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ACİL AYDINLATMA UYGULAMALARI

Ainda muito jovem, aos 11 anos de idade, Neymar Júnior chegou ao Santos, oriundo das categorias de base da Portuguesa Santista, com fama de promessa do futebol brasileiro. Não à toa, o atleta já possuía empresário, Wagner Ribeiro, conhecido no meio por representar os interesses de vários atletas de renome.

Exatamente por interesse de seu empresário, Neymar viajou à Espanha e participou de testes nas categorias de base do gigante Real Madrid, tendo sido aprovado, o que gerou grande receio nos gestores da equipe santista. O temor de perder o jovem promissor foi tamanho que, em 01 de agosto de 2004, quando Neymar contava com doze anos de idade, foi celebrado o intitulado contrato de adesão para prestação de serviços de formação e preparação técnica desportiva de atleta não profissional de futebol.41

Analisando o contrato na íntegra, a intenção que se evidencia era a de criar vínculo jurídico entre entidade e atleta para proteger o clube de uma eventual contratação do garoto por outra entidade, nacional ou estrangeira. É o que se depreende do item 8.1, o qual estipulava multa rescisória em favor do clube se houvesse rescisão unilateral motivada pelo atleta.42 Na prática, essa hipótese, caso viesse a ocorrer, teria como pano de fundo um acerto

41 NA ÍNTEGRA. Na íntegra, o primeiro contrato assinado por Neymar, com o Santos, aos 12 anos. 2016.

Disponível em: <https://blogdopaulinho.com.br/2016/02/05/na-integra-o-primeiro-contrato-assinado-por- neymar-com-o-santos-aos-12-anos/>. Acesso em: 23 maio 2018.

42 “Sob o manto do ‘pacta sunt servanda’ e enquanto o contratante não for profissionalizado, a multa rescisória

do atleta para a contratação com outro clube. O valor da multa era resultado da multiplicação de dois fatores. O primeiro variável e diretamente proporcional à idade do atleta, conforme previsto no contrato. O segundo era fixo, consistindo no valor anual de uma “bolsa de aprendizagem” paga pelo clube ao atleta, prevista na cláusula 4 da avença, no valor de R$ 850,00 (oitocentos e cinquenta reais) mensais.

Destaque-se que a idade do atleta à época da assinatura do contrato em comento, qual seja, 12 anos, estava abaixo do mínimo previsto para a formalização do contrato de formação previsto no §4º do art. 29 da Lei Pelé. Presume-se então que as partes celebraram contrato na forma de prestação de serviços de formação e preparação técnica desportiva, tendo a entidade desportiva como contratada e o atleta como contratante, com o fulcro de contornar a limitação legal imposta em relação à idade mínima. O curioso é notar que o contratante da avença, para além de se beneficiar da prestação dos serviços, ainda faz jus da percepção mensal de um valor a título de bolsa aprendizagem, em função do próprio contrato, tal qual comentado acima.43

Outra previsão contratual interessante está relacionada ao prazo de duração, previsto em cinco anos, exatamente o limite imposto para a contratação do atleta profissional, o que denota o simples interesse de proteger o vínculo do atleta com o clube ainda que existente a limitação da idade para o contrato de formação ou contrato de trabalho.44

O que houve, ao final, foi o êxito do Santos Futebol Clube em resguardar o seu vínculo com o jovem atleta promissor, pois a multa rescisória para que o atleta pudesse se transferir para uma equipe do exterior, segundo o contrato, equivaleria a R$ 5.100.000,00 (cinco milhões e cem mil reais), quantia que até mesmo o Real Madrid considerou exorbitante para um atleta de doze anos.

