3. BÖLÜM
4.6. Ekonomik Adalet-Mülkiyet-Liyakat
4.6.1. Adalet-Mülkiyet-Liyakat
4.6.1.1. Adalet Mülkiyet İlişkisi
Na análise sobre os instrumentos que condicionaram a conduta dos prazeres sexuais na Grécia antiga, podemos observar que é a temperança o elemento chave da relação. A conduta sexual não está inserida dentro uma mesma entidade, organizada numa moral autoritária, que interfere em todas as questões que orbitam em torno do sexo. Além disso, tais atos não são encarados como proibição, mas como modelos de austeridade. O que existe é uma conduta que encara o prazer e o desejo dentro de uma relação consigo, mais preocupada em possibilitar uma existência e uma prática mais elevadas
144 TANNAHILL, Reay, O Sexo na História. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p.377 145 Adoto aqui a interpretação de Eric Hobsbawm a respeito do século XIX, período que, para
86 que reprimir e reprovar os impulsos. Esta arte erótica também pôde ser vista na índia e na china.
Na arte erótica, a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência; não é por referência a uma lei absoluta do permitido e do proibido, nem a um critério de utilidade, que o prazer é levado em consideração, mas, ao contrário, em relação a si mesmo: ele deve ser conhecido como prazer, e portanto, segundo sua intensidade, sua qualidade específica, sua duração, suas reverberações no corpo e na alma. Melhor ainda: este saber deve recair, proporcionalmente, na própria prática sexual, para trabalhá-la como se fora de dentro e ampliar seus efeitos146.
Vários fatores proporcionaram uma modificação nesta postura em relação ao sexo: o declínio das cidades-Estado a partir do século III a.C, que provocou a decadência das classes dominantes e um retiro voluntário, ao buscarem naquele momento um retraimento para si, dando mais valor à existência pessoal e à vida privada; a dissolução do império romano e as mudanças no modelo de produção; a imposição do cristianismo como a nova religião dominante, que nasceu nas periferias romanas até chegar à capital e introduzir por toda a vastidão do império a sua moral estoica. Com isso, novos cuidados e novas condutas passam a vigorar.
O prazer sexual, enquanto substância ética, está posto na ordem da força contra a qual é preciso exercer dominação. Diferente da ideia de arte erótica, no campo de batalha contra o excesso e a violência o peso passa a ser colocado cada vez mais na fraqueza do indivíduo perante tais forças, na necessidade que ele tem de fugir, de se proteger. A experiência dos prazeres sexuais passa a ser associada ao perigo, ao mal.
A idade média introduz, com isso, a ideia de carne. O ato sexual é perigoso, nocivo, difícil de ser controlado. Nele, o mal se aparenta pela sua forma e pelos seus efeitos. É apenas no casamento que ele encontra a sua realização natural e racional, mas nem mesmo sob tal condição o sexo deixa de ser objeto de intensa observação.
Não se pode, no entanto, atribuir ao cristianismo a paternidade desse modelo que não é mais de austeridade, mas de vigilância. O declínio das
87 aristocracias tradicionais e a despossessão política provocam uma reflexão acerca do relacionamento condizente com o novo status, com as funções, atividades e obrigações. Foucault mostra no terceiro volume da sua história da sexualidade todo um movimento gradual de mudança de uma ética que implicava uma articulação bem estreita entre o poder sobre si e o poder sobre os outros para uma nova em que a configuração de si enquanto sujeito ético se torna mais problemática. O cuidado sobre si, o uso dos prazeres, a relação com os rapazes, com as mulheres, o jogo político e o jogo matrimonial vão se ajustando aos novos tempos, às novas relações de poder até se transformarem no modelo cristão de carne.
E é neste contexto que se produz um duplo fenômeno, característico dessa ética dos prazeres. Por um lado, nela se requer uma atenção mais ativa à prática sexual, a seus efeitos sobre o organismo, ao seu lugar no casamento e ao papel que ela exerce nele, ao seu valor e às suas dificuldades na relação com os rapazes. Mas ao mesmo tempo em que ela retém mais a atenção e que se intensifica o interesse que se lhe dedica, mais facilmente ela aparece como perigosa e como suscetível de comprometer a relação consigo que se trata de instaurar; parece cada vez mais necessário desconfiar dela, controlá-la localizá-la tanto quanto possível somente nas relações de casamento – nem que sena para sobrecarregá-la, nessa relação conjugal, de significações mais intensas147.
