A respeito das relações Brasil-China, conforme Reis (2012, p. 33), as mesmas surgiram em 1993, numa parceria estratégica entre ambos os países, sendo a primeira estabelecida pelo Brasil “[...] refletindo a perspectiva de longo prazo do relacionamento bilateral e o elevado grau de complementaridade que identificamos na relação com aquele país”. Segundo Barros e outros (2006), na primeira metade da década de 2000 a China já se constituía no principal mercado da soja em grãos brasileira, correspondendo a 32% do total.
O predomínio de commodities primárias na pauta exportadora brasileira, verificado no tópico anterior, ocorre, evidentemente, nas relações estabelecidas com a China, seu principal mercado.87 O comércio entre ambos os países é analisado com base em dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), que correspondem aos meses de janeiro e fevereiro dos anos de 2012 a 2014.
86Em 2001, o economista Jim O’Neill criou o acrônimo BRIC em alusão a quatro países emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China – que naquela época se destacavam no cenário econômico mundial, apresentando-se dispostos a se engajarem, cada vez mais, no processo de globalização econômica. Mais recentemente, a África do Sul também foi incluída ao seleto grupo de países, os quais continuam, nos dias atuais, a apresentar um grande potencial econômico.
87Quanto ao destino das exportações, segundo Baer (2009, p. 281-282) no final da década de 1950 os Estados Unidos eram o principal importador dos produtos brasileiros (41% do total), posição que sofreu queda ao longo das décadas seguintes; os países da Europa Ocidental, tiveram participação durante o período, e, apesar do aumento registrado, especialmente em 1970 (cerca de 40%), declinaram para 20% em 2005. Também a América Latina teria registrado participação nas exportações brasileiras, porém somente a partir de 1970 (11,1%), atingindo um maior percentual em 1998 (24,7%), (fato atribuído em grande parte ao Mercosul), chegando em 2005 a 15,7.
Com base na tabela 2, verifica-se que, no tocante ao total das exportações, cerca de 80% dos produtos correspondem aos gêneros básicos. Assim, o item “minérios de ferro e seus concentrados” permaneceu, nos três bimestres analisados, com a maior participação na pauta exportadora brasileira para a China (49,4%, 57,1% e 47,9%, respectivamente), país este que, por sua vez, como já visto, constitui-se no seu principal mercado (FIGURA 7). Em segundo lugar, aparece a “soja”, a qual registrou uma queda na participação entre 2012 e 2013 de 6,8%, (de 16,2% para 9,4%), e em 2014 apresentou um aumento de 13,9%, correspondendo a 23,3% das exportações. A respeito da soja, segundo FIESP (2012), por tratar-se de um produto sujeito a sazonalidade, é comum haver uma queda nos primeiros dois meses do ano, e após o mês de março, haver um crescimento nas exportações.
O terceiro produto – “petróleo em bruto” – sofreu queda ao longo do período (de 10,1% para 7% e 5,1%), o mesmo ocorrendo com a “carne de frango” (que de 1,8% em 2012, subiu para 2,1% no ano seguinte, caindo para 1,4% em 2014), e com o “algodão” (o qual, após sofrer declínio em 2013, não registrou participação nas exportações, em 2014).
Quanto aos semimanufaturados, estes registraram aumento no primeiro período (de 11,4% no 1º bimestre de 2012 para 15,5% em 2013), mantendo-se, em 2014, praticamente estáveis, com 15,2%. Dentre os produtos, destacam-se a “celulose” – que embora tenha apresentado uma ligeira diminuição, (passando de 6,4% em 2013 para 5,6% em 2014), tem na China seu principal mercado -, “o açúcar em bruto” (o qual aumentou de 2,7% em 2013 para 3,4% em 2014), também um dos mais importantes produtos de exportação nacionais, e o item “couros e peles”, que teve aumento gradativo, de 1,6% em 2012 para 2,3% em 2013 e 2,6% em 2014.
Com respeito aos manufaturados, além de terem uma menor participação no total das exportações, sofreram queda nas vendas (de 8,5% em 2012, caíram para 5,6% em 2013 e 4,3% em 2014) (TABELA 2).
Por outro lado, conforme a tabela 3, também tomando-se por base os dados correspondentes aos dois primeiros meses dos anos de 2012 a 2014, observou-se que os principais produtos importados da China pelo Brasil são os bens manufaturados, os quais correspondem a cerca de 98% da pauta importadora brasileira, cabendo aos produtos básicos e, especialmente, aos semimanufaturados, uma mínima participação (respectivamente, em torno de 2% e 0,2%).
