investigar a forma como a escola tem agido na vida de adolescentes, a compreensão das percepções destes adolescentes sobre a utilidade da escola, sobre o que esta escola representou e ainda representa em suas vidas.
Porque você estuda? Para que serve a escola? Estas foram as questões que nos possibilitaram conhecer as falas dos adolescentes a respeito dos motivos pelos quais estão estudando, bem como compreender suas percepções acerca da função da escola.
Bock e Liebesny (2003), apontam que estudo, trabalho e família são elementos sempre presentes no projeto de vida dos jovens. O trabalho é o elemento central e o futuro está sempre relacionado a uma inserção na sociedade por meio de algum tipo de trabalho. Os autores constataram que entre os jovens não há questionamento sobre a necessidade do trabalho na fase adulta, o que desejam é ter um emprego no futuro. Esses autores chamam a atenção para o fato de que a grande maioria dos jovens olha para o trabalho apenas como fonte de renda, de estabilidade, e não como algo que os realize e permita um
vínculo maior e contribuição para a sociedade. Porém, nosso objetivo para este trabalho não é o de investigar o sentido que os jovens dão ao trabalho, mas o lugar representado pela escola em seus projetos de vida.
Dos oito adolescentes entrevistados, seis falaram imediatamente que estudam porque esperam, ao terminar os estudos, ter melhores chances para arrumar um bom emprego, constituir família e serem independentes. Núbia, aluna da Escola E, e Beto, aluno da Escola C, estão entre eles:
É o que eu falei, eu quero entrar na faculdade, eu quero ter um bom serviço, casar ter filhos. E eu sei que hoje em dia gasta muito. Então asism,
ter uma boa faculdade, um bom emprego, um bom casamento. (NÚBIA).
Pra ser alguém na vida, pra poder entrar no mercado de trabalho
futuramente. (BETO).
A posição de Ricardo, estudante da Escola E, é bem interessante e contraditória em alguns momentos. Inicialmente ele fala que escola é “ a pior besteira”, depois destaca que “vê” a escola para quem quer ter um futuro com melhores perspectivas. Segundo ele, a escola não tem utilidade nenhuma, mas depois, aponta que é necessária para a ascensão social do sujeito.
Por mim a gente já podia nascer sabendo. Por que pra mim a pior besteira que existe é a escola. Eu fico aqui me matando, um monte de matéria me ferrando o ano inteiro pra ver se eu consigo passar e às vezes você se ferra e não consegue passar por causa de uma coisinha. [...] Mas eu vejo o estudo pra quem quer ter um futuro, quer fazer uma faculdade, ter um trabalho bom. Pra mim a escola não serve pra nada, só ta aqui pra ensinar a ler e escrever. Mas depois do segundo e terceiro ano ela vai preparar você pra entrar na faculdade. Por que agora, até pra ser catador de lixo na rua você precisa ter o segundo colegial e fazer prova, pra ser varredor de
rua, tem que fazer prova, tem que ter a oitava série completa. (RICARDO).
Ricardo, neste momento, não fala da escola enquanto um lugar de socialização, de aquisição de conhecimentos e de valores, ele se refere apenas à função da escola de ensinar a ler e escrever e preparar para o trabalho. Nestas falas de Ricardo, a escola aparece como uma obrigação, um “mal necessário”, pois nela, os alunos se deparam com a decepção da repetência, com a cobrança e perseguição de professores. No entanto, no decorrer da entrevista, aspectos como aquisição de conhecimentos e de valores, bem como aspectos ligados a socialização, apareceram nas falas de Ricardo. O adolescente falou da importância do trabalho do professor e demonstra indignação com a forma com que muitos professores
são tratados pelos alunos, pois segundo ele, “os professores, os outros trabalhadores, as pessoas, a diretora” são o que a escola tem de melhor e a pior coisa que pode acontecer na escola é:
[...] maltratar os professores por que eles não têm nada a ver com a nossa vida, se a gente ta passando algum problema ou não. Você não tem que trazer problema de casa pra escola, você tem que deixar em casa. Nem problema de amizadezinha, briguinha, confusão não tem que trazer pra dentro da escola, por que os professores não têm culpa, eles tão aqui fazendo o trabalho deles, ganhando o pão deles. Agüentando xingamentos, muitas vezes agressão por causa do que eles defendem que é o ensino. Porque eu garanto que se não tivesse professor, ninguém trabalhava, todo
mundo era burro, ficava puxando carroça. (RICARDO).
Ricardo destaca ainda, em outra fala, que não existem coisas melhores para acontecer na escola, pois “a escola em si já é gostosa, já é boa de ficar. Por causa das amizades, por causa dos namorinhos de escola”. Ou seja, a escola tem uma função em sua vida, que apesar dele dizer que a escola é “a pior besteira”, que “não serve para nada”, na verdade, significa muito para ele, é o lugar onde aprendeu a ler e escrever, onde está se preparando para um trabalho futuro, se socializando e convivendo com outras pessoas. Em toda a entrevista, Ricardo abordou aspectos de sua relação com os profissionais e colegas de forma positiva, isso pôde ser observado em suas falas nas categorias anteriores.