ato pelas partes, fincando a mesma estipulada pelos seguintes valores

a) 60 (sessenta) vezes o valor atual da Bolsa de Aprendizagem comprovadamente paga na hipótese de o atleta não profissional ser maior de 12 e menor de 14 anos de idade;

b) 80 (oitenta) vezes o valor atual da Bolsa de Aprendizagem comprovadamente paga na hipótese de o atleta não profissional ser maior de 14 e menor de 16 anos de idade;

c) 100 (cem) vezes o valor atual da Bolsa de Aprendizagem comprovadamente paga na hipótese de o atleta não profissional ser maior de 16 e menor de 18 anos de idade;

d) 150 (cento e cinqüenta) vezes o valor atual da Bolsa de Aprendizagem comprovadamente paga na hipótese de o atleta não profissional ser maior de 18 e menor de 20 anos de idade;

e) 500 (quinhentas) vezes o valor atual da Bolsa de Aprendizagem comprovadamente paga na hipótese de o atleta não profissional se transferir para uma entidade de prática desportiva no exterior.”

43 “4 A contratada despenderá em favor do contratante, mensalmente, a título de ressarcimento ou de incentivos

materiais, mediante comprovação, a importância de R$ 850,00 (oitocentos e cinquenta(sic) reais).”

44 “1. Este contrato vigorará pelo período de 05 (cinco) anos, a iniciar-se no dia primeiro do mês de agosto do

Adiante, o interesse de outras equipes sobre o atleta cresceu junto com ele. Com isso, outro contrato no mesmo teor do acima referido foi celebrado com o Santos45. Desta vez,

acordaram-se valores bem superiores a título de ajuda de custos, passando para R$ 2.000,00 (dois mil reais) mensais no período de 01/04/2006 a 31/03/2007, e R$ 3.000,00 (três mil reais) mensais no período de 01/04/2007 a 05/02/2008. Esse segundo contrato previa ainda os valores dos salários que o atleta receberia quando celebrasse seu primeiro contrato de trabalho com a entidade, a partir do dia 06/02/2008, quando teria a idade mínima de 16 anos imposta pelo caput do art. 29 da Lei Pelé.46

Além disso, o contrato também previa que a partir da profissionalização do atleta, portanto, com a assinatura do primeiro contrato de trabalho, Neymar cederia ao Santos 50% (cinquenta por cento) dos seus direitos federativos. Em relação a essa previsão, cabe uma crítica amparada tanto na sua incoerência com a legislação, bem como na desnecessidade e efeito prejudicial ao próprio clube.

É que, conforme visto, antes da edição da Lei Pelé, existia a figura do passe, que consistia no valor devido à entidade desportiva para a quebra do seu vínculo desportivo com determinado atleta. Vínculo esse que não possuía subordinação alguma ao vínculo de emprego, que decorre do contrato de trabalho. Ou seja, o atleta poderia firmar novo contrato de trabalho com entidade desportiva após o encerramento do anterior com seu antigo empregador, contudo, a esse ainda estaria vinculado desportivamente, não podendo ser registrado para a disputa de competições pelo novo contratante, a menos que fosse pago o valor estipulado a título de passe. Portanto, o chamado direito federativo está relacionado à possibilidade de a entidade desportiva firmar vínculo desportivo com o atleta, com a inscrição desse nas federações (que originam o termo) estaduais ou nacional (CBF), que hoje depende da pré-existência do contrato de trabalho e cessa simultaneamente com o encerramento deste, conforme a Lei Pelé.47

45 CONTRATOS. Contratos de Neymar, aos 14 anos, com o Santos, revelam manobra fiscal para pagar

menos imposto. 2016. Disponível em: <https://blogdopaulinho.com.br/2016/02/10/contratos-de-neymar-aos-14-

anos-com-o-santos-revelam-manobra-fiscal-para-pagar-menos-imposto/>. Acesso em: 24 maio 2018.

46 “Cláusula sexta

A partir da data em que completar 16 (dezesseis) anos (06/02/2008), o atleta-contratante será profissionalizado, através da celebração do respectivo contrato de trabalho, recebendo os seguintes salários:

a-) para o período de 06/02/2008 a 05/02/2009 a quantia mensal de R$ 20.000,00 (vinte mil reais); b-) para o período de 06/02/2009 a 05/02/2010 a quantia mensal de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais); c-) para o período de 06/02/2010 a 05/02/2011 a quantia mensal de R$ 30.000,00 (trinta mil reais).”