Tabela 2 - Principais produtos brasileiros exportados para a China. (Participação sobre o total)
jan./fev. 2012 jan./fev. 2013 jan./fev. 2014 BÁSICOS 79.9 78.7 80.4
Minérios de ferro e seus concentrados 49.4 57.1 47.9
Soja, mesmo triturada 16.2 9.4 23.3
Petróleo em bruto 10.1 7 5.1
Carne de frango 1.8 2.1 1.4
Algodão 1.3 1.2 /
Minérios de cobre e seus concentrados / / 0.8
Outros 1.2 2 1.7 SEMIMANUFATURADOS 11.4 15.5 15.2 Celulose 5.9 6.4 5.6 Açúçar em bruto / 2.7 3.4 Couros e peles 1.6 2.3 2.6 Ferroligas 1.7 1.5 1.7 Catodos de cobre 0.5 1.3 1.1
Óleo de soja bruto 1 / /
Outros 0.6 1.4 0.8
MANUFATURADOS 8.5 5.6 4.3
Aviões 2.4 0.9 /
Polímeros plásticos 1.4 0.9 0.7
Papel e cartão para impressão 0.4 0.4 0.4 Suco de laranaja congelado 0.3 0.3 0.3 Óxidos e hidróxidos de alumínio 0.3 / 0.3
Bombas e compressores 0.2 0.3 0.3
Partes e peças para veículos 0.3 0.3 /
Total 100 100 100
Fonte: Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-FIESP/CIESP (vários acessos)
Elaborado pela autora
Assim, no tocante aos manufaturados, os produtos que tiveram evolução foram os aparelhos eletroeletrônicos ou componentes ligados a este ramo, tais como “partes de aparelhos transmissores ou receptores” (de 5,0 % para 5,2%), “partes de máquinas para processamento de dados” (de 3,3% para 4,0%), “motores, geradores e transformadores elétricos” (de 2,6% para 2,8%), e “circuitos impressos para aparelhos de telefonia” (de 2,6% para 3,8%), e o de “circuitos integrados” (de 2,1% para 2,7%). Além destes, também destaca-se o item “plataformas de exploração/perfuração”, o qual consistiu no principal produto importado no 1º bimestre de 2014. Outro item que registrou aumento, apesar de sua menor participação, é o de “tecidos de fibras têxteis sintéticas ou artificiais” (que passou de 1,6% para 1,8% nos dois primeiros anos e manteve-se estável em 2014). (TABELA 3)
A respeito das exportações da China para o Brasil, o fato de serem majoritariamente de produtos manufaturados sofisticados, ou de alta tecnologia, remete à afirmação de Ouro-Preto
(2012, p. 70), segundo o qual este país, apesar de manter ainda mais da metade de sua população na área rural, possui um amplo setor industrial e desenvolveu um comércio internacional baseado, de maneira crescente, na exportação de produtos com teor tecnológico cada vez mais elevado.
Por outro lado, é para a China que se destinam as principais commodities agrícolas e minerais brasileiras, tendência esta já constatada por Moreira e Santos (2009, p. 70-71), ao afirmarem que em 2008 ela já havia superado os Estados Unidos na condição de “principal destino das exportações brasileiras”.
Tabela 3 - Principais importações brasileiras da China – (Participação sobre o total)
jan./fev. 2012 jan./fev. 2013 jan./fev. 2014 BÁSICOS 2,1 1,9 1,9
Filés de merluza congelados 0,6 0,5 0,4
Coques e semicoques de hulha 0,4 / 0,2
Alho / 0,2 0,1
Outros 1,1 1,2 1,2
SEMIMANUFATURADOS* 0,2 0,2 0,2
MANUFATURADOS 97,7 97,9 97,9
Partes de aparelhos transmissores ou receptores 5,0 5,0 5,2
Plataformas de exploração/perfuração / / 5,4
Máquinas automáticas para proc. de dados 3,4 2,1 2,1 Partes de máquinas para processamento de dados 3,3 3,9 4,0
Laminados planos de ferro ou aços 2,6 / 1,7
Motores, geradores e transformadores elétricos 2,6 2,4 2,8 Circuitos impressos para aparelhos de telefonia 2,6 2,8 3,8
Aparelhos de telefonia celular 2,3 1,6 /
Circuitos integrados 2,1 2,4 2,7
Compostos heterocíclicos, seus sais e sulfonamidas
1,9 2,0 1,8
Apar. eletromecânicos ou térmicos, uso doméstico 1,9 1,4 1,7 Aparelhos transmissores ou receptores 1,6 1,7 1,4 Tecidos de fibras têxteis, sintéticas ou artificiais 1,6 1,8 1,8
Bombas e compressores 1,4 1,6 1,5
Brinquedos, jogos e artigos para diversão / / 1,5
Tecidos de malha 1,4 / 1,5
Outros 62,5 69,1 67,5
TOTAL 100 100 100
Fonte: Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-FIESP/CIESP (vários acessos) Elaborado pela autora
Neste contexto, o Estado de Minas Gerais e o município de Uberlândia, têm estreitado suas relações comerciais com diversos países asiáticos, particularmente com a China, fato que será abordado a seguir.
CAPÍTULO 3 O “LOCAL” UBERLÂNDIA: REVELANDO O ESPAÇO ESTUDADO E O