Na Escola C, Lívia destacou mais os aspectos negativos da escola atual, relacionados a convivência com professores e colegas. No período em estudou nesta escola, Lívia vivenciou várias experiências tristes e constrangedoras, nas quais foi vítima de perseguição de colegas e de uma professora, teve prejuízos em disciplinas importantes e viu seu rendimento escolar cair consideravelmente. Todos estes fatores podem ter levado Lívia a elaborar uma imagem negativa acerca da função da escola. Quando fizemos a pergunta Por
que você estuda?, a jovem respondeu:
Olha, não tem outra alternativa. Ou estuda, ou se ferra a vida inteira né. Então eu to terminando terceiro e quero fazer um curso, assim, não quero entrar na faculdade logo de cara. (LÍVIA).
Para Lívia a escola significa a única possibilidade de um futuro melhor, de um emprego melhor. O sonho de Lívia é cursar Administração de Empresas na universidade, porém, revela certo grau de desilusão com a escola, pois acredita que não está preparada para prestar o vestibular, pelo fato de se sentir prejudicada pela forma como algumas disciplinas
foram conduzidas nos dois primeiros anos do Ensino Médio. Ao perguntarmos a Lívia para que serve a escola, a adolescente falou sobre a inutilidade de alguns conteúdos:
Olha, eu acho que a gente aprende muita coisa, mas tem muita coisa que é assim, banal, assim, por exemplo, eu não vou aprender em Administração, matéria de Biologia. Então muita coisa, assim, não vai influenciar na
minha vida. (LÍVIA).
Pesquisas na área da juventude e adolescência, como as realizadas por Bock e Liebesny (2003), Libório (2007) entre outras, identificaram que as percepções dos jovens estudantes acerca de projetos para o futuro estão estreitamente relacionadas à aquisição de um bom trabalho e constituição de família. Em nossa pesquisa isso também foi constatado, tanto na primeira fase, quando os adolescentes evocaram a palavra futuro significativamente, quanto nesta segunda fase.
De forma geral, os adolescentes acreditam que é por meio da escola que o sujeito pode conseguir um bom emprego. A escola significa também, a possibilidade de ingressar em uma universidade e ter uma carreira bem sucedida.
O desejo de conseguir um bom emprego e uma boa estabilidade financeira, relaciona-se com a forma como os jovens se movimentam na tensão Acesso a recurso
material. A confiança na capacidade de conseguir acessar estruturas sociais que garantam a concretização de suas necessidades básicas é um importante fator desencadeante de processos de resiliência nos adolescentes. Os alunos acreditam que a função da escola é preparar para o futuro, neste sentido, cabe também à escola trabalhar de forma a favorecer bases para que o aluno não fracasse nesta caminhada, mas consiga pensar positivamente acerca de seu futuro. No próximo tópico, conheceremos algumas mudanças apontadas pelos jovens como necessárias e que fariam, caso fossem diretores da escola. Núbia destacou, entre as mudanças que faria, a elaboração de projetos que abordassem as profissões, com atividades e palestras que auxiliassem os jovens a pensarem e investir em uma profissão, com a qual venham a se identificar.
Ao discutirmos sobre o projetos de vida dos adolescentes, podemos relacionar a tensão Acesso a recurso material com as tensões Justiça Social e Identidade. Pois a crença que os jovens têm em sua capacidade de entrar para uma universidade, ter uma profissão, constituir família, enfim, conseguir uma estabilidade econômica e social, está associada à possibilidade de expandir seus relacionamentos e reivindicar seus direitos e um papel significativo na sociedade. Se a escola estimula os jovens a pensarem positivamente
sobre o seu futuro, trabalhando com atividades que sejam interessantes e que estejam mais próximas às suas realidades e desejos, pode estar contribuindo significativamente para uma constituição positiva de sua identidade enquanto sujeito social que tem o direito de construir um espaço para ele nesta sociedade, e assim favorecendo o desenvolvimento de processos de resiliência na resolução dessas três tensões. No tópico anterior, percebemos o quanto a atitude positiva da professora T foi relevante para que Lívia e Giovana conseguissem melhorar sua aprendizagem, para Giovana em especial, isso foi tão significativo que ela passou a gostar da disciplina de tal forma que resolver até prestar vestibular para um curso na mesma área.
Diante do exposto acima, observamos que as escolas nas quais realizamos as entrevistas têm realizado poucas ações efetivas que favoreçam a solução dos conflitos provenientes das tensões e expectativas dos jovens com relação aos seus projetos de vida, tendo em vista as queixas apresentadas pelos jovens com relação à quantidade de conteúdos destituídos de significados para suas vidas.