SONUÇ VE ÖNERĠLER
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O estilo que trata o aluno como pessoa. Um conhecimento transdisciplinar.
Trabalho o conteúdo de Matemática relacionando com outros conteúdos:
Geografia, História, Português...
Pedro mostrou-se contido na narrativa. Ficou bastante preocupado em ordenar as coisas como pareceu-nos ter tido que aprender a fazer com a vida. A primeira entrevista foi curta, porém objetiva e muito rica. Trata-se de um professor com a origem interiorana, como muitos outros de sua faixa etária, que em sua cidade do interior era “o filho do Romão”. Trata-se, também, de mais um professor que foi para a profissão pelas contingências e necessidades impostas pela vida. Ele começou, estimulado pelo pai, substituindo na turma do admissão.
É possível supor que o início de Pedro no magistério possibilitou que ele vivesse um significativo processo de subjetivação e construção identitária porque, tendo assumido aulas em outra cidade, separou-se de seu pai com quem era identificado no lugar onde morava. Nas suas palavras: “Lá eu fui gente. Lá eu era professor por mim mesmo. Na minha cidade eu era o filho do Romão. Esse fato foi muito importante. E foi como professor que eu pude sobreviver, estudar, ajudar meus irmãos e criar meus filhos.” Ao mesmo tempo em que sentimos um Pedro contido, querendo ordenar as idéias e controlar as emoções, percebemos um Pedro que não conseguia controlar a intensidade dos sentimentos ao falar das cenas e enredos de seu início como professor. A experiência da docência parece tê-lo tocado profundamente, a ponto de ele confundi-la com sua existência, com sua vida. Aconteceu. E Pedro deixou-se tocar. Fez muitas
coisas na vida, mas nunca mais deixou de ser professor de Matemática, como ele mesmo enfatizou.
Ao falar de sua atuação em sala de aula, nos processos didáticos do ensinar, isto é, nos rituais e práticas do cotidiano docente, a primeira dimensão de nossa delimitação teórico-conceitual de estilo de docência, Pedro fornece-nos elementos que indicam como ele se vê. Trabalha com aulas expositivas, nas quais procura explicar a matéria, contextualizando historicamente o surgimento do que está sendo ensinado e relacionando com outros conteúdos, sempre buscando elementos do dia-a-dia para justificar e dar mais sentido ao que está ensinando. Após a explicação teórica, pede aos alunos que resolvam exercícios, incentiva que o façam em duplas ou grupos, pois acredita que, nesses momentos, ao interagirem e se ajudarem, eles se sentem mais capazes. Em síntese, Pedro explica a matéria, pede aos alunos, que em duplas ou grupos resolvam exercícios, e depois os corrige no quadro, tirando o restante das dúvidas.
A vida fez o garoto de quinze anos virar professor. O menino “pegou” gosto pelos estudos e pelo magistério, embora tenha tido outra profissão. Está permanentemente estudando e querendo aprender, seja em cursos formais e regulares, seja no seu trabalho. Pedro aprendeu a não perder oportunidades e está sempre se atualizando. Fez Matemática, Engenharia, Direito, Pós-graduação em políticas públicas, cursos técnicos, curso de história da ciência. E deu indícios de que incorporou à sua prática o que foi aprendendo nos cursos.
Pedro contou-nos coisas remetendo-se ao que era, ao seu jeito de professor e à sua pessoa, e à forma como está agora. Ou seja, ele passou por mudanças. Pareceu-nos ter aprendido, como Rogério, a pensar uma escola adaptada, nas suas palavras, ao estudante. Deu-nos também muitas evidências de seu esforço para conhecer, corresponder e respeitar as vidas e histórias, as expectativas e necessidades dos estudantes com quem trabalha.
Ainda sobre os rituais e práticas salientadas por Pedro, e os fatores que as geraram, informou-nos que o aprendizado adquirido em sua travessia pelo mundo do trabalho foi lhe dando elementos no sentido de adaptar-se e aprender que, na sala de aula, o professor dá aula e mais alguma coisa.
O entrevistado considera, ainda, que se atualizou e foi fazendo a sua formação de vários modos, não apenas através de mestrado ou de doutorado, como outros professores. Neste sentido, apontou que a formação do professor é muito mais ampla e complexa do que a realização de pós-graduação, embora ele também tenha feito estudos formais e regulares, acadêmicos. Entre eles, uma especialização.
Pedro se considera um professor com um estilo transdisciplinar, tomando sua própria expressão36. Procura relacionar os conhecimentos matemáticos com outras áreas do saber, como História, Geografia, Português e Religião. De forma concisa e com autoridade de seu profissionalismo, conta suas histórias para os estudantes e invoca suas experiências para sensibilizá-los.
