3.8 Adalet ve Sosyal Adalet Kavramları
3.8.1. Adalet Kavramı
A oligarquia, como forma de constituição que se origina da timocracia, em uma espécie de passagem (µεταβαίνω)211 (Rep. VIII 550d5) natural de uma para outra, é definida, por Sócrates, como o governo “que se baseia no censo dos bens do cidadão, em que os ricos comandam e o pobre não participa do poder de modo algum” (Rep. VIII 550c11-12)212. Trata- se mais exemplarmente de uma modulação de poder que coloca, de modo mais contundente do que na timocracia, a riqueza (πλύτος) como critério de inclusão na atividade política.
Partindo da constituição timocrática, cujas riquezas já se apresentavam como motivos de honra para seus cidadãos, inicia-se um processo de subversão das leis, a fim que a aquisição de bens materiais se torne cada vez mais possível. A maioria (πλῆθος) dos jovens, observa Sócrates, ao ver (ὁρῶν) um e outro fazendo o mesmo, passa a imitá-los, “empenhando-se cada vez mais em acumular riquezas” (Rep. VIII 550e4-5) no intuito de, assim, virem a ser reconhecidos no âmbito político. Quanto mais honrados forem pelo acúmulo cada vez maior de riquezas, menos dificuldades terão em se fazerem honrados. Desse modo, salienta Sócrates, “de amantes que eram das vitórias e das honras, os cidadãos tornam-se amantes da avareza e amantes do dinheiro; elogiam o rico, admiram-no e conduzem-no ao poder, menosprezando o pobre” (Rep. VIII 551a7-10)213. Ora, se na
Discutiremos a relação entre o amor às honras e a manifestação dos desejos a partir do governo do gênero 210
impetuoso da alma nos capítulos seguintes.
Trata-se da mesma discórdia (στάσις) que se faz presente na passagem da aristocracia à timocracia. 211
τὴν ἀπὸ τιµηµάτων, ἦν δ᾽ ἐγώ, πολιτείαν, ἐν ᾗ οἱ µὲν πλούσιοι ἄρχουσιν, πένητι δὲ οὐ µέτεστιν ἀρχῆς. 212
ἀντὶ δὴ φιλονίκων καὶ φιλοτίµων ἀνδρῶν φιλοχρηµατισταὶ καὶ φιλοχρήµατοι τελευτῶντες ἐγένοντο, καὶ τὸν 213
timocracia os jovens se deixavam motivar pelo amor à vitória (φιλονίκων) e pelo amor às honras (φιλοτίµων), na oligarquia a atenção deles se dirige para a aquisição de bens materiais (φιλοχρηµατισταί) e, por isso, serão denominados amantes dos bens (φιλοχρήµατοι). Em consequência, esses novos jovens estabelecerão leis baseadas no censo (ὅρον)214, cuja intenção seria a de permitir o acesso aos cargos públicos apenas aqueles que fossem ricos, excluindo do âmbito político todos os que não atingissem um patamar mínimo de riquezas (Rep. VIII 551a12). Até mesmo diante da iminência de uma guerra, os governantes oligárquicos, amantes que são de suas próprias riquezas, não quererão (µὴ ἐθέλειν) de modo algum contribuir para as despesas com a proteção da cidade, pois não intencionam o bem da
polis e sua segurança, mas apenas o seu próprio bem e o de sua classe, e de tudo o que lhes
assegura a manutenção de suas posses (Rep. VIII 551e2).
Uma vez mais, o texto platônico atribui à experiência da visão a responsabilidade pelo desequilíbrio da alma do jovem. Ele vê seus concidadãos preferindo as riquezas e as posses às honras, e começa a imitá-los pouco a pouco. Motivados desse modo, ele deixará de lado qualquer outros critérios que poderiam determinar sua ação, e agem somente na medida em que lhe seja possível adquirir maiores bens. Por conseguinte, eles não manifestarão querer (ἐθέλειν) que, por sua vez, não correspondam aos mesmos motivos que se tornaram suficientes para sua ação. Dispêndios com a segurança da cidade ou mesmo a aceitação da participação política de homens que não atingissem tal censo, mesmo que honrados, serão descartados. O que realmente querem é aumentar seus ganhos e diminuir seus gastos, pensando em seus próprios interesses, e não no bem da polis como um todo.
Censo, aqui, utilizado no sentido de valor limitante, que estabelece o critério de participação ou não da vida 214
política. Quem atingisse ou ultrapassasse este limite, poderia compor a vida política, sendo considerado cidadão. Quem, por sua vez, não obtivesse este limite determinante, não poderia ser considerado cidadão. Por isso, a importância que será conferida às riquezas e às posses, pois elas determinam a participação dos direitos e deveres da polis.