Percebe-se também de forma bem clara que o elemento sublimatório dessa abnegação ainda constitui um elemento importante, uma vez que a renúncia ao desejo é vista como condição fundamental para uma existência purificada. Os testes e as provações são encarados como formas de confirmar a independência de que se é capaz de ter a respeito de tudo aquilo que não é indispensável. A grande mudança dessa prática ascética é a de uma relação de si para si para uma relação de si para com deus.
O que se chama interioridade cristã é um modo particular de relação consigo que comporta formas precisas de atenção, de suspeita, de decifração, de verbalização, de confissão, de auto-acusação, de luta contra as tentações, de renúncia, de combate espiritual etc. E o que é designado como “exterioridade” da moral antiga implica também o princípio de um trabalho sobre si, mas sob uma forma bem diferente. A evolução que se produzirá, aliás com muita lentidão, entre paganismo e cristianismo, não consistirá numa interiorização progressiva da regra, do ato e da falta; ela operará, antes de mais nada, uma reestruturação das
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formas da relação consigo e uma transformação das práticas e das técnicas sobre as quais essa relação se apoiava148.
Com o fim do feudalismo e o início da sociedade industrial um novo discurso sobre o sexo é exigido. A isso se devem diversos fatores estruturais: a sociedade se transforma completamente com o êxodo rural, com o surgimento das fábricas, dos maquinários, com a divisão do trabalho. A organização do trabalho modifica profundamente as relações sociais e desenvolve uma nova verdade sobre o sexo, dessa vez amparada por procedimentos que, em essência, são diversamente contrários à ideia de arte erótica: a scientia sexualis.
É o século XIX que vem inaugurar a noção de sexualidade, por meio de todos esses dispositivos oriundos da scientia sexualis, que incluem a formação de saberes, sistemas de poder que regulam sua prática e as formas de reconhecimento. A sexualidade é justamente o correlato dessa prática discursiva desenvolvida e estruturada lentamente. Há de considerar, no entanto, que diversas estruturas do modelo anterior ainda persistem e influenciam o novo discurso sobre o sexo.
A prática da confissão, por exemplo, um dos instrumentos mais importantes da idade média para a produção da verdade, passa a ser integrada ao processo científico, os médicos os novos grandes inquisidores. O sexo não é apenas culpa e pecado, mas também catalogado entre o normal e o patológico por uma ciência que, ainda profundamente influenciada pela noção de carne, estava essencialmente subordinada aos imperativos de uma moral, cujas classificações reiterou sob a forma de normas médicas. Os perigos ilimitados que o sexo trazia consigo justificavam o caráter inquisitivo de todos os exames minuciosos, de todas as pretensas e pretensiosas tentativas de cura, de postulados e interpretações. Todas essas precauções meticulosas e análises detalhadas podiam ser interpretadas como procedimentos destinados a esquivar a verdade insuportável e excessivamente perigosa sobre o sexo.
É necessária uma representação muito invertida do poder para nos fazer acreditar que é de liberdade que nos falam todas essas vozes que há
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tanto tempo, em nossa civilização, ruminam a formidável injunção de devermos dizer o que somos, o que fazemos, o que recordamos e o que foi esquecido, o que escondemos e o que se oculta, o que não pensamos e o que pensamos inadvertidamente149.
No próximo capítulo, veremos como a modernidade líquida – utilizando
um conceito de Bauman – produziu um novo discurso sobre o sexo e como
essas três noções – arte erótica, carne e ciência sexual – ainda se articulam,
de forma reestruturada e resquiciosa, na produção desse novo discurso.
90 O século XX e a fragmentação do homem. Homens-máquina, homens- guerra, homens-prótese. Bomba e Brigitte Bardot.
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CAPÍTULO 3: CÁRCERE DE MODELOS E DESEJOS: A BIOPOLÍTICA, A