autonomia completa, o cidadão pode, por meio do conhecimento, tornar-se mais independente e contribuir para o desenvolvimento da sociedade em termos mais igualitários (DEMO, 2002).
Apple (2008) diz que a educação pode contribuir para uma sociedade mais justa. Para isso, é preciso perceber que educação é um processo social, que afeta o indivíduo, as instituições, a economia e o Governo. A educação pode tanto produzir desigualdades, formando indivíduos para atender a interesses de classes dominantes, quanto pode produzir
35 senso crítico, formando indivíduos capazes de agir contra essas desigualdades. Dessa forma, é necessário responder a algumas questões:
• O que não é ensinado e com que finalidade?
• Como as pessoas são ensinadas e qual o tipo de avaliação? • Como estudantes com diferentes características são tratados?
• Como professores e demais servidores da educação são valorizados? • Como é a relação entre as escolas e a sociedade?
A resposta a essas questões, segundo Apple (2008), conduzirá a uma sociedade mais justa ou não. Nesse contexto, é absolutamente crucial entender que transformações sociais que começam na escola, levam ao desenvolvimento. Lutas na escola são lutas na sociedade. Desenvolvimento na escola é desenvolvimento na sociedade. Assim, se todos os indivíduos têm acesso à escola, em termos igualitários, necessariamente, têm-se indivíduos capacitados técnica e criticamente e, nesse ponto, está a contribuição da educação para uma sociedade mais justa.