A índole oligárquica forma-se, portanto, do seguinte modo, conforme se pode depreender da argumentação socrática: em primeiro lugar, o filho do homem timocrático imita (ζηλοῖ) o pai; porém, quando ele o vê (ἴδῃ) subitamente destroçar-se (πταίω) diante dos novos detentores do poder na polis, desperdiçando suas riquezas e a si próprio, e ser levado perante o tribunal pelos seus concidadãos, diante da visão (ἰδών) de tais acontecimentos, o jovem sucumbe. É o que vemos descrito no trecho a seguir:
[…] não tarda a derrubar […] do trono de sua alma, de cabeça para baixo, o amor às honras e o elemento impetuoso; depois, humilhado pela pobreza, volta-se para o negócio e, pouco a pouco, à força do trabalho e sórdidas poupanças, junta dinheiro. Não crês que então porá sobre o trono interior o mesmo elemento desiderativo e amigo do dinheiro que converterá em grande rei de si próprio, cingindo-se com a tiara, o colar e a cimitarra? […] Quanto aos elementos raciocinativo e impetuoso, ele os depõe ao chão, imagino, de ambos os lados desse rei e, tendo-os reduzido à escravidão, não permite que o primeiro disponha de outros motivos de reflexão e de busca, exceto os meios de aumentar a fortuna, e que o segundo admire e honre apenas a riqueza e os ricos, e não se empenhe em mais nada que não seja a aquisição de grandes bens e de tudo que possa contribuir para obtê-los. (Rep. VIII 553b8-c7; d1-7. Com alterações)215.
O trecho apresenta elementos importantes para a compreensão da genealogia do jovem oligárquico. Novamente, pela visão dos fatos ocorridos com o pai timocrático, e conduzido pelo medo de que lhe advenham consequências semelhantes, o jovem configura sua alma a partir do comando de seu ἐπιθυµητικόν, submetendo os demais elementos aos conteúdos que favoreçam a satisfação imediata do acúmulo de riquezas. Sócrates afirma que, neste caso, o ἐπιθυµητικόν, tendo escravizado o λογιστικόν e o θυµοειδές, não possibilitará que a potência
de calcular (λογίζεσθαι) e de investigar (σκοπεῖν) com clareza as coisas seja exercida em sua alma, mas apenas a partir do lugar (ὁπόθεν) com o intuito de propiciar uma maior aquisição e a manutenção de suas riquezas. O λογιστικόν, uma vez subjugado pelo ἐπιθυµητικόν,
δείσας οἶµαι εὐθὺς ἐπὶ κεφαλὴν ὠθεῖ ἐκ τοῦ θρόνου τοῦ ἐν τῇ ἑαυτοῦ ψυχῇ φιλοτιµίαν τε καὶ τὸ θυµοειδὲς 215 ἐκεῖνο, καὶ ταπεινωθεὶς ὑπὸ πενίας πρὸς χρηµατισµὸν τραπόµενος γλίσχρως καὶ κατὰ σµικρὸν φειδόµενος καὶ ἐργαζόµενος χρήµατα συλλέγεται. ἆρ᾽ οὐκ οἴει τὸν τοιοῦτον τότε εἰς µὲν τὸν θρόνον ἐκεῖνον τὸ ἐπιθυµητικόν τε καὶ φιλοχρήµατον ἐγκαθίζειν καὶ µέγαν βασιλέα ποιεῖν ἐν ἑαυτῷ, τιάρας τε καὶ στρεπτοὺς καὶ ἀκινάκας παραζωννύντα; […] τὸ δέ γε οἶµαι λογιστικόν τε καὶ θυµοειδὲς χαµαὶ ἔνθεν καὶ ἔνθεν παρακαθίσας ὑπ᾽ ἐκείνῳ καὶ καταδουλωσάµενος, τὸ µὲν οὐδὲν ἄλλο ἐᾷ λογίζεσθαι οὐδὲ σκοπεῖν ἀλλ᾽ ἢ ὁπόθεν ἐξ ἐλαττόνων χρηµάτων πλείω ἔσται, τὸ δὲ αὖ θαυµάζειν καὶ τιµᾶν µηδὲν ἄλλο ἢ πλοῦτόν τε καὶ πλουσίους, καὶ φιλοτιµεῖσθαι µηδ᾽ ἐφ᾽
exerceria sua função de cálculo somente em vista desta finalidade, servindo apenas aos motivos que engendram seu gênero diretor, da mesma maneira que o θυµοειδές seria levado a admirar (θαυµάζειν) e a honrar (τιµᾶν) somente as riquezas e aqueles que a possuem, também em virtude de sua servidão ao ἐπιθυµητικόν.
