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A concepção freiriana acerca do diálogo estabelece alguns pressupostos básicos para este fenômeno da formação humana: amor, humildade, fé nos homens, esperança e um pensar crítico.

De acordo com Freire (2006, p. 91): “Não há diálogo se não há um profundo amor ao mundo e aos homens”. Nesse sentido, há que se valorizar o ser humano a quem deve ser oferecido oportunidade de reflexão sobre a sua realidade, para que ele crie sua própria história, superando a condição de opressão e desigualdade. Seus conhecimentos, sua cultura e suas necessidades devem ser considerados durante o ato educativo, no exercício de uma pedagogia libertadora.

Paulo Freire não oculta o senso de afetividade de sua pedagogia. Sem excluir a cognoscibilidade, a necessidade de formação científica e domínio técnico do educador, Freire (2007) compreende o querer bem aos educandos como algo que dá sentido à prática

educativa. É o que faz do educador um formador, mais do que um treinador ou transferidor de saberes. A esse respeito, comenta:

A competência técnico-científica e o rigor de que o professor não deve abrir mão no desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessária às relações educativas. Essa postura ajuda a construir o ambiente favorável à produção do conhecimento onde o medo do professor e o mito que se cria em torno de sua pessoa vão sendo desvalados (FREIRE, 2006, p. 10).

A humildade, segundo fundamento do diálogo, representa a aceitação do outro, a capacidade de ouvi-lo, e um profundo respeito por suas ideias e pensamentos. Sobre essa atitude, Freire (2006, p. 92) afirma: “A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante”. Numa situação de diálogo, a autossuficiência dá lugar à humildade, o que significa estar aberto às contribuições do outro. Dialogar implica o desenvolvimento da capacidade de compreender-se mutuamente, da construção de um saber coletivo. Assim, os sujeitos dialógicos aprendem e crescem nas diferenças e no respeito a elas.

O professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que o minimiza [...] transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (FREIRE, 2007, p. 60).

O diálogo também envolve fé nos homens, como afirma Freire (2006, p. 93): “[...] no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens”. Para Paulo Freire, o homem dialógico acredita no potencial do outro, dando-lhe sempre a oportunidade de se colocar, de se posicionar criticamente, jamais cerceando a liberdade de expressão de seu interlocutor. Isso se opõe à chamada educação bancária, em que o educador limita-se a depositar seus conhecimentos nos educandos, tirando destes e de si próprio a oportunidade de um aprendizado coletivo.

Freire (2007) fala em educabilidade quando se refere a essa capacidade do ser humano de aprender sempre, de crescer, de desenvolver-se no contato com o outro. Trata-se de uma educabilidade não somente para se adaptar a uma dada realidade, mas para nela

intervir, recriando-a e transformando-a. Tal capacidade distingue o homem dos animais e das plantas:

Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de aprender. Por isso somos os únicos em que aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito (FREIRE, 2007, p. 69).

Outro pilar do diálogo freireano é a esperança. “A esperança está na própria essência da imperfeição dos homens, levando-os a uma eterna busca. Uma tal busca, como já foi visto, não se faz do isolamento, mas na comunicação entre os homens” (FREIRE, 2006, p. 94, 95). Na visão de Paulo Freire, o ser humano se encontra num estado de permanente construção e essa construção não pode ser feita isoladamente, mas no diálogo entre os homens. O isolamento e a desesperança levam o homem a um estado de estagnação, prejudicial ao seu desenvolvimento.

A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca, e, segundo, se buscasse sem esperança... A esperança é uma espécie de ímpeto natural possível e necessário [...] é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria História [...] (FREIRE, 2007, p. 72).

Logo, a esperança está relacionada a uma ação coletiva que irá favorecer o processo de humanização, de autoafirmação do ser humano e de criação de sua própria história.

Por último, Freire (2006) defende o pensar crítico como um requisito indispensável ao diálogo. Os indivíduos envolvidos em atividades dialógicas devem exercitar uma reflexão sobre a realidade que os cerca em uma atitude de não-conformidade. Conscientes acerca de sua condição presente, tornam-se aptos a lutar contra o processo de desumanização, o que favorece uma transformação constante, tanto objetiva (do mundo) quanto subjetiva (de si próprio). De acordo com Freire (2006), essa postura crítica consiste em uma atitude de perceber a realidade como processo, apreendendo-a em seu estado dinâmico e

não como um produto, algo acabado. O pensar crítico está, portanto, na base de uma pedagogia progressista:

[...] uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exatamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que podemos nos defender de ‘irracionalismos’ decorrentes do ou produzidos por excesso de ‘racionalidade’ de nosso tempo altamente tecnologizado (FREIRE, 2007, p. 32).

O diálogo é, portanto, o caminho que torna essa construção possível. Para Freire (2006), é o diálogo quem possibilita o conhecimento do mundo, da natureza e do social. É nas relações dialógicas, e em todas as contradições e conflitos que elas proporcionam, que o ser humano constrói suas ideias, sua visão de mundo, contrapondo seu pensamento pessoal ao de seus semelhantes.

A seguir, a EaD será discutida em função das contribuições de Paulo Freire sobre a dialogicidade. Essa postura de abertura ao outro, de convite à interação está na base de uma concepção progressista de EaD e deve estar no cerne das trocas comunicativas que se processam em AVA.

Benzer Belgeler