47 “Art. 28 (...) § 5º O vínculo desportivo do atleta com a entidade de prática desportiva contratante constitui-se

com o registro do contrato especial de trabalho desportivo na entidade de administração do desporto, tendo natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício, dissolvendo-se, para todos os efeitos legais: (...).”

Nesse sentido, quando o atleta Neymar firmasse contrato de trabalho com o Santos, caberia totalmente a essa entidade o direito de registrá-lo para formação do vínculo desportivo, enquanto perdurasse o vínculo de emprego. Dito isso, o que importa concluir é: quando o Santos acordou com Neymar que este cederia àquele 50% de seus direitos federativos, em verdade, a partir da contratação o tal direito passa a ser totalmente do Santos, independendo da cessão ou não do atleta. Contudo, nem mesmo o inverso seria possível, ou seja, a cessão pelo Santos de metade dos direitos federativos de Neymar ao atleta, pois este não poderia ser cessionário de metade do seu vínculo desportivo, tendo em vista que o seu registro na entidade de administração do desporto é feito somente por entidade desportiva, exatamente aquela com a qual tem vínculo de emprego.

Outro contrato interessante celebrado com o clube formador de Neymar, o Santos, diz respeito ao Instrumento Particular de Cessão do Uso de Imagem do atleta.48 O documento,

datado em 10 de maio de 2006, tinha como objeto os direitos sobre o uso do nome, apelido desportivo, voz e imagem de Neymar da Silva Santos Junior.49 Entretanto, quem constava da

avença na qualidade de cedente desses direitos não era o próprio atleta, ainda que representado pelos pais, seus responsáveis legais, e sim uma pessoa jurídica, nomeada NEYMAR SPORT E MARKETING S/S LTDA, a qual era a detentora dos direitos de imagem do atleta e fora constituída exclusivamente para a celebração do contrato.

Destaque-se que a referida empresa teve seu CNPJ emitido apenas em 22 de maio de 2006, data posterior a do contrato, 11 de maio do mesmo ano. Acerca de uma suposta fraude, conforme consta do acórdão proferido nos autos do processo nº 15983.720065/2015- 11 do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e que julgou recurso voluntário do atleta, em sede de investigação a defesa do atleta alegou que

(...) em 01/01/06 o Santos Futebol Clube se propôs a investir na carreira de Neymar Jr. Uma das condições teria sido de “apresentar no prazo máximo de 40 (quarenta)

dias a partir da assinatura da presente, ou seja, até 10 de maio de 2006, a documentação da empresa detentora dos seus direitos de imagem, com código de atividade econômica principal adequado à essa atividade (CNPJ), cuja empresa deverá figurara como Cedente no mencionado contrato a ser celebrado”.50

48 CONTRATOS. Contratos de Neymar, aos 14 anos, com o Santos, revelam manobra fiscal para pagar

menos imposto. 2016. Disponível em: <https://blogdopaulinho.com.br/2016/02/10/contratos-de-neymar-aos-14-

anos-com-o-santos-revelam-manobra-fiscal-para-pagar-menos-imposto/>. Acesso em: 24 maio 2018.

49 “CLÁUSULA PRIMEIRA: A CEDENTE, na qualidade de titular exclusiva dos direitos sobre o uso do nome,

apelido esportivo, voz e imagem do atleta de futebol em formação Neymar da Silva Santos Junior, cede e transfere com exclusividade esses direitos ao CESSIONÁRIO, com término de direito de uso previsto para 05 de fevereiro de 2011.” (Grifos no original).

50 BRASIL. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Acórdão nº 15983.720065/201511. Recorrente:

Neymar da Silva Santos Júnior. Recorrida: Fazenda Nacional. Dje. [Brasília], 2017. p. 16533. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/dl/carf-irpf-neymar-servico-personalissimo.pdf>. Acesso em: 25 maio 2018.