Ora, este “lugar” (ὁπόθεν) a partir do qual o raciocinativo desenvolve sua potência de julgar e o impetuoso, o de preservar a opinião corrente, é determinado pelo gênero desiderativo que, no comando da alma, impõe a esta como um todo seu impulso e prazer próprios, bem como os objetos e conteúdos que possam satisfazer seu amor. A alma, então, inicia seu processo de busca, através das manifestações de seu querer, por tudo aquilo lhe garanta seus objetivos finais.
Vale ressaltar também, e uma vez mais, o papel que desempenha a visão, associada às demais afecções como, por exemplo, o medo (φόβος) de ser alvo do mesmo juízo que padeceu seu pai por parte de seus concidadãos. A associação entre essas afecções torna sua alma ainda mais complexa, manifestando desejos também do mesmo gênero. O jovem se depara com os hábitos do pai timocrata, que lhe educou às honras, ainda que de modo precário, e vê, ao mesmo tempo, as novas motivações que tentam lhe incutir os seus concidadãos, para uma aquisição cada vez maior de riquezas. No entanto, continua Sócrates, percebemos o esforço do pai que lhe educa a manifestar apenas desejos por coisas necessárias (τὰς ἀναγκαίους ἐπιθυµίας µόνον) e a dominar os desejos vãos (δουλούµενος τὰς ἄλλας ἐπιθυµίας ὡς µαταίους), uma vez que lhe interessa o acúmulo crescente da fortuna em vista
das honras provenientes desta (Rep. VIII 554a5-8). Por isso, os desejos do jovem oligarca ainda se manifestarão tendo como critério de decisão a necessidade ou não de determinados objetos ou conteúdos, não aprovando qualquer gasto, diferente do que veremos ocorrer na formação dos jovens democratas, que não se submeterão a esta modalidade de discernimento.
A metáfora da participação da visão na configuração da alma do jovem oligarca torna- se mais recorrente no passo 554c e seguintes. Se, através do olhar, o jovem filho de um pai timocrata encontra a possibilidade de vir a se caracterizar como oligarca em suas ações e nas manifestações do seu desejo, a ausência de uma educação correta, no entanto, pode ter por resultado a incapacidade de discernir pelo olhar o que lhe capacitaria a ponderar diante dos costumes difundidos na cidade daqueles herdados de seu pai. Se o jovem é incapaz de estabelecer a distinção entre esses, a fim de escolher permanecer ou não nos propósitos da educação recebida de seu pai, isto se deve à forte influência da visão que provoca nele um modo de raciocínio tortuoso. Ele passa, então, a admirar os que buscam conservar suas riquezas e fortuna, e a desprezar o que vê como uma ameaça advinda dos hábitos do pai. Além disso, a necessidade (ἀνάγκη) de adequação aos hábitos da maioria dos cidadãos e o medo (φόβος) de ter o mesmo fim que seu progenitor fazem com que ele contenha os maus desejos (κακὰς ἐπιθυµίας) graças a uma prudente coerção engendrada pelo medo de não ser aceito pela classe dominante mais rica da polis, e não por alguma espécie de cálculo racional de quão desvantajoso seria ceder a esses desejos (Rep. VIII 554c12-d2). Em suma, o que refreia os ânimos do jovem oligarca a não agir com violência excessiva no seu desejo de obter maior riqueza pela posse do que venha a ser de outrem - ao contrário da ação do tirano que veremos a adiante -, não é a convicção de que seja mau agir assim, mas um certo tipo de raciocínio muito mais movido pelo cálculo de perdas e ganhos, a fim de ser aceito pelos seus concidadãos. Por esse motivo, “no mais das vezes, seus desejos melhores hão de dominar os piores” (Rep. VIII 554e1-2)216, o que o caracterizará também como um homem duplo e não uno (οὐδὲ εἷς ἀλλὰ διπλοῦς τις), à semelhança do jovem timocrata (Rep. VIII 554d12-e1).
Ora, a ponderação entre o que venha a ser melhor e pior com relação a seus desejos cabe única e exclusivamente ao motivo que engendra a sua alma. Ele não deseja ser malquisto pelos concidadãos, também oligarcas, e por isso dispensa os motivos que o levariam à posse do que não seja seu, restringindo-se a agir apenas desejando aquilo que possa vir a ser sua posse. Há, pois, uma certa modalidade de cálculo na escolha dos conteúdos a serem desejados, mas não um raciocínio plenamente autônomo de livre, movido pelo λογιστικόν, senão uma forma de servidão desse gênero anímico aos motivos engendrados pelo gênero que preside sua alma oligarca.