No que se refere à dimensão das concepções relativas aos alunos e às suas relações com eles, bem como às suas expectativas e sentimentos quanto aos estudantes e ao trabalho com eles, Pedro mostrou-se como um professor que está sempre procurando conhecer os estudantes e tratá-los como pessoas. Nos tempos e espaços em que os estudantes estão trabalhando, aproveita para contatos individuais, para estreitar relações, dar atenção particular e buscar informações sobre ausências, histórias e problemas pessoais. Pedro conta-nos que tem como hábito não sentar na sala de aula: está sempre muito atendo a tudo que se passa. Segundo ele, professor deve saber o nome do aluno, o sobrenome, onde mora, se é pobre, se tem mãe, se é maltratado. Procura aproximar-se, levantar a auto-estima do aluno. Sendo assim, neste aspecto, é possível afirmar que no caso de Pedro podemos sintetizar, como estilo, que presta muita atenção na pessoa estudante, como ele mesmo disse ao manifestar, em uma frase, o seu estilo.
É surpreendente e muito significativa a forma respeitosa, séria, cuidadosa, digamos, sutil e delicada como Pedro se refere aos estudantes e às suas relações e preocupações com eles. Isso aparece e transparece tanto em sua convicção na capacidade dos meninos e meninas com os quais trabalha, quanto nas críticas que formula sobre a escola, dizendo que esta não os respeita e desconhece suas individualidades.
36 Lembramos que, etimologicamente, o prefixo trans- significa aquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de toda disciplina, remetendo à idéia de transcendência
Passando à dimensão designada pela idéia da profissionalidade, da maneira de interpretar e significar a docência, a narrativa de Pedro contém vários elementos. Constitui-se como um professor aberto, receptivo, flexível e que se adequou às circunstâncias. Por exemplo, quando fala das lições que aprendeu na escola privada, apelidada de “pagou-passou”, emociona-se.
Pedro parece ter aprendido muito em todos os lugares por onde passou, um aprendizado que carrega pela vida e para a docência. Aprendeu a prestar atenção no aluno como um ser humano, como um sujeito sócio-cultural, na plena expressão desse conceito, embora não tenha usado este termo. Pedro aprendeu que o conhecimento matemático deve ser relacionado com outras áreas do conhecimento e, também, que o estudante tem que ter acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade. Portanto, cabe ao professor apresentar o conteúdo, mesmo que os alunos não entendam num primeiro momento.
O aluno tem direito ao conhecimento e é dever do professor proporcionar ao estudante oportunidades para que dele se aproprie. Pedro usa a expressão “apresentar o conteúdo ao aluno”. Contudo, destaca que ensina e cobra, mas reprovar para ele é outra coisa. Distinguiu o “dar e cobrar o conteúdo” da questão da “aprovação/reprovação”. Destacou que os resultados nas primeiras provas que aplica para os estudantes não são bons, porém, eles vão se acostumando, aprendendo, e as notas vão melhorando no decorrer do ano.
Poderíamos dizer que Pedro constituiu-se na trama: lutou, aprendeu, fez e faz. Chegou, parou, escutou, procurou se aproximar dos alunos e se fez um professor reconhecido por seu trabalho. Pedro parece ser um sujeito da experiência: receptivo, aceitante, interpelado e submetido (Larrosa, 2001, p.25). De forma concisa e com a autoridade de seu profissionalismo, conta suas histórias e invoca suas experiências para sensibilizar os estudantes, partindo da sua própria sensibilidade para com os meninos e meninas com os quais trabalha.
Considerando a quarta dimensão na nossa teorização sobre estilos de docência, as concepções e visões em relação à Matemática, percebe-se que Pedro vê a Matemática, ou melhor, a sistematização da Matemática, como um conhecimento histórico, que está nos livros de história, na Bíblia, e que tem relação com o cotidiano. O que está nos
livros é a sistematização da Matemática. Segundo ele, quem nunca foi à escola sabe Matemática mas, em suas palavras, não sabe sistematizar, o que para ele constitui a diferença entre saber e conhecer.
É possível afirmar que, mesmo sem fazer teorizações a respeito, a forma de Pedro de pensar a Matemática aproxima-se das idéias desenvolvidas pela Etnomatemática, que considera o conhecimento matemático acadêmico como uma das formas possíveis de saber, mas não como o único. Isto é, relativiza a “universalidade” deste conhecimento, compreendendo que a Matemática acadêmica, constituída como um campo do conhecimento científico, é justamente uma entre outras Matemáticas, como aponta Borba (1992, p.135). Sob esse enfoque, a Etnomatemática se constitui como a união de todas as formas de produção e transmissão de conhecimentos ligados a contar, medir, ordenar, inferir, raciocinar. Parece ser muito clara esta compreensão de Pedro, que fica evidente quando ele fala que a mãe do estudante, mesmo nunca tendo ido à escola, sabe Matemática. O que ela não sabe é sistematizar, numa clara aproximação com as análises da formuladas pela Etnomatemática.
Usando os próprios termos de Pedro, seu estilo pode ser sintetizado como o de um professor que trata o aluno como pessoa e como um mestre que tem um conhecimento transdisciplinar.