Alega que, como a Neymar Sport, empresa que viria a se tornar titular dos direitos patrimoniais de imagem de Neymar Jr. ainda não continha o CNPJ, os sócios teriam aguardado até que este foi emitido, em 22 de Maio de 2006, para ser assinado, mantendo-se todavia a data do contrato àquela exigida de 11 de Maio de 2006. Desta forma, argumenta que o contrato não teria sido andetedatado para lesar o fisco, mas simplesmente por um receio de se perder a oportunidade ofertada. Ou seja, não teria havido dolo e lembra que Neymar Jr. teria apenas 14 anos na época.

Argumenta que a cessão de direitos patrimoniais de imagem representaria negócio jurídico válido em substância e forma, mas mesmo que considerado simulado nos termos do art. 167 do Código Civil não seria nulo visto que este mesmo preceituaria que o subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.

Os erros nas datas do contrato não teriam intenção de enganar ninguém, eis que nesse ínterim não teria ocorrido qualquer fato gerador de imposto de renda ou qualquer outro tributo.

A partir da edição da Lei nº 12.395 de 2011, que acrescentou o art. 87-A à Lei Pelé, a cessão do direito de imagem do atleta passou a contar com uma previsão específica, que lhe impõe a contratação por meio próprio, de natureza civil e que não se confunde com o contrato de trabalho. Atualmente, conforme estudado neste trabalho, a confusão entre verbas salariais e o valor pago pela entidade cessionária ao atleta cedente dos direitos de imagem é aferida pelo critério objetivo do parágrafo único do art. 87-A da Lei Pelé, segundo o qual os valores pagos pelo direito ao uso de imagem não podem ser superiores a 40% (quarenta por cento) da remuneração total paga ao atleta. Com isso, pela legislação vigente, o contrato de uso de imagem poderia subsistir quanto à forma, contudo, encontraria óbice em relação aos valores, pois compunham mais que a metade da remuneração total percebida pelo atleta.

O vínculo de Neymar com o Santos perdurou até o ano de 2013. Durante o período em que atuou pela equipe brasileira, portanto, Neymar conquistou o Campeonato Paulista nos anos de 2010, 2011 e 2012; a Copa do Brasil em 2010, a Copa Libertadores da América em 2011; e a Recopa Sul-Americana em 2012.

Pela Seleção Brasileira, fez sua primeira partida aos 18 anos, em 26 de julho do ano seguinte, contra a Seleção dos Estados Unidos, tendo marcado um dos gols da vitória brasileira.51 Suas maiores conquistas representando o país foram a Copa das Confederações

de 2013 e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Verão em 2016, ambas as competições sediadas no Brasil.

Exatamente em razão das conquistas e do grande destaque do jogador no futebol sul-americano, o Chelsea Football Club, clube inglês com bastantes recursos financeiros,

51 CANÔNICO, Leandro. Futebol é alegria! Novo Brasil ataca forte e vence os Estados Unidos: No primeiro

amistoso da era Mano Menezes, Seleção Brasileira fez 2 a 0, em Nova Jersey. Neymar e Alexandre Pato marcaram os gols do triunfo. 2010. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao- brasileira/noticia/2010/08/futebol-e-alegria-novo-brasil-ataca-forte-e-vence-os-estados-unidos.html>. Acesso em: 25 maio 2018.

apresentou duas propostas pelo atleta. A primeira, em julho de 2010, equivalia a € 20.000.000,00 (vinte milhões de euros), recusada pela equipe santista. A segunda, em agosto do mesmo ano, elevou a quantia oferecida anteriormente para € 30.000.000,00 (trinta milhões de euros) e também foi recusada pelo Santos, que condicionou a saída do jogador ao pagamento do valor estipulado em cláusula rescisória, € 35.000.000,00 (trinta e cinco milhões de euros).

Benzer Belgeler