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Entre as igrejas de São Luiz, uma das mais antigas é a capela dedicada a Nossa Senhora das Mercês, que foi inaugurada em 1814. Em estilo colonial, serviu como referência no sítio original da cidade, identificada como um dos extremos da vila. Foi edificada em fins do século XVIII por devoção de Maria Antônia dos Prazeres, com dinheiro doado pela família Pereira, em terreno cedido pelo Conselho Municipal. Foi inaugurada em 23 de setembro de 1814. No local está sepultada dona Luísa Maria do Bonsucesso, zeladora da capela, em sepultura embaixo da escada da sacristia (CAMPOS, 2014).

Há ainda outro relato sobre a história da igreja feito pelo historiador Jaelson Trindade, afirmando que já existia anteriormente uma capela no local, por haver referência ao traçado urbano original da vila, dando como limite a capela das Mercês (CAMPOS, 2014).

Na enchente de 2010, ainda antes da queda da Matriz, a pequena capela de taipa ruiu completamente e a imagem de Nossa Senhora das Mercês, feita de terracota (barro cozido), foi transformada em pedaços. Voluntários trabalharam no local para separar alguns remanescentes e retirar os pedaços da imagem, para possivelmente ser restaurada.

O Ministério da Cultura, por intermédio do IPHAN, trabalhou na reconstrução da capela, depois de decisões quanto ao projeto tomadas em uma audiência pública que reuniu representantes da Prefeitura Municipal de São Luiz do Paraitinga, do IPHAN e do CONDEPHAAT, além de pessoas da comunidade, ocorrida em abril de 2010.

Em conversa informal, durante a visita de alunos do Ensino Médio ao canteiro de obras, o arquiteto Antônio das Neves Gameiro, que trabalhou na reconstrução, confidenciou que, do ponto de vista histórico, a capelinha deveria ficar sob ruínas, para marcar o momento da enchente, mas, devido ao simbolismo e ao significado que tem para a identidade luizense, o próprio órgão de preservação do patrimônio decidiu pela reconstrução.

O representante do IPHAN deixa clara a posição de respeitar a comoção dos luizenses na decisão de reconstruir a capela quando afirma:

[...] a gente sofre — vamos dizer críticas — a partir da nossa atuação, que é a reconstrução da Matriz e a reconstrução da capela das Mercês. Então isso no meio acadêmico, no meio dos especialistas, aquilo lá foi um acinte, foi uma Disneylândia, mas daí eu explico: gente tem duas questões aí: primeiro, para o tombamento do IPHAN ela é uma lacunazinha que tem que ser preenchida, poderia ser preenchido com uma construção nova e tal? Poderia! Mas daí entra um segundo fator — essa capela das Mercês e a Matriz não foram destruídas por desmazelo, mas por uma catástrofe, uma tragédia,

dentro de uma cidade extremamente religiosa,

extremamente católica que ficou sem templo nenhum. Então quem somos nós para querer, para negar a importância de uma reconstrução simbólica? (funcionário técnico do IPHAN, entrevista concedida em 26 de dez. de 2014, grifos nossos)

A técnica de reconstrução previa o reaproveitamento de todos os remanescentes e o respeito à volumetria, inclusive fazendo a proteção da taipa de pilão que ainda existia, construindo parede de alvenaria na mesma dimensão da parede original, para caracterizar que havia ali uma nova construção. Os remanescentes da antiga capela permaneceram na nova construção para o registro histórico da queda ocorrida em 2010.

Apesar da existência reconhecida de um túmulo embaixo da escada que dava acesso ao coro, durante o trabalho de reconstrução, não foi encontrada nenhuma ossada no lugar correspondente à sepultura. Apesar disso, o IPHAN decidiu reproduzir o túmulo como ele sempre existiu, mesmo que ali não se encontre nenhuma ossada.

A imagem 9 mostra a capela reconstruída, com a mesma volumetria, os mesmos detalhes de construção. O sino, a cruz, parte da pedra na entrada da porta e do batente são remanescentes da antiga capela destruída pela enchente. No interior da igreja parte da parede de taipa, também remanescente, está protegida por um vidro que permite visualizá-la detalhadamente e, sobre ela, foi feita uma estrutura que permitiu subir a parede de alvenaria, com a mesma volumetria e simetria da parede antiga.

Imagem 9. Igreja das Mercês após reconstrução e restauração — foto de 2011. Fonte: www.domtotal.com (Acesso em 23 mar. 2015).

O processo de reconstrução e restauração da igreja das Mercês foi assim descrito tecnicamente pelo representante do IPHAN,

[...] a opção da gente foi reconstruir, recompletar, mantendo tudo ao máximo, tudo que sobrou, deixando visível que era um original — só para não ter dúvida do que era da capela que caiu e da capela nova, e reconstruímos, recomplementamos a parede. as paredes novas [...] se não tem colunas, pilares pra sustentar uma viga, a viga tá apoiada em cima da parede, a parede ela é alvenaria maciça, em cima de uma grande viga, baldrame de concreto, por trás das remanescentes de taipa, que (tem) uma fundação bem profunda, e essa viga é como se fosse uma viga baldrame, mas só que tá no ar, e daí ela sustenta essa parede toda [...] a gente num tá fingindo que ela é uma paredinha aqui, outra aqui, e tem um oco no meio, elas são grossas de verdade (funcionário técnico do IPHAN, entrevista concedida em 26 de dez. 2014).

A mesma empresa que trabalhou no resgate de remanescentes em Goiás Velho (GO), igualmente atingida por uma enchente, resgatou, em São Luiz do Paraitinga, objetos e remanescentes da Igreja Matriz, restaurou imagens de madeira e também restaurou a imagem de Nossa Senhora das Mercês.

Imagem 10. Imagem restaurada de Nossa Senhora das Mercês — foto de 2011. Fonte: www.a12.com (Acesso em 23 mar. 2015).

A imagem 10 mostra, em terracota (barro cozido), Nossa Senhora das Mercês, que foi destroçada em noventa e quatro pequenos pedaços quando houve a queda da capela (BRASIL, 2012).

Os templos religiosos, assim como várias manifestações culturais em São Luiz do Paraitinga, estão diretamente relacionados ao profundo sentimento de religiosidade presente no dia a dia dos luizenses. Nos dias que se seguiram à enchente, não era raro ouvir as pessoas dizendo — até mesmo aquelas que haviam perdido tudo, incluindo a própria casa — que deveriam ser reconstruída a Igreja das Mercês e a Igreja Matriz, porque eram lugares muito importantes para a cidade.

3.2 A religiosidade luizense

Benzer Belgeler