De um lado, portanto, os conteúdos melhores para a satisfação de seus desejos reverberam da visão dos hábitos paternos e da educação recebida; de outro, temos os conteúdos piores que se apresentam a seus desejos, diante da visão dos hábitos estabelecidos na cidade e face ao medo de sofrer as mesmas consequências que sofreu seu pai. Por isso, ele estará bem distante de um estado de temperança na alma, manifestando muito mais um conflito interno do que necessariamente uma unidade característica da escolha consciente dos conteúdos mais adequados à satisfação de seus desejos. Resulta, então, que tal jovem “não quer gastar dinheiro em vista das verdadeiras honras e das demais concorrências e tem medo de despertar dentro de si os desejos pródigos e de os convidar à luta consigo e por amor às honras” (Rep. VIII 555a2-5)217. A disposição de alma estabelecida pelo confronto constante entre os elementos raciocinativo e desiderativo deixa-se apoderar pelo medo que, associado ao desejo de acúmulo de riquezas, leva à escolha do conteúdo que mais se adequada às suas motivações, não a deixando perceber que outros conteúdos também poderiam satisfazê-la,
χρήµατά τε οὐκ ἐθέλων εὐδοξίας ἕνεκα καὶ τῶν τοιούτων ἀγώνων ἀναλίσκειν, δεδιὼς τὰς ἐπιθυµίας τὰς 217
ἀναλωτικὰς ἐγείρειν καὶ συµπαρακαλεῖν ἐπὶ συµµαχίαν τε καὶ φιλονικίαν.
como, por exemplo, a prodigalidade. Contudo, ainda subsiste na alma deste oligarca o conflito entre esses bens.
No entanto, embora a alma do oligarca seja governada pelo gênero desiderativo, ela manifesta uma certa capacidade de cálculo e de admiração pelas riquezas, o que nos leva a conjecturar que haveria a presença dos demais gêneros anímicos neste modo de ação e de desejo do jovem oligarca. C. Kahn (1997), ao contrário, sustenta a tese de que cada gênero anímico possui certos componentes cognitivos próprios218 e, por extensão, certas tendências próprias à honra de determinados objetos e a cálculos independentes dos gêneros impetuoso e raciocinativo da alma respectivamente. O que podemos inferir, até aqui, é que o domínio psíquico do ἐπιθυµητικόν não ocasiona uma total irracionalidade na ação do homem, embora ele mesmo seja definido como sendo desprovido de razão (ἀλόγιστον), como observamos na Primeira Parte. Ao contrário, no governo da alma por um de seus elementos, permanece um certo cálculo e uma determinada tendência à honra, além da satisfação dos desejos que parecem aprazíveis ao princípio que lhe dirige.
Logo, conclui Sócrates, é a ausência de uma formação (ἀπαιδευσία) correta que seria responsável por engendrar nesses jovens oligarcas desejos da natureza do zangão (κηφηνώδεις ἐπιθυµίας): por um lado, mendicantes (πτωχικάς), por outro, malfazejos (κακούργους), que são contidos à força e solícitos a outros cuidados (κατεχοµένας βίᾳ ὑπὸ τῆς ἄλλης ἐπιµελείας) de mesma natureza, voltados aos mesmos conteúdos de satisfação pelo
acúmulo de riquezas (Rep. VIII 554b7-c2).
Mas o que viriam a ser esses “desejos de natureza do zangão”? Segundo Ch. De Lamberterie (1990), é indubitável que Platão esteja aqui se referindo à célebre peça de
Esta tese é sustentada por C. H. Kahn (1997), que apresentaremos no próximo capítulo. A mesma defesa 218
Aristófanes, comumente traduzida por As Vespas. Contudo, para ele, o autor da República refere-se aos falsos zangões, isto é, àqueles machos das abelhas que são desprovidos de aguilhão, e não de vespas. Além disso, De Lamberterie (1990, p. 443) afirma que “o falso zangão (κηφήν) é, para os Gregos, o símbolo do parasitismo social” e que, por isso, Platão se utilizaria dessa imagem a fim de sugerir que, no governo oligárquico, a maior parte dos cidadãos, desprovidos de aguilhão, servem de massa de manobra para uma minoria “virulenta”, ou seja, aqueles que ditam as regras da polis. O jovem oligarca, portanto, manifestará desejos condizentes com os motivos que governam a sua alma, isto é, com aqueles impulsos e prazeres decorrentes do ἐπιθυµητικόν e, sob este aspecto, agirão como os zangões que, sem nada produzirem na cidade, usurpam daqueles que produzem todos os benefícios, a fim de saciar seu amor pelas riquezas. Ele se satisfaz, pois, através de sua fortuna, desejando apenas aquilo que lhe move para tal, e nem sequer participa da vida política a não ser que isto lhe traga as mesmas satisfações e que seja, pela riqueza, honrado dentre os que governam a cidade.